Partie III. Classification et caractérisation de chirotopes
5.3 Méthodes de classification supervisée
5.3.1 Arbres de décision
Imagem 28: Imagens de Mestre Zominho, tocador de acordeom, e de seu saber fazer apresentadas na exposição “Vale do Gramame: memórias e vivências”. Arte de Daniella Lira, 2013.
Fui recebido por Mestre Zominho em sua casa, na comunidade de Caxitu, nas proximidades de Mituaçu, no Conde. Vindo de Venturosa/PE, já casado com D. Maria do
Socorro e três filhos, chega a João Pessoa há aproximadamente 45 anos, para trabalhar na agricultura e cuidar do sítio onde mora até hoje. Na Paraíba teve mais outros seis filhos.
Mestre Zominho mostra-se bastante falador e amplamente ativo na luta por melhores condições de vida para o local onde mora. Em sua fala, também chama a atenção a sua resignação por ter deixado de tocar a sanfona em boa parte de sua vida, tendo em vista ter que se dedicar à lida na lavoura. Também lamenta por nenhum de seus filhos ter se interessado em aprender a tocar o instrumento. Na entrevista, quando pega sua sanfona para tocar, é impossível não perceber seu entusiasmo. Com desenvoltura, toca o instrumento, canta suas composições e se emociona em determinados momentos.
Meu nome é Ruth Leite da Silva, conhecido por Zominho. Tenho 68 anos, sou pernambucano e moro aqui há quase 45 anos. Nasci numa cidade por nome de Venturosa e nasci e me criei numa fazenda. Meu pai morou 50 e poucos ano nessa fazenda e eu vim embora e eles ficaram por lá. Eu vim embora pra cá em 1970, com 25 anos. E lá meu serviço foi de fazenda mesmo, foi o que eu aprendi. Na minha época não tinha escola lá, era lugar atrasado, não tinha energia, não tinha nada. Tinha muitos fazendeiro grande lá, mas o transporte deles era charrete, cavalo. Era o transporte dos rico, animal, cavalo e era assim. Na cidade de Venturosa tinha uma escola particular. Eu ia pra escola, mas não ia estudar. Eu ia com os filho dos fazendeiro. Eu era mais velho um pouco do que alguns deles. Era 5h da manhã, numa charrete, e chegava em casa com eles de volta de uma hora da tarde, quando terminava as aula deles lá. O pobre não podia pagar aula, nessa época... Na época era cara, era só pra quem podia mesmo. Não estudei por causa disso.
Levei esse tempo todinho trabalhando em fazenda mais meus pais. Aí casei, minha esposa é de lá também, nascida e criada na fazenda também. Vim pra cá com três filhos. Houve seis depois que eu cheguei aqui e tô por aqui. (Mestre Zominho, entrevista concedida em 26/02/2015).
Na sua juventude, as melhores recordações são de quando ganhava a vida com a sanfona, presente que recebeu de seu pai. Muito moço, só pensava em tocar e o acordeom era a sua verdadeira paixão. Com a música, conseguia ganhar mais dinheiro do que trabalhando na lavoura, mas também o ritmo de vida de músico fazia com que tivesse uma vida menos regrada, de muitos gastos nas festas. Foi após o casamento que decidiu abandonar a música e trabalhar em fazendas.
Quando eu tinha 15 anos, abandonei meu pai, em termos do trabalho dele. Porque ele era agricultor, trabalhava em fazenda... Só que ele comprou uma sanfona pra mim quando eu tinha 15 anos e com essa sanfona eu abandonei ele, em termos, né. Não saí de casa, mas não fui mais pra enxada com ele, tirar leite. Comecei nas noitada... Lá na época, eu tocava nas festas da cidade; da igreja, nas festa que tinha de ano em ano; e nos sítios, as festa que eu tocava era aniversário e casamento. Mas como era escasso essa profissão lá no local, quando alguém fazia [festa], trazia da cidade um sanfoneiro, animador conhecido e fazia o evento. Como eu comecei nesse ramo, aí eu também não parava. Eu ganhava mais dinheiro que o meu pai. Eu ganhava mais dinheiro por semana do que meu pai trabalhando um mês. Mas só que eu joguei fora.
Eu tinha um trio. Minha vida era essa de solteiro. Eu abandonei depois de casado. Fiquei dos 15 a 21 anos nesse ramo. Eu ganhava esse dinheiro, mas não sabia aproveitar. Me envolvi com amigos, eu ganhava, eu bebia, pagava bebida pros outro, eu jogava. Era isso. Eu só nunca fiz roubar. Graças a Deus eu só nunca fiz roubar, mas o meu dinheiro eu istruí todinho. Eu vim aproveitar minha vida em termos financeiro depois que eu me casei. (Mestre Zominho, entrevista concedida em 26/02/2015).
