9. Bientôt des livres multilingues ?
9.3. L’importance de la traduction
Genograma67 Jorge 45 Adelaide 46 Lindalva 18 Igor 13 68 Antonio Graça 36 24 Tiago 18 Sonia Isabel 14 3 0 8 2 19 17 9 5 A Sinalização e as Intervenções
No final de 2006, Lindalva atingiu a maioridade e decidiu sair de casa. Mas, preocupada com o irmão, que continuaria a residir com seus pais, denunciou a situação de violência intrafamiliar que enfrentava à Comissão de Proteção à Crianças e Jovens (CPCJ). Lindalva pediu para não ser identificada como a denunciante por medo de represália do pai, Jorge.
A CPCJ, preocupada com a situação de violência intrafamiliar relatada por Lindalva e, também, com a estratégia de intervenção que deveria adotar para que a denunciante não sofresse retaliação, articulou-se com alguns serviços que poderiam
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Nos casos de Portugal, o genograma foi utilizado no processo terapêutico e como instrumento ilustrativo. O traçado vermelho foi utilizado para representar a violência física, psicológica entre os membros. Os números dentro dos círculos (símbolo que representa o sexo feminino) e dos quadrados (símbolo que representa o sexo masculino) referem-se às idades. O X dentro do quadrado representa a pessoa falecida. As idades apresentadas no genograma foram calculadas com base no ano de 2006, ano do início das intervenções da Rede de Proteção de Coimbra.
contribuir no caso. Foram contactados o Serviço de Violência Familiar (SVF) e a psicóloga da escola da Lindalva, que se reuniram e conversaram sobre uma estratégia que protegesse a denunciante e seu irmão.
Na reunião, chegou-se à conclusão de que, para que a possível represália fosse evitada, era importante que houvesse uma articulação entre Lindalva, sua rede de serviço primária, representada pela psicóloga da escola, e a rede de serviço secundária, representada pela CPCJ e pelo SVF.
Nessa reunião, os serviços decidiram que o Dr. João Redondo, coordenador e psiquiatra do Serviço de Violência Familiar, convocaria Jorge para conversar sobre o rendimento escolar de Lindalva e justificaria a conversa, dizendo que o SVF havia recebido da escola a informação de que a moça não estava apresentando bons redimentos escolares. O Dr. João deveria conduzir a conversa para a questão da violência, enfocando a percepção da escola sobre o rendimento e o sofrimento de Lindalva, no intuito de protegê-la e, por fim, deveria apontar para a necessidade de a CPCJ intervir no caso, já que havia jovens menores envolvidos.
A conversa se passou da maneira planejada; Lindalva foi protegida e o caso estava sinalizado na CPCJ.
A CPCJ pôde, então, iniciar sua intervenção. Convocou, de imediato, os genitores de Lindalva e Igor, filho do casal. A conversa com o menino aconteceu em separado dos pais.
Durante a conversa, Jorge disse que era perfeccionista e obsessivo e que, às vezes, batia nos filhos e cobrava demais deles. Falou que se sentia angustiado com a saída da filha de casa; que, se ele, Jorge, tivesse de sair de casa para ela voltar, assim o faria.
A mãe, Adelaide, não percebia que Igor estava sendo muito cobrado. Em alguns momentos, até dizia que ele estava trabalhando pouco e que, muitas vezes, até ajudava o marido a cobrar mais trabalho dos filhos. Adelaide e Jorge justificavam seus comportamentos, dizendo que faziam aquilo para o bem dos filhos, pois achavam que a empresa era uma grande oportunidade para eles.
Em conversa com Igor, observou-se que até os treze anos, ele não conseguia perceber que o relacionamento entre os membros de sua família não era saudável. Disse que só foi perceber isso, quando começou a comentar com os colegas da escola o que se passava em sua casa e esses sinalizaram que aquilo não era “normal”. Durante toda
conversa, Igor se mostrou bastante apático e triste. Disse que gostava de futebol e gostaria que sua mãe ficasse mais tempo com ele.
Em março de 2007, foi realizada a segunda reunião da rede para a discussão das estratégias a serem adotadas no caso. As ações que ficaram decididas foram: a psicóloga da escola continuaria acompanhando Lindalva; Igor seria encaminhado para avaliação psicológica na Universidade de Coimbra e o Dr. João avaliaria Jorge e Adelaide.
