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Partie III. Classification et caractérisation de chirotopes

5.2 Méthodes de clustering

5.2.3 k-medoids

Imagem 26: Imagens de Mestre Zé Pequeno, mateiro e pescador, e de seu saber fazer apresentadas na exposição “Vale do Gramame: memórias e vivências”. Arte de Daniella Lira, 2013.

Mestre Zé Pequeno, cujo nome de batismo é José Francisco de França, me recebeu em sua casa. Mateiro45 e pescador, ele vive em um sítio, de 22 hectares, na comunidade de Mituaçu, numa casa com varanda e alpendre, rodeada por outras casas, onde moram alguns de seus filhos com as respectivas famílias. Em frente à sua casa é o ponto final do ônibus, que vem do terminal de integração de João Pessoa até Mituaçu. O trajeto desse ônibus é resultado de suas lutas por melhorias de mobilidade urbana para os moradores locais.

Apesar da fala pausada, possivelmente pela idade, e de ser um homem de poucas palavras, Seu Zé Pequeno, em seus relatos, demonstrou ser um homem de liderança, tanto no seio familiar como na comunidade onde vive. Era o filho do meio, de uma família de três filhos. E foi o cuidador de seus pais na velhice deles. Como ele mesmo disse: “Meu pai e minha mãe morreram em meu poder”. O arrendamento do sítio onde mora herdou de seu pai, o qual se mudou pra Mituaçu, quando veio da cidade de Guarabira.

Foi na conversa sem gravador que Mestre Zé Pequeno mais ficou à vontade e relatou histórias relacionadas ao seu conhecimento tradicional de manuseio com as plantas. Uma das histórias envolve a cebola do xexém, uma planta quase mítica da região, cuja floração aparece em um período muito curto de tempo ao longo do ano (na foto do Mestre Zé Pequeno na exposição, ele aparece segurando uma cebola do xexém). Essa planta teria poderes medicinais capazes de aplacar os efeitos de veneno de cobra. Nesses relatos, afirma que o teiú-açu (uma espécie de lagarto grande) briga com serpentes no intuito de devorá-las. Nessas brigas, quando é mordido pela cobra, o teiú-açu adentra a mata, procura uma cebola do xexém para comê-la e retorna para continuar sua briga com a cobra, até conseguir seu intento.

Com 81 anos completos em 2015, Mestre Zé Pequeno é natural do Gurugi, região quilombola do município do Conde, bem próxima de Mituaçu, onde mora desde sua juventude. Em sua casa destaca-se também uma casa de farinha, há muito tempo utilizada de forma coletiva entre os moradores locais.

Eu tô com 80 anos, completei no dia 8 de dezembro [de 2014]. Nasci em Gurugi e quando estava com 16 ano, aí meu pai mudou-se praqui e arrendou esse sítio aqui e eu vim com ele morar aqui. Depois meu pai morreu e eu fiquei aqui, tomando conta desse sítio. Os dono já morreram também. Foi em 51, no ano de 51. Desde 51 que eu moro aqui. Casei aqui, tenho 10 filhos. O mais velho morreu já, nesse ano passado. Tem um em São Paulo e outros é tudo por aqui mesmo. Ali tem a casa de um, aqui é outro, aqui mais em baixo tem outro, ali tem a casa de outro também. (...)

Eu trabalhava na agricultura, plantando roça, feijão, tudo quanto é coisa da agricultura eu tratava, roça, feijão, amendoim, inhame, batata, tudo isso eu tratava. E tem uma casa de farinha, que tá funcionando ainda, mas é fraquinha. Não tem mais essas coisa não porque o pessoal deixaram de plantar roça. Aqui é só pra família mesmo. De vez em quando a gente faz um bocadinho de farinha (...)

Somos quilombola. Eu nasci em Gurugi e depois mudamos praqui e de qualquer maneira somos quilombola. A minha família é tudo de gente negra. (Mestre Zé Pequeno, entrevista concedida em 05/02/2015).

Seu Zé Pequeno é conhecido também como uma liderança na comunidade. Já foi presidente da Associação dos Amigos e Moradores de Mituaçu e também já participou da sua administração como conselheiro. Em sua fala, gosta de destacar as conquistas que obteve para melhorias locais.

