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4. P ROBLÉMATIQUE ET MÉTHODE D ’ ANALYSE

2.1 M ANIFESTE POUR « UNE CRITIQUE DES TRADUCTIONS »

 

Quando  observada  a  produção  do  espaço  urbano  das  cidades  brasileiras  nas  décadas  iniciais  do  século  XX,  encontram‐se  pontos  antagônicos  ou  personagens  de  tendências  consideradas  atualmente  opostas,  trabalhando  ao  mesmo  tempo  na  construção  das  cidades.  Esta  condição  reforça  o  cenário  encontrado  no  período  onde  o  desejo  de  mudança  do  Movimento Moderno ou das vanguardas não consegue se materializar plenamente. 

FIGURA 12: Plano Agache para a cidade do Rio de Janeiro de 1930    Fonte: GOMES (org.), 2009  FIGURA 13: Maquete (imagem acima) e planta (imagem baixo) dos blocos denteados (a redent) da Ville  Radieuse de Le Corbusier, 1930    Fonte: MONTEYS, 2005      No Rio de Janeiro há a presença de Le Corbusier em 1929, quase ao mesmo tempo em  que  Alfred  Agache  chega  à  cidade  a  convite  do  prefeito  para  “realizar  um  plano  de  expansão, 

embelezamento  e  remodelação”  (PINHEIRO,  2009,  p.  119).  Le  Corbusier  é  membro  e  um  dos  fundadores dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM),  instaurados um ano  antes  enquanto  Agache  “é  herdeiro  da  tradição  Beaux‐Arts”  e  do  “Movimento  City  Beautiful”  (ibidem, p. 119). Dessa forma, enquanto Le Corbusier exige a reconfiguração da cidade, Agache  propõe plano onde se perpetua o modelo rua‐corredor. (figura 12 e 13)  O Plano de Remodelação de Alfred Agache2 para a cidade do Rio de Janeiro, então capital  federal do Brasil, é editado em 1937 e, apesar de não executado totalmente, apresenta aspectos  condizentes com os valores de modernidade almejados no período, como o ordenamento viário  da cidade, a verticalização, zoneamento e diretrizes para a implantação dos edifícios de modo a  criarem‐se espaços mais salubres e funcionais. Mas, a modernidade proposta por Agache não vai  de  encontro  aos  princípios  almejados  pelo  Movimento  Moderno  no  período,  a  ponto  de  Le  Corbusier considerar o plano como “lixo agáchico” (SEGAWA, 2002, p.91) em carta endereçada à  equipe  brasileira  que  conduzia  os  trabalhos  para  a  Sede  do  Ministério  da  Educação  e  Saúde  (antigo MES, atual MEC).  

O  aspecto  do  plano  de  Agache  a  qual  Le  Corbusier  se  refere  na  crítica  ofensiva  ao  proposto pelo urbanista francês ancora‐se no fato da legislação resultante do mesmo obrigar a  implantação  de  edifícios  alinhados  aos  limites  dos  lotes,  sem  espaçamentos  entre  as  torres,  tornando  os  miolos  das  quadras  locais  reservados  aos  ocupantes  dos  edifícios.  Mesmo  nos  edifícios verticais que – seguindo as recomendações de implantação do Plano Agache – formam  galerias  térreas  para  pedestres  ou  loggia´s,  estas  ocorrem  através  da  projeção  do  volume  edificado sobre o passeio, ou seja, são externas aos limites do lote privado (figuras 14, 15 e 16).   FIGURA  14:  Av.  Presidente  Vargas,  Rio  de  Janeiro/  RJ,  edifícios  com 

galerias térreas e implantação avançando sobre o passeio          2 Donat Alfred Agache (1875‐1959), urbanista francês “que vinha se notabilizando na França desde  1910, em assuntos urbanísticos” (SEGAWA, 2002, p. 25) , elabora planos para o Rio de Janeiro, Belo  Horizonte (consultoria para o prefeito JK no final dos anos 1930), Porto Alegre (desenho do Parque  Farroupilha em 1935), Curitiba (Plano Diretor em 1943), etc. 