Iniciada as intervenções dos serviços no caso, logo foram percebidas algumas reações dos genitores.
Em abril de 2007, Adelaide compareceu espontaneamente à CPCJ. Estava angustiada, chorando muito, dizendo que se sentia esgotada e que não via solução para os problemas de sua família.
A mulher estava começando a perceber o quanto as relações familiares em sua casa eram invasivas, coercitivas. Ela disse que o marido era atencioso, mas que sempre a desqualificava, dizendo “você não presta para nada”, “não rende o dinheiro que
ganha”.
No mesmo mês, Jorge e Adelaide compareceram, espontaneamente, à CPCJ, pedindo ajuda para que pudessem reestabelecer a comunicação familiar. Disseram que acreditavam estar fazendo o melhor e achavam que tinha sido injusta a decisão da filha de ter saído de casa.
Jorge disse que sabia que tinha uma atitude “um pouco controladora” e que era ele quem determinava quando e o que o filho devia fazer. Mas, ao mesmo, tempo dizia que o objetivo era ajudá-lo “até coloquei uma cama na empresa para dar melhores
condições para o Igor estudar, descansar e trabalhar”.
O pai reiterou que, se fosse preciso sair de casa para a filha voltar, assim procederia. Adelaide disse que sentia saudades da filha e queria que ela fosse visitá-los. Afirmou também que a visita de Lindalva tinha de acontecer num dia em que Jorge estivesse em casa.
Percebe-se que a saída da filha de casa e a intervenção da rede de serviços provocaram reações nos genitores, ou seja, estes começaram a refletir sobre a maneira como se relacionavam. Adelaide foi à CPCJ reclamar da maneira como o marido a tratava; depois o casal compareceu à Comissão, a fim de pedir ajuda.
Adelaide tinha acabado de sair do hospital porque havia caído da escada. Ela não estava em condições de atender à convocação, mas Jorge, descurando-se da saúde da esposa, fez com que ela fosse com ele à Comissão.
Nessa época, Adelaide havia sofrido outros acidentes: acidente de carro e dedo cortado na máquina da empresa. Ao ser indagado sobre os hábitos da família, Jorge disse que jantava sozinho para controlar o peso. O que parece é que o homem controla todos e tudo o tempo todo.
A conversa com o Igor aconteceu novamente em separado. Ele falou sobre seu dia a dia; disse que se sentia muito sufocado, pois o pai o controlava muito. Depois da escola, tinha que ir para a fábrica trabalhar. Mesmo nos momentos de estudo, seu pai ficava a observá-lo, a controlá-lo.
Até aquele momento, a CPCJ estava colhendo informações, para compreender melhor a dinâmica familiar e a situação de violência e risco à qual Igor estava exposto.
Em junho de 2007, Lindalva compareceu à CPCJ. Ela disse que estava se sentindo muito culpada por ter saído de casa e ter deixado o irmão sozinho. Além disso, sentia-se triste por não ter dado mais afeto à mãe.
Conclusão da Avaliação Psicológica de Igor
Igor contou que gostaria de fazer igual sua irmã, sair de casa. Mas disse que sabe que não tem idade suficiente para fazer isso e, então, tem que continuar morando com seus pais. Ao mesmo tempo, afirmou que não gostaria de sair de casa para não deixar a mãe sozinha; acreditava que, se ele assim procedesse, toda violência recairia sobre Adelaide. Ele desabafou dizendo que ninguém se preocupava com seu bem-estar e que sentia medo e raiva do pai.
A avaliação concluiu que Igor estava sendo vítima de violência direta, física e emocional. A família não estava permitindo que ele vivesse sua adolescência e, caso permanecesse naquele ambiente, seria impedido de vivê-la.
Terceira Reunião da Rede Secundária, Ações e Encaminhamentos
Em junho e julho, a rede secundária se reuniu para refletir sobre outras medidas de minimização da violência. Com base nas diversas conversas com os genitores e os
filhos e, conforme a conclusão da avaliação psicológica de Igor, os serviços concluíram que deveriam atuar no sentido de proteger Igor, afastando-o de seus pais.
O mapa de rede da família mostrou que Igor tinha uma proximidade afetiva com seus tios maternos, Antônio e Graça. Diante disso, a CPCJ entrou em contato com esses tios para verificar a disponibilidade de eles assumirem a guarda do menino. O casal se prontificou a fazê-lo. Em seguida, a CPCJ expôs a situação a Igor, que também concordou.
