1.3 Probl´ematique de la th`ese
2.1.1 La non-Gaussianit´e
Conforme vimos previamente, a Revolução Industrial gerou grandes desigualdades sociais e econômicas especialmente em relação à classe trabalhadora, o que deu origem aos movimentos trabalhistas. Nesse contexto emergiu a fase social do Estado Constitucional e o direito ao trabalho, em razão do princípio da dignidade da pessoa humana, foi reconhecido como um valor fundamental social a ser garantido e concretizado, conforme se constata nos arts. 1º, 58.º e alínea “b” do nr.º 1 do art. 59.º da CRP e arts. 1º, III, 6.º e 7.º da CRFB. Assim, surgiram os estatutos jurídicos do capital e do trabalho, ou seja, o Direito Econômico e o Direito do Trabalho com uma relação de interdependência, “principalmente nos dias atuais, a interpenetração reciproca é indissociável, projetando-se sobre as duas vertentes básicas da intervenção e, sobretudo, da relação entre o Estado e a Economia, tendo como instrumento o Direito”331. A partir daí, extrai-se o termo “constituição econômica em sentido restrito”332.
330 Ac. do Tribunal Central Administrativo Sul proferido no processo n.o 04255/10, acessado 16 de maio de
2017. Disponível em dgsi.pt
331 Pereira e Jucá, “Economia, Constituição e Estado”, 32.
332 “Utilizaremos aqui o termo constituição económica no seu sentido restrito, ou seja, conjunto de
disposições constitucionais – regras e princípios – que dizem respeito à conformação da ordem fundamental da economia. A Constituição, em estreita conexão com o princípio democrático (nas suas dimensões, política e económica), consagrou uma ‘constituição económica’ que, embora, não reproduza uma ‘ordem económica’ ou um ‘sistema económico’ ‘abstrato’ e ‘puro’, é fundamentalmente caracterizada pela ideia de democratização económica e social. Neste contexto, o âmbito de liberdade de conformação política e legislativa aparece restringido directamente pela Constituição: a política econômica e social a concretizar pelo legislador deve assumir-se política de concretização dos princípios constitucionais e não uma política totalmente livre, a coberto de uma hipotética ‘neutralidade económica’ da Constituição ou de um pretenso mandato democrático da maioria parlamentar. Por outras palavras: o princípio da democracia social e económica, quer na sua configuração geral, quer nas concretizações concretas, disseminadas ao longo da Constituição, constitui um limite e um impulso para o legislador. Como limite, o legislador não pode executar
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O art.170 da CRFB impõe a valorização do trabalho humano e da livre iniciativa a fim de assegurar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social, mediante a observação dos princípios ali dispostos333. A Constituição portuguesa (arts. 59.º, 61.º e 80.º) também reconhece o trabalho e a liberdade de iniciativa, tendo em conta o interesse geral, como valores fundamentais a serem garantidos e concretizados, fundamentados na dignidade da pessoa humana, o que demonstra o “caráter social do Estado Português”334.
A livre iniciativa tem como seus titulares, a empresa e o trabalho, o que caracteriza a liberdade de empresa e a liberdade do trabalho335. Essas liberdades não devem ser compreendidas em sentido amplo, haja vista que toda liberdade é condicionada pela ordem jurídica, inclusive é ela que lhe define e garante seu exercício (arts. 47.º 58.º 61.º e
uma política económica e social de sinal contrário ao imposto pelas normas constitucionais; como impulso, o princípio da
democracia económica e social exige positivamente ao legislador (e aos outros órgãos concretizadores) a prossecução de uma política em conformidade com as normas concretamente impositivas da Constituição. Esta política, como demonstra J. Rawls, tanto pode ser de cariz liberal-social (não socialista) como de natureza social-democrata (como alguns acenos socializantes), desde que se proponha satisfazer as expectativas dos menos favorecidos em condições de uma justa igualdade de oportunidades”. Canotilho, Direito constitucional e teoria da constituição, 345/346.
