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TROIS GRANDS TYPES DE CARRIERES

do  Império  sofreu  considerável  retração.  Os  núcleos  urbanos,  donde  a  economia  centralizava‐se,  passaram por um processo de retrocesso ao ruralismo. Isto se deu muito mais gravemente na porção  Ocidental do território romano. 

    No Oriente, as conseqüências não foram tão sentidas, em especial pelo fato de não  se  pautar  a  economia  exclusivamente  na  agricultura,  era  apenas  uma  das  atividades  econômicas  realizadas.  Mais  que  isso,  a  economia  oriental  não  estava  tão  estreitamente  vinculada  ao  trabalho  escravo, o que representou grande diferença com o encarecimento daquela mão‐de‐obra. 

    Com respeito ao declínio vivido àquela época, assaz importante a lição de Roberson  de Oliveira e Adilson Marques Gennari: 

A  crise  do  Império  e  o  colapso  do  modo  de  vida  urbano  e  do  comércio  precipitaram  a desagregação do mundo antigo e induziram a agricultura a  orientar‐se predominantemente para o consumo, acelerando o processo de  ruralização da Europa. 

A cristalização de uma aristocracia guerreira e proprietária e de uma ‘classe’  de camponeses ligada à terra e vinculada aos aristocratas pelas obrigações  em  espécie  e  em  trabalho,  como  contrapartida  pela  proteção,  produziu  uma  ordem  social  rigidamente  hierarquizada  e  diferenciada.  Ao  mesmo  tempo,  as  guerras,  os  saques  freqüentes  e  a  violência  indiscriminada  aceleravam  a  desarticulação  do  poder  central  que  até  então  ordenava  a  vida,  a  justiça  a  produção  e  a  troca,  compondo  um  quadro  no  qual  o  homem  se  via  isolado,  impotente  e  frágil,  vítima  fácil  de  circunstâncias  sobre  as  quais  não  tinha  o  menor  controle.  A  visão  otimista  do  homem  como  ser  apto  a  realizar  suas  potencialidades,  típica  da  Antiguidade,  sucumbia progressivamente, junto com o modo de vida e a cultura que lhe  eram pertinentes.156 

 

1.1.3.6 A Economia na Idade Média

 

    A  economia  medieval  compreendeu‐se  entre  a  economia  mediterrânea  do  Império  Romano e a economia atlântica da Europa mercantilista, do século V ao XV, portanto. Analisar‐se‐á  aqui a economia medieval concebida, exclusivamente, como a que teve lugar na Europa Ocidental.      A debilidade do Império Romano permitiu a invasão da Europa Ocidental pelos povos  bárbaros. A autoridade romana desintegrou‐se, e com ela a unidade econômica e política da região;         156

GENNARI, Adilson Marques; OLIVEIRA, Roberson. História do pensamento econômico. São Paulo: Saraiva, 2009, p.18.

82  os  hábitos  de  consumo  são  reduzidos,  a  economia  de  mercado  quase  desaparece,  com  o  que  as  atividades comercias contraem‐se a quase nada, desaparecendo por conseqüência a necessidade de  produção em grande escala.  

    Cada  comunidade  volta‐se  para  si  mesma,  cidades  despovoam‐se  e  os  grandes  latifúndios passam a produzir para garantir a subsistência local. Surge assim o feudalismo. 

Importante  observar,  antes  da  análise  da  economia  feudal,  que  tal  sistema  não  foi  implantado  seguindo rigorosamente as mesmas formas, varia a depender da região em que se implantou; bem  como,  o  feudalismo  não  se  estabeleceu  de  início  em  toda  a  Europa,  permanecendo  em  graus  e  estágios diferentes. Isto posto, afasta‐se qualquer idéia de uma uniformidade feudal. 

    O  feudalismo  é  uma  involução  do  sistema  escravagista  romano,  remonta,  em  verdade, às civilizações agrícolas, posto que se caracteriza pela predomínio das relações de produção  servis. É o estágio de evolução de uma sociedade predominantemente agrícola, donde a maior parte  da  população  tem  de  trabalhar  no  campo,  para  proporcionar  a  subsistências  daquelas  unidades  (feudos),  produzindo  pouco  mais  do  que  o  necessário,  o  que,  inviabilizava  o  exercício  de  qualquer  atividade que não fosse agrícola, Magalhães neste sentido aduz: 