Quando eu cheguei aqui, isso aqui só tinha uma varetazinha. Até pra gente andar de pés dava trabalho. Nós começamos melhorando o caminho e hoje em dia até ônibus já tem. Aqui é o ponto final. Tudo isso fui eu que participei dessas coisa, né. Esse ônibus voltava de Gramame e quando a gente começou com esses negócio dessas reunião, pedimos pra mode de o ônibus chegar até aqui. O dono da empresa botou uma dificuldade. Aí fizemos um abaixo-assinado e levemos pra lá, pra empresa. Mas ele ainda não mandou o ônibus. A gente insistimos de novo e eu tirei uma cópia do abaixo-assinado. Depois a gente foi de novo. Chegamos lá e o chefe de tráfego da empresa disse: “Seu Zé, deixa esse abaixo-assinado aqui comigo que amanhã eu lhe entrego”. Aí deixei lá o abaixo-assinado com ele e quando foi no outro dia, ele me entregou o abaixo-assinado e disse: “O ônibus vai pra lá”. Tá certo. Aí o ônibus começou a vir pra cá e depois pegaram a dizer que não dava resultado, dava prejuízo pra empresa. Esse mesmo que pediu o abaixo-assinado a mim veio um dia no ônibus e começou a dar uma senha a todo mundo. Ele veio recolhendo a senha dos passageiro e quando chegou lá na empresa disse: “Tá aqui. Vocês dizem que dá prejuízo, mas não dá. Taí as senhas”. Eu sei que continuou. (...)

Aqui eu sempre assisti reunião. Com o pessoal do projeto Rondon foi as primeiras reunião que eu assisti. Isso já faz mais ou menos uns 15 anos. Aí eu sempre participava. Elas vinham fazer reunião aqui e lá na sede do

projeto Rondon46. Era mais mulher, né. Com elas foi que arrumamos

coragem de trazer o ônibus pra cá. (...)

Eu sempre gostei de ver se melhorava as coisas do lugar. Eu ainda fui presidente da Associação [de Moradores e Amigos de Mituaçu]. Fui tesoureiro duas vezes e depois fui presidente. (Mestre Zé Pequeno, entrevista concedida em 05/02/2015).

O conhecimento das ervas aprendeu com o seu lidar no mato, desde criança, e com os parentes mais próximos. Em sua fala, parece indicar que tem esse dom desde menino. Em sua fala, sempre recorre aos parentes antigos para constituir suas memórias, que lhe dão suporte tanto para legitimar o dom que carrega consigo ao longo da vida, como da própria construção narrativa de suas memórias. Confirma a ideia de que nossas lembranças estão pautadas também nas lembranças dos outros e que a memória é construída a partir dos materiais de que dispomos no presente.

Esse negócio de erva, eu peguei conhecer com as minhas tia, meus tios. Eu tinha uma tia que era parteira e tinha um tio que curava mordedura de cobra. Nunca aprendi nada esse negócio de veneno de cobra, mas eu tinha um tio que curava. As cobras mordia as pessoas e ele curava. Aí eu sempre via eles falar das plantas, que serve de remédio. Eu quando tinha de 6 a 8 anos, eu passei no quintal de uma casa, aí tinha um pé de cidreira. Nesse tempo, eu tinha uma enemia danada. Aí eu passei e peguei assim na folha da cidreira, aí cheirei, achei um cheiro bom. Eu vinha mais minha mãe e disse: “Eu vou levar esse mato pra fazer chá pra mim”, da minha cabeça mesmo. E minha mãe: “Leva”. Quando ela chegou em casa, fez o chá da cidreira e eu comecei a tomar o chá da cidreira e a enemia acabou-se, né. A enemia desapareceu. Aí desde esse tempo que eu sempre tomo chá de cidreira. ... E assim eu vou aprendendo com as plantas que servem de remédio. Vou aprendendo com o povo mesmo. (Mestre Zé Pequeno, entrevista concedida em 05/02/2015).

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O Projeto Rondon foi criado em 1967, permanecendo em franca atividade durante as décadas de 1970 e 1980. No final dos anos oitenta, o deixou de receber prioridade no Governo Federal, sendo extinto em 1989. Em 2005, voltou a figurar na pauta dos programas governamentais, com uma nova roupagem, sendo atribuída a sua coordenação ao Ministério da Defesa. Desde então, o projeto Rondon já levou mais de 12.000 rondonistas a cerca de 800 municípios (conf. http://projetorondon.pagina-oficial.com, acesso em 22/01/2016).

4.1.3. Mestre Marcos: “Hoje é coreógrafo, mas antigamente a gente era conhecido como