333“Todo esse conjunto de princípios, portanto, há de ser ponderado, na sua globalidade, se pretendemos
discernir, no texto constitucional, a definição de um sistema e de um modelo econômicos. A Constituição não é um mero agregado de normas; e nem se a pode interpretar em tiras, aos pedaços. [...] Atingido, porém este ponto de minha exposição, devo salientar aspecto de extrema importância, em vista do que me permito referir a circunstância de o Direito ser prescritivo. O Direito não descreve situações ou fatos senão para a eles atribuir consequências jurídicas. Por isso o texto do art.170 não afirma que a ordem econômica está fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa e tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, senão que ela deva estar vale dizer, tem de necessariamente estar – fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, e deve ter – valer dizer, tem de necessariamente ter - por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social. A perfeita compreensão dessa obviedade é essencial, na medida em que informará a plena compreensão de que qualquer prática econômica (mundo do ser) incompatível com a valorização do trabalho humano e com a livre iniciativa, ou que conflite com a existência digna de todos, conforme os ditames da justiça social, será adversa à ordem constitucional. Será, pois, institucionalmente inconstitucional. Desde a compreensão desse aspecto poderão ser construídos novos padrões não somente de controle de constitucionalidade, mas em especial, novos e mais sólidos espaços de constitucionalidade. A amplitude dos preceitos constitucionais abrange não apenas normas jurídicas, mas também condutas. Daí por que desejo afirmar, vigorosamente, serem constitucionais inadmissíveis não somente normas com ele incompatíveis, mais ainda quaisquer condutas adversas ao disposto no art.170 da Constituição”. Grau, A ordem econômica na Constituição de 1988: (interpretação e crítica), 190/191.
334 “O desenvolvimento do caráter social do Estado Português alinha-se, depois por aquilo que se prescreve
na Parte I e na Parte II da CRP: Na Parte I, o princípio social concretiza-se nos designados direitos fundamentais económicos, sociais e culturais; na Parte II, o princípio social afirma-se em múltiplas disposições e princípios que limitam a iniciativa e a propriedade privadas, para além da conceção intervencionista do Estado na economia, bem como a dimensão distributiva da fiscalidade”. Gouveia, Manual de Direito Constitucional: II - direito constitucional português (parte especial), princípios, direitos fundamentais, organização económica e política, garantia e revisão da Constituição, II:1038.
335 “Importa deixar bem vincado que a livre iniciativa é expressão de liberdade titulada não apenas pela
empresa, mas também pelo trabalho. A Constituição, ao contemplar a livre iniciativa, a ela só opõe, ainda, que não a exclua, a ‘iniciativa do Estado’; não a privilegia, assim, como bem pertinente apenas à empresa. É que a livre iniciativa é um modo de expressão do trabalho e, por isso mesmo, corolária da valorização do trabalho, livre - como observa Miguel Reale Junior - em uma sociedade livre e pluralista. Daí por que o art.1º, IV, do texto constitucional - de um lado - enuncia como fundamento da República Federativa do Brasil o valor social e não as virtualidades individuais da livre iniciativa e - de outro - o seu art.170, caput, coloca lado a lado trabalho humano e livre iniciativa, curando, contudo, no sentido de que o primeiro seja valorizado”. Grau, A ordem econômica na Constituição de 1988: (interpretação e crítica), 201.
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80.º da CRP e arts. 5.º, 170 e ss. da CRFB)336. Nesse sentido, trazemos à colação as considerações de Eros Roberto Grau.
“O princípio da liberdade de iniciativa econômica – originariamente postulado no édito de Turgot, de 9 de fevereiro de 1776 – inscreve-se plenamente no decreto d’Allarde, de 2-17 de março de 1791, cujo art.7.º determinava que, a partir de 1.º de abril daquele ano, seria livre a qualquer pessoa a realização de qualquer negócio ou exercício de qualquer profissão, arte ou ofício que lhe aprouvesse, sendo contudo ela obrigada a se munir previamente de uma ‘patente’ (imposto direto), a pagar as taxas exigíveis e a se sujeitar aos regulamentos de polícia aplicáveis.
Meses após, na chamada Lei Le Chapelier – Decreto 14-17 de junho de 1791 -, que proíbe todas as espécies de corporações, o princípio é reiterado.
Vê-se para logo, nestas condições, que no princípio, nem mesmo em sua origem, se consagrava a liberdade absoluta de iniciativa econômica. Vale dizer: a visão de um Estado inteiramente omisso, no liberalismo, em relação à iniciativa econômica privada, é a expressão pura e exclusiva de um tipo ideal. Pois medidas de polícia já eram, neste estágio, quando do princípio tinha o sentido de assegurar a defesa dos agentes econômicos contra o Estado e contra as corporações, a eles impostas.
Em sua raiz, o princípio era expressão de uma garantia de legalidade, o que torna bem explícita a correção da observação de Galgano, nos termos da qual o conceito de Estado de Direito exprime, em relação ao burguês singelamente, aquela mesma exigência – de um limite à ação pública, para salvaguarda da iniciativa privada – que o conceito de Estado liberal exprime em relação à burguesia no seu todo”337.
