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L E MARCHE DES TRIBUTE BANDS

abolindo determinadas taxas.  

    A  noção  de  crédito  desenvolve‐se  muito  em  sede  destas  grandes  feiras,  muitas  vendas  realizavam‐se  a  prazo,  com  títulos  a  serem  resgatados  nas  edições  posteriores  e  muitos  destes títulos passaram a ser comercializados. 

    A partir do século XV, as grandes feiras começam a decair, muito em decorrência do  dispendioso  processo  de  transporte  de  uma  grande  quantidade  de  produtos  apenas  para  fins  de  exposição. 

    Neste período era conturbado o ambiente na Europa, a partir do século XIII, eclodem  diversas  revoltas  campesinas,  especialmente  a  partir  do  momento  em  que  se  apercebem  da  possibilidade da venda dos excedentes que produziam e que cabia a si, proporcionando, ainda que  minimamente, a sua independência dos senhores feudais.  

    Aliado  a  isto,  junte‐se  a  peste  bubônica  de  1348  que  reduziu  drasticamente  a  população européia, escasseando a mão‐de‐obra, reduziu bastante o poder dos senhores que agora  se  viam  reféns  de  seus  vassalos.  É  de  se  mencionar  ainda  a  Guerra  dos  Cem  anos  (1337‐1453)  também teve importância neste panorama. 

    Passada  esta  fase,  já  no  século  XV,  os  senhores  feudais  não  podiam  mais  garantir  proteção a quem se dispusesse a trabalhar em suas terras ou mesmo para a realização das feiras ali  realizadas.  A  demanda  por  segurança,  tanto  da  burguesia  como  da  nobreza  feudal,  convergiu  para  criar, o Estado moderno. 

    O  sistema  econômico  funcional,  seguindo  a  denominação  de  Rezende,  é  diametralmente  oposto  à  intervenção  estatal  na  regulação  da  economia,  em  verdade,  pela  própria  análise  de  suas  características,  vê‐se  que  o  mesmo  (funcionalismo)  surge  como  resposta  natural  à  falência  de  organização  em  Estados  estáveis  que  pudessem  garantir  o  regular  funcionamento  das  atividades econômicas, falência que se viu tanto na Grécia quanto em Roma. 

 

1.1.3.7 A Economia na Modernidade

 

    Como  se  viu,  a  crise  do  século  XIV  assumiu  papel  relevante  na  desestruturação  do  feudalismo  europeu,  transcorridas  as  guerras  e  reduzida  a  incidência  da  peste  bubônica  inicia‐se  o  gradual  processo  de  retorno  aos  centros  urbanos,  a  retomada  do  comércio,  bem  como  o  estabelecimento do equilíbrio entre a cidade e o campo. 

87      A organização dos Estados modernos não se deu de maneira uniforme nos diversos  reinos  europeus,  existiram  instituições  feudais  até  o  século  XVIII,  como  exemplo  a  servidão  russa,  somente  abolida  em  1861.  Determinadas  visões  de  mundo  pautadas  pelo  misticismo  e  religião  permaneceram, ainda, por séculos norteando as práticas individuais e coletivas em diversas regiões  européias. 

    Todavia, por mais díspar que tenha sido este processo, parece não haver dissenso na  determinação  do  século  XV  como  o  marco  inicial  do  mundo  moderno.  Especialmente,  pelo  marco  simbólico  da  queda  de  Constantinopla,  ocorrida  em  1453;  e  pela  intensificação  das  grandes  navegações  e  as  descobertas  decorrentes.  Cumpre  consignar  que  tais  descobertas  tiveram  papel  fundamental para a descentralização do Mar Mediterrâneo. 

    Segundo  Backhouse,  mais  do  que  por  estas  descobertas,  a  transformação  da  sociedade européia continha: 

No  centro  deste  processo  estava  o  florescimento  artístico,  literário  e  cultural ocorrido na Itália e conhecido como Renascimento. Ele jamais teria  sido  possível sem  a  redescoberta  dos  clássicos  gregos  e  latinos.  No  século  XIV,  Petrarca  (1303‐74)  olha  para  os  mil  na  os  precedentes  como  uma  ‘idade  das  trevas’,  em  comparação  com  as  culturas  altamente  desenvolvidas de Grécia e Roma, e iniciou o processo de redescobrimento  da  literatura  antiga  (...)  Petrarca  procurou  aprender  com  o  corpus  inteiro  dos textos clássicos – poesia, história e biografia, além de filosofia e ciência.  A erudição clássica (litterae humaniores) oferecei uma fonte alternativa de  inspiração moral à oferecida pela Igreja.165 