A  base  dessa  população  era  formada  por  camponeses,  em  sua  grande  maioria servos. Até o século XIV mais de 80% da população vivia no campo,  os senhores formavam uma minoria insignificante em termos numéricos, o  mesmo acontecendo coma as pessoas de outras categorias157 

    É  de  se  observar  ainda  que  não  há  uma  continuidade  dos  preceitos  vigentes  no  Império  Romano,  pois,  como  se  disse,  marcava‐se  esta  civilização  pelo  comércio  e,  conseqüente,  concentração urbana, tendo a agricultura sido rebaixada a um nível inferior. Com a queda daquele  Império,  na  economia  medieval  há  um  rompimento  deste  sistema,  como  apontado,  há  uma  regressão, deixa‐se a cidade e volta‐se para o campo. 

    Não  haviam  sido  destruídas  todas  as  cidades,  grande  parte  ainda  permanecia,  todavia,  perderam  toda  a  importância  que  outrora  detinham,  eram  completamente  diferentes  no  que tange à organização política e civil. Perdem o caráter de centro urbano, assumindo a condição de  povoações meramente rurais. 

    Todavia, não foi sempre assim, estritamente rural aquela a economia rural, adere‐se  aqui  pelo  quanto  preceituado  por  Willems158,  para  quem  se  dividia  em  dois  estágios:  a  fase  da  economia agrária (século IV ao IX) e a fase da economia urbana (século IX ao XIV). 

      

157

MAGALHÃES FILHO, Francisco de B. B. de. História econômica. 12.ed. São Paulo: Saraiva, 1991, p.135.

158

83      No que respeita à fase agrária, cumpre esclarecer que os servos viviam e serviam nos  feudos cedidos pelo Senhor, em contrapartida tinha de ceder parcela de sua produção, geralmente  na porção de um terço, além da corvéia (imposição ao servo de trabalho gratuito nos domínios do  Senhor), sendo esta uma das características principais do feudalismo.  Tanto a corvéia como as demais inúmeras obrigações que os servos tinham  em relação ao senhor, e que iam desde os pagamentos em espécie sobre a  sua  produção  até  a  prestação  de  serviços  pessoais,  tanto  domésticos  quanto militares, incluindo obrigações tais como a de somente poder moer  seus  cereais  no  moinho  do  senhor,  pagando  obviamente  uma  pequena  taxa,  eram  decorrência  do  regime  de  propriedade  feudal,  e  estavam  a  ele  indissoluvelmente ligadas.159 

    Estava o servo totalmente ligado ao senhor das terras, com uma relação nitidamente  de  submissão,  o  que  marca  e  caracteriza  tal  sistema  produtivo.  A  produção  excedente,  dada  a  necessidade  de  remessa  de  grande  parte  ao  senhor,  era  mínima,  o  que  apenas  possibilitava  o  comércio em mercados ou feiras em reduzidíssima escala.  

    A  característica  básica  deste  sistema  é  a  condução  à  implícita  perda  de  liberdade  individual de todo aquele que realiza tarefa manual, uma vez que desempenhando sua tarefa, estará  necessariamente permitindo que outros possam se dedicar com exclusividade às outras duas outras  funções possíveis na Idade Média: lutar e rezar, nos dizeres de Rezende.160 

    Os  bens  manufaturados  eram  consumidos  no  próprio  feudo,  produziam‐se,  sobretudo,  nos  meses  de  inverno,  o  que  praticamente  anulava  a  demanda  pela  importação  de  produtos,  o  que  só  era  feita  para  atender  aos  hábitos  e  requintes  dos  senhores.  Havia,  ainda,  as  terras dos reis e da Igreja que seguiam exatamente a mesma linha. 

    No que respeita à produção de manufaturas, seguiam o regime das corporações de  ofício,  na  sua  maioria  situada  nas  cidades  ‐  cabendo  mencionar  que  eram  em  sua  esmagadora  maioria  de  pouca  população,  não  chegando  a  mil  habitantes‐,  o  mercado  a  que  se  destinavam  aquelas manufaturas eram a demanda do centro urbano e a dos senhores feudais. Com respeito às  corporações na era medieval expõe Willems: 

Economicamente  encaradas  as  corporações  de  ofício  tinham  por  fito  garantir  aos  membros  as  condições  de  sustento,  isto  é,  em  primeiro  lugar  um  mercado  consumidor.  Não  se  tolerava  por  isso  a  intrusão  de  artistas  estranhos,  sustentando  assim  o  monopólio  da  própria  cidade,  por  não        

159

WILLEMS, Emilio. Elementos de História Geral de Economia. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1936, p.136.

