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Les enjeux financiers

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CHAPITRE 1 : CADRE GÉNÉRAL DE L'EXTERNALISATION

3. Les enjeux de l'externalisation

3.2. Les enjeux financiers

Em alguns trechos anteriores, falou-se aqui em pensamento, inclusive ao se reportar aos elementos qualitativos da tragédia listados por Aristóteles, e por ocasião do estudo de configuração de personagens do LD. Agora, de volta à Poética, concentrar-se-á nesta noção cunhada pelo

Estagirita, assim como, por meio de um procedimento de comparação, tecer-se-á algumas considerações sobre a imbricação que possa ter com a noção de caráter, já introduzida neste estudo:

[...] a tragédia é imitação de ações e se executa mediante personagens que agem e que diversamente se apresentam conforme o próprio caráter e pensamento (porque é segundo estas diferenças de caráter e pensamento que nós qualificamos as ações), daí vem por conseqüência o serem duas as causas naturais que determinam as ações: pensamento e caráter; e nas ações assim determinadas, tem origem a boa ou má fortuna dos homens. [...] Entendo por fábula a composição dos atos; por caráter o que nos faz dizer das personagens que vemos agir, que elas têm tal e tal qualidade; e por pensamento, tudo quanto digam as personagens para demonstrar o que quer que seja ou para manifestar uma decisão.168

Enquanto o caráter (ethos) é definido por uma qualificação destacadamente ética manifestada nas ações, o pensamento (dianóia) é “elemento lógico” 169 que se concretiza nas falas e expressões (elocução, lexis) das personagens, revelando suas decisões, convicções e objetivos. Contudo, ethos e dianóia são inseparáveis. “Juntos, constituem a ação desenvolvida pelo personagem”, observa Augusto Boal170. Embora os considere indissociáveis, ele admite, para fins didáticos, se poder dizer que “ethos é a própria ação e a dianóia a justificação dessa ação, o discurso. O ethos seria o próprio ato e a dianóia o pensamento que determina o ato”. Acrescente-se a essa noção que o caráter (ethos) é o aspecto que qualifica a personagem eticamente, através de sua ação – e, também, por meio de palavras, já que “o discurso é, em si mesmo, ação171, e que, por outro lado, não pode existir ação por mais física e restrita que seja, que não suponha uma razão”, ou seja, a motivação da ação que é sustentada pelo pensamento.

O caráter é determinado por escolhas morais: “[...] quando as palavras e as ações derem a conhecer alguma propensão, se esta for boa, é bom o caráter” 172, o que equivale a dizer que, se uma fala ou ação depender de escolha, estará revelando caráter, e será bom o caráter, se for boa a escolha e vice-versa. Escolha que, por sua vez, manifestada nas ações (incluindo aí o discurso) determina a boa ou má fortuna dos agentes.

168 Op. cit. p. 76 e 77.

169 Expressão usada por COSTA, Lígia Militz. Op. cit. p.19 170 BOAL, Augusto. Op. cit. p. 48 - 49.

171 Recorde-se nossa argumentação sobre a ação desenvolvida pelos depoentes (parentes e amigos das vítimas)

do Linha Direta, ocasião em que defendemos que o discurso (depoimento) dessas pessoas se constitui em ação

atualizada de vivências passadas e reveladora de sentimentos atuais manifestos, ora configurado como

monólogo, ora como diálogo.

De acordo com o Estagirita, o pensamento “consiste em dizer o que faz parte de tal assunto e a esse convém” 173 e “é aquilo em que a pessoa demonstra que algo é ou não é, ou enuncia uma sentença geral” 174. E o outro “elemento, entre as partes discursivas é a elocução” 175, sobre o quê diz: “[...] denomino elocução o enunciado dos pensamentos por meio das palavras, enunciado este que tem a mesma efetividade em verso ou em prosa” 176.

