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Les considérations narratives

Dans le document Université de Montréal (Page 52-55)

Chapitre 2 – Bilan historiographique

2.6. Les considérations narratives

O conceito de território cada vez mais vem sendo associado à qualidade dos processos de desenvolvimento da sociedade contemporânea. Não raro é possível encontrá-los associados, denotando a preocupação com as possíveis relações existentes entre os fatores constitutivos do espaço territorializado e o alcance dos objetivos de desenvolvimento de grupos sociais. Neste sentido, Pecqueur (1992) indicou claramente que o espaço-território desempenha o papel de uma variável explicativa no desenvolvimento porque o espaço cessa de ser apenas um suporte aparente e torna-se um elemento de organização produtiva que vai influir nas estratégias dos atores individuais e das empresas.

Do ponto de vista material e produtivo, os territórios, segundo Pecqueur, assumem o caráter de sistemas produtivos locais (podendo receber também outras denominações, como millieux ou atmosferas), que territorializam o lugar em que transcorre uma pluralidade de formas de justificação da ação humana (reciprocidade, cooperação, concorrência, disputa, etc). Neste sentido, os territórios não possuem apenas uma dimensão econômica e material, mas também cultural e cognitiva e, neste sentido, são um resultado, pois “constituem-se em espaços particulares que permitem operar uma mediação entre o indivíduo e o exterior” (PECQUEUR, 1992, p. 84).

Os trabalhos de Pecqueur alertam para a diferença entre o território dado - delimitação político/administrativa - e o território construído – aquele cuja construção é feita pelos atores sociais.

Referindo-se ao território construído, o autor diz que este é o resultado de um encontro de atores sociais, em um espaço geográfico dado, que procuram identificar e resolver um problema comum. Resume esta visão dizendo que o território seria uma rede para resolver problemas, uma “cesta” de produtos e serviços que se reforçam mutuamente. Trata-se da mudança do espaço banal para o espaço território (PECQUER, 2005).

Segundo Paulillo, a construção social de um território é determinada por fatores estratégicos de mobilização local, como as normas (ou institucionalidades), os recursos de poder, a confiança e a cooperação ou reciprocidade. Na visão da autora, os processos de construção de territórios, que vêm ocorrendo no Brasil, refletem dinâmicas de poder e riqueza que dependem “da capacidade de interação

estratégica entre atores políticos, recursos humanos, infraestrutura tecnológica e inovação organizacional” (PAULILLO, 2000, p. 48).

Dentro deste contexto, o território emerge como categoria privilegiada para sintetizar, em conjunto coerente de interpretação e gestão, muitos dos elementos que constituem as novas estratégias de desenvolvimento rural (ECHEVERRI; RIBEIRO, 2005).

Esses autores reafirmam:

[...] reconhecimento da integralidade do desenvolvimento, da importância das instituições e do patrimônio cultural, político e histórico das sociedades e encontram nos territórios fundamento para construir nova forma de aproximação do desenvolvimento rural (ECHEVERRI; RIBEIRO, 2005, p. 25).

O enfoque territorial considera, sobretudo, a valorização coletiva e negociada das potencialidades das localidades, das coletividades ou das regiões, chamadas de atributos locais ou de ativos específicos (SABOURIN, 2002).

As estratégias de desenvolvimento territorial são divididas em quatro principais linhas:

- cadeias produtivas, produtos e qualidade; - governança e coordenação territorial ou local (políticas públicas, organização e cooperação); - atividades e empregos (novas atividades, reestruturação produtiva, geração de empregos, etc);

- lógicas de inovação (construção sociotécnica da inovação) (SÉBILLOTTE apud SABOURIN, 2002, p. 01).

Existe a necessidade de se associar, nas políticas de desenvolvimento rural, à noção integradora e espacial de “construção de território”, como complemento das abordagens setoriais. Esta abordagem aponta para a identificação e a valorização das dinâmicas de coordenação e organização das relações e dos fluxos existentes entre os agentes locais, por uma parte, e entre o território e seu ambiente externo, por outra (SABOURIN, 2002).