A União Europeia também garante as liberdades econômicas fundamentais, de acordo com o TFUE: livre circulação de mercadorias (art. 28.º) trabalhadores (art. 45.º) e capitais (art. 63.º), bem como liberdade de estabelecimento (art. 49.º), prestação de serviços (art. 56.º). Assim, essas liberdades deverão ser consideradas na hipótese de planejamento tributário internacional, caso envolvam os países membros da União Europeia. Além do mais, ressaltamos que as referidas liberdades não devem ser vistas
336 “Entre nós, no plano da Constituição de 1988, a liberdade é consagrada, principiologicamente, como
fundamento da República Federativa do Brasil e como fundamento da ordem econômica. Ao princípio da concreção a própria Constituição, nas regras (normas inscritas, v.g., nos seus arts. 5º - incisos II, VI, IX, XIII, XIV, XV, XVI, XVII, XX – e 206, II. Vê-se para logo, destarte, que se não pode reduzir a livre iniciativa, a qual consagrada no art.1.º, IV, do texto constitucional, meramente à feição que assume como liberdade econômica ou liberdade de iniciativa econômica. Dir-se-á, contudo, que o princípio, enquanto fundamento da ordem econômica, a tanto se reduz. Aqui também, no entanto, isso não ocorre. Ou – dizendo-o de modo preciso -: livre iniciativa não se resume, aí a ‘princípio básico do liberalismo econômico’ ou a ‘liberdade de desenvolvimento da empresa’ apenas – à liberdade única do comércio, pois. Em outros termos: não se pode visualizar no princípio tão somente uma afirmação do capitalismo”. Grau, 197/198.
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também em sentido amplo, haja vista as “restrições no domínio da tributação direta” existentes, de acordo com TJUE338.
A liberdade de concorrência e a livre iniciativa (trabalho e empresa) são vetores importantes nas relações econômicas do sistema capitalista. Em razão da dinâmica e da complexidade dessas relações, surgiram as naturais desigualdades econômicas entre os seus agentes, toleráveis até o ponto em que não comprometam ou coloquem em perigo “o equilíbrio geral da ordem social estabelecida"339. Em razão disso, impõe-se a necessidade de regulação pública, a fim de garantir que a liberdade de concorrência e a livre iniciativa (trabalho e empresa) atuem de forma a não ultrapassar o referido ponto, bem como assegurar “o funcionamento do próprio mercado, mas também para fazer valer os interesses públicos e sociais relevantes que só por si o mercado não garante”340.
A livre concorrência deve cumprir a sua função básica de acordo com as “leis do mercado” e seu exercício deve ser de tal forma que não haja abuso do poder econômico que vise à dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros, conforme dispõe o art.173, §4.º da CRFB. Assim também, a alínea “f” do art.81.º da CRP: assegurar o funcionamento eficiente dos mercados de modo a garantir a equilibrada concorrência entre as empresas, a contrariar as formas de organização monopolistas e a reprimir os abusos de posição dominante e de outras práticas lesivas ao interesse geral.
É bem verdade que nos últimos vinte anos houve uma valorização da economia de mercado, mas isso não quer dizer que o Estado deixou de regular a economia, ou seja, houve “o regresso ao ‘laissez-faire’ e ao antigo capitalismo liberal”, ao contrário, a atividade reguladora do Estado continua imprescindível por algumas razões341/342. Nessa
338 “O TJ fornece explicitamente bases que podem ser utilizadas para justificar regras internas
discriminatórias. Temos em mente não só as matérias de natureza política, como as relativas à segurança e saúde públicas. Contudo, estas matérias não têm sido invocadas para justificar discriminações ao nível da tributação direta. O contexto no qual se encontram as justificações tem, na verdade, sido outro. Recordamos que, para além das matérias referidas, o TJ afirmou, a partir do caso Cassis de Dijon, que uma violação das liberdades fundamentais poderia ser também justificada com base no interesse público (‘razões imperiosas de interesse geral’). É precisamente através da consideração desta base que se têm justificado algumas restrições no domínio da tributação direta, normalmente chamadas sugestivamente como designações fora do catálogo. As justificações invocadas nesse contexto são normalmente (i) a coerência dos sistemas fiscais, (ii) a territorialidade, (iii) a ideia de antiabuso, e (iv) a eficácia da supervisão fiscal”. João Sérgio Ribeiro, “A Coerência como principal causa de justificação das restrições às liberdades de circulação: tributação direta”, in Estudos de Direito Fiscal da União Europeia, 3o ed (Braga: Elsa Uminho, 2017), 78/79.