FIGURA  15:  Vista  aérea  de  trecho  da  Av. Presidente  Vargas,  Rio  de  Janeiro/ RJ, edifícios formando rua‐corredor

FIGURA  16:  Rua  Heitor  de  Melo,  Rio  de  Janeiro/RJ,  com  as  galerias  térreas e avanço dos edifícios sobre o passeio                    Fonte: Google Earth – Google Street  View <www.googleearth.com>,  acesso em Jun. 2011    Os princípios do Movimento Moderno pretendem radicalizar com a propriedade privada  do solo quando em torres verticais, tornando os térreos locais para a fruição coletiva, além disso,  o  distanciamento  entre  as  torres  e  em  relação  à  via  pública  é  defendido  como  soluções  mais  salubres e econômicas de implantação do que os que mantêm os edifícios ainda contínuos uns  aos outros. No Plano Agache o lugar da praça pública é claramente definido e delimitado pelo  espaço privado  construído  ao  redor e  esta relação,  entre arquitetura  e  espaço  público,  resulta 

em  uma  concepção  espacial  estática  diferente  do  espaço  com  inúmeras  possibilidades  de  percolação da Ville Radieus, e idealizada em 1930 por Le Corbusier (figura 13). Nesta, o público e  o  privado  se  confundem  e  as  vias  de  percolação  e  tráfego  não  são  barreiras  para  o  desenvolvimento  livre  do  espaço  privado,  representado  pelo  edificado,  a  ponto  de  ambos  coexistirem em um mesmo lugar, mas em planos diferentes, através do uso de pilotis.   FIGURA 17: Edifício da Bauhaus em Dessau na Alemanha, projeto de Walter Gropius de 1929  Fonte: < http://www.greatbuildings.com/buildings/Bauhaus_Dessau.html>, acesso em Mai. 2011    Walter Gropius em 1929 no projeto para o Edifício da Bauhaus em Dessau já emprega a  confusão entre arquitetura e urbanismo proposta por Le Corbusier na Ville Radieuse através da  colocação  de  um  edifício  ponte  sobre  a  via,  e  assim  interligando  duas  quadras  segregadas  inicialmente  pelo  espaço  público.  Esta  solução  é  bastante  adotada  em  conjuntos  residenciais  construídos no entre‐guerras na Alemanha. (figura 17) 

Se  considerada  a  arquitetura  do  Movimento  Moderno  como  uma  das  tendências  dominantes  a  partir  de  final  de  1930  no  Brasil  que  progressivamente  assume  cada  vez  mais  hegemonia nas cidades, o descompasso entre os princípios do urbanismo modernista e do que é  construído nas cidades, ainda se encena, décadas depois, na cidade de Londrina no interior do  Paraná.  Em  1950,  o  arquiteto  Vilanova  Artigas  e  o  urbanista  Prestes  Maia  são  chamados  –  praticamente  ao  mesmo  tempo  –  para  apresentarem  propostas  para  a  cidade  a  título  de  lhe 

conferir  o  aspecto  moderno  almejado  pela  sociedade.  O  primeiro  em  termos  de  projetos  arquitetônicos  e  o  segundo  através  de  uma  nova  proposta  para  o  planejamento  urbano.  O  descompasso entre urbano e arquitetura se perpetua, e Artigas faz o que pode para manter‐se  fiel ao compromisso modernista nos edifícios projetados na área central da cidade. 

Outro  exemplo  é  a  Companhia  City3  com  diversas  propostas  de  bairros‐jardins  executados na capital paulista, cuja atuação se estende da década de 1910 até 1960. A empresa  é  “organizada  com  a  finalidade  de  criar  bairros  de  alto  padrão  para  a  crescente  burguesia  cafeeira” (SEGAWA, 2002, p.22) em áreas ainda não ocupadas pela cidade, ou seja, locais então  rurais  “afastadas  a  sul  e  a  oeste”  (ibidem,  p.22).  Os  bairros‐jardins  compõem  o  ideário  de  modernidade de diversas outras cidades no país na primeira metade do século XX. Prestes Maia,  no  plano  para  Londrina  de  1951,  propõe  este  modelo  para  os  novos  bairros  nas  áreas  de  expansão. O modelo baseia‐se na proposta de cidade‐jardim de Ebenezer Howard publicada em  1902, onde se busca aliar vida urbana e vida do campo em cidades com ocupação máxima pré‐ definida  e,  conectadas  entre  si,  por  linhas  férreas.  Os  esquemas  de  Howard  não  definem  exatamente  o  desenho  urbano  a  ser  adotado  para  as  cidades,  isto  fica  a  cargo  dos  arquitetos  Barry  Parker  e  Raymond  Unwin.  O  desenho  resultante  propõe  a  disposição  dos  elementos  construídos de modo mais orgânico, ou seja, através de vias sem cruzamentos, permeados por  vegetação para nunca se perder de vista a dimensão campestre na vida urbana (figura 18). Para  a criação dos planos urbanísticos dos bairros em São Paulo são contratados os próprios Raymond  Unwin e Barry Parker, autores de projetos com esta linguagem na Inglaterra. Os bairros‐jardins  surgem  como  um  modelo  compacto  da  intenção  de  Howard,  economicamente  mais  viável  e  lucrativo aos loteadores e, com isso, tão difundido.          3  Companhia City é como fica conhecida a sede da companhia londrina em São Paulo banqueiro  francês Edouard Fontaine de Laveleye, mas o nome completo da empresa é “City of São Paulo  Improvements and Freehold Land Company Limited”. 