84  poderem  os  membros  edificar  estabelecimentos  custosos,  a  corporação  construía‐os,  tal  como  p.  e.  serrarias,  moinhos,  triturarias,  matadouros  e  armazéns.161      Os artesãos estavam totalmente vinculados a sua respectiva corporação, a liberdade  era praticamente nula, inexistia a idéia de livre concorrência, o que deixou incólume a estrutura da  classe artesã durante vários séculos.      Quanto ao comércio, há que se pontuar que nunca desapareceu por completo, como  foi visto acima, havia a necessidade de negociações marginais exigidos pela própria economia feudal,  pois,  como  se  viu,  apesar  de  reduzidos  havia  excedentes.  Bem  como,  manteve‐se  o  comércio,  em  grande parte, pelo fato de alguns hábitos não terem desaparecido, em especial condição os senhores  feudais, que detinham poder econômico para adquirir produtos trazidos do exterior. 

    Aumentava  a  necessidade  de  consumo  dos  senhores  como  conseqüência  ao  aumento  de  suas  rendas,  derivadas  diretamente  da  prosperidade  do  sistema  feudal,  com  cada  vez  mais  excedentes.  Desta  maneira,  aliando  a  crescente  demanda  pelos  senhores  feudais  ao  crescimento da quantidade de excedentes, deu‐se o alavancamento da economia feudal propiciando  o ressurgimento do comércio, que por sua vez estimulou a concentração urbana, com a criação de  novos mercados para atender a estas necessidades emergentes. Para Willems, estes centros urbanos  caracterizavam‐se por: 

A  comuna  medieval,  oriunda  dos  estreitos  laços  de  ‘conjuration’,  era  comunidade  de  cidadãos  livres.  Não  se  tolerava  o  egoísmo  individual  e  a  irresponsabilidade  de  um  sistema  liberal.  Esta  máxima  fundamental,  que  vigorava  irrestritamente,  tinha  conseqüências  para  o  procedimento  dos  cidadãos,  encarado  pelo  seu  lado  econômico.  A  atividade  econômica  do  indivíduo era reduzida sob o ponto de vista do bem estar comum. O raio de  ação  de  cada  qual  não  pode  ultrapassar  suas  necessidades,  determinadas  pela  respectiva  classe  social.  Para  evitar  qualquer  perturbação  do  sistema  social‐econômico  tradicional,  os  governos  municipais  regulavam,  até  certo  ponto,  a  vida  individual,  levando  destarte  a  seu  triunfo  a  idéia  de  prevalência do conjunto sobre a minúcia.162 

    A  perda  de  poder  político  e  econômico  dos  senhores  feudais  andam  lado  a  lado,  perde‐se  este  para,  em  sequência,  perder  aquele,  dá‐se  em  grande  parte  pela  dependência  que  passam a ter com relação às cidades e aos produtos lá comercializados, não é outra a lição de Hunt: 

Isso  aconteceu  em  decorrência  do  enorme  incremento  da  população  nas  novas  cidades  comerciais.  As  grandes  populações  urbanas  dependiam  da        

161

WILLEMS, Emilio. Op.cit., 1936, p.31.

162

85  agricultura  para  alimentos  e  grande  parte  das  matérias‐primas  para  as  indústrias  de  exportação.  Essas  necessidades  estimulavam  especializações  urbanas e rurais e um grande fluxo de comércio entre o campo e a cidade.  Os  senhores  feudais  começaram  a  depender  das  cidades  para  conseguir  bens  manufaturados  e  procuravam  cada  vez  mais  os  bens  de  luxo  que  os  mercadores podiam vender.163 

 

    O que marca este período são as feiras locais e os mercadores ambulantes, pessoas  que,  sozinhas  ou  acompanhadas  de  ajudantes,  viajavam  por  diversas  feiras,  comprando  em  uma  e  vendendo em outra, tal atividade foi um dos principais elos da rede comercial que cobria a Europa.      Surgem  daí  os  grandes  mercadores,  no  momento  em  que  aqueles  ambulantes  deixam  de  negociar  variedades,  passando  a  transacionar  produtos  de  compra  garantida,  ou  seja,  buscam especializar o seu comércio, observando às necessidade específicas de cada região. Com isto,  aumentou‐se  o  volume  das  transações  e  uniformizam‐se  as  rotas  dos  comerciantes,  que  agora  voltariam teriam de voltar sempre ao local donde abasteciam seus estoques. 

