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Uma idéia a respeito da maneira como os taínos interpretavam o ser humano, a sociedade e a natureza, pode se obter analisando seu calendário e seus relatos míticos. Para tanto, apresentar-se-ão um gráfico e trechos de lendas, que facilitarão a explicação e compreensão da visão de mundo dos taínos.

Calendário taíno181

Fonte: http://www.hartford-hwp.com/Taino/photos/cosmos.html.182

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Vale destacar que os taínos não eram o único povo indígena que tinha calendário. Outros povos, como os Maias, Astecas, Incas, também usavam calendários.

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Os dados do calendário são uma versão feita pelo autor para o português de informações contidas em PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians. (Introdutory Study, Notes, & Appendixes by Juan Arrom. Tranlated by Susan C. Griswold). Durham & London: Duke University Press, 1999; e num gráfico que aparece no site http://www.hartford-hwp.com/Taino/photos/cosmos.html. Captado em 25-04-2010.

O calendário é uma figura de sete círculos concêntricos. O primeiro, que está no centro do desenho, faz referência a Yaya, o criador da existência, o ancestral espírito agricultor, que ninguém conhece seu nome. Unidade-dualidade são princípios que lhe pertencem. Os três seguintes se dedicam aos ciclos Yayael, Deminán e Guahayona, que relatam fatos alusivos à criação das águas, dos seres humanos e animais. Os três restantes remetem aos fenômenos astronômico-metereológicos, nos que se manifesta o princípio mitológico de dualidade-oposição. Em seguida, uma lenda que explica a visão de mundo dos tainos e a lógica de seu calendário.

Numa época em que o mundo era jovem e estava povoado por antigos deuses, Yaya, o criador e gerador da vida, morava tranqüilamente com sua esposa e seu filho, Yayael. O menino era obediente, mas ao chegar à adolescência freqüentemente discordava do que seu pai, o grande espírito, lhe dizia. Yayael tornou-se uma pessoa insolente e egoísta, que só queria fazer a sua própria vontade e no afã de atuar segundo os seus caprichos resolvia até desrespeitar seu pai. Yaya, enfurecido, ordenou-lhe permanecer quatro luas fora de casa183.

Após quatro meses, Yayael retornou ao lar, mas a cólera de Yaya não tinha acalmado ainda. Por isso, num impulso de raiva, o pai matou o jovem revoltado. Yaya, arrependido e cheio de remorso pelo que havia feito, recolheu os ossos do filho e colocou-os dentro de uma abóbora, que pendurou no teto de sua cabana. O tempo passava e Yaya não conseguia se consolar com a perda do filho rebelde. Por isso, decidiu tirar a abóbora do teto em companhia de sua esposa. Mas, os ossos tinham sumido e no seu lugar apareceram muitos peixes multicores e de todos os tamanhos. Como pareciam tão apetitosos decidiram comê-los, mas, mesmo comendo muitos, os peixes nunca acabavam184.

Uma noite, perto da cabana de Yaya escutou-se um alarido, seguido de outros três grandes gritos. Era que Itiba Cahubaba, a Mãe Terra, tinha acabado de parir quatro gêmeos sagrados. O primeiro, Deminán Caracaracol, era de pele áspera, curioso e temerário. Seus irmãos – cujos nomes não se mencionam – lhe imitavam e seguiam onde quer que ele fosse. Deminán, que tinha ouvido falar sobre o misterioso Yaya, resolveu

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PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians, pp. 13-15. 184

visitar a cabana onde estava a abóbora mágica e, como de costume, seus irmãos também lhe seguiram185.

Uma vez na cabana, os gêmeos baixaram a abóbora e viram que dentro dela nadavam peixes de todas as formas, de todas as cores e de todos os tamanhos. Eles também não hesitaram em comê-los. Deminám, pressentindo que Yaya se acercava à cabana, decidiu retornar a abóbora ao seu lugar inicial, o teto, mas, como eram crianças e estavam assustados, a abóbora despedaçou-se caindo no chão. Um manancial de água imenso brotou da abóbora quebrada, cobrindo a Terra de rios e lagos, de oceanos e mares. Na água doce e na salgada nadavam peixes de diversos tamanhos, de cores tão variadas quanto o arco-íris. Foi assim, que surgiu o mar, dos ossos de Yael186.

Os gêmeos divinos, ao romperem a abóbora, fugiram e na sua correria encontraram-se com Conel, que era mudo. Todos chegaram à cabana do ancião Bayamanaco, o deus do fogo, que era o guarião do cazabe (pão de mandioca) e a cohoba (droga alucinógena). Deminán pediu a Bayamanaco um pouco de cazabe, mas este indignado pela petição do mocinho cospe nas costas dele. Seus irmãos perceberam que essa parte do corpo se dilatou de repente. A inchação cresceu tanto, que Deminán ficou muito doente e quase morreu. Entretanto, decidiram pegar um machado de pedra e cortar a área afetada. Ao abrir a pele, repentinamente, das costas de Deminán saiu uma tartaruga fêmea. Diante dessa situação, os gêmeos decidiram construir uma casa, ou

bohío, e criar a tartaruga, símbolo da criação da primeira mulher que engendraria os

humanos187.

A lenda descreve que na Espanhola – posteriormente conhecida como Haiti e República Dominicana –, na província de Caonao, há uma montanha chamada Canta, que tem duas cavernas: Cacibajagua e Amayuaba. Da primeira, surgiu a grande maioria do povo que morava nessa Ilha. Na época em que taínos viviam na caverna, eles costumavam colocar um guarda na entrada da cova à noite. Mácocael era o encarregado dessa tarefa. O objetivo de ficar vigiando era o de discernir em que direção o povo taíno deveria ser distribuído. Mas, um dia o sentinela demorou em voltar para a caverna e foi surpreendido pelo sol, que o converteu numa pedra. Outros que saíram para pescar

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PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians, pp. 13-15. Para maior informação sobre este tema, conferir dados que aparecem no site:

http://www.7calderosmagicos.com.ar/Druida/Leyendas/Americanas/Yayaelndm.htm, captado em 02-09-2008. 186

Idem. 187

também foram apanhados pelo astro rei e transformados em árvores, que chamaram jobos ou mirobálanos188.

Certo dia, Guahayona, um dos habitantes da caverna, enviou Yahuvava a buscar uma erva chamada digo, que usavam para limpar seus corpos ao se banharem. O emissário saiu antes que amanhecera, mas também foi pego pelo esplendor do dia, tornando-se um pássaro que canta ao alvorecer, como o rouxinol189.

Guahayona, ao ver que Yahuvava não voltava com a erva, então decidiu sair da caverna e instou as mulheres a deixarem seus esposos e filhos e viajarem com ele para uma região longínqua, a procura da referida planta. Anacacuya, o cunhado de Guahayona, também lhes acompanhou na viagem mítica, que fizeram de canoa. Num trecho do caminho, Guahayona mostra ao seu cunhado um caracol. No instante que este se debruçou para ver o molusco na água, Guahayona o pegou pelos pés e o jogou no mar. Assim ficou com todas as mulheres para si e chegou em Matinó190.

Nesse lugar deixou as mulheres e rumou para Guanín. À beira de um riacho, ficaram as crianças, que ao perceberem que estavam sozinhas gritaram desesperadas procurando o leite materno: “toa, toa”. Mas ninguém lhes socorreu, nem seus pais, por isso as crianças tornaram-se rãs, isto é, tona. A rã é símbolo das chuvas191.

Uma vez que Guahayona já estava na terra de destino, se deu conta que tinha deixado no mar uma mulher, que outrora lhe havia propiciado grandes prazeres. Nesse momento ele procurou vários lavatórios para limpar a sua pele e tirar as chagas que lhe molestavam. A dama gentilmente o levou para uma guanara, um lugar apartado, onde Guahayona conseguiu recuperar a saúde. Depois desse gesto, a mulher, que se chamava Guabonito, pediu licença para continuar seu caminho, petição que Guahayona aceitou. Guabonito presenteou Guahayona com muitos guanines, um tipo de jóia de metal para colocar nas orelhas; e muitas cibas, um tipo de pedra para decorar os braços e o pescoço. Guahayona ficou tão surpreso com a experiência que decidiu mudar de nome: a partir desse dia chamou-se Albeborael Guahayona192.

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PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians, pp. 5-9, 30. 189 Idem. Ibid., pp. 6-7. 190 Idem. 191 Idem. Ibid., pp. 6-9. 192 Idem. Ibid. pp. 9-11.

Os homens entristecidos, sem mulheres nem crianças, num dia chuvoso em que tomavam banho num rio, viram descer das árvores pessoas que nem eram homens nem mulheres, pois não tinham sexo. Como não conseguiram pegá-las, porque fugiram como águias, pediram a quatro homens caracóis, de pele áspera – quer dizer de mãos ásperas e fortes –, que as segurassem. Então ataram suas mãos e seus pés e trouxeram a Inriri Cahubabayael, o pica-pau e o amarraram ao corpo daquelas criaturas. Inriri, acreditando que eram árvores, furou com seu bico o lugar onde costuma estar o sexo das mulheres. Por isso, a partir desse dia, segundo a lenda, o pica-pau adquiriu a faixa vermelha no seu peito e na sua cabeça193.

Como se observa no calendário, e se deduz da lenda, tudo parte de Yaya. Em seguida aparece o ciclo Yayael, que, num sentido circular e anti-horário, destaca quatro momentos da vida do filho revoltado: a rebeldia; os quatro meses de desterro; sua morte; a criação dos peixes e a grande enchente.

O ciclo contíguo, o de Deminán, mantém a mesma lógica do anterior, isto é, relatar a estória do personagem em questão: correrias de Deminán; doença do herói; criação do cazabe (pão de mandioca), e da mulher; alusão a Bayamanaco, à cohoba, à tartaruga e ao bohío.

Já, o ciclo de Guahayona engloba um número maior de relatos, seis ao todo, a saber: a criação das pedras, das árvores e dos pássaros, como resultado do contato de seres humanos com o sol; saída da caverna de Guahayona; o momento em que as crianças famintas choram; o instante em que Anacacuya é jogado no mar; a mudança de nome – quando Guahayona passou a chamar-se Albeborael Guahayona – e os presentes que ele ganhou de Guabonito – guanines e cibas.

O conteúdo da última tríade, em forma ascendente, aborda uma temática diferente da precedente. O primeiro desses círculos – que seria o quinto, se se contar a partir do anel central – estabelece uma distinção entre arriba-dentro versus abaixo-fora; entre o equilíbrio, associado a Boinayel e Márohu, e o desequilíbrio relativo a Guabancex; entre a rebeldia dos heróis - seu sacrifico e sua morte - e a rebeldia da natureza.

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PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians, pp. 11-12. Cf. também:

http://mitosla.blogspot.com/2008/08/santo-domingo-mito-tano-origen-de-los.html. Captado em 05-09- 2008.

Boinayel e Márohu são irmãos gêmeos. Márohu possibilita o equilíbrio entre a chuva, provocada por Boinayel (deus da Chuva), e o bom tempo. Se esse equilíbrio não for mantido, segundo a mitologia taína, grandes catástrofes podem acontecer. Tal situação afetaria seres humanos, plantas, animais, rios e mares194. Guabancex, por sua vez, é uma divindade feminina, a dama dos ventos e furacões. Ela é que governa as tormentas e destrói o que encontrar na sua frente195. Porém, nesta visão, o equilíbrio é indispensável.

O círculo intermediário dessa tríade, num sentido astronômico-metrológico, opõe o solstício de inverno ao solstício de verão; o equinócio de primavera ao equinócio de outono; a época de seca à época de furacões, fazendo também referência aos dois períodos de chuva, que precedem à plantação de tabaco, milho e mandioca. Em outras palavras, este círculo descreve o ciclo agrícola taíno.

O anel exterior divide-se em duas grandes áreas: Yucahu Bagua Maorocoti – ser supremo e absoluto – versus Atabey, a divindade Mãe. A primeira, refere-se “àquele que está no céu”, ao masculino, que remete aos segmentos onde predominam os elementos relativos ao sol e à seca; a segunda, faz alusão à Mãe das Águas, ao feminino- terreal, que abrange elementos lunares e aquáticos.

A união dos opostos céu-terra possibilita, segundo a cosmovisão taína, a Criação e remete ao centro do Universo, ao ser dual capaz de integrar tudo o que existe, ao ser hermafrodita, que é espírito, essência e causa primeira da vida. Isto é, ao ser chamado Yaya, àquele que, na verdade, ninguém conhece seu nome. Por fim destaca os pontos cardeais: o “E” para indicar o hemisfério oriental da terra, e “O” para distinguir o ocidental.

Além do círculo central – Yaya –, da primera triáde – ciclos de Yayael, Deminán e Guahayona –, e da segunda tríade, há quatro eixos: um vertical, um horizontal e dois transversais, que dividem o calendário em oito segmentos. Cada um dos elementos tem uma contra-figura simbólica, que aparece no lado oposto do mesmo eixo. Em seguida se apresenta uma figura com os referidos elementos:

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PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians, p. 17. Conferir também:

http://www.indio.net/taino/pdf/mythcuba.pdf. Captado em 05-09-2008. 195

PANÉ, Fray Ramón. An Account of the antiquities of the Indians, p. 29. Conferir também:

Eixos e segmentos do calendário taíno

Elaboração do autor, novembro 2008196

Conteúdo dos eixos Eixo 1:

• Extração/4 Gêmeos versus Bayamaco/Tartaruga,

• Abóbora/Útero Mítico versus Itiba Cahubaba/Mãe Terra,

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O gráfico toma como referência o calédário taíno, que é uma versão feita pelo autor para o português de um gráfico que aparece no site http://www.hartford-hwp.com/Taino/photos/cosmos.html.Captado em 05- 09-2008.

• Polar/Canoa versus Caverna Mítica. Eixo 2:

• Deminán/Barulhu versus Conel/Silêncio, • Venus/Vespertino versus Venus/Matutino. Eixo 3:

• Sírio versus Sírio,

• Água/Cru versus Fogo/Cozido, • Plíades/Rã versus Orion Tartaruga. Eixo 4:

• Dia/Arco-Íris versus Noite/Eclipse, • Sol/Seco versus Lua/Úmido, • Cacique versus Behique.

Do apresentado sobre a cosmovisão taína se deduz que o referido povo tinha uma grande capacidade para interpretar o mundo e a realidade, bem como para desenvolver sistemas de idéias e pensamentos complexos, que guiassem os integrantes de determinada comunidade a lidarem com o dia-a-dia. Mesmo os Taínos que não tinham um sistema geométrico como o existente no mundo globalizado, eram capazes de expressar e transmitir através de seus conceitos sobre a vida e a morte certa noção de geometria cósmica197.

Segundo versões historiográficas, “os colonos que se estabeleceram em Cuba consideraram os indígenas como gente inferior e fraca, sem iniciativa nem capacidade de se adaptarem à vida civilizada”198. Tal critério “dimana, talvez, da excessiva mansidão que lhe atribuiu Las Casas”199. Guerra faz questão de ressaltar que

Os espanhóis não consideraram os índios uma raça estúpida [...] as leis da época aprovavam os matrimônios entre espanhóis e índios [...]. Um espanhol com sangue índio nas suas veias não era considerado inferior na ordem legal o social. A lei lhes permitia o acesso a todos os cargos públicos vetados aos descendentes de judeus e posteriormente aos mestiços negros. Isto prova que [...] os índios

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Para maior informação sobre esta temática, POVIONES-BISHOP, María. El Murciélago y la

Guayaba: Vida y Muerte en la Cosmovisión Taina, publicado originalmente em Inglés no ano de 2001, no

site: http://epistheme-tonydemoya.blogspot.com/2007/01/noticias-del-frente-ancestral-016.html. 198

GUERRA, Ramiro. Manual de historia de Cuba, p. 14 199

mereceram por parte de seus dominadores maior apreço do relatado por muitos de seus escritores200.

Em Cuba, esse amplo universo mítico-simbólico, com o passar do tempo, quedaria aparentemente imperceptível devido à presença espanhola e à chegada de inúmeras culturas, que a partir de irrupção ibérica na Ilha deixariam suas dissímeles maneiras de interpretar o ser humano, o mundo e a sociedade.