[...]  a  prosperidade  proporcionada  pelo  café  trazia  benefícios  materiais  e  novos  padrões  de  consumo  para  alguns  segmentos  da  população,  mas  as  estruturas  urbanas, em sua maioria herdada do período colonial, não se coadunavam com as  expectativas  de  uma  sociedade  que  se  urbanizava  em  passo  acelerado,  embora  sustentada por uma economia agroexportadora de valores arraigadamente rurais.  As cidades transformavam‐se nas plataformas rumo ao mundo moderno, isto é, em  busca de um nível de vida a maneira das grandes metrópoles europeias ou norte  americanas[...] (SEGAWA, 2002, p. 22) 

 

FIGURA  18:  Cartões  Postais,  respectivamente  de  1910  e  da  década  de  1920,  de  Letchworth  na  Inglaterra,  cidade‐jardim projetada por Barker e Unwin em 1913 

 

Fonte: <http://lgc.amolad.net/postcards/34.htm>, acesso em Abr. 2011 

 

Simultânea  a  atuação  da  Companhia  City  em  São  Paulo,  o  prefeito  Prestes  Maia,  na  década de 1930, realiza planos de remodelação viária para ordenar o crescimento e propostas  arquitetônicas “modernas”. Os edifícios variam do ecletismo a um déco simétrico e clássico. 

O  Concurso  para  a  Cidade  Industrial  de  Monlevade  em  Minas  Gerais,  promovido  pela  Companhia  Siderúrgica  Belgo‐Mineira  em  1934,  apresenta  a  dualidade  entre  modelos  urbanos  no  período:  entre  as  treze  propostas  inscritas  ao  concurso,  uma  é  baseada  nos  preceitos  do  Movimento  Moderno  e  outra  no  ideário  cidade‐jardim,  a  ser  comentada  na  sequência.  A  proposta de Lúcio Costa está sintonizada com o preconizado por Le Corbusier através da adoção  do  uso  do  concreto  armado  e  de  pilotis  para  liberação  do  solo,  este  último  não  sendo  empregado apenas na igreja e no cinema (CAVALCANTI, 2001). Apesar do aspecto moderno, há  uma dualidade entre a tradição e o novo na proposta de Costa: o arquiteto especifica o uso de  pau‐a‐pique para o fechamento das habitações já que agora se garante a viabilidade do emprego  da técnica tradicional brasileira devido ao fato dos edifícios estarem elevados em relação ao solo  com  os  pilotis  e,  com  isso,  livres  da  umidade.  A  proposta  do  engenheiro  Lincoln  Continentino 

segue  em  outra  direção  e  fundamenta‐se  no  modelo  de  Ebenezer  Howard.  Quem  vence  o  concurso é Continentino enquanto Costa fica no último lugar. 

A  cidade  de  Goiânia,  projetada  para  ser  a  moderna  capital  de  Goiás  em  1934  –  em  substituição à colonial Cidade de Goiás ou também chamada, Goiás Velho – bem exemplifica a  dualidade  entre  o  urbanismo  de  inspiração  Beaux  Arts  e  o  modelo  cidade‐jardim,  assim  como  entre arquiteturas modernas e traçado urbano. A substituição das capitais dos estados herdadas  do período colonial por novas e modernas urbs é prática que se inicia no Brasil com o projeto de  Belo Horizonte para ser a sede administrativa de Minas Gerais. O projeto da capital mineira, de  autoria de Aarão Reis em 1894. Esta é inspirada no Plano de Haussmann para Paris sendo que a  intervenção  promovida  pelo  prefeito  Pereira  Passos  na  remodelação  e  embelezamento  do  Rio  de Janeiro na mesma época, também apresenta esta influência.  

