a) identificar as características acústicas de produção das oclusivas alveolares nos diversos contextos analisados. Para realizar a identificação fizemos uso de gráficos de oscilograma e espectrograma, bem como consideramos as definições acústicas dos sons envolvidos oferecidas pela literatura (FANT, 1960; POTTER; KOPP; KOPP, 1966; FRY, 1979; PICKETT, 1980; BORDEN; HARRIS, 1980; KENT; READ, 1992; STEVENS, 1998; JOHNSON, 2003, entre outros);
b) observar as características fonéticas específicas da produção das consoantes nos diversos contextos analisados. Na perspectiva tradicional, consideram-se apenas unidades categóricas de análise. Modelos fonológicos multirrepresentacionais (BYBEE, 2001), por sua vez, enfatizaram formas intermediárias de produção e percepção, caracterizando assim um contínuo fonético. No que tange ao fenômeno da palatalização das oclusivas alveolares no PB, Albano (1999, 2001) demonstrou que a palatalização foi um fenômeno contínuo e não categórico.
Tendo em vista os objetivos, caracterizamos os aspectos acústicos relevantes das consoantes /s, z, ʃ, ʒ, t, d/ do PB, além dos alofones [tʃ, dʒ] do PB (CRISTÓFARO-SILVA, 2001a), que no sistema fonológico do inglês são fonemas plenos (JONES, 1976).
Quanto ao modo de articulação, as consonantes /s, z, ʃ, ʒ/ são classificadas como fricativas sibilantes (ou estridentes). Quanto ao ponto de articulação, as consoantes /s, z/ apresentam constrição na região alveolar, as consoantes /ʃ, ʒ/ são articuladas na região palatal. Quanto ao vozeamento, as consoantes /s, ʃ/ são desvozeadas e as consonantes /z, ʒ/ são vozeadas (ASHBY; MAIDMENT, 2005).
As diferenças articulatórias apontadas refletem no correlato acústico de cada som (FANT, 1960). Apresentamos na Figura 16 o oscilograma e espectrograma das consoantes [s, z, ʃ, ʒ] produzidas pelo autor.
O oscilograma apresentado no topo da Figura 16 indicou que as fricativas palatais [ʃ, ʒ] apresentavam maior amplitude (volume), indicado pelo deslocamento do gráfico no eixo vertical, do que as fricativas alveolares [s, z]. Com relação ao espectrograma, observamos que as fricativas alveolares [s, z] eram caracterizadas por uma concentração de energia acústica (parte mais escura) em frequências mais altas do espectro do que as fricativas palatais [ʃ, ʒ]. Além disso, observamos a barra de vozeamento característica dos sons /z, ʒ/ nas frequências mais baixas. Os sons desvozeados [s, ʃ] não apresentaram tal barra.
Por sua vez, as oclusivas alveolares [t, d]33 foram caracterizadas, do ponto de vista articulatório, por três fases. A primeira envolveu os articuladores na oclusão do trato vocal. A segunda foi associada a um mínimo de energia acústica, devido ao fato de o trato estar fechado. A terceira fase envolveu a soltura dos articuladores, com uma explosão de energia acústica quando o ar escapa. Aspectos específicos da soltura das oclusivas alveolares do PB e do inglês foram aprofundados posteriormente. Apresentamos na Figura 17 o oscilograma e espectrograma de palavras contendo estas consoantes produzidas pelo autor.
Figura 17 - Oscilograma e espectrograma das oclusivas [t, d] nas palavras tia e dia.
Na Figura 17, ambos os sons foram caracterizados pela existência do período de silêncio, acompanhado ou não da barra de vozeamento conforme o caso. Indicamos no espectrograma o vozeamento da oclusiva [d] com uma seta. A explosão causada pela soltura dos articuladores foi indicada com setas no oscilograma.
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Optamos pela classificação das oclusivas /t, d/ do PB como alveolares quanto ao ponto de articulação pela tradição na literatura. Sabemos no entanto que tais fonemas podem ter realizações dentais, alveolares ou mesmo pós-alveolares.
Finalmente, as africadas foram definidas como sons complexos, envolvendo uma sequência de movimento dos articuladores. Como as oclusivas alveolares, as africadas apresentam a completa obstrução do trato vocal. Como as fricativas, as africadas apresentam uma fase de soltura do ar através de uma constrição do trato, causando ruído turbulento. No PB as africadas foram classificadas alofones [tʃ, dʒ] das consoantes /t, d/, no inglês as africadas foram consideradas fonemas plenos /tʃ, dʒ/. Apresentamos na Figura 18 a produção africada das consoantes [t, d] em palavras do PB realizadas pelo autor.
Figura 18: Oscilograma e espectrograma da realização africada das oclusivas /t, d/ nas palavras tia e dia.
A Figura 18 ilustou o ruído fricativo característico da realização africada das consoantes /t, d/. Localizado entre a soltura da oclusiva alveolar e anterior à estabilização dos formantes presentes na vogal, indicamos com setas o ruído fricativo.
Além dos extremos do continuum acústico apresentados anteriormente, existia um leque de realizações gradientes envolvendo tanto o PB (GUIMARÃES, 2008; BARBOSA, 2011) quanto o ILE de aprendizes brasileiros (FERREIRA, 2011; BETTONI-TECHIO, 2005).