    A  cultura  assume  papel  preponderante  nesta  quebra  de  paradigma,  segundo  o  quanto sobrecitado a redescoberta dos clássicos foi fundamental para a transformação da sociedade  européia.  Como  já  se  viu,  a  instituição  do  feudalismo  representou  um  retrocesso  no  processo  de  desenvolvimento  econômico,  cultural  e  político,  desta  forma  a  retomada  daqueles  valores  tão  desenvolvidos na Antiguidade só se poderia dar com o rompimento do  que se viveu na Idade Média.       Pela  re‐análise  do  quanto  produzido  na  Antiguidade  clássica,  em  especial  as  lições  filosóficas  que  punham  o  homem  como  centro,  cada  vez  mais,  atentava‐se  para  a  possibilidade  de  novas perspectivas para a ciência, rompendo, deste modo, com o marasmo que fora vivido durante  todo o período que se convencionou chamar de “Idade das Trevas”. 

    Nos  séculos  que  se  seguiram,  diversos  avanços  científicos  foram  realizados  em  decorrência  da  retomada  da  literatura  clássica,  especial  destaque  para  Copérnico  e  sua  objeção  à        

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BACKHOUSE, Roger. História da economia mundial. Tradução: Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Estação Liberdade, 2007, p.71-72.

88  cosmologia  geocêntrica,  Galileu  desenvolveu  novos  métodos  de  investigação  e  defendeu  a  uniformidade do movimento dos corpos, Descartes atestava que os corpos celestes eram partículas  que se moviam livremente no espaço infinito, além das leis de movimento produzidas por Newton.      Com  a  criação  dos  exércitos,  fundamento  do  Estado  moderno,  surge  a  necessidade  de  mantê‐los,  criou‐se  para  este  fim  o  que  se  chamava  sistema  centralizado  de  arrecadação  e  organizou‐se  esta  atividade  em  torno  de  um  corpo  de  funcionários  responsáveis  pela  cobrança  destes impostos, pela organização das finanças e fiscalização das operações.  

    Com  a  criação  de  uma  força  militar  permanente  e  com  o  desenvolvimento  deste  sistema  de  arrecadação  centralizado,  além  do  fortalecimento  da  burguesia,  surgem  as  condições  necessárias para que o estado passe a exercer sua autoridade. Tais fatores sustentam as monarquias  nacionais, são as bases de sustentação do Estado moderno.      Os estados modernos surgem com uma gradual concentração de poderes nãos mãos  de pessoa única, o monarca. Valeu‐se, o monarca, desta força militar como seu primeiro instrumento  de legitimação, de modo a promover a ordem interna e garantir a seguranças das terras dominadas,  ao contrário do que se viu na Idade Média.  

    Para  ilustrar,  segundo  as  lições  de  Backhouse,  esses  Estados‐nação  emergentes  tinham  recursos  extremamente  precários  ao  seu  dispor.  Precisavam  formar  exércitos  e  manter  marinhas, mas seu aparato administrativo e seus poderes fiscais eram muito limitados. Manter um  exército  nacional  permanente  estava  além  da  capacidade  econômica  de  qualquer  governo,  e  os  governantes  precisavam  recorrer  a  expedientes  como  empregar  mercenários  estrangeiros.  Os  reis,  mesmo das partes prósperas, sofriam com a falta crônica de dinheiro. Com isto, as pessoas não só  começaram a pensar em termos nacionais, mas a estudar meios para aumentar o poder econômico  das nações.      Com respeito aos meios para aumentar o poder econômico das nações, as grandes  descobertas assumem importância fundamental, mudaram os padrões de comércio até então vividos  e abriram rotas de comércio marítimo de longa distância. Tais eventos proporcionaram um grande  acúmulo  de  ouro  e  prata,  foi  esta  característica  que  marcou  a  primeira  fase  do  mercantilismo,  o  bulionismo. 