Os autores Carrière e Cazella (2006), analisando algumas ações de desenvolvimento territorial na França, concluem que elas buscam, principalmente, reduzir as desigualdades entre as regiões que apresentam níveis bastante elevados de satisfação das necessidades da população e aquelas que, por razões históricas e geográficas, não apresentaram o mesmo êxito. Em outras palavras, a questão central dizia respeito à necessidade de se promover a equidade entre as diferentes regiões.

Neste contexto, contrariando as consequências impostas pelo fenômeno da globalização (padronização, descentralização dos processos produtivos, competitividade, entre outros), os estudos de Bernard Pecqueur, Amédée Mollard, Jean-Paul Carrière, Claude Courlet, Denis Requier-Desjardins, François Boucher, Claire Cerdan, Jacques Theys, Ademir Antônio Cazella, Carolina Andion, Paulo Freire Vieira, Wilson Schmidt, dentre outros pesquisadores, apontam para possibilidades de sobrevivência de sistemas produtivos localizados. Utilizam-se, em suas pesquisas, de estratégias, como a valorização de externalidades6, as vantagens por proximidade no

território/aglomeração, dentre outros aspectos. Trabalham com o conceito de desenvolvimento territorial, sendo este entendido como um processo descentralizado e que contraria o modelo do pós-guerra - centralizador e estatal, focado em grandes complexos urbanos e industriais. O desenvolvimento territorial “está voltado para a valorização dos recursos locais e dos pequenos centros urbanos integrados ao seu entorno rural” (CARRIÈRE e CAZELLA, 2006, p. 24).

A presente perspectiva relaciona o sucesso do empreendimento não apenas com a capacidade do empreendedor, mas, sobretudo, com o ambiente que cerca o empreendimento, que pode ser mais ou menos favorável a sua prosperidade. Assim, observam-se as externalidades positivas decorrentes da proximidade, da cooperação e da organização no território (PAULA, 2004). Reaparecem, então, as discussões sobre os distritos industriais, especialmente aquelas que analisam os casos da

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Segundo Picard (1998), externalidades são efeitos positivos ou negativos em termos de custos ou de benefícios, gerados pelas atividades de produção ou consumo exercidas por um agente econômico e que atingem os demais agentes, sem que estes tenham oportunidade de impedi-los ou a obrigação de pagá-los. As externalidades referem-se ao impacto de uma decisão sobre aqueles que não participaram dessa decisão e podem ser positivas – quando os demais agentes, involuntariamente, se beneficiam, ou negativas, quando aquela decisão gera custo para os demais agentes.

Inglaterra e Itália (PAULA, 2004; ABRAMOVAY, 2001; VEIGA, 2002; PUFFAL, 2006; PECQUEUR, 2006a).

Para estes autores, o sucesso da chamada Terceira Itália deve-se a um conjunto de fatores: proximidade geográfica, especialização setorial, predominância de pequenas e médias empresas, estreita colaboração interfirmas, competição interfirmas baseada na inovação, uma identidade sócio-cultural que facilita a confiança e o suporte do governo municipal e regional.

Nessa direção, Carrière e Cazella afirmam:

A proximidade e o modo de funcionamento da PME integradas aos distritos industriais são marcados pelo estabelecimento de estreitas relações de cooperação. Isto não significa, no entanto, que inexista concorrência entre as empresas. Essa combinação paradoxal torna-se possível graças ao clima de confiança que se alimenta de contratos regulares entre fornecedores e clientes de uma mesma área. [...] a homogeneidade sociocultural das zonas compreendidas pelos distritos industriais está entre os elementos explicativos mais importantes da coerência do seu funcionamento (2006, p.31- 32).

Pode-se dizer que as particularidades do sistema produtivo presentes na Terceira Itália eram: o tamanho (pequeno) das firmas e o relacionamento complexo entre elas, assim como com a comunidade local. Nesse sentido, o desenvolvimento da região da Emiglia Romagna não se deve apenas ao êxito empresarial expresso nas formas de cooperação das Pequenas e Médias Empresas (PME), mas também ao governo progressista local e ao capital social.