Para  o  projeto  da  cidade  de  Goiânia  é  chamado  Attílio  Corrêa  Lima,  sendo  ele  um  discípulo de Alfred Agache. A proposta apresenta uma distribuição radial das vias a partir de uma  praça  na  cabeceira  do  desenho,  onde  se  localiza  a  praça  cívica  e,  para  interligá‐las,  diagonais  partem  da  cabeceira  cruzando  as  vias  paralelas.  Os  principais  cruzamentos  são  resolvidos  com  rotatórias e nos limites da cidade, parques urbanos finalizam o traçado. A semelhança é grande  com o traçado da cidade de Washington D.C. nos Estados Unidos da América com configuração  semelhante (MANSO, 2001).  

Attílio  Corrêa  Lima  também  orienta  o  projeto  das  primeiras  construções  da  cidade  e  adota a arquitetura déco neles, tendência assimilada e reproposta nas construções posteriores  de 1940 e 1950, tanto públicas como particulares, especialmente nos edifícios com mais de um  pavimento.  Portanto,  esta  porção  projetada  por  Attílio,  de  inspiração  Beaux  Arts  é  o  principal  reduto do patrimônio déco goiano, fato que pode parecer contraditório atualmente. Assim como  no plano de Agache para o Rio de Janeiro, em Goiânia, “o edifício é o elemento fundamental na 

definição  e  na  conformação  dos  espaços  públicos”  (MANSO,  2001,  p.140)  por  serem  eles  a  definirem o espaço público e o privado. 

Armando  Augusto  Godoy  é  contratado  em  1936  pela  empresa  Coimbra  Bueno  (responsável pela construção de Goiânia) como consultor técnico para revisar o projeto de Attílio  Correa  Lima,  sendo  que  este,  havia  se  afastado  das  obras  da  nova  capital  por  atritos  com  a  construtora.    Godoy  propõe  alterações  no  plano,  especialmente  no  setor  sul  onde  a  opção  urbanística é a do modelo de cidade‐jardim. 

Dessa forma, o desenho final de Goiânia é representativo das diferentes opções em voga  para  o  desenho  urbano  sendo  que  a  arquitetura  que  ocupa  os  espaços  parte  ainda  de  outra  opção, que é a arquitetura déco. De fato, esta pluralidade de soluções não parece ser exceção e  sim a regra das primeiras décadas do século XX. (figura 19) 

Esta  condição  brasileira,  onde  a  pluralidade  de  tendências  impera,  não  é  um  quadro  diferente  do  encontrado  em  outras  partes  do  mundo.    Tony  Garnier  elabora  a  proposta  de  “Cidade  Industrial”  entre  1901‐1904  e  só  a  publica  em  1917,  Le  Corbusier  o  “Plano  para  uma  cidade  contemporânea  de  três  milhões  de  habitantes”  em  1922  e  os  croquis  da futurista  Cittá 

Nuova  de  Sant´Elia  datam  de  1914.  Mas  estas  três  propostas  inovadoras  não  são  executadas, 

assim como várias outras, diferente do destino das propostas de Parker e Unwin inspiradas em  Ebenezer  Howard  e  de  Alfred  Agache,  assim  como  a  aprovação  da  proposta  de  Continentino  para  a  cidade  industrial  de  Monlevade  e  a  implantação  das  de  Attílio  Corrêa  Lima  e  Armando  Augusto de Godoy para Goiânia. A situação só começa a se reverter no final da década de 1940 e  encontra o seu ponto mais alto com a viabilização e construção de Brasília em 1960. A “Cidade  dos  Motores”  proposta  entre  1945‐46  pelo  escritório  Town  Planning  Associates,  liderados  por  José Luis Sert e Paul Lester Weimer (GOMES; ESPINOZA, 2009), é também exemplo sintomático  desta condição. Trata‐se de uma proposta inovadora de cidade industrial não executada para a  região de Xerém no Rio de Janeiro. (figura 20) 

  FIGURA 19: O plano da cidade de Goiânia em 1938, pós modificações de  Armando de Godoy            Fonte: MANSO, 2004

  FIGURA 20: Perspectiva da proposta para a “Cidade dos Motores” em  Xerém/ RJ de 1945‐46 como suporte para a Fábrica Nacional de Motores  (FNM) de autoria do Escritório Town Planning Associates      Fonte: Vitruvius, set 2010 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/ arquitextos/10.124/3575>, acesso em Abr. 2011   

