“Bem-vindo à cultura da convergência, onde os velhos e os novos media colidem, onde o poder do produtor e o poder do consumidor interagem de maneiras imprevisíveis” (Jenkins, 2006, p. 27). Esta afirmação de Jenkins (2006) descreve, em poucas palavras, a complexidade das mudanças nos media. O paradigma da convergência aplicado aos meios de comunicação já remonta a finais da década de 1970, mas adquiriu um protagonismo especial nas últimas décadas. Hoje, este conceito presume que os novos e antigos media irão interagir de formas cada vez mais complexas, sendo, por esta razão, de maior relevância para contextualizar o ambiente que afeta o jornalismo na sociedade atual.
Por convergência pode-se entender o “fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas mediáticas, a cooperação entre múltiplos mercados mediáticos e o comportamento migratório dos públicos dos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca das experiências de entretenimento que desejam” (Jenkins, 2006, p. 2). Estamos, assim, perante um rol de distintas perspetivas sobre o que é a “convergência de meios”, uma característica da era digital que ainda hoje gera alguma discordância entre estudiosos relativamente à sua definição (Pavlik & McIntosh, 2015).
Salaverría (2010) defende que a convergência é um processo visível nos campos tecnológico e de conteúdos (bem como nos campos empresarial e profissional, que não serão aqui abordados). A convergência tecnológica ocorre durante as fases de produção e difusão, com os meios a verem-se obrigados a optar por um modelo multiplataforma para responderem a uma nova audiência caracterizada por um consumo simultâneo em vários aparelhos e ecrãs. Ou seja, refere-se a tipos específicos de media, como impressão, áudio e vídeo, toda a convergência numa forma de media digital. Segundo Pavlik e McIntosh (2015), este tipo de convergência está a tornar-se cada vez mais aparente, pois os jornalistas de hoje precisam ser capazes de contar histórias em texto, áudio, vídeo e até mesmo em media interativos. É, neste sentido, que a convergência tecnológica surge ligada aos conteúdos. No que concerne à convergência de conteúdos, Salaverría (2010) destaca o crescente recurso às características mais relevantes do ciberjornalismo: a multimedialidade, a hipertextualidade e a interatividade. “Os conteúdos que, até ao início do novo século, permitiam diferenciar os meios tradicionais
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(texto/jornal; som/rádio; vídeo/televisão) passaram a ser transversais nas edições online, situação que atualmente torna difícil saber qual o meio que está na origem de muitas das ofertas online” (Canavilhas & Satuf, 2013, p. 39).
Estas duas visões equivalem a dizer que os conteúdos, no formato digital, tendem à convergência de duas formas diferentes (Cardoso & Moreno, 2015). Primeiro, diferentes formas de conteúdo convergem num único dispositivo, o que resulta em parte do domínio dos ecrãs e também da capacidade de o mesmo aparelho reproduzir vídeo, texto, imagens e sons. Em segundo lugar, a convergência também significa que uma única peça de conteúdo pode ser transmitida por diferentes canais digitais. Esta é uma mais-valia para as empresas de media, uma vez que o mesmo conteúdo – ou diferentes versões – pode ser distribuído e comercializado através de diferentes aparelhos, mas também é um desafio. A convergência é tanto um fenómeno “de cima para baixo” como é “de baixo para cima”. Isto quer dizer que, à medida que os indivíduos forem aprendendo a usar as ferramentas de produção de conteúdos que as tecnologias digitais colocam ao seu dispor, ficarão mais habilitados a produzir conteúdos próprios, aproveitando as oportunidades criadas pelo processo de convergência (Cardoso & Moreno, 2015), em detrimento dos conteúdos produzidos pelos media.
Na perspetiva de Jenkins (2006), a convergência não é apenas um processo tecnológico que une múltiplas funções dentro dos mesmos aparelhos. O autor (2006, p. 3) vai ainda mais além e defende que a convergência “representa uma transformação cultural, à medida que os consumidores são incentivados a procurar novas informações e fazer conexões entre conteúdos mediáticos dispersos”. Pavlik e McIntosh (2015) acreditam que a convergência tecnológica é muito relevante numa sociedade em que as mudanças que vêm de novas tecnologias têm repercussões nos modelos de negócio e nas indústrias estabelecidas, que veem ameaçado o seu domínio, mas afirmam também que esta não é a única maneira de pensar em convergência. Também podemos olhar para a convergência a partir de uma perspetiva cultural se analisarmos a forma como consumimos, criamos e distribuímos conteúdos mediáticos. “A mudança de uma audiência maioritariamente passiva e silenciosa que consome media produzidos por empresas mediáticas de grande escala para uma audiência com quase igual capacidade de produzir e distribuir o seu próprio conteúdo é um aspeto crucial da convergência cultural” (ibidem, p.12). Em resposta a este tipo de convergência, sendo considerada uma premissa central, o público receberá mais frequentemente mensagens personalizadas, adaptadas às necessidades dos indivíduos.