    As  dificuldades  no  transporte  terrestre  estimularam  a  utilização  do  meio  aquático  para  a  realização  destas  operações,  em  especial  pela  insegurança  e  o  alto  custo  para  vencer  distâncias consideráveis, há de se considerar ainda que a maior parte da população vivia próxima aos  rios, donde se constituíram as cidades. Sobre este fenômeno, Magalhães: 

A especialização dos mercadores ambulantes e seu enriquecimento trouxe  outras  modificações  à  sistemática  do  comércio  europeu.  As  feiras  locais  permanecerão,  assim  como  os  pequenos  ambulantes,  mas  seu  papel  cada  vez  mais  limitado  ao  comércio  varejista,  de  atendimento  direto  ao  consumidor.  O  grosso  das  atividades  comerciais  passará  para  a  mão  dos  grandes mercadores atacadistas, especializados em determinados produtos  e controlando determinadas regiões.164 

    Nos pontos de encontro destes grandes mercadores em suas rotas terrestres, surgem  as grandes feiras entre os séculos XII e XIII, absolutamente distintas daquelas realizadas nas cidades  apenas  com  o  excesso  do  que  se  produzia  nos  feudos,  as  grandes  feiras  ocorriam  semestral  ou  anualmente  e  com  negociação  prioritariamente  de  produtos  em  atacado,  ao  contrário  daquelas  menores que se davam semanalmente e tinham natureza varejista. 

    As  grandes  feiras  surgem  então  como  o  traço  distintivo  da  atividade  econômica  na  Europa medieval. Nesta fase da economia urbana, assumem importância tão elevada, a ponto de os  senhores feudais concederem vantagens para que fossem realizadas em seus domínios, reduzindo ou        

163

HUNT, E. K. História do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Campus, 2005, p.13.

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86  abolindo determinadas taxas.  

    A  noção  de  crédito  desenvolve‐se  muito  em  sede  destas  grandes  feiras,  muitas  vendas  realizavam‐se  a  prazo,  com  títulos  a  serem  resgatados  nas  edições  posteriores  e  muitos  destes títulos passaram a ser comercializados. 

    A partir do século XV, as grandes feiras começam a decair, muito em decorrência do  dispendioso  processo  de  transporte  de  uma  grande  quantidade  de  produtos  apenas  para  fins  de  exposição. 

    Neste período era conturbado o ambiente na Europa, a partir do século XIII, eclodem  diversas  revoltas  campesinas,  especialmente  a  partir  do  momento  em  que  se  apercebem  da  possibilidade da venda dos excedentes que produziam e que cabia a si, proporcionando, ainda que  minimamente, a sua independência dos senhores feudais.  

    Aliado  a  isto,  junte‐se  a  peste  bubônica  de  1348  que  reduziu  drasticamente  a  população européia, escasseando a mão‐de‐obra, reduziu bastante o poder dos senhores que agora  se  viam  reféns  de  seus  vassalos.  É  de  se  mencionar  ainda  a  Guerra  dos  Cem  anos  (1337‐1453)  também teve importância neste panorama. 

    Passada  esta  fase,  já  no  século  XV,  os  senhores  feudais  não  podiam  mais  garantir  proteção a quem se dispusesse a trabalhar em suas terras ou mesmo para a realização das feiras ali  realizadas.  A  demanda  por  segurança,  tanto  da  burguesia  como  da  nobreza  feudal,  convergiu  para  criar, o Estado moderno. 

    O  sistema  econômico  funcional,  seguindo  a  denominação  de  Rezende,  é  diametralmente  oposto  à  intervenção  estatal  na  regulação  da  economia,  em  verdade,  pela  própria  análise  de  suas  características,  vê‐se  que  o  mesmo  (funcionalismo)  surge  como  resposta  natural  à  falência  de  organização  em  Estados  estáveis  que  pudessem  garantir  o  regular  funcionamento  das  atividades econômicas, falência que se viu tanto na Grécia quanto em Roma. 

 

1.1.3.7 A Economia na Modernidade

 

    Como  se  viu,  a  crise  do  século  XIV  assumiu  papel  relevante  na  desestruturação  do  feudalismo  europeu,  transcorridas  as  guerras  e  reduzida  a  incidência  da  peste  bubônica  inicia‐se  o  gradual  processo  de  retorno  aos  centros  urbanos,  a  retomada  do  comércio,  bem  como  o  estabelecimento do equilíbrio entre a cidade e o campo.