Dessa  forma,  pode‐se  concluir  que,  neste  período  inicial,  é  grande  a  dificuldade  de  vinculação entre o urbanismo proposto e a arquitetura almejada pela modernidade proveniente  do  Movimento  Moderno  ou  pelas  vanguardas.  Os  resultados  arquitetônicos  construídos  apresentam  o  desejo  de  modernização,  mas  com  limitações  devido  à  existência  de 

determinações  já  pré‐concebidas  nas  cidades  e  planos  existentes  e  aplicados  às  cidades.  Este  quadro  parece  não  se  alterar  tão  cedo,  os  próprios  Congressos  Internacionais  de  Arquitetura  Moderna  (CIAM’s)  –  instrumento  de  divulgação  e  fortalecimento  do  Movimento  Moderno  –  entre  1928‐1930,  ou  seja,  nas  duas  primeiras  edições,  concentram  esforços  em  transformar  o  espaço  das  cidades  através  da  nova  arquitetura  e  do  agrupamento  da  mesma  para  configurar  bairros  e  porções  da  cidade.  Apenas  no  quarto  congresso  de  1933  são  discutidas  propostas  modernistas em termos urbanísticos através da Carta de Atenas, mas cuja aplicação prática não  é imediata. 

1.2.2 A modernidade de aparências: o Art Déco

 

O Art Déco, em sua época, não existe para definir uma tendência particular. O termo foi  criado a partir da exposição retrospectiva “Les Années 25” realizada em 19664 na França. Bevis  Hillier (1968) explica ter retirado o nome Art Déco – título do livro de sua autoria sobre o tema –  a partir da abreviação do nome da exposição “L´Exposition Internationale des Arts Décoratifs et 

Industriels  Modernes”  ocorrida  em  1925  em  Paris.  A  intenção  da  exposição  é  reunir  artistas  e 

arquitetos que empreguem uma linguagem “moderna”.  [...] a maior fonte de influência externa sobre os arquitetos parisienses mais jovens  nessa época foi sem dúvida a Exposition des Arts Décoratifs de 1925. Esta, em todo  caso, tem seu lugar na história do gosto ocidental, como a fonte do popular estilo  jazz‐moderno berrante que rivalizaria por algum tempo com o estilo internacional  [...]. (BANHAM, 2006, p. 345)   

No  campo  da  arquitetura,  nos  dias  atuais,  o  termo  arquitetura  déco  acaba  por  reunir  sobre um mesmo nome um conjunto de bens construídos ao longo das décadas de 1920 e 1930  (e chegando até 1940, especialmente no Brasil), concomitantes à gestação, nascimento e difusão  da  arquitetura  do  Movimento  Moderno.  Mas  dada  a  dificuldade  de  sua  definição  clara,  os 

       

4 De acordo com DEMPSEY (2003) nas décadas de 1920 e 30 ele era chamado de style moderne, Paris 

resultados  formais  do  Art  Déco  também  podem  ser  remetidos  a  outras  tendências  artísticas  como: o cubismo, expressionismo, futurismo e também ao neoclassicismo e ecletismo. 

A  Exposition  des  Arts  Decoratifs  et  Industriales  Modernes  de  1925,  não  se  resume  a  apenas  apresentar  ao  grande  público  o  estilo  jazz‐moderno  pelo  qual  fica  conhecida  como  difusora. Arquitetos alinhados com as vanguardas artísticas também fazem parte da exposição,  tais como, Mallet Stevens, os puristas e os construtivistas russos, sendo o primeiro responsável  pelo  “desenho  da  entrada  e  algumas  das  ‘árvores’  de  concreto  cubistas”  (BANHAM,  2006,  p.  345) e os últimos respectivamente pelo pavilhão l´Esprit Nouveau (projeto de Le Corbusier) e o  Pavilhão Soviético (de Konstantin Melnikov). Ambos os pavilhões chocam o público pela nudez e  ausência de decorativismos. (figura 21 e 22)  

FIGURA 21: Pavilhão Soviético   na Feira de 1925 em Paris de Melnikov 

FIGURA  22: Pavilhão  l´Esprit  Nouveau  na  Feira  de  1925  em  Paris    projeto de Le Corbusier    Fonte:<http://www.ufrgs.br/propar/do mino/2005_01/txt05_2005_01.htm>,  acesso em Abr. 2011  Fonte:<http://thaa2.wordpress.com/category/perpe/>, acesso em  Abr. 2011    A exposição almeja mostrar o que há de mais moderno no mundo, colocando lado a lado  diferentes  modelos  de  modernidade  em  andamento  na  época.  Mas  ela  exclui,  por  exemplo,  a  Alemanha  entre  os  países  convidados,  que  já  apresenta  na  época,  por  meio  da  Deutscher 