Apesar de não mais tocar com tanta assiduidade como antigamente, sua história de vida está relacionada à paixão pelo acordeom, o que é bastante forte em sua fala. É o universo de música que dá o tom às memórias de Seu Zominho. Elas são carregadas de musicalidade e os maiores detalhes de sua vida são construídos em sua fala quando atrelados à música. A música está aliada aos momentos de prazer, de alegria, mesmo quando tocava profissionalmente. O seu trabalho com a agricultura é demonstrado como uma obrigação, uma necessidade para o sustento de sua família. Em suas memórias, o período em que passou sem tocar não é enfatizado e pouco relata sobre esse período. Os relatos passam dos tempos de juventude, quando tocava constantemente, até a retomada da música em sua vida, mesmo que esporadicamente, durante festejos juninos e outras comemorações recentemente, construindo, assim, uma identidade própria e específica a partir dos elementos que tem como significativos para sua trajetória pessoal. Estimulado pelo pai, que fez um sacrifício para comprar uma sanfona e teve a sensibilidade de deixar o filho seguir na música, mestre Zominho, como ele mesmo diz, “cantava com os dedos”.
Antes eu aprendi a bater pandeiro. Ia praquelas festas, tinha os violeiro. Era viola ou violão de 10 cordas. O cabra tocava aquela dança a noite todinha
com viola de 10 corda. Tinha o pandeiro, o zabumba... Eu vendo aquilo ali, eu via as música e o meu pai comprou uma sanfona pra mim. Meu pai vendeu uma vaquinha, na época por 6 mil, né, naquela época. 6 mil réis naquela época. E minha mãe: “Como é que você vai fazer os gosto do seu filho e não sei o quê, vender uma vaca”. Mas meu pai gostava de mim. Ele comprou essa sanfona nova, na cidade de Arcoverde.
Aí pronto, eu quase endoido. Eu quase endoido com essa sanfona. Não dormia, não tinha fome. Minha mãe dizia: “João, dá fim a essa sanfona, senão tu vai perder seu filho. Tu acha melhor perder seu filho ou a sanfona?” [O pai responde] “Nada, perde nada”. No começo, eu só queria estar com a sanfona... Lá de fora tinha uns banco de aroeira. Eu me levantava 12 horas da noite, todo mundo dormindo, minhas irmã... Eu pegava a sanfona escondida da minha mãe. Minha mãe era meia rígida. Eu ficava rodando na rede, sem sono, com aquela vontade de pegar na sanfona e com medo da minha mãe. Eu tinha mais medo da minha mãe do que do meu pai. A ansiedade era tão grande que eu passava por cima de tudo.
Aí pegava a sanfona, ia pro banco, e começa bem devagarinho. Cabeça boa, que eu era novo. Meu pai tinha um rádio campeão. Rádio bom, pegava tudo. Ele “assistia” jogo nele, “assistia” jogo do Brasil naquele rádio. Aí eu sei que fui treinando aquelas música, treinando, treinando, treinando. Eu nunca cantei, só tocava. Saía com os dedos, caçando aquelas nota, caçando, caçando [fazendo gestos como se estivesse tocando]. Depois comecei a entoar os dedo daqui, debaixo e lá vai. Eu sei que com 15 dia, eu toquei o primeiro forró, com se diz, porque na época não se chamava forró, se chamava baile.
Eu toquei no aniversário de um conhecido lá, e toquei quase uma noite. Cheguei feliz demais no outro dia. Era duas música. Era Asa Branca, era o hino, a música que aprendi mais. Era uma marchinha, Asa Branca e xote, um negócio mais maneiro. Eu sei que fui. Tinha um cabra que tocava lá, pandeirista e tocava com aqueles cabra de viola. Quando soube que eu tava com a sanfona, me disseram: Vem pra cá treinar mais eu. Aí minha mente abriu. Depois desse cara, já que eu não cantava, eu gravava as música toda na minha cabeça. Eu cantava com os dedos. Eu não cantava com a boca, mas cantava com os dedos. (Mestre Zominho, entrevista concedida em 26/02/2015 – grifos acrescidos).
Quando mestre Zominho pega a sanfona, solta-se mais ainda, e toca suas músicas de memória. Faz questão de cantar as várias músicas que compôs, relembrando o contexto em que foi composta. Emociona-se bastante quando toca e canta a música que conta sua história de vida, que traz a seguinte letra:
A fazenda ela se chama Gentil
Que um dia no passado tinha sua tradição De conservar asa pura no pretel [?]
Conhecida mundialmente, no norte ou no sertão
Quando eu me lembro, dá vontade de chorar Casa que papai morou, hoje só tem o lugar
Tenho saudade daquele pé de juá e o pé de imbu lá na frente do currá
Ô Seu Tenório, onde é que o senhor está? Tenho certeza que Jesus mandou buscar Tenho saudade, mas não posso ir morar, minha terra querida, eu tenho que recordar [...]
(Mestre Zominho, entrevista concedida em 26/02/2015)
Não consegue cantá-la toda. Extremamente emocionado, com os olhos em lágrimas, para, respira e pede desculpas. Depois de um tempo se justifica.
Eu não canto essa música. Eu não termino nunca de cantar. É a fazenda onde eu nasci... (pausa). Toda vez, essa música... (pausa) Era lá a minha terra, falando da fazenda. Seu Tenório era o dono da fazenda. Ele faleceu (pausa). A gente vai ficando mais velho... Meu pai é falecido, minha mãe. (pausa). É, rapaz! Vamo tocar outra. Vamo tocar outra. (Mestre Zominho, entrevista concedida em 26/02/2015).
4.1.5. Mestra Judite: “Aí um dia comecei a escrever e fiz a minha primeira poesia que foi