4. P ROBLÉMATIQUE ET MÉTHODE D ’ ANALYSE
3.1. L E NADSAT VERSION A NTHONY B URGESS
3.1.3. Les jeux de mots
O artigo de 1896, “The Tall Office Building Artistically Considered”25, de Louis Sullivan centra‐se no tema dos arranha‐céus que despontam na paisagem das cidades norte‐americanas, especialmente após o incêndio de Chicago, em 1871, e a necessidade de reconstrução. Já no início do texto, Sullivan deixa claro que não pretende tratar sobre as condições sociais da época, mas sim, parte do princípio de que elas são inevitáveis. O autor considera a verticalização como
a resposta à demanda. Dessa forma, para o arquiteto norte‐americano, o que importa ser discutido é qual a melhor maneira de fazer edifícios em altura.
Para justificar a eficácia da nova tipologia, Sullivan elenca fatores como: a necessidade de maior número de escritórios para transações comerciais; a invenção e aperfeiçoamento de elevadores para vencer grandes alturas com alta velocidade e conforto; os avanços tecnológicos e de manufatura do aço que apontam caminhos para construções altas, seguras, estáveis e econômicas e o inchaço dos centros urbanos e consequente aumento do preço dos lotes que estimulam o aumento do número de pavimentos26. A partir daí, Sullivan descreve como essa nova tipologia deve ser, detalhando sua disposição nos diferentes pisos e a aparência que os arranha‐céus devem apresentar. (figura 76) FIGURA 76: Esquema dos usos nos diferentes pisos de um arranha‐céu a partir do texto de Sullivan “The Tall Office Building Artistically Considered” de 1896 Fonte: Própria autora, 2010 26 Quanto ao aumento do valor do solo, vale destacar como fator de influência, o contexto da cidade de Chicago na época, praticamente destruída, décadas antes, no grande incêndio de 1871.
O arranha‐céu descrito por Sullivan em seu texto é dividido da seguinte forma e ilustrado pelo figura 76: subsolo para localização de instalações e serviços; pavimento térreo para lojas, bancos ou outros usos que se beneficiem com a maior acessibilidade proporcionada por este piso; mezanino para uso de escritórios acessível por escada a partir do térreo; demais
pavimentos, todos iguais, com número máximo indefinido, para serem ocupados por escritórios e, coroando a edificação, o sótão, que complementa as funções do subsolo, necessárias para o funcionamento da torre. FIGURA 77: Edifício Guaranty (1895) e Loja de Departamento Carson, Pirie & Scott (1899‐1904) ambos de Louis Sullivan, exemplicam o modelo tripartido de arranha‐céu Fontes: <http://www.artehistoria.jcyl.es/obrmaestras/obras/16970.htm> e <http://www.american‐architecture.info/USA/CHICAGO/CHIC‐LS/CHIC‐LS‐ 020.htm>; acesso em Nov. 2011
Os diferentes pisos configuram uma construção em três partes, tal qual as colunas clássicas tripartidas onde, há nelas, a base, fuste e capitel. Nas palavras de Sullivan sobre esta composição da torre: “it should have a beggining, a middle and an ending, each clearly
defined”27. A primeira parte compõe‐se do subsolo, térreo e mezanino; a segunda, pelos
pavimentos de escritórios, e a última, pelo sótão e coroamento (figura 77). Esta divisão já dá um aspecto formal do arranha‐céu tripartido pretendido por Sullivan, cada parte com suas características próprias. É neste artigo que o autor também lança o axioma “form ever follows
function”, traduzido como, forma segue a função, defendendo que esta é a lei natural que rege
todos os princípios do mundo e que a arquitetura não deve fugir dessa regra.
Os arquitetos da Escola de Chicago devotaram suas atenções à forma do arranha‐ céu individual, mas se preocuparam relativamente pouco com a forma da cidade do arranha‐céu e suas ruas cada vez mais cavernosas, barulhentas e sujas, sua falta de recursos urbanos e sua curiosa impressão geral de uma repetição infinita de retângulos mudos[...]. (CURTIS, 2008, p. 50)
Assim, cada parte de sua torre tripartida também deve individualizar‐se do todo, já que desempenham funções diferentes. Por exemplo, os pavimentos de escritórios dos arranha‐céus – dispostos uns sobre os outros e por terem todos que atender a um uso idêntico – devem apresentar uma mesma aparência externa e, internamente, serem regidos pela dimensão das esquadrias e espaçamento da estrutura. Já o sótão, por desempenhar outra função e encerrar a torre, não necessita ser idêntico aos pisos anteriores. É importante destacar que neste artigo Sullivan não está se colocando contrário ao ornamento e sim pretende criticar a ausência de respostas formais atuais às questões funcionais na arquitetura. A crítica de Sullivan se direciona mais no uso de tipologias e aparências pretéritas para funções e demandas surgidas no presente.
A divisão do modelo vertical de Sullivan em três partes – como se o térreo e mezanino compusessem a base e o último pavimento fizesse às vezes do coroamento, sendo ambos tratados diferentemente em termos formais dos pavimentos intermediários – talvez nada mais seja do que a tradução da tipologia de construções tradicionais (compostas de porão, corpo principal e sótão) para um modelo de maior dimensão. Seja como for, o esquema de edifício vertical que resulta a partir da leitura do texto de Sullivan, não é diferente de muitas edificações verticais de uso comercial ou misto (comercial e residencial) construídas na primeira metade do
século XX em muitas cidades brasileiras, com suas lojas térreas junto ao passeio, torres com aberturas seriadas e um último piso (ou últimos pisos) tratados de forma diferenciada. Uma folheada na Revista Acrópole da década de 1940 torna possível ver exemplares nas cidades brasileiras com essa constituição reproduzida e reinventada a partir de contextos locais e da imaginação dos projetistas. (figuras 78, 79 e 80) FIGURA 78: Perspectiva Edif. na Rua Conselheiro Crispiano, São Paulo/ SP FIGURA 79: Perspectiva Edif. São Luiz e São Nicolau em São Paulo/ SP FIGURA 80: Maquete Edif. Anchieta proposta para São Paulo/ SP Fonte: Revista ACRÓPOLE, fev. 1948, p. 63
De modo pioneiro, o artigo de Sullivan embasa o que é um dos princípios chave do Movimento Moderno, onde a função determina a forma, máxima propagada direta ou indiretamente ao longo das primeiras décadas do século XX por personagens como Walter Gropius e Le Corbusier. Este último praticamente se apropria da máxima “forma segue a função” em seu discurso.
As edificações corbuserianas também apresentam uma divisão tripartida, com cada parte bem individualizada, mas as justificativas são outras que apresentam cada parte como soluções às problemáticas apresentadas pelo espaço urbano pré‐existente e uma estratégia de nova formatação da cidade moderna.