No estudo transversal e longitudinal, analisamos a variável dependente
palatalização da oclusiva alveolar, no PB e no ILE. A variável foi caracterizada neste estudo em 2 categorias: (1) presença; e (2) ausência. A classificação foi utilizada na maioria dos itens lexicais analisados na pesquisa.
Entretanto, os diversos contextos sujeitos à emergência da palatalização em ambas as línguas geraram a necessidade de uma classificação mais abrangente. Assim, palavras do contexto (c) /St/ → [ʃtʃ] / __ /ik/ do PB, apresentarm uma variável dependente mais abrangente: (1) presença da palatalização, e.g. plástico [ˈplaʃtʃikʊ]; (2) ausência da
palatalização; e.g. [ˈplaʃtikʊ] (3) apagamento da oclusiva alveolar com ou sem redução de intensidade da fricativa, e.g [ˈplaʃʃikʊ]. De modo semelhante, palavras do contexto (d) /t, d/ → [tʃ, dʒ] / __ /iS/ do PB, apresentaram variável dependente ternária: (1) presença da palatalização, e.g. antes [ˈãtʃis]; (2) ausência da palatalização, e.g. [ˈãtis]; e (3) emergência
das africadas [ts, ds] devido ao apagamento da vogal, e.g. [ˈãts].
Justificamos a opção de análise binária ou ternária da variável dependente da base de dados devido às características de gradiência e variação reportados na literatura no que concerne à emergência do fenômeno da palatalização, quer no PB ou no ILE de aprendizes brasileiros.
Por sua vez, elencamos 10 variáveis independentes analisadas no estudo longitudinal e transversal: origem, sexo, nível de proficiência no ILE, indivíduo, palavra, frequência de ocorrência, tonicidade, contexto fonotático, vozeamento da oclusiva/tipo fonotático e tempo de exposição ao ILE. Algumas variáveis, como classe social, faixa etária e escolaridade, foram desconsideradas por termos dificuldade em controlar tais fatores de forma consistente. Apresentamos a seguir considerações acerca de cada uma das variáveis:
a) Origem: estudos envolvendo a variável na descrição da emergência do fenômeno da palatalização no PB são recorrentes. Todavia, o controle explícito da variável e sua influência na realização do ILE de estudantes brasileiros é incomum. A literatura na área de produção do ILE de brasileiros aborda apenas marginalmente o tema (BETTONI-TECHIO, 2005; FERREIRA, 2007). Ao elencarmos a variável origem neste estudo, buscamos
explicitar a relação entre falares do PB caracterizados pela emergência (Fortaleza-CE) ou inibição (Mossoró-RN) recorrente da palatalização das oclusivas alveolares na produção do ILE;
b) Sexo: também uma variável cara à pesquisa sociolinguística no PB. No que concerne à pesquisa em ILE, não era uma variável recorrentemente controlada. Optamos por analisa-la devido à possibilidade apontada por Labov (2001) de que o sexo feminino liderava fenômenos de mudança linguística em língua materna. Padrão semelhante pode ocorrer em língua estrangeira;
c) Nível de proficiência: variável apenas aplicada na pesquisa do ILE. Inserimos a variável devido ao fato de que grande parte dos estudos envolvendo línguas estrangeira apontaram a tendência de aprendizes brasileiros diminuírem a influência do PB sobre o ILE com o aumento da proficiência linguística; d) Vozeamento da oclusiva alveolar: a relevância do fator vozeamento da
oclusiva alveolar como variável favorecedora ou inibidora do fenômeno da palatalização é reportada em muitos trabalhos referentes ao PB e ILE. Ambas as línguas favoreceram a emergência da palatalização nas oclusivas alveolares desvozeadas /t/. Optamos por estudar a referida variável neste estudo, destacando a existência de maior frequência do tipo fonotático /ti/ quando comparado a /di/. Tal fato poderia ser a motivação por trás do favorecimento da palatalização na desvozeada;
e) Tonicidade silábica: pesquisas do PB diferiram ao apontar o papel da sílaba tônica como favorecedora (BISOL, 1991; BATTISTI; GUZZO, 2009), neutra (ABAURRE; PAGOTTO, 2002), ou inibidora (HORA, 1990) na emergência da palatalização. Contribuímos para a discussão da relevância da tonicidade à aplicação do fenômeno tanto no PB quanto no ILE;
f) Indivíduo: normalmente não associada à pesquisa tradicional, a emergência da variação inter e intra-individual foi importante para a compreensão de novos padrões de comportamento nos SACs (THELEN; SMITH, 1994; LARSEN- FREEMAN; CAMERON, 2008a). No caso desta pesquisa, buscamos observar o comportamento individual de emergência da palatalização no caso do PB e do ILE, comparando-o posteriormente com outros indivíduos de um mesmo falar ou de falar distinto;
g) Palavra: tendo em vista que neste trabalho utilizamos como referencial teórico o Modelo de Exemplares (ME) (PIERREHUMBERT, 2001) e a Fonologia de
Uso (FU) (BYBEE, 2001), analisamos a variável palavra. Considerando que a organização do léxico varia de indivíduo para indivíduo, averiguamos se falantes diferentes lidaram de forma diversa com o mesmo item lexical;
h) Frequência de ocorrência: calcados nos pressupostos do ME e da FU, analisamos a variável frequência de ocorrência e seus efeitos na emergência do fenômeno de palatalização das oclusivas alveolares. Buscamos organizar as palavras analisadas em itens mais e menos frequentes nos Experimentos P2 e I2, uma vez que as teorias em questão apresentaram hipóteses diferentes quanto à emergência de fenômenos linguísticos diversos de acordo com a frequência de ocorrência;
i) Contexto fonotático: diversos contextos fonotáticos do PB e do ILE foram analisados nesta pesquisa. Controlamos a variável devido à ideia de que o tipo fonotático apresentou papel relevante na emergência de fenômenos de mudança sonora (MARTINS, 2007).
Adicionalmente às variáveis já descritas, utilizadas concomitantemente no estudo transversal e no longitudinal, lidamos com a variável tempo de exposição ao ILE apenas no desenho longitudinal:
j) Tempo de exposição ao ILE: sabemos que a variação na aquisição de línguas foi recorrente na literatura, quer no PB (GUIMARÃES, 2008) ou no ILE de aprendizes brasileiros (BAPTISTA, 2000). Com a análise da variável dependente de palatalização das oclusivas alveolares nos 8 momentos de coleta de dados do estudo longitudinal contribuímos para o entendimento do caráter variável da palatalização no percurso de construção da fonologia do ILE, tema caro à pesquisa calcada no paradigma dos SACs.
Apresentadas a variável dependente e as independentes desta pesquisa, passamos na próxima seção a discorrer acerca dos procedimentos experimentais.