A CPCJ, antecipando uma possível reação negativa dos pais – eles podiam não concordar e fazer alguma represália contra o próprio filho -, articulou com os tios maternos e o tribunal (intervenção judicial), antes de falar com Jorge e Adelaide. Caso a reação destes fosse negativa, Igor sairia da escola e iria direto para casa de Antônio e Graça, não precisando encontrar-se com o pai; dessa forma, evitava-se qualquer tipo de violência.
Jorge, como já era esperado, não aceitou a decisão e aconteceu o que a comissão e os outros serviços já haviam previsto.
Os técnicos da CPCJ contaram que, quando Jorge teve a notícia, levantou-se e saiu da sala. Voltou depois de alguns minutos todo suado, dizendo que saíra para correr um pouco, a fim de aliviar o nervosismo.
Depois desta intervenção, o casal e os filhos foram encaminhados para acompanhamento no Serviço de Violência Familiar. Jorge fez psicoterapia individual. Adelaide realizou algumas sessões de relaxamento e participou do grupo de suporte68 direcionado às vítimas. Lindalva e Igor tiveram acompanhamento psicológico quinzenalmente.
Discussão sobre a Estratégia da Rede
A articulação da rede de serviços foi fundamental para o término da violência intrafamiliar que ocorria nessa família.
As estratégias adotadas pela rede de serviços - que envolvia CPCJ, SVF, Escola, Tribunal - foram eficazes e eficientes na solução do problema apontado. É importante salientar que as estratégias são pensadas e discutidas nas reuniões com os diversos
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O grupo de suporte oferecido pelo SVF é um espaço às vítimas que podem propor diversas atividades. É um espaço onde as vítimas se encontram, conversam, trocam experiências, realizam atividades mais operacionais, criativas (oficina de artesanato, onde aprendem a técnica e criam suas próprias peças) ou, então, atividades corporais (aula de body balance, exercícios corporais de alongamento e relaxamento).
serviços; nessas reuniões são expostas e discutidas as limitações e potencialidades dos serviços para lidar com o problema apresentado.
Nesses espaços de conversa, os técnicos expõem seus pareceres sobre o caso, externam suas dificuldades. Nessa troca, todos se fortalecem, pois não é uma pessoa ou um serviço tentando resolver o problema, mas sim serviços e pessoas buscando alcançar, solidária e compartilhadamente, o mesmo objetivo.
Dessa maneira, resolve-se o problema da sensação de impotência e incapacidade apontada por muitos profissionais que trabalham na área da violência intrafamiliar. Do contrário, o serviço ou o técnico, sozinho, sem articular-se com outros serviços, sem ter com quem compartilhar seu problema, verá aumentadas suas dificuldades, suas limitações.
Winnicott e Britton (1947/1999) já falavam da importância da distribuição do peso da responsabilidade, ao referirem-se ao trabalho dos técnicos nos alojamentos,
lares primários. Essa preocupação também deve existir na área da violência
intrafamiliar. Uma alternativa é o trabalho em rede, mas, como Winnicott lembra bem, os técnicos só estarão disponíveis e tranquilos para desenvolverem seus trabalhos, se sentirem segurança e confiarem no trabalho dos outros técnicos envolvidos. A confiança e a proximidade entre os técnicos que trabalham em rede é um fator fundamental para que a engrenagem funcione.
No caso da família de Lindalva, a rede agiu com eficácia, pois não só acabou com a violência intrafamiliar, como também impediu que a moça e o irmão sofressem qualquer tipo de retaliação por parte de seu pai no momento que saíram de casa.
Nessa família, o problema da violência intrafamiliar já não existe; contudo, em casos como este, ficam as marcas, que são profundas e de difícil cicatrização. O genograma ilustra os conflitos familiares e a disseminação transgeracional, que vão ao encontro dos resultados de algumas pesquisas apontados pelo relatório sobre violência e saúde da Organização Mundial da Saúde (2002).
Essas pesquisas revelam que pais que foram maltratados quando crianças estão mais propensos a maltratar seus filhos. Enfatizam também a complexidade da violência intrafamiliar.
