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Venho de uma pessoa admirável por suas escolhas, pela sua brilhante escolha e inteligência sem escolaridade. Venho de uma Maria. Venho de lugares e das pessoas que me ensinam, que trocam comigo.

Feliciano Marques12

Em consonância ao pensamento exposto até o presente momento, emerge o conceito de imanência (op. cit.), esse que foi um dos primeiros indutores ao desdobramento teórico e prático ao qual esta dissertação faz referência.

Antes mesmo de apresentar, sinteticamente, o pensamento do autor acerca do que seja a imanência, vejamo-la sob a constituição etimológica da palavra, a qual já aponta alguns caminhos para esta reflexão.

Etimologicamente e segundo sua acepção primitiva, imanente e imanência designam: de um ponto de vista estático, o que reside em algum sujeito de uma forma permanente e integral; de um ponto de vista dinâmico, o que procede de um

ser como expressão do ele traz essencialmente em si; e, ao mesmo tempo, aquilo que regressa e se incorpora neste ser, como a satisfação de uma necessidade infundida, como a resposta esperada ou procurada a um apelo interior, como o completo de um dom inicial e estimulante. É, pois, o oposto daquilo que é acidental e extrínseco, transitório e transitivo, simplesmente exterior ou definitivamente exteriorizado (LALANDE apud SANTOS, 2009, p. 210).

Seguindo a mesma lógica da consideração supracitada, segue-se a abordagem Deleuziana concernente ao assunto. Segundo o autor, a noção de imanência é entendida como a própria vida, sendo esta um elemento independente de qualquer outra coisa. Em suas palavras,

Uma vida é a imanência da imanência, a imanência absoluta: ela é potência e beatitude completas. [...] Uma vida está por todos os lugares, por todos os momentos que atravessam este ou aquele sujeito vividos: vida imanente trazendo acontecimentos ou singularidades que apenas se atualizam nos sujeitos e nos objetos. Essa vida indefinida não tem, ela mesma, momentos [...] mas apenas entretempos, entremomentos [...]. Uma vida contém apenas virtuais13. Ela é feita de virtualidades, acontecimentos, singularidades. Isso que se chama de virtual não é algo a que falta realidade, mas que se engaja num processo de atualização seguindo o plano que lhe dá sua realidade própria. O acontecimento imanente se atualiza num estado de coisas e num estado que faz com que ele ocorra (DELEUZE, 1995, p. 2)

Para Deleuze, a imanência encontra-se em um plano, assim denominado plano de imanência14, o qual conecta todas as coisas vivas e que por este motivo não está contido dentro de um corpo, aprisionada ou em função de um objeto, relacionado aos seres vivos, cortando-as, atravessando-as, tornando-as simples e absolutamente, imanência.

Como uma força, a imanência, neste sentido, está em constante relação com os corpos, refletindo nos mesmos nada mais que estados de vida. Esta afirmação corrobora com o pensamento acerca do corpo visto anteriormente na medida em que a imanência enquanto vida também afeta e interfere o estado de transitoriedade de todo e qualquer corpo existente na natureza.

Se a imanência em seu sentido mais puro refere-se à vida, pode-se pensar, em inferência, que o próprio corpo humano, a partir de Espinosa, é ele próprio imanência. Assim, a imanência, na qualidade de ser uma vida e nada mais, atravessa o sujeito vivido. Podemos

13 “O virtual não se opõe ao real, mas apenas ao atual. O virtual possui uma realidade plena enquanto virtual... O virtual deve inclusive ser definido como uma estrita parte do objeto real – como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual, e aí mergulhasse como em uma dimensão objetiva” (O vocabulário de Deleuze, 2009, p. 117).

14 “[...] um plano de imanência não dispõe de uma dimensão suplementar: o processo de composição deve ser captado por si mesmo, mediante aquilo que ele dá, naquilo que ele dá. É um plano de composição, e não de organização nem de desenvolvimento. [...] Não há mais formas, apenas relações de velocidade entre partículas ínfimas de uma matéria não formada. Não há mais sujeito, mas apenas estados afetivos individuantes da força anônima. Aqui, o plano só retém movimentos e repouso, cargas dinâmicas afetivas: o plano será percebido como aquilo que ele nos faz perceber, passo a passo” (DELEUZE, 2002, p. 133).

dizer, então, que o corpo ao ser atravessado de imanência, por sua capacidade de afetar e ser afetado, também afeta outros corpos segundo a própria “vida” singular que nele se atualiza a partir de seus componentes virtuais.

