3.2 Article 2
4.1.1 Effet direct de l’irradiation laser
As atividades, realizadas nessa comunidade, foram feitas no espaço das Ilhas e em um tempo. O estudo aqui realizado está relacionado às idas e vindas ao local, uma circularidade, um momento da história que, desde 1988 até os dias de hoje, continua produzindo significados profundos no conjunto das relações com os outros participantes do Núcleo de Pastoral e com a comunidade das Ilhas de Porto Alegre em geral. Houve uma participação no espaço de vida de muitas pessoas, nos seus tempos e em suas esperanças. O Nobel de Química, em 1977, Ilya Prigogine, é um dos grandes pensadores sobre as questões do tempo e do caos da atualidade e explica que “a questão do tempo e do determinismo não se limita às ciências, mas está no centro do pensamento ocidental desde a origem do que chamamos de racionalidade e que situamos na época pré-socrática”.93
92 SOBRINO, J. Ressurreição da verdadeira igreja. Os pobres, lugar teológico da eclesiologia, p. 239. 93 PRIGOGINE, I. O fim das certezas. Tempo caos e as Leis da natureza, p. 14.
Durante todo esse período, no qual transcorreu o fenômeno aqui estudado, houve a participação direta do pesquisador junto aos agentes de Pastoral, e o próprio pesquisador sempre fez esse trabalho, o seu tempo individual misturou-se a muitos outros tempos dentro de um espaço – foi um “flash” perante a eternidade. Como já mencionado, o Núcleo de Pastoral foi idealizado e estruturado a partir de um conjunto de fatores que teve como principal mentor o Irmão Marista Antônio Cechin e a sua Irmã Matilde Cechin, que tiveram e ainda têm todo um arcabouço teórico de experiências teológicas, com aprofundamentos significativos no que se refere à organização de comunidades em situação de vulnerabilidade social, que é o caso da Ilha dos Marinheiros e Pavão. No entanto, esse tempo, desde a sua origem, vem passando, e é sobre ele e a sua relação com o lugar que é importante refletir, para poder também entender esse lugar social, em um tempo social.
Além do Irmão, outras pessoas, ligadas à Igreja, estavam diretamente envolvidas no processo de formação e manutenção do Núcleo de Pastoral, como agentes externos, todos com formações baseados na organização de comunidades, na Teologia da Libertação. O fenômeno em estudo tem uma origem, e, a partir dela, estabeleceu-se um espaço, uma delimitação, um território para ser cultivado e para se levar a palavra de Deus em um tempo que ainda está em curso.
Nesse espaço de tempo, vários assessores interagiram junto e a partir do Núcleo, estabeleceram uma rede de relacionamentos e participaram das atividades dos coletores-urbanos, nos planejamentos e na constituição de uma disciplina interna, um regramento dos horários, ou seja, a organização dos tempos individuais em um tempo coletivo no espaço de trabalho.
Através das intenções específicas dos agentes de Pastoral, estabeleceu-se um direcionamento em comum, de fazer uma Pastoral e estabelecer um espaço e um tempo cristão junto aos pobres da região. A cristalização desse trabalho está no Santuário de Nossa Senhora Aparecida, na Ilha Grande dos Marinheiros, na Capela Nossa Senhora da Conceição e na Comunidade Nossa Senhora dos Pobres. Esses espaços ocupam uma parte do território comunitário e passam a fazer parte da vida das pessoas que circulam diariamente nesse local.
Podemos, nesse terreno circunscrito do tempo, aprofundar os significados no sentido e na intencionalidade da formação do fenômeno. Nessa abordagem, temos
um autor que consegue, em termos das ciências humanas, trazer a situação que envolve o tempo. Existe, no estudo de Norbert Elias, um conjunto de articulações teóricas que possibilitam um aprofundamento em um campo interpretativo no significado do tempo do fenômeno em curso:
Ao examinarmos os problemas relativos ao tempo, aprendemos sobre os homens e sobre nós mesmos e muitas coisas que antes não discerníamos com clareza. Problemas que dizem respeito à sociologia e, em termos mais gerais, às ciências humanas que as teorias dominantes não permitiam apreender, tornam-se acessíveis.94
Essa afirmação do autor de que, ao examinarmos os problemas relativos ao tempo, aprendemos sobre os homens e sobre nós mesmos, é algo que vai ao encontro do contexto aqui apresentado no que diz respeito às relações que se estabeleceram ao longo desse espaço de tempo, desde as observações realizadas em 20 anos, até a relação dos tempos individuais entre os atores externos e internos.
Nesse conjunto de relações estabelecidas, de fato, aprendemos muito sobre os outros e principalmente sobre nós mesmos, e, nos vendo nos outros, percebemos as mudanças, o movimento do tempo e a transformação do espaço. Os tempos individuais são fatores importantes para o entendimento da complexidade que envolve o Núcleo de Pastoral.
Vivemos hoje presos ao espaço e tempo, pelas estruturas de dominação que regulam as nossas vidas, um tempo social, uma tirania do momento, uma manipulação na direção do consumo, para a satisfação do “deus mercado”, o tempo é, portanto, controlado e direcionado ao consumo. Nesse sentido, Baumann ressalta o seguinte:
Nem o aprendizado ou o esquecimento podem escapar do impacto da “tirania do momento”, auxiliada e instigada pelo contínuo estado de emergência e do tempo dissipado numa série de “novos começos” heterogêneos e aparentemente (embora de forma enganosa) desconectados. A vida de consumo não pode ser outra coisa senão uma
vida de aprendizado rápido, mas também precisa ser uma vida de esquecimento veloz.95
O tempo, despendido no convívio com o Núcleo de Pastoral pelo pesquisador, é o de um passado, mas que há atuação no presente. Está, por conseguinte, relacionado às imagens passadas de um fenômeno que está transcorrendo há 22 anos e que ainda continua acontecendo e influenciando o conjunto das relações.
O fenômeno foi se constituindo em uma dinâmica, tomou forma e ocupou um espaço dentro de um tempo e é algo que suscita uma profundidade interpretativa. Pode ser o tempo do instante, que não se sabe bem qual é a sua fronteira, do passado, presente e futuro, se manifestando no agora.
Várias maneiras subjetivas, interativas e mesmo virtuais de apreender o que está acontecendo aconteceram nesse local, onde o tempo foi o elo de ligação, que pôde aproximar ou distanciar fatos, que estão ocorrendo, já ocorreram ou mesmo vão ocorrer.
O acontecimento e a existência do fenômeno do Núcleo de Pastoral da Região das Ilhas de Porto Alegre, por si só, são mostrados em termos de entendimento em um conjunto de leis físicas. Contudo, o entendimento de um Núcleo de Pastoral, que trata da espiritualidade e dos mistérios divinos, precisa de um nível de profundidade bem além daquele meramente material das impressões de um lugar e um tempo físico.
O fenômeno ocupa um espaço e um tempo histórico em um contexto de situações que possibilitam a sua visualização quanto à razão. Entretanto, existe um tempo de Deus, que não pode ser percebido somente pela razão, e a noção desse tempo se dá somente através da fé, da graça de Deus e dos sinais, nos quais podemos perceber a sua ação.
Nesse tempo divino, vê-se o processo de libertação das pessoas acontecendo, dos pobres se engajando na luta para a melhoria do coletivo.