    Estes  estoques  de  metais  preciosos,  dada  a  sua  fácil  transformação  em  dinheiro,  eram  demasiado  importantes  para  a  afirmação  do  estado  nacional,  além  da  importância  já  observada, de sua necessidade para manutenção dos exércitos, serviam agora para trazer vantagens  econômicas.  Foram  estas  as  condições  para  o  surgimento  de  um  novo  sistema  econômico,  o  mercantilismo. 

89      O  mercantilismo  vigendo  fim  da  Idade  Média  ao  Iluminismo,  do  século  XV  ao  XVIII,  está  intimamente  ligado  à  ascensão  do  Estado‐nação.  Importa  dizer,  inicialmente,  que  não  está  o  sistema mercantil totalmente desvinculado do pensamento feudal, tendo em vista que: 

Há uma relação de continuidade entre o pensamento social mediterrâneo e  o  mercantilista.  A  intervenção  do  Estado  nos  processos  econômicos  foi  inicialmente  justificada  à  luz  da  noção  medieval  cristã,  segundo  a  qual  aqueles  a  quem  Deus  concedera  poder  tinham  a  obrigação  de  usá‐lo  em  proveito  do  bem‐estar  de  toda  a  sociedade.  No  início  do  processo  de  transição  para  o  capitalismo,  o  Estado  assumiu  parta  das  funções  antes  desempenhadas pela Igreja.166 

    Um  dos  objetivos  principais  do  mercantilismo  era  garantia  uma  balança  comercial  favorável, assegurar que as exportações superassem as importações de modo a permitir o acúmulo  de capitais, característica marcante desta teoria econômica, com respeito ao mercantilismo atestam  Roberson de Oliveira e Adilson Marques Gennari: 

Em  tais  circunstâncias,  essas  determinações  influenciaram  o  pensamento  de inúmeros homens de Estado que assessoravam e aconselhavam as casas  reais européias nas etapas iniciais do processo de centralização, produzindo  uma convergência em torno da idéia metalista ou bulionista. Segundo esta  visão,  o  poder  do  Estado  era  função  direta  da  riqueza  do  reino,  cuja  grandeza  se  definia  pelo  acúmulo  de  metais  preciosos.  Avaliava‐se  que  a  disponibilidade  crescente  de  ouro  e  prata  dotava  as  casas  reais  de  capacidade  para  organizar  mecanismos  abrangentes  e  eficientes  (burocracia,  tropas  mercenárias  etc.)  para  o  exercício  e  a  afirmação  do  poder no plano interno e externo. A identificação dos metais com a riqueza  e  a  constatação  de  que  sua  disponibilidade  no  mercado  europeu  era  fixa  (ou  variava  muito  pouco  no  tempo)  implicavam  na  conclusão  de  que  a  acumulação por parte de uma nação significava uma perda correspondente  para as demais, criado assim uma íntima relação entre os fluxos comerciais  e  monetários  e  as  relações  de  poder  entre  os  Estados.  Em  síntese,  o  acúmulo  de  metais  preciosos  como  objetivo  prioritário  das  monarquias  nacionais contribuía para a potencialização das hostilidades e dos conflitos  comercias entre s Estados emergentes. 

    O  modelo  econômico  mercantilista  foi  pioneiro,  diversamente  do  que  ocorreu  na  Antiguidade  e  na  Idade  Média,  dependia  e  fundamentava‐se  pela  intervenção  do  Estado,  pode‐se  dizer  que  o  mercantilismo  surgiu  de  uma  a  aliança  entre  a  burguesia  e  os  reis,  a  fim  de  unificar  e  desenvolver o poderio nacional, cada qual com suas razões e interesses próprios. 

    Como  se  depreende  do  texto  sobrecitado,  mais  que  a  disputa  entre  os  Estados,  o        

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90  mercantilismo  sustentava‐se,  em  grande  parte,  pelo  colonialismo  (conjunto  de  relações  de  dominação  político‐econômica  entre  as  metrópoles  e  suas  respectivas  colônias).  Tal  dominação,  obviamente só foi possível com as descobertas ultramarinas, neste sentido Rezende: 

A  expansão  ultramarina  que  a  Europa  Ocidental  realizou  durante  o  século  XV permitiu que seu comércio exterior ganhasse uma dimensão realmente  mundial,  com  a  incorporação  de  novas  e  vastas  áreas  a  seu  universo  econômico. Esse universo econômico ampliado caracterizou o que se pode  chamar  de  economia‐mundo,  coordenado  e  controlado  pela  Europa,  para  seu exclusivo benefício. 