Entender a imanência como vida, e não como algo para além da vida, permite uma compreensão da vida como algo presente, como um estado, um instante, assim como se entende o corpo partindo da sua abordagem conceitual na contemporaneidade. Logo, a imanência reflete um estado de ser do próprio corpo, ou, para assumir de fato o pensamento de Deleuze, a imanência em si, já é o corpo aqui e agora (MENDES, op. cit., p. 113).

O trato do corpo como imanência é um pensamento que faz parte do objeto de investigação de Mendes, principalmente por suas constantes aplicações desta referência como lente para desdobramentos e diálogos em sua prática com a CMD.

Acerca da utilização da perspectiva Deleuziana como lente para estudos na área da Dança a autora nos diz

No que se refere ao humano, entretanto, acredito ser possível adotar a imanência e o plano de imanência como lente para observar o corpo que dança. Percebe-se, assim, estreita semelhança com os modos de organização existentes entre o dançarino e sua biografia, considerando nesta biografia suas referências genéticas e culturais, isto é, imanências participativas da teia da vida, as quais se misturam, interagem e se reconfiguram no ato da criação artística (op. cit. 2010b, p. 2-3).

O corpo sendo imanência (diferentemente de contendo a imanência) corrobora com o pensamento que o qualifica sob o viés da transitoriedade, da incompletude, pois a imanência enquanto vida só se define por ser constituída de forças que se atualizam nos acontecimentos, singularidades.

Nesse sentido, o que temos visto até então é o corpo também sendo ele próprio agente, e por sua vez gerador de forças e afetos, assim como a imanência. Indo ao encontro do pensamento de Mendes, proponho, resguardadas as diferenças conceituais entre ambas as proposições (corpo e imanência) expostas até então, a aproximação filosófica dessas noções para fins de reflexão e análise do corpo que dança como sendo este devir da imanência, cujo estado encontra-se eminentemente implicado numa construção caótica de múltiplas forças e agenciamentos que fazem de seu estado um constante devir.

Não se trata de localizar, com o uso deste conceito-lente, o lugar do corpo no plano de imanência, ou de dizer que o corpo é o centro do plano de imanência, mas de pensar o próprio corpo como um plano de imanências que se cruzam, se encontram, se atravessam e, assim, constituem o corpo dançante (id., ibid.b, p. 3).

Entende-se, assim, que a imanência, na qualidade de ser uma vida e nada mais, encontra-se implicada em nosso ser/estar no mundo. E o corpo que dança pode ser entendido também desta maneira, dado o seu constante estado de transitoriedade, justamente pelo aspecto que ressalta os movimentos de forças, as quais revolvem alterações de acordo com os modos dos agenciamentos das relações sofridas e causadas.

Gil também remonta ao conceito de imanência para entender o movimento na dança. Reportando-se ao trabalho de pesquisa de Cunningham o autor afirma que

Dançar é criar a imanência graças aos movimentos: é por isso que não há sentido fora do plano, fora da ação do bailarino. Como realizar certa coreografia, como transformar certa coreografia em movimentos dançados, como fazer surgir certa emoção expressiva num movimento? Em todos os caso é Cunningham quem tem razão: “basta simplesmente aderir-lhe e fazê-lo”. Porque só o gesto dançado dá o sentido; a emoção nasce do movimento, e não o contrário. Cunningham quer a imanência: para ele, o sentido não é transcendente ao movimento e à vida. O sentido do movimento é próprio movimento do sentido. É por isso que, como ele afirma: “de qualquer maneira, todo o movimento é por si só expressivo” (2001, p. 53).

Vale ressaltar que as compreensões de corpo e imanência expostas pela perspectiva de Espinosa e Deleuze, respectivamente, vão muito além dos apresentados nestas linhas. Acredito poder futuramente estabelecer outros vieses de discussão e apontar novas considerações da relação destes pensamentos com relação ao corpo que dança, mais especificamente sob a perspectiva do trabalho desenvolvido com a CMD.

Por ora, compreendo que meu objetivo se vale de utilizar tais filosofias acerca do corpo e da vida como lente condutora para compreender o corpo que dança. Sendo assim, torna-se essencial observar os desdobramentos que se seguem sob a perspectiva do trinômio corpo-imanência-dança, respeitadas as singularidades conceituais concernentes a cada um dos componentes dessa tríade. Sua aplicação tem sido investida como parte da construção da poética da Dança Imanente, a qual vem percorrendo um caminho bastante próximo a este trinômio-conceitual, e que junto às noções de organicidade e de técnica apresentadas mais à frente constituem fundamento das experimentações desenvolvidas durante a pesquisa.