Para a análise do detalhe fonético selecionamos o ruído fricativo ou aspiração associado à realização das diversas palavras analisadas no estudo. As medições foram realizadas com a ajuda de um tier ou camada no software de análise acústica Praat. No que tange à realização das oclusivas alveolares, selecionamos o momento de explosão da oclusiva alveolar, observado no oscilograma, até um ponto em que a onda sonora característica da vogal seguinte apresentou sinais de estabilização. Apresentamos na Figura 19 a seleção dos pontos de início e fim da aspiração presente numa oclusiva alveolar.
Figura 19 - Seleção da duração entre o ponto de soltura da oclusiva e início da estabilização da vogal no token MM9I2TEACHER.
Por sua vez, as fricativas plenas analisadas no estudo, [s, z, ʃ, ʒ], apresentaram uma metodologia distinta de seleção dos pontos de início e fim do ruído fricativo. Dada a inexistência de uma oclusão prévia, optamos por selecionar os pontos de início e fim do ruído fricativo na observação do estriamento vertical do espectrograma acompanhado da observação do oscilograma. Apresentamos na Figura 20 os pontos selecionados como início e fim de uma fricativa palatal.
Figura 20 - Pontos selecionados como início e fim do ruído fricativo associado ao som [ʒ] no token MM9P2GIZ.
Fizemos uso da segmentação como ponto de partida para a aplicação do script de coleta das diversas características espectrais propostas por Forrest et. al. (1988) na análise de distribuição de energia no espectro dos sons fricativos e oclusivos. A análise acústica de quatro momentos espectrais apontou indícios relevantes quanto aos pontos de articulação. As medidas dos momentos espectrais foram obtidas através da análise do espectro FFT e suas características principais, de acordo com Jongman, Wayland e Wong (2000) eram:
a) a centroide das frequências (1º momento espectral) – a média das frequências encontradas no espectro sonoro foi utilizada como indicativo do ponto de
articulação das fricativas ou oclusivas alveolares, como apontou o estudo de Barbosa (2011). Valores mais altos da centroide indicaram ponto de constrição alveolar, os mais baixos indicaram ponto pós-alveolar;
b) o desvio-padrão da centroide (2º momento espectral) – relacionou-se com a variabilidade das frequências da centroide. Os ruídos fricativos que apresentaram menores valores de desvio-padrão indicaram ponto de constrição alveolar, valores maiores indicaram ponto pós-alveolar. Berti (2006) e Freitas (2007) apontaram o desvio-padrão como bom indicador do ponto de constrição no PB;
c) a assimetria das frequências (3º momento espectral) – apontou a inclinação das frequências em relação à média (centroide). Caso a assimetria fosse positiva, indicava uma concentração de energia espectral nas baixas frequências, peculiar às pós-alveolares. Caso fosse negativa ou próxima à zero, indicava concentração nas altas frequências, peculiar às alveolares;
d) a curtose das frequências (4º momento espectral) – apontou o achatamento das frequências. Se positivas apontaram a presença de picos definidos no espectro sonoro e foram associadas a fricativas alveolares. Se próximas à zero, foram associadas às pós-alveolares.
O estudo de Barbosa (2011) fez uso dos momentos espectrais anteriores para a caracterização acústica dos dados. A autora concluiu que, no caso do PB, os momentos mais informativos foram a centroide e o desvio-padrão da centroide para a caracterização do ponto de articulação. No entanto, tendo em vista que tivemos por objetivo caracterizar diversos sons de fricativos também no ILE, os momentos de assimetria e curtose foram relevantes como suporte para a classificação de tokens ambíguos quanto à natureza acústica do fenômeno observado.
Para a obtenção dos diversos momentos espectrais, fizemos uso de um script do Praat para a coleta automatizada dos valores dos quatro momentos. Após a utilização do script, os valores associados aos diversos momentos foram organizados em uma tabela contendo as informações dos itens analisados. Agradecemos à pesquisadora Denise Barbosa pela gentil disponibilização do referido instrumento, encontrado no ANEXO A. Fizemos uso do script especialmente nos casos em que a gradiência do detalhe acústico mostrou-se desafiadora em sua classificação. Passamos a ter mais parâmetros de classificação dos sons analisados.
Para a realização das medidas associadas às consoantes vozeadas, aplicamos um filtro para trabalhar apenas com as frequências de 500 a 11.000Hz. O procedimento teve por
objetivo a medição dos diversos momentos sem a influência da frequência fundamental. As consoantes desvozeadas foram trabalhadas utilizando plenamente a faixa de espectro de 0 a 11.000Hz.
Tivemos por objetivo inicial reportar nesta tese os diversos momentos espectrais de realização das oclusivas alveolares do PB e do ILE. No entanto, o grande volume de dados impossibilitou a realização do objetivo. Utilizamos a análise dos momentos espectrais como suporte para classificar ocorrências das oclusivas alveolares em que mesmo a repetição do áudio com a observação do espectrograma/oscilograma mostraram-se inconclusivas.
Apresentamos a seguir a metodologia e os instrumentos utilizados no processo de gravação, armazenamento, edição e nas análises acústica e estatística dos dados.