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Chapitre 3 Les transformations contemporaines du paysage de la recherche

3.4 L’intensification des collaborations science-industrie

Em seu último texto, datado de 1983, O discurso – estrutura ou acontecimento (2008), Pêcheux analisa de que modo se constrói um acontecimento discursivo em torno das eleições presidenciais francesas de 1981, tomando a mídia como um importante lugar de circulação e de construção de significados. Pêcheux mostra-nos com muita maestria como o enunciado on a

gagné tem em sua materialidade uma aparente estabilidade, mas que, na verdade, está revestido

de uma espessura histórica de grande complexidade quando tomado em relação ao acontecimento discursivo em questão.

Trata-se, em primeiro lugar, de um enunciado tipicamente proferido pelas torcidas de futebol em uma vitória: o teor absoluto do resultado do campo esportivo, quando tratado em massa na circulação da mídia no desfecho das eleições presidenciais, resultou em certos efeitos de despolitização do acontecimento, cuja materialidade histórica é, entretanto, inegável. On a

gagné é um dizer que aparece com uma tonalidade característica, realizado a partir de uma forma

verbal impessoal, de modo que não se pode identificar claramente quem ganhou (e mesmo o que se ganhou). Assim, se alguém ganhou, como indica o enunciado “on a gagné”, a única pergunta aparentemente cabível seria “[de fato,] quem ganhou, X ou Y?” (PÊCHEUX, 2008:22).

A vitória do candidato da esquerda François Miterrand é então retomada pela grande mídia em uma escala avassaladora, estando atado a este acontecimento a estrutura do enunciado “on a gagné”. Este acontecimento será retomado e revisto na televisão (como, por exemplo, em programas de análise política) e pela mass-media em uma dimensão indefinida, como sublinha Pêcheux já algum tempo depois da data do acontecimento, em 1983, momento em que o autor profere o estudo presente no texto.

Antecipado por uma série de expectativas (também negativas, descreditando a possibilidade de sua emergência), bem como cálculos matemáticos transmitidos pela máquina

televisiva em torno da super-copa de futebol da presidência na França, a confirmação da vitória do candidato François Miterrand viria sublinhar este acontecimento, materializando um “encontro de uma atualidade e uma memória” (PÊCHEUX, [1983]2008:17), que se materializa discursivamente no enunciado analisado por Michel Pêcheux.

O texto de Pêcheux tem uma atualidade incontestável. Já em 1983, período que compreende uma desconstrução de muitos dos conceitos que foram debatidos em acerca dos procedimentos e bases metodológicas da Análise do Discurso, bem como se consolida uma grande preocupação com a questão da heterogeneidade no discurso, vemos que a circulação midiática passa por câmbios importantes. Na análise do enunciado “on a gagné”, o autor reflete sobre as mudanças do trabalho simbólico da mass-media – como o surgimento da televisão –, e nos diferentes suportes materiais para a veiculação do discurso político, agora midiatizado, bem como a construção de efeitos de evidência.

Isto leva a uma espécie de crise na maneira de se fazer Análise do Discurso: os primeiros textos de Pêcheux, que buscavam descrever um trabalho discursivo estrutural, em um procedimento informatizado com uma grande influência de ideias harrisianas, começam a ser tateados e revistos, levando o autor a repensar e problematizar a discussão da existência de uma maquinaria discursiva estrutural, levando até o limite a crise de tal conceito. De acordo com a visada que Pêcheux lança face a esta nova realidade dos meios e da política (tendo voltado antes seu olhar a textos doutrinários escritos manifestados pelos partidos, sobretudo de esquerda), o fechamento da maquinaria discursiva estrutural em si mesma seria o ponto nodal de alguma frouxidão nas propostas de releitura althusserianas, que pautaram uma primeira época da Análise do Discurso (PÊCHEUX, 2008:65).