[...] 

No  correr  dos  séculos,  essas  áreas  periféricas  tiveram  canalizadas  para  a  Europa  Ocidental  a  riqueza  que  produziram.  E  viram  suas  populações  sujeitas  a  diversos  tipos  de  coação  visando  a  uma  maior  produtividade,  e/ou à adoção de formas de trabalho ou atividades econômicas que melhor  servissem às necessidades da Europa167 

    O mercantilismo, portanto, só foi possível graças ao regime de exploração desmedida  das  colônias  européias,  fontes  primárias  dos  metais  preciosos  que  garantiam  a  balança  comercial  favorável,  propiciando,  inclusive,  o  aumento  da  exportação,  por  meio  da  comercialização  daqueles  produtos obtidos em suas colônias. 

    As  colônias  desempenhavam  um  papel  complementar  da  economia  metropolitana,  além  dos  metais,  qualquer  produto  que  pudesse  ser  vendido  era  extraído  pelas  nações  européias.  Vivia‐se a fase de expansão do regime econômico mercantilista e, conseguintemente, do absolutismo  enquanto regime político de concentração de poder em uma figura única, segundo Rezende: 

Essa denominada fase de expansão do século XVI,  na verdade ocupa  mais  de  um  século,  estendendo‐se  de  1501  a  1620.  Ela  foi  a  continuação  da  expansão européia do século XV, reforçada pelo ingresso maciço de metais  nobres  das  minas  americanas,  e  marcou  a  “idade  do  ouro”  de  Portugal  e  Espanha. 

Essa  fase  de  expansão  foi  também  a  época  do  estabelecimento  da  economia‐mundo, do fortalecimento dos Estados nacionais, do apogeu do  Renascimento, e da Reforma, que mais que os outros fatores foi um claro  divisor de águas, entre um mundo mediterrâneo clássico, e outro atlântico  e moderno.168         167 REZENDE, Cyro. História Econômica Geral. São Paulo: Contexto, 2005, p.92.  168 Ibidem, p.116. 

91      Como se vê, andam lado a lado os sistemas econômicos, políticos e cultural. Pelo que  se  observa  com  a  importância  que  assumiu  o  Renascimento  cultural  para  a  afirmação  deste  novo  panorama,  em  especial  no  que  respeita  à  superação  dos  dogmas  católicos  que  obstavam  desenvolvimento econômico.  

    O  sistema  colonial  era  essencialmente  monopolista,  cada  colônia  relacionava‐se  exclusivamente com o Estado que a controlava, nesta senda Fernando Novais: 

Nessa modalidade de domínio, as relações econômicas entre a metrópole e  a  colônia  tendiam  ao  ‘exclusivo  metropolitano’,  isto  é,  ao  monopólio  exercido  pela  metrópole  no  comércio  com  a  colônia.  Essa  orientação  permitia à metrópole a obtenção do lucro máximo nas trocas, assegurando‐ lhes  a  condição  de  beneficiária  maior  nas  relações  econômicas  com  os  domínios  coloniais.  O  sistema  era  organizado  visando  transferir  a  maior  parte  do  lucro  comercial  e  do  excedente  econômico  produzido  na  colônia  para a metrópole, potencializando a acumulação da burguesia mercantil e  as receitas do Estado, que patrocinava a reprodução do sistema. O Estado e  o intervencionismo mercantilita constituíam‐se assim, em pressupostos de  uma  política  colonialista  eficaz.  Entretanto,  como  parte  da  acumulação  proporcionada  pela  exploração  colonial  era  apropriada  pelo  Estado  e  empregada na ampliação dos dispositivos naval, militar, burocrático e fiscal,  o  sistema  contribuía  para  incrementar  o  poder  e  o  intervencionismo  estatal,  integrando‐se  plenamente  aos  objetivos  estratégicos  da  política  mercantilista.169 

    O  colonialismo  assumia  então  a  condição  de  requisito  indispensável  para  a  sustentação da centralização do poder nas mãos dos reis, nos regimes absolutistas, à medida que por  meio da exploração de suas colônias e dos proveitos econômicos obtidos, podia‐se perpetuar o ciclo,  visto  que  grande  parte  dos  recursos  era  remetida  para  a  aplicação  militar  e  naqueles  órgãos  burocráticos  e  fiscais,  o  que  garantia  maior  controle  da  exploração  das  colônias  e  possibilitava  a  cobrança mais regular e abrangente dos impostos devidos à coroa. 