Winnicott (1950-55/2000), em seu artigo “A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional”, descreve uma situação em que uma criança presencia a
briga dos pais e como isso pode afetá-la, no que diz respeito à constituição da sua própria agressividade. Nesse caso, o autor aponta para duas possibilidades: quando a
criança internaliza esse conflito familiar e tenta amenizá-lo internamente, podendo em algum momento ter surtos agressivos sem qualquer motivo aparente; e quando a criança, ao enfrentar esse conflito familiar internamente, organiza seu mundo externo, arranjando brigas - assim como viu seus pais fazerem - numa tentativa de manter essa agressividade fora do mundo interno.
Não só nesse artigo, mas em grande parte da obra de Winnicott, pode-se compreender como as situações de conflitos familiares afetam o processo de amadurecimento do indivíduo.
Psicoterapia Individual de Jorge
Quando tinha oito anos, Jorge e seus pais foram morar na França. Aos quatorze, ele recebeu a notícia de que seu pai morreria de problemas cardíacos daí a dois anos. Porém, o genitor de Jorge viveu mais algum tempo, vindo a falecer quando o filho já estava com trinta anos. Quando o rapaz completou dezoito anos, a família regressou a Portugal; mas Jorge só voltou cinco anos mais tarde, pois queria terminar os estudos.
Jorge, no período em que viveu separado dos pais, sentiu-se abandonado. Ele achava que seus genitores deviam esperá-lo terminar os estudos, para depois voltarem juntos.
Jorge fala sobre esse sentimento de rejeição, dizendo que não foi uma criança desejada pelos seus pais. Parece demonstrar dificuldade na capacidade de amar e ser amado. Isso pode ser observado desde suas primeiras relações familiares com seus pais e depois nas relações de violência com sua mulher e filhos.
Ele conta que a relação com os pais sempre foi, afetivamente, muito distante. Sentia ciúme do modo como seus genitores tratavam o seu irmão. Jorge dizia que seu irmão era o filho preferido do casal.
Jorge se casou com Adelaide e teve dois filhos: Lindalva e Igor.
Com objetivo de mostrar que podia “ser alguém” e “vencer na vida”, Jorge abriu sua própria empresa de mecânica de precisão e nela fez toda a família trabalhar; acreditava estar fazendo “o melhor” para todos.
Jorge era muito rígido e controlador, vigiava o trabalho de todos. Nunca estava satisfeito com o desempenho da mulher e dos filhos; achava que eles podiam melhorar sempre.
Pagava curso de inglês para a Lindalva, porque a empresa tinha relações com o exterior e a filha poderia ser a ponte com essas empresas estrangeiras. Quanto a Igor, que, segundo com o pai, não gostava muito de estudar, ficaria sempre na empresa e, assim, estaria com a vida resolvida. Já a mãe cuidava da contabilidade, mas Jorge a fazia trabalhar tanto que ela ficava esgotada, chegando a errar nas contas e dar prejuízo à empresa. Adelaide dizia gostar de seu trabalho, mas que gostaria de trabalhar menos. Era maltratada, menosprezada pelo marido, assim como seus filhos.
Ao longo das sessões terapêuticas, Jorge pôde expor suas dificuldades em lidar com a nova situação familiar que estava vivendo.
Falou sobre os sentimentos de ter sido abandonado pelos pais, da falta que sentia de seus filhos. Chegou a falar em se matar como uma forma de solucionar a angústia que estava sentindo depois que os filhos saíram de casa. Ao mesmo tempo, dizia não compreender toda aquela situação, que sua família era ingrata, que o julgava, o condenava. “Dou duro, mas as pessoas me condenam”.
O sentimento de ambiguidade quanto a ser bom ou mau esteve presente em diversos momentos da terapia.
Essa sua dificuldade se reproduzia na relação com a terapeuta: Jorge ora era agressivo com ela, menosprezando-a; ora era afetivo, exaltando-a, chegando mesmo a dizer que estava apaixonado por ela. O homem, amiúde, indagava à terapeuta se ele era uma pessoa má. O que queria saber é se podia ser amado; caso fosse uma pessoa ruim, não seria digno do amor de ninguém. Esse comportamento demonstra seu sentimento de rejeição, de não ter sido amado por seus pais.
