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71 L’abaisse-langue :

Como dito anteriormente, o ensino escolar é prioritário para o desenvolvimento da personalidade humana consciente. A escola é uma esfera privilegiada de relações sociais e consequentemente, encontra espaço e lugar na vida humana, garantindo ao educando condições

de apropriar-se do mundo à sua volta, ter acesso aos conhecimentos sistematicamente acumulados e avançar no seu processo de constituição da personalidade humana consciente.

O processo de educação é condição fundamental para o processo de formação das qualidades humanas, se considerarmos a importância que os outros seres humanos têm na mediação com a cultura, seja no emprego dos instrumentos ou transmissão dos conhecimentos historicamente acumulados. Para constituir-se como ser genérico, o ser humano depende daquilo que aprende, do que conhece e utiliza da cultura acumulada. A importância da educação no processo de constituição da personalidade humana consciente das pessoas já foi muito bem ressaltada por Saviani (1997), Duarte, (1993), Facci (2004), Leontiev (2014), Vigotski, (1924/2003; 2010) e outros. Nesse sentido, Mello (2000) coloca seu entendimento sobre como se dá o processo de humanização entrelaçado com o processo de educação:

[…] entendemos que o processo de humanização se dá como processo de educação, seja aquele realizado assistematicamente em todas as modalidades da prática social dos homens, seja aquele processo sistematizado, necessariamente marcado pela intencionalidade através da apropriação do conhecimento sistematizado, não-cotidiano. Em outras palavras, entendemos a educação como acesso à possibilidade máxima de apropriação do gênero humano, do máximo de humanidade desenvolvida social e historicamente […] (MELLO, 2000, p. 63).

Vigotski (1924/2003) considera insuficiente o critério de que a vida, por si só dê conta de produzir um ser humano resistente e vital, por dois aspectos. Primeiramente, o objetivo da educação não é o de adaptar o sujeito ao ambiente já existente e sim, criar nele um olhar que ultrapasse o seu meio. Em segundo lugar, devemos considerar que os elementos do meio social podem contaminar de modo nocivo e funesto o processo de humanização das crianças, visto que são seres em processo de formação.

É verdade que educamos para a vida, que esta é o árbitro supremo, e que nossa meta não é inocular virtudes escolares especiais, mas comunicar hábitos e capacidades de viver. [É verdade que] a incorporação à vida é nosso objetivo final, mas na vida há hábitos muito diferentes e esta incorporação pode ter características muito diversas. [...] portanto, não concordamos com o fato de deixar o processo educativo nas mãos das forças espontâneas da vida (VIGOTSKI, 1924/2003, p. 77)

Teixeira e Mello (2016) apoiadas nos estudos de Heller (1997) classificam a educação como parte da esfera complexa da atividade humana, contemplando o que está além do ato de sobrevivência, a formação da personalidade humana consciente das pessoas. As atividades complexas resultam de um nível de elaboração mais profundo, que estão além das atividades cotidianas, portanto, para a realização ou internalização necessitam de uma atitude dirigida intencional, refletida e planejada da consciência e dos conhecimentos. Não se trata de criar um

ambiente artificial descolado da sociedade, mas selecionar dentre as práticas culturais as que melhor contribuem para a formação de um ser humano emancipado, sem ocultar a sociedade real com suas desigualdades e lutas de classes.

Desse modo, cabe ressaltar o objetivo do trabalho educativo como

[…] o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Assim, o objeto da educação diz respeito, de um lado, à identificação dos elementos culturais que precisam ser assimilados pelos indivíduos da espécie humana para que eles se tornem humanos e, de outro lado e concomitantemente, à descoberta das formas mais adequadas para atingir esse objetivo (SAVIANI, 1997, p. 17).

Para Leontiev (1978, p. 273) “[…] quanto mais progride a humanidade, mais rica é a prática sócio-histórica acumulada por ela, mais cresce o papel específico da educação e mais complexa é a sua tarefa”. Compreender a importância dessa afirmação redimensiona o trabalho intencional do professor na escola. Leontiev defende que “[…] esta relação entre o progresso histórico e progresso da educação é tão estreita que se pode sem risco de errar julgar o nível geral de desenvolvimento histórico da sociedade pelo nível de desenvolvimento do seu sistema educativo […]” (LEONTIEV, 1978, p. 273).

Na educação da criança com deficiência, seja qual for a deficiência ou o nível de comprometimento em que se apresenta, deve ser garantido a oportunidade de se apropriar daquilo que está no plano social, público, convertendo-os em seu plano particular, privado; tanto os valores e saberes do convívio cotidiano como os conhecimentos mais elaborados pertencentes à esfera da ciência, das artes e filosofia (BARROCO, 2007).

Vigotski defendeu a educação social da criança com deficiência, baseado no “método da compensação social da deficiência natural”. Para o autor, “a educação especial deve estar subordinada ao social, deve estar ligada a ela e, mais ainda, deve fundir-se organicamente a ela, incorporá-la como parte componente” (1924/2012, p.81). Para isso, são necessários técnicas pedagógicas, recursos e métodos especiais e somente um conhecimento cientifico da técnica pode formar um autêntico pedagogo especialista em educação especial.

No que tange à educação infantil, Vigotski defende que ela seja orientada para a inclusão social da criança surda. Entendo que este princípio, nos dias atuais, deve abranger todas as crianças com ou sem deficiência. Segundo o autor

[...] na instituição pré-escolar o trabalho com a criança surda-muda se estrutura, fundando-se amplamente na educação social. A ideia central consiste em que a educação se considera como parte da vida social e como participação organizada das crianças nessa vida. A educação e o ensino na sociedade, através da sociedade e para a sociedade: tal é o fundamento da educação social [...] o meio social e sua estrutura são o fator decisivo e final

de todo o sistema educativo [...] por esse motivo, também a escola se identifica como um aparato da educação social, como um lugar e um modo de organizar as crianças na vida circundante. (VIGOTSKI, 1925/2012, p. 125-126, tradução nossa)

Ao considerar o meio social como um fator decisivo e final no processo educativo, Vigotski (1924/2003) o concebe como uma parte importante da dinâmica no desenvolvimento da criança. À medida em que a criança se modifica, modificam-se também as suas relações com o seu meio social. A relação da criança com o seu meio social pode ser estudada por intermédio de suas vivências, como situações concretas. A vivência é uma unidade na qual o meio, de forma indivisível, está representado naquilo que se vivencia.

Em se tratando do trabalho docente frente às demandas da inclusão, podemos dizer que uma criança que tem seu desenvolvimento prejudicado pela deficiência apresenta uma visão de mundo distorcida, seja pela situação de inferioridade em que é colocada ou pela falta de acesso aos serviços e produtos destinado a melhoria de qualidade de vida, e por isso, necessita muito mais da mediação pedagógica do que as crianças sem deficiência (GINDIS,1995). Neste caso, a educação somente se efetivará como inclusiva se houver uma diminuição da distância entre o que foi produzido historicamente pelo gênero humano e a apropriação e objetivação pelo sujeito particular.

1.4 Indicadores teóricos para formação continuada de professores com vistas à inclusão

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