     O  intervencionismo  estatal  é  alçado  ao  nível  mais  alto  já  experimentado,  exemplo  disso  foi  a  criação  de  monopólios  comercias,  pois  rendia  muito  mais  à  coroa  que  apenas  um  comerciante  negociasse a compra de  produtos externos ou a vendo do que  dispunha, observada a  Lei da oferta e da procura, quanto mais se oferece, menor o preço e vice‐versa. 

    Mais  que  isso,  promulgou‐se  neste  período  extensa  legislação  regulamentadora  da  exportação e importação, de maneira a subsidiar os produtos internos de cada Estado, neste sentido  Hunt e Sherman: 

      

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NOVAIS, Fernando Apud GENNARI, Adilson Marques; OLIVEIRA, Roberson. História do pensamento econômico. São Paulo: Saraiva, 2009.

92  Na  Inglaterra,  os  exportadores  que  enfrentava  dificuldades  para  competir  com  os  comerciantes  estrangeiros  obtinham  a  restituição  de  imposto  ou  ainda,  se  isso  não  bastasse,  recebiam  subsídios  para  a  exportação.  Uma  política aduaneira seletiva gravava uma longa lisa de matérias‐primas com o  objetivo  de  dificultar  sua  exportação,  minimizando,  deste  modo,  o  preço  que  os  mercadores  fabricantes  ingleses  pagavam  por  elas.  Em  determinadas  ocasiões,  quando  esses  produtos  escasseavam  no  mercado  interno prejudicando a manufatura do país, o Estado intervinha, proibindo  rigorosamente  a  sua  exportação.  A  indústria  têxtil  britânica  foi  uma  das  beneficiárias  desse  tipo  de  proteção.  No  princípio  do  século  XVII,  os  produtos  têxteis  eram  responsáveis  por  cerca  da  metade  das  exportações  inglesas. O governo da Inglaterra proibiu a exportação de grande parte das  matérias‐primas  e  produtos  semi‐acabados,  indispensáveis  à  indústria  têxtil, tais como ovelhas, lã, fios e tecidos de lã penteada.170 

    A  Inglaterra  já  vivia  a  terceira  fase  do  mercantilismo,  conhecida  por  nacionalismo  econômico,  fase  na  qual  a  preocupação  maior  era  com  o  fomento  à  produção  manufatureira  nacional,  mais  do  que  prover  sua  auto‐suficiência,  garantiria  a  exportação  de  seus  produtos.  Tal  opção  baseava‐se  no  fato  da  limitação  agrícola  tornar  a  comercialização  dos  excedentes  não  confiáveis e no acréscimo de valor dos produtos manufaturados sobre as matérias‐primas. 

    Os  estados‐nação  viam,  nesta  fase,  ainda,  na  manutenção  da  balança  comercial  favorável  a  sua  maior  obrigação,  deste  modo,  tinham  de  garantir  que  os  pagamentos  em  dinheiro  recebidos  superassem  o  fluxo  de  dinheiro  que  deixava  o  país.  Logo,  cabia  o  favorecimento  da  exportação  de  mercadorias  e  serviços  realizados  por  compatriotas  e  requisitados  por  estrangeiros,  inversamente,  desencorajavam‐se  as  importações  de  serviços  e  produtos  oferecidos  por  estrangeiros. 

    Cumpre observar aqui o traço distintivo dentre as economias européias, que até hoje  as  define.  Conquanto,  Espanha  e  Portugal  pouco  se  preocuparam  com  o  estímulo  da  produção  nacional,  não  havia  qualquer  incentivo  à  indústria  local,  sustentando‐se  as  economias  daqueles  países, exclusivamente, pelos metais e produtos advindos da colônia; Inglaterra e França, a título de  exemplo,  fizeram  o  contrário,  estimularam  desde  logo,  suas  indústrias,  muito  em  parte  por  não  deterem à época grandes colônias além mar. 

