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Robert Sternberg, psicólogo de Yale, situa-se entre os psicólogos contemporâneos que propõem uma visão da inteligência que ultrapassa as conceções subjacentes ao QI, embora não seja tão radical e tente salvar o que as anteriores teorias têm de positivo (Sternberg, 1985).
A Teoria Triárquica da Inteligência (TTI) de Sternberg (1985, 1988) propõe então explicar, de uma forma integrada, a relação entre inteligência e indivíduo-experiência-mundo. Ou seja, a inteligência é explicada em termos de três subteorias: i) a componencial, que se refere às relações entre a inteligência e o mundo interno ou mental do sujeito; ii) a experiencial, que tenta entender a inteligência em termos de relações entre o indivíduo e a sua experiência ao longo da sua vida; e, iii) a
contextual, que considera a inteligência em função das relações do indivíduo com o seu mundo
externo ou contexto.
Na primeira parte da TTI (subteoria componencial), Sternberg especifica os processos subjacentes ao processamento da informação e que ajudam a entender a conduta inteligente. Esta subteoria explica três tipos de componentes: (i) os metacomponentes, que são processos de “ordem superior” que se usam para planificar uma atividade, monitorizar e avaliar o resultado; (ii) os
componentes de rendimento, que são processos de “ordem inferior” que executam as instruções de
acordo com a planificação implícita dos metacomponentes; e (iii) os componentes de conhecimento-
aquisição, que são os mecanismos que se empregam para adquirir informação nova, recordar a já
existente e transferir o aprendido a outro(s) contexto(s).
De acordo com Sternberg (1985, 1988), ainda que estes três componentes da inteligência sejam importantes e estejam estritamente interrelacionados, só os metacomponentes podem ativar e receber retroalimentação dos outros componentes. Ou seja, todo o controlo do sistema (que é a inteligência) passa e executa-se diretamente através dos metacomponentes, que funcionam como um mecanismo de construção do conhecimento, orquestrando os outros dois tipos de componentes em procedimentos para determinados objetivos. Por exemplo, quando as pessoas já possuem conhecimento suficiente para resolver um problema, apenas os metacomponentes e os componentes executivos são necessários para construir uma estratégia de resolução. Os metacomponentes selecionam que componentes executivos usar e a ordem em que usar, e os componentes executivos fazem o trabalho necessário para resolver o problema. Quando a pessoa não possui conhecimento suficiente para resolver o problema, os componentes de aquisição de conhecimento entram em ação. O seu papel é adquirir a informação necessária para resolver o problema e comunicá-la aos metacomponentes. Estes últimos devem, então, combinar a nova informação com a informação já existente para construir uma estratégia eficaz de resolução do problema.
Abordagens da Inteligência
Na segunda parte da TTI (subteoria experiencial), Sternberg defende a existência de duas facetas da experiência individual em tarefas ou situações como particularmente críticas no comportamento inteligente: (i) a capacidade para lidar com tarefas ou situações novas e (ii) a capacidade para automatizar o processamento de informação. Ou seja, as pessoas encontram-se na sua vida diária com um conjunto de tarefas novas que exigem a aplicação de diferentes componentes da inteligência, que são usados para a solução de tarefas e problemas que variam em termos de novidade e familiaridade. A maioria das tarefas e situações são inicialmente novas, mas consoante o indivíduo vai adquirindo experiência, pode controlar e automatizar as situações.
Existe assim uma grande relação entre novidade e automatização: quanto mais eficiente o indivíduo for numa, mais recursos terá disponíveis para a outra. Ou seja, as pessoas inteligentes respondem melhor à novidade e também automatizam melhor a informação necessária à resolução eficiente de uma nova tarefa (Sternberg, 1988).
Ainda que se defenda que a novidade da tarefa deva ser critério para a sua utilidade na avaliação da inteligência, Sternberg (1988) refere que uma tarefa adequada deve ser nova mas não estar totalmente fora do campo experiencial passado do indivíduo, ou seja, se a tarefa for “demasiado nova” para o indivíduo, então ele não poderá apoiar-se em nenhuma experiência passada e simplesmente essa tarefa estará fora do seu espetro de compreensão.
Por fim, na terceira parte da TTI (subteoria contextual), Sternberg procura explicar a utilidade dos componentes da inteligência em situações da vida diária relevantes para o sujeito, através de três tipos de funções ou mecanismos pelos quais o indivíduo se relaciona com o ambiente: (i) a adaptação, (ii) a seleção e (iii) a configuração.
No que diz respeito à adaptação ao meio, as visões tradicionais de inteligência sempre salientaram este atributo, no entanto, hoje o que é considerado adaptativo varia de um contexto cultural para outro. Por outro lado, pode haver ocasiões em que seja desajustado ajustar-se ao ambiente existente e se torne necessário uma outra forma de lidar com o meio, quer selecionando um novo ambiente (seleção do meio), quer reorganizando o nosso ambiente (configuração) (Sternberg, 1988).
A configuração é definida como uma “tática” que o indivíduo usa quando as suas tentativas de adaptação a um determinado meio resultam em fracasso ou quando selecionar um novo contexto constitui-se uma tarefa impossível, inadmissível ou prematura.