Lígia Militz da Costa, em sua remontagem exegética da Poética, confirma quase literalmente estes trechos traduzidos por Eudoro de Souza, entendendo por pensamento a “capacidade de dizer o que é inerente a um assunto e o que convém” 177, e por elocução ou expressão o “enunciado dos pensamentos por meio das palavras, com efetividade igual em prosa e verso” 178.

Definido por Costa como “elemento lógico”, transparece ainda que o pensamento, entendido como o complexo supra-estrutural da personagem, não se restringe à elaboração de decisões apenas num campo duro de uma operação racional isenta de paixões179 (desejos, dúvidas, angústias, iras, mágoas e outras emoções desestabilizadoras). São as “razões” das personagens que fundamentam suas decisões e ações, e, portanto, passíveis de emergirem de um contexto minado pelas paixões. Aliás, vale ressaltar o quanto a paixão é ingrediente freqüentemente importante nas construções do gênero dramático, particularmente na composição das personagens, sobretudo naquelas filiadas à tradição aristotélica e/ ou elaboradas a partir das convenções de matriz realista nela inspiradas. Portanto, as motivações das personagens para se expressar ou agir de tal ou tal maneira nem sempre decorre de argumentos e conclusões racionalmente concebidos ou comprováveis num plano de enunciados gerais, de validade universal.

7.7.1 Rejeição brechtiana à unidade dos caracteres

É pertinente aqui intercalar, de maneira resumida, algumas das idéias centrais do corpo teórico do “teatro épico” de Bertold Brecht, que constituíram uma das mais notáveis reações aos postulados aristotélicos para o gênero dramático, em particular, no tocante às noções já tratadas

173 Ibid. , p. 79 174 Ibid. , p. 79 175 Ibid. , p. 79 176 Ibid. , p. 79

177 COSTA, Lígia Militz. Op. cit. p.20 178 Ibid. , p. 20

179 Paixão entendida aí como “sentimento ou emoção levados a um alto grau de intensidade, sobrepondo-se à

lucidez e à razão”; ou na acepção definida como “disposição contrária ou favorável a alguma coisa, e que ultrapassa os limites da lógica”. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua

neste estudo. Além de Brecht recusar a idéia do Estagirita de que o drama deva ser um todo fechado, uno, harmônico, perfeito, que contenha princípio, meio e fim, tendo como resultado uma composição uniforme, linear, com encadeamento causal necessário, e, ao invés disso, valorizar a montagem, independência das cenas, numa recusa à coerência da intriga, inclusive rechaçando as conhecidas unidades de ação, espaço e tempo em favor da fragmentação, ele rejeita – e é o que se pretende por em relevo aqui - a unidade dos caracteres, aspecto que Aristóteles deixa transparecer ao longo de suas prescrições na Poética.

Aristóteles pede ainda unidade dos caracteres, coisa que Brecht também não pode aceitar, e por uma razão suficientemente radical: não existe personalidade; o homem é compreendido tão-só como o “conjunto de todas as relações sociais”. 180

Sem pretensão de se alongar, aqui, sobre tal concepção de homem, claramente de orientação marxista, contrapôs-se brevemente a idéia brechtiana que recusa a unidade dos caracteres tão- somente a título de evidenciar mais uma filiação que o programa Linha Direta herda da tradição aristotélica, distanciando-se da ruptura preconizada por Brecht, porquanto as personagens do LD são configuradas de modo a acatar a unidade dos caracteres, revelada até mesmo na tendência acentuada por uma polarização entre vítima e vilão, a partir da qualificação ética imanente à noção de caráter. Ainda que estas composições de personagens do LD sejam rudimentares e carentes de profundidade e densidade, além de propensas ao maniqueísmo operado pela exacerbação entre bom e mau, permanece - e mais que isso, se evidencia - que encerram unidade de caracteres.

Expostas, reiteradas vezes, as noções de pensamento e caráter, é percebida a importância capital que assumem na configuração das personagens, em obras que se pautam pela tradição aristotélica. Portanto, tais noções, acredita-se, constituem instrumento válido de análise, a fim de prover a fundamentação que se lançou mão, para a categorização da tipologia-padrão vítima-vilão do LD.

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