Werkbund uma produção standartizada, mas que não era de interesse ser incluída na exposição 

Esta condição diversificada do demonstrado da exposição de 1925 ratifica ainda mais a  dificuldade em caracterizar o Art Déco, pois se é este o evento que o define, há uma pluralidade  de  abordagens  da  modernidade  encontrada  entre  os  expositores.  De  qualquer  maneira,  o  evento  coroa  o  surgimento  de  uma  tendência  representativa  de  ser  considerada  nas  revisões  mais atualizadas sobre a primeira metade do século XX. 

Para  Wiemer  (2010)  o  Art  Déco  apresenta  dois  momentos,  um  primeiro  francês  e  um  segundo  difundido  especialmente  pelo  cinema  norte‐americano  a  partir  da  década  de  1930.  A  tendência  francesa  vinha  muito  mais  como  reação  à  arquitetura  da  virada  do  século,  onde  a  intenção  era  “em  nome  da  higiene,  da  economia  e  da  modernidade  as  fachadas  dos  imóveis  serão  purificadas  e  se  libertarão  da  exuberância  Art  Nouveau”  (BRESLER,  1997,  p.  11),  especialmente  para  as  edificações  de  caráter  público.  A  intenção  era  também  integrar  arquitetura e decoração.  

Na fase norte‐americana, a indústria cinematográfica apropria‐se e reinventa a tendência 

déco para criar seus cenários suntuosos, assim como para ornamentar arranha‐céus construídos 

pós‐recessão econômica decorrente da queda da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Este período é  conhecido como o da política do New Deal (1933‐1937) que, na  presidência de Franklin Delano  Roosevelt,  foram    lançadas  estratégias  governamentais  para  recuperar  a  economia  norte‐ americana da Grande Depressão. É a época da competição pelo arranha‐céu mais alto do mundo  e  construções  de  escolas  públicas,  agências  de  correio,  edifícios  governamentais  e  conjuntos  habitacionais. A cidade de Miami também se torna um importante reduto da arquitetura déco,  mas do tipo balneário. Através do cinema, imagens da arquitetura americana deste período são  difundidas pelo mundo e inspiram construções e decorações. (figura 23 e 24) 

 

Estas  obras  norte‐americanas  foram  produzidas  numa  fase  em  que  o  país  procurava sair do período mais crítico da grande recessão econômica (...). Ela trazia  em  seu  bojo  a  procura  de  uma  alternativa  otimista  e  de  alento  a  uma  população 

deprimida e faminta. Isto foi tentado na produção de construções leves, de formas  suaves, em que a tônica era o emprego de arredondamento dos ângulos, o uso de  cores  suaves,  tipo  pastel,  e  de  relevos  geométricos,  portanto  abstratos,  empregados  não  como  complementos,  mas  como  parte  integrante  da  obra  arquitetônica [...]. (WEIMER, 2010, p. 12)    FIGURA 23: Edifício do Fórum em Albany/NY, de  1932‐34  Agência do Correio Postal norte‐ americano em  Fulton/GA da década de 1930   Fonte: <http://www.gsa.gov/portal/  category/25437>, acesso em Jul. 2011  Fonte: <http://www.flickr.com/photos/nationalregister/ 4926552314/>, acesso em Jul. 2011   

Nos  países  latinos  da  América  se  observam  os  reflexos  da  difusão  do  estilo  norte‐ americano  e  francês  ressignificados  em  arquiteturas  déco  de  caráter  integrado  com  as  particularidades  técnicas  e  culturais  de  cada  local.  Os  artigos  reunidos  nos  Anais  do  “Primeiro  Seminário Art Déco na América Latina”, realizado em 1997 no Rio de Janeiro, dão uma mostra  das características e particularidades da arquitetura déco nos países latino‐americanos.  Se nos Estados Unidos o estilo frívolo e decorativo do Art Déco é adotado para reerguer a  nação, no Brasil, sua difusão também pode ser relacionada a uma questão política. Na década de  1930 a ascensão de Getúlio Vargas ao poder após um período tumultuado decorrente do fim da