    A  política  do  intervencionismo  estatal  neste  período  e  as  suas  consequentes  restrições, beneficiava a alguns comerciantes, e prejudicava outros, como, por exemplo, aqueles que  tinham  a  exportação  de  matéria‐prima,  viam‐se  obrigados  a  vender  no  mercado  interno  nas  condições que ali eram praticadas. 

      

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93      Nesta  toada,  os  mercadores  e  comerciantes  dos  produtos  manufaturados,  classe  emergente, via nas diversas disposições reguladoras importas pelo Estado, tanto do mercado interno  quanto  do  externo,  óbice  ao  desenvolvimento  de  suas  atividades.  Surgem  aí  as  primeiras  reações  contra o intervencionismo estatal, daqueles mercadores que intentavam obter o maior lucro possível  por meio do liberalismo comercial. 

    Assim como a ética cristã, que condenava a aquisição de bens materiais entrou em  conflito  com  os  interesses  dos  comerciantes  medievais,  agora  esta  “ideologia  econômica  ultrapassada” entrava em conflito com a nova ordem social ascendente, e o ponto nevrálgico deste  conflito era a interferência estatal na economia.  

    Conforme fora observado, o sistema mercantilista conservou em grande parte a ética  paternalista  cristã,  o  que  ia  de  encontro,  totalmente  com  o  incipiente  capitalismo  que  brotava.  Surgem,  então,  as  primeiras  críticas  ao  sistema  mercantilista,  no  que  se  convencionou  chamar  de  individualismo,  que  em  esforço  de  síntese,  pode  ser  definido  como  a  teoria  segundo  a  qual  as  motivações  egoístas  e  interesseiras  constituíam  a  razão  de  ser  básica,  senão  única,  das  ações  realizadas pelos homens, teve grande repercussão, pois: 

Ao  condenar  a  avareza,  o  comportamento  aquisitivo  e  o  desejo  de  acumular  riquezas,  a  ética  paternalista  cristã  medieval  rejeitava  o  que  haveria de se tornar a motivação dominante do sistema capitalista. No final  do século XVIII, quase todas as fases de produção haviam sido incorporadas  à esfera da economia capitalista de mercado que, para funcionar com êxito,  dependia do desejo de se acumular riquezas em proveito próprio.171 

    Pois  bem,  não  se  admitem  mais  as  restrições  impostas  pelo  Estado  no  sentido  de  prejudicarem o acúmulo de capitais, que assumia agora a condição de motor da economia, mais que  isso  começa  o  questionamento  acerca  da  necessidade  da  atuação  estatal  enquanto  regulador  da  economia. 

    Nesta fase, a regulação da economia, a concessão de privilégios, de monopólios e as  práticas  protecionistas  começaram  a  se  constituir  em  obstáculos  para  a  reprodução  do  capital  manufatureiro; naquele contexto de disputa econômica e política entre os Estados, surgia a noção de  que a capacidade de produção era vantagem sem par, especialmente, como se disse, para os países   sem grandes impérios coloniais. 

    O  desenvolvimento  da  capacidade  produtiva  nacional  assumia  importância  para  a  afirmação política dos estados no plano internacional, tanto político quanto econômico. Deriva daí a  maior receptividade política das idéias de desregulamentação política da economia. 

      

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94      Naquelas  sociedades  que  atingiram  a  fase  do  nacionalismo  econômico‐  pelo  desenvolvimento  de  suas  indústrias  manufatureiras‐,  o  fortalecimento  da  intervenção  do  Estado  (idéia  fundamental  do  mercantilismo),  começava  a  apresentar,  cada  vez  mais,  suas  incompatibilidades com as novas formas de reprodução de capital, segundo Roberson de Oliveira e  Adilson Marques Gennari.172 

    Diversos  teóricos  começam  a  tecer  críticas  a  respeito  da  intervenção  estatal  na  economia,  não  cumpre  aqui  analisar  detalhadamente  cada  uma  delas,  dando  especial  destaque  as  formulações de Adam Smith e da Fisiocracia. 

    Adam  Smith  foi  um  dos  precursores  da  análise  da  economia  enquanto  ciência,  baseou sua análise da economia em torno da desnecessidade da intervenção estatal para promoção  do  bem  geral.  Segundo  Smith,  havia  no  próprio  mercado  força  muito  mais  poderosa  que  voltaria,  naturalmente, o egoísmo de cada indivíduo para o bem‐estar geral da sociedade: a “mão invisível” de  Deus.