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Em função da grave crise econômica e financeira que atravessava a província, os primeiros anos da República não serão marcados por grandes obras, mas por novas apropriações de antigas estruturas herdadas do Império por parte de uma elite empresarial ligada ao emergente setor de serviços que ensaiava então os seus primeiros passos, anunciando as grandes transformações que virão a seguir, sobretudo nos anos 1910 e 1920. Afinal, os “Tempos Modernos” apresentam aos baianos os seus prenúncios e a Praça Castro Alves será o seu cenário privilegiado.

O Teatro São João que já demonstrava desde os idos 1870 sinais de anacro- nismo, apesar dos esforços dos seus inúmeros arrendatários, vem a sofrer um duro golpe com a inauguração em 23 de maio de 1886 do Politeama Baiano, reformado e adaptado para o gênero teatral, com a estreia da Companhia Lírica Italiana. Daí por diante “[...] o Politeama torna-se o preferido por todas as companhias visitantes, dado o conforto da sua caixa, e as possibilidades financeiras da sua lotação”. (RUY, 1959, p. 48)16 Para manter o velho teatro

em funcionamento, seu arrendatário passou a oferecer espetáculos de teatro de revista, nem sempre de qualidade recomendável.

Já em 1892, se hospedou no Hotel Paris, o tcheco naturalizado americano Frederico Figner trazendo para a praça de Salvador o “estupendamente as- sombroso”, “esse prodigioso aparelho denominado fonógrafo” como informa o Jornal de Notícias de 20 de janeiro daquele ano (JORNALD DE NOTÍCIAS, 1982). “Por mais que se diga ou se escreva, nunca se conseguirá dar uma idéia exata do que é realmente aquele colossal invento, uma das últimas maravilhas do século”, prossegue o jornal, agora comentando o impacto causado pelo invento entre os soteropolitanos: “Não há quem não tenha ido ao Hotel Paris ou ao Chalet Parisien17 ouvir tão surpreendente aparelho que não tenha saí- do estupefato”. Durante as apresentações e junto com as audições da música

16 O Politeama Baiano dispunha de 1900 lugares.

produzida mecanicamente se convidava o distinto público a apreciar o “bom sorvete”, outra novidade da época (Figuras 6 e 7).

Figura 6 – A primeira planta de Salvador do período republicano (1894) mostra uma

cidade bem articulada. Vêm-se a Rua da Vala e a Ladeira da Montanha já nomeadas, o Teatro São João, os hotéis Sul Americano e Paris, o mercado do Curiachito e

a Igreja da Barroquinha. A denominação “Praça Castro Alves” pela primeira vez registrada em planta, aparece ao lado do Teatro e não à sua frente.

Fonte: Los Rios (1894)

Apenas três anos após esse notável acontecimento, no local hoje ocupado pelo edifício Sulacap, no local onde antes existiu o Hotel Francês, será inau- gurado o moderno Hotel Sul Americano (Figura 7), capaz de rivalizar com “os melhores da América”. (JORNAL DE NOTÍCIAS, 1985) Pouco após a sua inauguração o hotel oferecia à sua clientela um completo serviço de sorvetes

e gelados (JORNAL DE NOTÍCIAS, 1895). Em 1900 seus proprietários abrem

ao público o seu “luxuoso salão-restaurante”, passando a servir jantar com- pleto ao preço de 3$000, oferecidos ao som de músicas executadas ao piano. (JORNAL DE NOTÍCIAS, 1900)

Figura 7 - