1.4 Les approches th´eoriques du changement de technologies d’irrigation
1.4.2 L’approche ´evolutionniste du changement technologique
À estátua de Narciso, Descrições 5
Tradução de EDUARDO GANILHO
1. Havia um bosque e nele uma belíssima fonte de água muito pura e translúcida. Erguia -se junto a ela um Narciso feito de pedra. Era um menino. Ou melhor: era um jovem da idade dos Erotes,11 que como que emitia da beleza do seu corpo um brilho de relâmpago. A sua figura era a seguinte. Lampejava com os fios dourados do seu cabelo, que na testa se enrolava até formar um círculo e do pescoço se derramava para as costas. Mas o seu olhar não era de mero gáudio nem de pura hilari- dade. Por efeito da arte havia também dor na natureza dos olhos, para que a estátua imitasse com Narciso o destino.
2. Estava vestido como os Erotes, a quem se assemelhava também por estar na flor da idade. A roupa que o adornava era a seguinte. Um peplo bran- co-flor, semelhante na cor ao corpo de pedra, envolvia -o. Estava preso com uma pregadeira no ombro direito, descia até ao joelho e aí terminava. Só a mão deixava ele livre da pregadeira para baixo. Era tão delicado e fiel na imitação de um peplo real que até a cor do corpo brilhava através dele, porque a brancura da roupa concedia que a luz dos membros saísse. 3. Estava de pé, usando a fonte como espelho e derramando para ela a forma
da sua face. A fonte recebia os traços dele e perfazia a mesma imagem, de modo que as naturezas pareciam rivalizar uma com a outra. A pedra transformava -se toda naquele, o menino real, enquanto a fonte competia com as maquinações da arte na pedra, pois criava numa figura incorpó- rea a semelhança do corpo do modelo e criava o reflexo vindo da estátua com a natureza da água como se com uma espécie de carne.
42 ECO E NARCISO
4. A figura nas águas era tão viva e espirante que pareceu ser o próprio Narciso, aquele que, segundo dizem, chegou a uma fonte e, vista a sua forma nas águas, morreu entre as Ninfas por ter desejado unir -se à sua imagem — e agora aparece em flor nos prados durante a Primavera. Verias como a pedra, embora fosse de uma só cor, se adaptava à expres- são dos olhos e conservava um registo do carácter e indicava percepções dos sentidos e denunciava emoções e acompanhava a exuberância do penteado, dissolvendo -se na sinuosidade do cabelo.
5. Mas isto não pode ser dito com palavras: pedra estava relaxada a ponto de se tornar fluida e apresentava um corpo contrário ao seu ser. Embora tivesse uma natureza mais dura, transmitia uma sensação de delicadeza, difundindo -se numa espécie de substância corpórea porosa. Tinha nas mãos uma siringe,12 aquela que ele dedicava aos deuses pastoris — e fazia o ermo ressoar com as suas canções, se desejasse entreter-se com instrumentos de corda.
6. Admirado com este Narciso, jovens, imprimi -o na morada das Musas e trouxe-o até vós. Seja o discurso como a estátua era.
EDIÇÃO
BÄBLER, B. – NESSELRATH, H. -G. (2006), Ars et verba: die Kunstbeschreibungen des
Kallistratos.Einführung, Text, Übersetzung, Anmerkungen, archäologischer Kommentar,
München.
Pausânias
(séc. II d.C.)Descrição da Grécia 9.31.7 -9
Tradução de RUI CARLOS FONSECA
No cimo do Hélicon, há um pequeno rio de nome Lamos e, na região dos Téspios, existe um lugar chamado Dónacon. É aí que se situa a fonte de Narciso. Contam que Narciso olhou para a água dessa fonte e que, não percebendo que olhava para a sua própria imagem reflectida, se apaixo- nou, sem o saber, por si próprio. Por causa desse amor, acabou por encon- trar a morte junto à fonte. Esta história é deveras absurda: o facto de um rapaz, tendo já chegado à idade de ser conquistado pelo amor, não ser capaz de distinguir um homem do seu próprio reflexo.
Existe uma outra versão da história de Narciso, embora menos conhe- cida do que a primeira. Diz -se que Narciso tinha uma irmã gémea e que ambos eram idênticos em todos os aspectos da sua aparência: o cabelo era exactamente igual, a roupa que vestiam era também semelhante e os dois iam juntos à caça. Consta que Narciso se apaixonou pela irmã e que, quando a jovem morreu, se dirigiu para a fonte, sabendo que olhava para a sua própria imagem reflectida. A ida à fonte não lhe trouxe, porém, o descanso pretendido para a dor de amor, porquanto na visão que contemplava não julgava ver a própria imagem reflectida, mas a imagem da sua irmã.
A terra fez brotar a flor de narciso antes desta história, assim me parece, se atentarmos ao que vem indicado nos versos de Panfo13. Pois, na verdade, este poeta nasceu muitos anos antes de Narciso, o Téspio. Além disso, conta o poeta que Cora14, a filha de Deméter, fora raptada
13 Poeta grego que compôs hinos. Terá sido um autor da época arcaica (anterior a
Homero) ou da época helenística (a ter em conta a análise estilística dos seus versos). Cf.
Encyclopaedia of the Ancient World (vol. 10, s.v. “Pamphos”); e The Oxford Classical Dictionary
(s.v. “Pamphus”).
14 Trata -se de Perséfone, filha de Deméter, raptada pelo deus Hades, que a levou
para os Infernos, fazendo dela sua mulher. Segundo o mito, a jovem estava a colher flores, no momento em que foi raptada. A estadia alternada de Perséfone entre o Olimpo (onde vive com a mãe, durante uma metade do ano) e os Infernos (onde vive com o marido, durante a outra metade do ano) explica o mito da sucessão das estações.
44 ECO E NARCISO
quando se distraía a colher flores. Não foram as violetas que a levaram a ser raptada, mas os narcisos.
EDIÇÃO
Longo
(séc. II d.C.)Dáfnis e Cloe 3.22 -23 (Eco)
Tradução de RUI CARLOS FONSECA
Rindo docemente e dando -lhe beijos ainda mais doces, Dáfnis colocou a coroa de violetas na cabeça de Cloe e começou a contar -lhe o mito de Eco, pedindo pelo desempenho da tarefa de educador o pagamento de outros dez beijos.
“A linhagem das Ninfas, minha querida pupila, é numerosa: há as Mélias15, as Dríades16 e as Heleias17. Todas elas são formosas e todas são musicais. Eco é filha de uma dessas Ninfas: não só é mortal, nascida de pai mortal, mas também bela, nascida de mãe igualmente bela. Foi criada pelas Ninfas e ensinada pelas Musas a tocar flauta e a cantar qualquer melodia ao som da lira e da cítara, de modo que ao atingir a flor da moci- dade passou a acompanhar as Ninfas na dança e as Musas no canto. Fugia de todo o contacto com o sexo masculino, tanto de homens como de deuses. Ora, Pã encolerizou -se contra a jovem, invejando -lhe a música e não lhe conseguindo tomar a formosura. Por isso, fez recair um estado de loucura sobre os pastores e os cabreiros. Estes, como cães ou lobos, despedaçaram -na e espalharam as partes do corpo por toda a terra, ainda quando cantavam. Por simpatia para com as Ninfas, Geia cobriu todos os membros da jovem, preservando assim a melodia que deles emanava; e, por vontade das Musas, a jovem solta ainda a sua voz, imitando todos os sons — de homens, deuses, instrumentos e animais —, tal como outrora fizera. Imita até o próprio Pã a tocar flauta. E ele ao ouvir vai saltando
15 Ninfas dos freixos, também conhecidas por Melíades (o seu nome é formado a
partir de μελία que significa “árvore de freixo”). Cf. Hesíodo, Teogonia 187; Calímaco,
Hino a Zeus 47.
16 Ninfas das árvores, em geral, e dos carvalhos, em particular (o seu nome é formado
a partir de δρῦς que significa “carvalho”).
17 Ninfas dos pântanos (o seu nome tem na sua base o adjectivo ἕλειος que significa
46 ECO E NARCISO
pelos bosques em perseguição do som, não procurando encontrar mas antes conhecer a identidade do seu discípulo oculto.”
Quando Dáfnis terminou de contar a história de Eco, Cloe não lhe deu apenas dez beijos, mas beijando -o com ternura deu -lhe muito mais do que uma dezena de beijos. Pois a verdade é que também Eco repetiu a mesma história, como para testemunhar que ele não havia dito falsidades.
EDIÇÃO