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Em suma, algumas das maiores mudanças que ocorrem entre estes três tipos de convergência têm a ver com as díspares utilizações dos media e as implicações para os modelos de negócio das empresas que presumiram a existência de uma audiência passiva e que estão agora num período de adaptação às redes de comunicação online e a uma nova conceção de audiência, mais ativa e aberta aos meios digitais (Pavlik & McIntosh, 2015). Foi a Internet que promoveu esta colisão entre os media tradicionais e o online, permitindo esbater as barreiras, anteriormente intransponíveis, entre meios e audiências. Esta extensão do ciberespaço acabou por trazer mais liberdade de acesso à informação, maior interdependência, velocidade e interatividade, o que impulsiona a vontade de colaborar, bem como a possibilidade de partilhar e comunicar de formas surpreendentes (Frias & Lima, 2014). O aparecimento da Web 2.0 foi fulcral para alterar as formas de consumo e de participação das audiências. O público atual começou a adquirir novas características a partir do momento em que novas ferramentas colocaram nas suas mãos um novo poder, possibilitando que este colaborasse, participasse e até produzisse os seus próprios conteúdos.
Este fenómeno tem vindo a alterar a lógica pela qual os consumidores processam a informação e pela qual a indústria mediática opera. As empresas estão a acelerar o fluxo de conteúdo por diferentes canais de distribuição para ampliar mercados e a desenvolver formas inovadoras de atrair e manter o interesse do público. Foi esta proliferação de canais e a portabilidade das novas tecnologias informáticas e de telecomunicações que conduziu à denominada “cultura da convergência”. No entanto, este paradigma não é novo nem algo que vai acontecer um dia. Alguns argumentam que a convergência já aconteceu, e em muitos aspetos pode ser verdade, mas é também “um fenómeno contínuo que continua a moldar o mundo dos media tradicionais” (Pavlik & McIntosh, 2015, p. 8). Hoje, garante Jenkins (2006, p, 16), “já estamos a viver numa cultura da convergência”. Este processo “não ocorre através de aparelhos mediáticos, por mais sofisticados que venham a ser”, mas sim “dentro dos cérebros de consumidores individuais e nas suas interações sociais com outros” (ibidem, p. 3).
Os consumidores estão a aprender a utilizar as diferentes tecnologias que tem à sua disposição para ter um controlo mais completo sobre a informação e também para interagir com outros utilizadores. Este público, mais ativo nas plataformas mediáticas, está a lutar pelo direito de participar mais plenamente na sua cultura, para controlar o fluxo mediático nas suas vidas e dar feedback ao conteúdo do mercado de massas.
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Segundo Jenkins (2006, p. 6), a convergência é, assim, “um antigo conceito que assume novos significados” num momento de mudança.
Falar de convergência implica também abordar as formas como este fenómeno está a ser aplicado no jornalismo. É uma estratégia que está a ser testada em várias redações mas, como afirma Kolodzy (2006), não está ainda bem definida.
“Quando se trata de jornalismo, a convergência significa uma nova maneira de pensar sobre as notícias, produzir as notícias e divulgar as notícias, utilizando todos os meios de comunicação no seu potencial máximo para chegar a um público diversificado e cada vez mais distraído. A convergência reorienta o jornalismo para a sua missão central - informar o público sobre o seu mundo da melhor maneira possível. Mas hoje em dia, a melhor maneira não é apenas uma maneira: jornal ou televisão ou a Internet. A melhor maneira é uma maneira de múltiplos media, fazendo jornalismo para um público que às vezes recebe notícias de jornais, em outros momentos recebe notícias de televisão e rádio, e em outros tempos ainda procura notícias online” (Kolodzy, 2006, p. 4).
Este recente tipo de jornalismo trouxe novas exigências aos profissionais, que tiveram de “entender os pontos fortes de cada meio de comunicação” e trabalhar para contar histórias que reúnam os benefícios dos diferentes canais informativos (Kolodzy, 2006, p. 4). Segundo Kolodzy (2006), as próprias organizações noticiosas tiveram de repensar a sua forma de atuação. “Convergência no jornalismo significa reunir jornalistas e certos tipos de jornalismo que têm operado em esferas separadas - jornais, revistas, rádio, televisão e online - para fornecer notícias de qualidade em todos estes formatos diferentes” (ibidem, p. 10).
Os media procuram, hoje, produzir notícias de forma diferente, mais adequadas para o público de cada meio, uma vez que verificam que os leitores de jornais procuram mais detalhes para as suas histórias, enquanto os ouvintes e telespetadores procuram informações mais atuais do que aquelas que são divulgadas na rádio e na televisão e os navegadores online querem aceder mais rapidamente à informação.