Para Carrière e Cazella (2006), o ponto máximo de maturação de um território construído consiste na geração de uma “renda de qualidade territorial”, capaz de superar a renda obtida através da venda de produtos e serviços de qualidade superior. Nessa concepção, o próprio território é o “produto” comercializado. Para tanto, os diferentes atores locais – públicos e privados – precisam articular suas ações mercantis e não- mercantis com o propósito de criar uma oferta combinada e coerente de atributos territoriais.

Esses autores afirmam que “[...] a metamorfose de recursos em ativos específicos é indissociável da história longa, da memória social acumulada e de um processo de aprendizagem coletiva e cognitiva característica de um dado território” CARRIÈRE; CAZELLA (2006, p. 34). Dentro deste contexto, segundo Pecqueur, existem certas condições que estimulam:

[...] a busca de novos recursos que, na escala dos sistemas produtivos localizados, apresentam características “sui generis”. Os recursos produtivos podem, com efeito, ser valorizados em razão de seus baixos custos de produção e, também, pela sua capacidade de compor uma oferta distinta da concorrência, ampliando assim as margens de lucro (PECQUEUR, 2006, p. 135). Nesta linha, é lançada a hipótese da cesta de bens:

[...] os agentes produtivos sediados num dado território podem colocar em prática uma estratégia voltada para uma oferta ao mesmo tempo diversificada (integrando vários tipos de bens e serviços) e situada (vinculada a um espaço específico, à sua cultura, à sua história) (PECQUEUR, 2006, p. 36).

Pode-se perceber que esta estratégia possui forte influência da experiência da Terceira Itália, sobretudo no que diz respeito à cooperação (composição da oferta) e à questão da oferta situada, ou seja, com ancoragem local (PECQUEUR, 2006; CARRIÈRE; CAZELLA, 2006).

Admitir que a especificidade de um dado lugar influencia a natureza dos recursos produzidos significa reconhecer que o contexto da produção exerce um papel determinante nos processos produtivos. A produção estaria assim enraizada no espaço físico e nas práticas historicamente constituídas (PECQUEUR, 2006b, p. 137). No modelo da cesta de bens, o consumidor passa a fazer parte do centro do debate. Isso porque o modelo não está pensado para o consumidor tradicional, aquele que quer quantidade, qualidade

(questionável) e baixos preços. O consumidor, neste caso, olha o produto de forma estanque e não vê o que está por trás dele.

O consumidor que procura um produto da cesta de bens o escolhe por sua ancoragem local e está disposto a pagar por amenidades ambientais ou sociais.

Nesse sentido, pode-se aproximá-lo da noção de preço de opção, que mede a disposição do consumidor de pagar pela preservação de um ativo natural em vista de um provável uso futuro (PECQUEUR, 2006b, p. 144-145).

O referido autor segue explicando:

A hipótese da cesta de bens pode ser verificada quando, num momento de aquisição de um produto de qualidade territorial, o consumidor descobre a especificidade de outros produtos procedentes da produção local e determina sua utilidade a partir do conjunto de produtos oferecidos (a cesta). Isso significa que essa oferta de produtos interligados gera um excedente para o consumidor que pode ser considerado mais elevado do que a soma dos excedentes de cada produto. [...] Pode-se qualificar esse fenômeno como simbiótico. O produto lider atrai consumidores que também apreciam a qualidade dos outros produtos da cesta, o que reforça a imagem de qualidade global do território. A cesta é, portanto, constituida por produtos ou serviços oriundos de diferentes produtores e de lugares de um mesmo território e seu consumo não é necessariamente simultâneo (PECQUEUR, 2006, p. 144).

A composição da cesta implica numa organização dos envolvidos no que o autor chama de “clube de atores”. Esse clube é formado “por um cálculo oportunista, mas também pelo sentimento de pertencimento a um conjunto de valores compartilhados” (PECQUEUR, 2006b, p. 145- 146). A cesta de bens e serviços territoriais possui as seguintes características:

Um conjunto de bens e serviços complementares, que se fortalecem nos mercados locais. Uma combinação de bens privados e públicos, que convergem para a elaboração de uma imagem e de uma reputação de qualidade territorial. Uma organização interativa entre os produtores da cesta (clube), visando internalizar a renda de qualidade territorial.

1.2 A AGRICULTURA FAMILIAR E O RURAL DENTRO DA

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