339 Cfr. nota 136
340 Marques e Moreira, “Economia de mercado e regulação”, 15. 341 Marques e Moreira, 13.
342Maria Manuel Leitão Marques e Vital Moreiracitam as seguintes razões:“A primeira razão da regulação
está ligada à própria garantia dos mecanismos do mercado e da concorrência. Deixado a si mesmo o mercado pode ser suicidário. Importa, portanto, regular o mercado para garantir a concorrência. As leis de defesa da concorrência
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nova perspectiva, o Estado atuará precipuamente como um agente normativo e regulador da atividade econômica, conforme podemos constatar no caput do art. 174 da CRFB (o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado) e alínea “f” do art. 81.º da CRP.
A União Europeia, também, tratou da referida matéria, conforme se pode constatar pelo art.101.º do TFUE: São incompatíveis com o mercado interno e proibidos todos os acordos entre empresas, todas as decisões de associações de empresas e todas as práticas concertadas que sejam suscetíveis de afetar o comércio entre os Estados-Membros e que tenham por objetivo ou impedir, restringir ou falsear a concorrência no mercado interno [..].
Nesse contexto, os comportamentos dos sujeitos passivos tributários dirigidos no sentido de economia ou vantagem fiscais que levem a distorções de concorrências não devem ser tolerados e muitos menos compreendidos como planejamento tributário.
Por outro lado, o Estado não deve impor comportamentos no âmbito tributário que gerem possíveis distorções de concorrência ou na liberdade do exercício de profissão. Pensem, por exemplo, na já mencionada delegação de funções administrativas eminentemente afetas à Administração tributária a terceiros (“hiperburocratização” ou “desadministrativização”)343. Vejamos as considerações de Joaquim Freitas da Rocha e Hugo Flores da Silva a respeito da referida situação:
“Por outro lado, também a liberdade de exercício de profissão (art.º 47.º da CRP) pode ser colocada em crise, na medida que as normas constitucionais que a preveem projetam em matéria tributária a exigência de que os regimes jurídicos não
(‘antitrust’, anticartel) e os mecanismos dedicados a implementá-las fazem hoje parte imprescindível da panóplia
regulatória de qualquer economia de mercado. A segunda razão está ligada aos limites e ‘falhas’ do mercado, isto é, às situações em que o mercado não pode normalmente funcionar. É o caso dos ‘monopólios naturais’, em que, por razões de racionalidade económica e ambiental, não se pode estabelecer concorrência entre uma pluralidade de operadores, tendo de aceitar-se único operador. Tal sucede nomeadamente no caso das chamadas indústrias de rede, como as redes de transporte e distribuição de electricidade, de gás, de água, de efluentes líquidos, etc. A terceira razão deriva das ‘externalidades negativas’ do funcionamento da economia, quando movida pela procura do lucro, com é próprio da economia de mercado, assente na propriedade e na iniciativa privada. Entre elas contam-se os custos sociais associados aos danos ambientais, os prejuízos para saúde pública, os riscos para a segurança colectiva, etc. A quarta razão decorre da necessidade de proteger os consumidores na sua relação de ‘troca desigual’ com os produtores e distribuidores, sobretudo nos casos de ‘assimetria de informação’. Trata-se de garantir, por exemplo, uma informação fiável e adequada sobre os produtos e serviços postos no mercado, de garantir o direito de todos à segurança e à saúde individual, de assegurar um direito à reparação de danos, etc. Uma quinta razão visa garantir as obrigações de serviço público, que se devem manter depois da privatização e liberalização das empresas públicas e o afastamento dos antigos mecanismos do exclusivo público e, que eram inerentes à antiga responsabilidade directa do Estado pelos serviços públicos (telecomunicações, electricidade, água, etc.” Marques e Moreira, 13/14.
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impliquem distorções das livres escolhas nem introduzam distinções de tratamento que se transformem a prazo em desincentivos profissionais. Ora, é o que pode suceder no caso, pois a oneração de uma concreta profissão com deveres e obrigações que não se relacionam diretamente com o respectivo exercício, mas antes com a situação tributária e/ou eventualmente infratora de um terceiro, será desigualitária e impeditiva da livre escolha e exercício da mesma”344.