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Ionisation, Solvatation et Recombinaison du plasma dans l’eau

Observou-se, no convívio com o Núcleo de Pastoral e em sua relação com a comunidade em geral, um inevitável choque entre o discurso organizado que vem de uma tradição e o fragmentado e disperso, que está fora das questões religiosas. Os discursos e a linguagem, escolhidos e estabelecidos no convívio com essa realidade, de um lado, são coesos, sistemáticos e com várias fundamentações teóricas, oriundos de uma tradição de mais de dois mil anos, de outro, os fragmentados, constituídos no espaço popular, que têm elementos formados por uma diversidade simbólica, em oposição ao que é trazido. Há, por conseguinte, uma não aceitação do formato do discurso do que é tradicional – o que significa um não aceitar a forma de se organizar.

Esse estar em desacordo com o conjunto de ensinamentos, de posturas que eram trazidas foi observado ao longo dos anos de atividade do Núcleo de Pastoral da Região das Ilhas de Porto Alegre. Nos discursos, quanto à organização do Núcleo, a ideia era a de que, a partir daquela, houvesse uma superação das distâncias a serem percorridas. Primeiro, no sentido econômico, a partir da geração de renda, na melhoria do rendimento, através do trabalho digno do coletor-urbano e, segundo, a partir daí, conseguir organizar as questões básicas da vida. Esses movimentos visam a uma espiritualidade, todavia a interferência acabou também não dando, muitas vezes, as respostas e os encaminhamentos necessários para assuntos importantes.

O choque do discurso e a sua não aceitação podem ser observados, pela não participação das atividades do Núcleo de Pastoral dos membros da comunidade, por não falarem o que pensam, por ficarem com receio de se expressar, bem como por

se afastarem delas depois de um tempo de atuação. Essas situações mostram que havia problemas na forma de o Núcleo comunicar-se com a população local. Obviamente, inúmeras variáveis podem ter contribuído para uma diminuição da participação popular nos espaços católicos nessa comunidade, mas não era a proposta desta pesquisa analisar todas essas variáveis.82

Percebeu-se, no convívio com os habitantes das Ilhas de Porto Alegre, principalmente nas Ilhas do Pavão e Marinheiros, que o discurso realizado pela Pastoral, em determinadas situações, gerou conflitos, principalmente, quando a pauta era sobre organização. Havia uma “cobrança de fora”, do Núcleo, relacionada ao Galpão de Reciclagem, quanto à sua limpeza, à prestação de contas e à continuidade da atividade pastoral nos momentos de reflexão diária.

O discurso, estranho à realidade local, o qual tinha de ser proferido, trouxe consigo as impressões e as interpretações individuais que geraram conflitos no lugar a ser evangelizado. Trazer o Evangelho para os habitantes da Ilha é, portanto, muito difícil, já que os ensinamentos lá contidos têm que ser traduzidos para que sejam colocados em prática.

Jesus pregava às multidões, lançava as sementes, sabendo que algumas iriam germinar e se transformar em árvores e dar bons frutos e outras não. Entretanto, é importante que se prepare a terra, para que sejam lançadas as novas sementes, com a esperança da mudança na condição dos pobres.

Então, ao se trazer a mensagem evangélica, mesmo que com todas as adequações, feitas por meio do método da Teologia da Libertação, são gerados um estranhamento e uma resistência natural do próprio pobre em relação ao que é dito. Essa nova perspectiva, que parte do processo de libertação e da mostra de um Evangelho, no qual esse pobre, a partir de Jesus, passa a ter uma centralidade, é ainda algo de difícil sistematização, em função da realidade encontrada na Ilha Grande dos Marinheiros e Pavão.

Jesus Cristo é referência de libertação, do discurso à prática, os quais estão associados à situação dos moradores da Ilha. O discurso da Pastoral tem impacto

82 A diminuição na participação popular nas atividades do Núcleo de Pastoral da Região das Ilhas de Porto Alegre é um ponto de análise nesta pesquisa e vai estar presente em vários momentos, em uma circularidade, porém não, em uma perspectiva circular e repetitiva, mas, sim, em um sentido cíclico de procura de superação (VICO, G. Teoria cíclica da história. “Ciência Nova”).

sobre o dominado, dando a ele a possibilidade através do evangelho de se libertar. Essa situação pode ser comparada a uma pessoa que viveu muitos anos em uma prisão, entretanto, quando recebe a liberdade, vai ter um tempo, para se adaptar à nova realidade, e esse renascer para o novo é um longo processo. O meio é inóspito, as dificuldades de sobreviver em muitas situações comprometem a libertação, e as amarras dos dominadores influenciam diretamente a mudança dos que querem sair da condição de dominados. Essa é a luta para se ter a verdadeira liberdade, a liberdade em Jesus Cristo.