De acordo com Sternberg (1988), as pessoas bem-sucedidas, não se limitam a adaptar-se ao seu ambiente, mas além disso, introduzem mudanças no próprio contexto, a fim de maximizar ou
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capitalizar a sua adaptação àquele e compensar as suas fragilidades ou fraquezas. É desta forma que o autor incorre na exploração da inteligência de sucesso (Sternberg, 2005, 2012).
A inteligência de sucesso é definida por Sternberg (2005) em função do equilíbrio dos seus três aspectos constituintes: o analítico, o criativo e o prático. O autor apelida-os de “chaves” para o sucesso, tomando (i) a inteligência analítica como a chave para resolver problemas e para julgar a qualidade das ideias, (ii) a inteligência criativa como a chave para descobrir bons problemas e ideias originais, e (iii) a inteligência prática como a chave para saber usar as ideias de uma forma efetiva no nosso quotidiano. Para o autor, as pessoas com inteligência de sucesso não são necessariamente as que têm maior grau de inteligência em qualquer um dos três aspetos, mas as que são capazes de tirar partido dos seus pontos fortes, de compensar os seus pontos fracos, e de utilizar ao máximo as suas aptidões, requerendo num todo harmonioso as inteligências analítica, criativa e prática. Ou seja, mais importante do que possuir estes três aspetos, é saber quando e como usá-los.
Em suma, para este autor, a inteligência não é uma soma de habilidades mas uma gestão equilibrada, flexível e ajustada de diferentes habilidades, ou como ele diz: “a inteligência é, em primeiro lugar, uma questão não de quantidade mas sim de equilíbrio” (Sternberg, 2005, p. 55).
Enquanto a visão convencional refere-se à inteligência enquanto um atributo relativamente estável dos indivíduos, que se desenvolve na interação entre a hereditariedade e o ambiente, privilegiando as capacidades de abstração e as verbais (Sternberg, 1988), a visão alternativa propõe a inteligência como um processo progressivo de aquisição e consolidação de um conjunto de habilidades necessárias para um alto nível de mestria em um ou mais domínios de desempenho na vida (Sternberg, 2005). É neste sentido que as capacidades analíticas, criativas e práticas são consideradas como formas de proficiência. Porém, os testes tradicionais de inteligência são acusados de privilegiar as capacidades analíticas, podendo, injustamente, criar desvantagens para indivíduos cujas aptidões se prendem mais com a inteligência criativa e/ou inteligência prática.
A expansão do alcance da proficiência avaliada decorre precisamente da constatação de que “os testes de inteligência convencional são vistos como medidas de apenas uma pequena parte da inteligência, não como medidas da sua maior parte ou mesmo da sua totalidade; eles prestam uma atenção especial à inteligência académica inerte e não à inteligência de sucesso ativa” (Sternberg, 2005, p. 55). Deste modo, o autor apela não só à necessidade de medir as aptidões analíticas de uma forma mais extensa, mas também à premência de se criar testes de inteligência que avaliem igualmente as aptidões criativa e prática, fundamentais para resolver problemas para os quais as soluções não estão nem prontamente disponíveis nem deriváveis de conhecimento adquirido, dito eminentemente académico.
Abordagens da Inteligência
O Triarchic Abilities Test (Sternberg, 1991) visa precisamente avaliar esta inteligência de sucesso, que se traduz, grosso modo, na capacidade de aplicar o conhecimento em problemas de relevância prática. Este teste combina, então, os três aspetos ou domínios (analítico, criativo e prático) e três formas de informação (verbal, quantitativa e figurativa). No domínio analítico, os sujeitos são confrontados com palavras, cujo significado têm que adivinhar, através dos contextos naturais em que se integram. No domínio criativo, os sujeitos trabalham com novas operações numéricas, que nunca haviam utilizado, e com analogias verbais que incluem premissas hipotéticas. No domínio prático, os sujeitos têm que usar mapas para planear rotas e horários, para calcular tempos e distâncias, tal como fariam no dia-a-dia.
Esta nova conceção de inteligência apresenta-se, portanto, menos exclusiva e bastante mais democrática, com um grau superior de aplicação ao mundo real (Sternberg, 2005, 2012).
Numa tentativa de conciliar os dados das atuais investigações que apontam a existência de mais do que uma inteligência, Sternberg (1988) introduz a noção de conhecimento tácito, para designar tudo o que aprendemos de modo informal, não deliberado, na escola ou fora dela. Segundo este autor, existem três categorias de conhecimento tácito: gerir-se a si próprio, gerir os outros e gerir
tarefas, o que cobre a inteligência emocional, a inteligência social e a inteligência prática. A vantagem
de estabelecer as relações entre a inteligência emocional, social e prática e de integrá-las num único modelo é evitar a proliferação de inteligências, já que o aparecimento de muitas inteligências pode acarretar algum descrédito científico neste campo (Hedlund & Sternberg, 2001).
Em síntese, a teoria triárquica da inteligência constitui para muitos uma nova e vasta teoria da inteligência mas, como todas as novas teorias da inteligência, necessita de maior articulação e integração (Almeida et al., 2009). Ainda que sujeita a algumas críticas, a teoria de Sternberg apresenta a grande virtude de apresentar uma conceção da inteligência onde múltiplos aspetos, que nem sempre surgiam interligados, aparecem agora integrados num todo coerente, conciliando diferentes perspetivas da inteligência.