Nas outras sessões, Jorge continuou se questionando se poderia ser amado, se era digno de amor, se era uma pessoa boa. A terapeuta aventou um possível sentimento de culpa, que foi prontamente rebatido por Jorge. Este, nervosamente, desabafou que havia dado de tudo para sua família, que ela não soube reconhecer, que não o amava.
Mesmo mostrando-se resistente, rígido, Jorge conseguia expor suas dificuldades, como, por exemplo, o medo de falhar em seu trabalho, a preocupação em testar sua competência o tempo todo. Reconheceu que era bem sucedido no trabalho, mas o mesmo não acontecia em relação à família. Confessou estar assustado com tantas mudanças nas suas relações familiares, com suas próprias mudanças.
Quando a terapeuta informou que sairia de férias, Jorge reagiu como se estivesse sendo abandonado, como se ela não gostasse dele. E expressando-se contraditoriamente,
falou que não precisava mais de terapia; pouco depois, afirmou que gostaria de conversar com a terapeuta todos os dias.
Jorge faltou à última sessão antes das férias da psicóloga; depois, concordou com ela que havia faltado porque não queria se despedir.
Findas as férias, retomadas as sessões terapêuticas, Jorge demonstrou uma necessidade de experienciar uma relação simbiótica com a terapeuta. Mas sua agressividade atingiu níveis insuportáveis; por isso sugeriu-se encaminhá-lo para outro psicólogo69.
A equipe do SVF, juntamente com Jorge, reavaliou a situação e, de comum acordo, foi redefinida a intervenção e o encaminhamento para outro psicólogo, a fim de evitar a contratransferência, que num momento das sessões se tornara dominante.
Adelaide
Adelaide nasceu em Angola e estudou até o 2º ano. Contou que sua família era muito simples, mas que nunca sofreu ou foi testemunha de violência intrafamiliar.
Antes de Adelaide ser encaminhada para o Serviço de Violência Familiar, já apresentava sinais de ter sido vítima da violência intrafamiliar.
Queixava-se de que não conseguia dormir e que sentia dores no corpo todo. Em relação a essas dores, não se chegou a nenhum diagnóstico que se concluísse por uma causa física. Vale esclarecer que outras mulheres, vítimas de violência, também se queixaram de dores no corpo durante o período em que sofriam a violência intrafamiliar (relato de mulheres no grupo de suporte do SVF).
Com relação ao problema do sono, Adelaide foi encaminhada para avaliação neurológica, que diagnosticou como sendo síndrome de pernas inquietas70 associada com movimentos periódicos de sono.
69 Vale lembrar que do ponto de vista da psicanálise winnicottiana, com relação à ação terapêutica, é
importante que o psicólogo sobreviva aos ataques agressivos do paciente para que este possa experienciar seus impulsos agressivos e amorosos, possibilitando um processo de integração dos mesmos, caso contrário, o amadurecimento pessoal não acontecerá.
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A síndrome das pernas inquietas é uma desordem sensorial que causa na pessoa uma necessidade incontrolável de mover as pernas. Essa necessidade de mover as pernas é devida a sensações incômodas que ocorrem ao ficar quieto. Mover as pernas melhora essas sensações, mas somente por um tempo. As sensações incômodas também podem ocorrer nos braços. A síndrome das pernas inquietas pode tornar difícil cair no sono e se manter dormindo. Pessoas com síndrome das pernas inquietas não têm sono suficiente e podem sentir-se cansadas e sonolentas durante o dia, o que tornar difícil a concentração, trabalho, estudo, e atividades sociais e cotidianas. Não ter sono suficiente também pode fazer com que a pessoas sinta-se deprimida ou com mau humor.
Antes disso, Adelaide já estava tomando fluoxetina e antidepressivo. Esses medicamentos tiveram que ser substituídos devido ao tratamento com Ropinirol, uma vez que o efeito causado com a ingestão dos dois medicamentos não contribuía para o tratamento da síndrome.
Em relação aos problemas de sono de Adelaide, resgato o que Freud (1914/2010) disse “[…] o sono é um estado em que todas as catexias de objeto, tanto as libidinais como as egoísticas, são abandonadas e retiradas para dentro do ego” (p. 45). Se Adelaide tem suas energias voltadas para se proteger do marido, ou seja, está sempre no estado de tensão e prontidão devido à violência intrafamiliar, não tem as catexias do objeto voltadas para dentro do ego, não consegue passar para o estado tranquilo e