A questão do espaço a ser “conquistado”, o choque com os poderes estabelecidos, o movimento e a estruturação do núcleo de pastoral tinham uma intenção, tendo como foco principal levar o Evangelho a essa comunidade, aos coletores-urbanos. Porém, ao se trazer o Evangelho, isto é, a palavra de Deus para esse meio, as forças reativas a esse sentido de vida fazem com que eles resistam das mais variadas formas. Por exemplo, quando Jesus Cristo trazia a sua mensagem para o povo, estava constantemente desafiando os poderes do mundo, pelas suas ideias e atitudes e, por isso, é que foi levado à condenação e crucificação.

Levar a palavra de Deus a esses locais é tarefa muito árdua, uma vez que as formas de poder que atuavam no tempo de Jesus, baseadas na dominação, na exploração, na discriminação, são praticamente as mesmas da atualidade. Essas apenas têm uma roupagem diferente, mais midiáticas e disfarçadas nos seus discursos, que fazem enfraquecer os ideais e as lutas, com a intenção de esvaziar os valores e a tradição tanto da Igreja quanto dos habitantes do local em questão.

Os ataques à Igreja são constantes, e a troca da Igreja pelos shoppings tornou-se algo natural, troca-se Jesus Cristo pelo “Deus mercado”, e essa lógica vai ser reproduzida nas classes dominadas, propositalmente. O marketing que incentiva o consumo não tem ética, sendo esse fato uma decorrência do próprio sistema em que vivemos. Como vai existir ética em um sistema que prega a desigualdade, a exploração e sustenta a estrutura de dominação histórica a que estão presos os pobres?83

83 Cf. Jung Mo Sung. No seu aprofundamento sobre as relações da teologia, espiritualidade e mercado (Ver artigo no livro de SUSIN, L. C. (Org.). Teologia para outro mundo possível, p. 337- 350).

Reagir à mensagem cristã é uma luta cotidiana, empreendida pelo sistema de exploração no qual estamos inseridos. No que se refere ao fenômeno em estudo, as forças reativas somaram-se e criaram fortes dificuldades no campo da ação pastoral, visando, ao longo dos anos, a desestruturação do Núcleo de Pastoral da Região das Ilhas. Lutar com poucos recursos, frente a um sistema de dominação e exploração, que é centralizador de poder, foi, durante todo esse tempo, um dos grandes desafios, e que nada mais era do que fazer o que Jesus Cristo fez ao resistir às tentações e ao enfrentar os poderosos de sua época.

Ao se levar a boa nova, a promessa do Reino, gera-se um tensionamento constante, e a luz, deixada no ambiente, provoca a mudança na condição espiritual do indivíduo e de uma coletividade. Essa situação provoca reações, eis que o termo “iluminar” está sendo utilizado no sentido de libertar. Normalmente,essasreações se dão de várias maneiras, e uma forma perversa de enfrentar os problemas é a de se esconder os conflitos. Os ataques não aparecem de forma clara, são sinais característicos da nossa época em que vivemos, o da virtualidade, da superficialidade e do esvaziamento das relações. Somos hoje instrumentos de um sistema econômico que nos aprisionou, que nos fez refém do consumo. Segundo o cientista social e psicanalista, Fromm:

A ameaça à atitude religiosa não está implícita no culto das ciências, mas, na prática da vida diária. É na rotina da vida que o homem abandona o objetivo supremo da vida, para transformar-se em mero instrumento a serviço da máquina econômica que ele mesmo construiu.84

No momento em que o homem cada vez fica mais ligado a esse sistema que ele mesmo produz, mais se afasta de Deus, sendo características daquele tanto a fragmentação quanto o esvaziamento dos valores.

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