Ao ingressar na escola pública russa, Makarenko travava contato com disciplinas inéditas, descobertas e dificuldades e, ao mesmo tempo, reproduzia “hábitos, valores e tradições de submissão”. No excerto posterior indica-se que, a partir da relação inicial com a cultura escolar universal, Makarenko se apropria de elementos suficientes ao posicionamento crítico e passa a movimentar-se sozinho em busca de objetivações genéricas mais elevadas.
Para Luedemann (2002, p. 53), Anton,
Queria saber tudo, mas tinha especial interesse pelos mistérios da astronomia, para muito além do que os seus olhos poderiam ver. Depois aprendeu a questionar a natureza e a sociedade com auxílio dos estudos filosóficos. Da filosofia grega clássica aos filósofos da modernidade, Anton bebeu em muitas fontes. Mas sua verdadeira paixão ainda era a literatura [...].
Inicialmente lia qualquer romance ou poesia que lhe caísse nas mãos, mas tendo já a curiosidade saciada, com mais calma, aprendeu a ser mais exigente, a escolher o que deveria ser saboreado aos poucos. E seu cardápio tornou-se mais refinado. Anton havia descoberto a alta literatura, os chamados clássicos. Entre os ucranianos descobriu Skovoroda104, Chachkevitch105,
Gholovatski, Franko106, Tchevtchenko107 e Gogol108. Entre os
russos Pushkin109, Tchekhov110 e, mais tarde Gorki. E entre os
estrangeiros, Walter Scott111, Victor Hugo112 e Sienkiwicz113.
104 Hryhorii Savych Skovoroda (1722-1794), filósofo, poeta ucraniano, produziu importantes
contribuições à filosofia russa.
105
Chachkevitch, poeta ucraniano.
106 Ivan Franko (1856-1916), escritor, poeta, crítico literário, doutor em filosofia, ativista político,
fundador do movimento socialista e nacionalista do oeste ucraniano.
107 Taras Tchevtchenko (1814-1861), órfão ucraniano, tornou-se propriedade servil de um aristocrata
russo, liberto por um pintor e professor russo, foi aceito para estudar na Academia de Artes, tornou-se pintor, poeta e humanista. Fundador da literatura moderna ucraniana
108 Nikolai Vasilievich Gogol (1809-1852), escritor russo de origem ucraniana, sofreu grande
influência de Puchkin.
109 Alexandre Sergueievitch Pushkin (1799-1837), um dos maiores poetas russos, pioneiro no uso da
língua coloquial em poemas, peças, criando um estilo narrativo.
110 Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904), médico, dramaturgo e escritor russo. 111 Walter Scott (1771-1832), romancista escocês, tido como criador do romance histórico.
Do excerto anterior, salienta-se a explicitação do quanto a relação de Makarenko com o lastro humano-genérico, acumulado no conjunto das objetivações literárias, se constituiu como decisiva e, determinante, na direção de um processo de formação de sua individualidade, que avançava para além das imediatas condições da particularidade operária. Luedemann (2002, p. 54-55) comunica que:
Aos 12 anos, Anton perdia a comunidade operária de sua primeira infância, mas ganhava um novo mundo cultural e social mais avançado. [...] Com muito custo conseguia economizar e juntar oitenta e cinco copeques para assistir a uma peça de teatro.
A leitura de obras literárias do naturalismo e do realismo apresentou para Anton um cenário desolador da vida da nobreza decadente, dos burocratas do Estado tsarista, dos pequenos burgueses acomodados e da grande burguesia ambiciosa. Prestava atenção aos escritores que foram perseguidos pelo Estado tsarista, como Pushkin, e seu seguidor Gogol, que denunciou com todas as forças o desumano sistema capitalista e seu aparato burocrático. Com Tchekhov, aprendeu a chorar as tragédias de seu povo.
Depreende-se, desta comunicação de Luedemann, o efetivo movimento de retorno da arte à vida. Especificamente, neste caso, da literatura à vida. Observe-se que a autora, ao registrar a apropriação, por Makarenko, de determinado conteúdo literário de Tchekhov afirma-o como objetivação que apresenta um cenário, que condensava experiência sócio-histórica desoladora, no que diz respeito à acomodação e à ambição da vida da nobreza, dos pequenos e grandes burgueses. E, a autora finda por afirmar a potência educativa do conteúdo estético-literário, para além da erudição, para além da apropriação do conteúdo em-si. E, neste estudo, comunica-se isto, porquanto se considere como base favorável, a afirmação feita a partir do registro de uma reação vital primária (ligada ao círculo econômico dos objetos), ou seja, que Makarenko, com Tchekhov, chorou os sofrimentos de seu povo.
Oportunamente, reitera-se, a partir de Frederico (1997, p.62-63), o conjunto de considerações acerca da peculiar visão de Lukács sobre o embate contraditório
112 Victor-Marie Hugo (1802-1885), poeta, dramaturgo, ensaísta, estadista francês, também, ativista
pelos direitos humanos.
113 Henrik Adam Aleksander Pius Oszyk-Sienkiwicz (1846-1916), escritor polaco, prêmio Nobel de
que se consolida, ao longo de séculos, entre a arte, a ciência e a religião. E, de modo mais específico, chama-se à atenção a denominada “cobrança” que a arte impõe à consciência do indivíduo que dela frui:
Guardadas suas especificidades, a arte e a ciência são vistas por Lukács, como formas humanas de objetivação em permanente hostilidade contra a religião. [...] Cada avanço da ciência solapa a explicação religiosa e aumenta o domínio humano sobre a realidade [...] [Por sua vez, a] arte [...] obriga o homem a confrontar-se com o gênero, com a espécie humana. Esse confronto também se realiza na ética. O indivíduo, às voltas com os grandes dilemas morais, entende o caráter “exemplar” e generalizante de seu comportamento. A existência do gênero, então, cobra a sua presença de forma imediata na consciência do indivíduo. Na arte, acontece um fenômeno similar expresso pela vivência dessa identificação do homem com seus semelhantes. [acréscimos entre colchetes e, em itálico, meus]. De que cobrança diz Frederico? Daquela similar à que obteve presença, como um tipo de retorno, do conteúdo literário à consciência de Makarenko. Conteúdo que acumulava a objetivação da contradição entre a submissão ao “domínio da cultura do opressor” e o “sonho de emancipação” dos “filhos do povo” ucraniano. E, além disso, ressalta-se que a apropriação do “caráter exemplar generalizante” obteve, de Makakenko, a manifestação, a partir de um tipo de reação
vital primária, do próprio chorar, com Tchekhov, as tragédias do seu povo. Nesta pesquisa, o referido chorar é, também, defendido como momento que resulta da
identificação do indivíduo com o gênero.