Tudo isto vai levar Pêcheux a discutir princípios metodológicos da Análise do Discurso em O discurso: estrutura ou acontecimento, publicado pouco antes de seu desaparecimento. A reflexão de Pêcheux dialoga com algumas questões que irromperam na última fase da Análise do Discurso: podemos apontar que existiu desgaste nas discussões estruturalistas (PUECH, 2014), bem como o desenvolvimento de novos trabalhos filiados à questão da heterogeneidade discursiva.

compreender a maneira pela qual a concepção de sujeito – reflexão tão cara na construção da teoria – estava sendo revisitada. O autor faz esta análise em torno do acontecimento discursivo em questão para também tratar da relação do sujeito com a língua, trazendo à tona o que ele denomina de “sujeito pragmático”, uma faceta do sujeito que tem uma necessidade de estabilidade lógica em relação à realidade simbólica em que está inscrito.

Pêcheux mostra que existem uma série de sistemas lógico-semânticos que fazem parte de uma determinada normalidade para este sujeito pragmático, exemplificando que não se pode estar casado e solteiro ao mesmo tempo, estar no lugar X e no lugar Y ao mesmo tempo, e que, enfim, existe toda uma demanda de tal sujeito para que haja uma determinada homogeneidade lógica em sua relação com o simbólico. O enunciado analisado por Pêcheux é um exemplo bastante marcado neste sentido: o resultado de uma partida de futebol é, acima de tudo, algo bastante estável, pois se trata de um embate entre duas equipes que almejam um resultado positivo; se uma delas sai vencedora (“on a gagné”), a outra, logo, saiu perdedora, pois face a tal resultado logicamente estável não se pode haver dúvidas neste quesito. Perguntas como “quem ganhou?” e “quem perdeu?” são facilmente respondidas, e a resposta não deixa margem a outras muitas interpretações, imputando um número bastante restrito de possibilidades. Pêcheux em seu texto traz uma série de outras perguntas que aparentemente são muito difíceis de serem colocadas face a tal situação, como: “quem ganhou na verdade? em realidade? além das aparências? face à história?” (PÊCHEUX, 2008:22).

O pensamento do autor nos é importante para mostrar como a mídia atua na construção de imaginários e na maneira como eles se estabilizam: o resultado das eleições presidenciais é claramente algo que se coloca face à história, trazendo para si significações que dialogam com uma conjuntura específica e, ao mesmo tempo, inscrevendo-se na maneira como os homens realizam a narrativa dos acontecimentos – o que, conforme a nossa perspectiva, é um gesto ideológico em sua natureza e não uma mera sucessão de acasos. No entanto, o acontecimento quando circulado pela mídia, ao mesmo tempo em que está atado ao enunciado (que é em sua aparência transparente, mas na realidade profundamente opaco) traz como estável e a-histórica a interpretação de que François Miterrand foi eleito o presidente da França naquele momento.

pragmático em que pensa Michel Pêcheux, que anseia por uma logicidade, conceber-se-ia que com o fim da ditadura militar, e sobretudo tendo em conta a luta e as manifestações que se engendraram para tal fim, não se poderia mais haver censura. O fim da ditadura, como também o fim da censura exercida sobre os meios, seria uma verdade (aparentemente já assentada) que faria parte de nossos cotidianos e dos nossos discursos – de uma normalidade. Nos termos de Pêcheux (2008), isto seria um constituinte da relação do sujeito com um mundo simbólico no qual este está inserido, caracterizando determinadas formas de identificação e tomadas de posição, sendo na língua o lugar em que este conflito se materializa.

Quando a questão da regulação da mídia é tratada em meios massivos, assim, trata-se de uma série de enunciados emergentes, suscitados pelo acontecimento mobilizado pela mídia. Com a quebra de uma normalidade na relação dos sujeitos com determinados sentidos já estabelecidos/estabilizados em uma determinada sociedade, realiza-se uma afronta a essa relação essencialmente ideológica e constitutiva do sujeito com a língua. Neste sentido, no seguinte item, debateremos como é possível compreender aspectos da noção de sujeito a partir da emergência conflitiva de um acontecimento discursivo, sobretudo pensando as espessas polêmicas que estão postas na sociedade brasileira em torno do que pode/deve ou não ser dito.

2.3. A concepção de sujeito a partir da emergência de um acontecimento discursivo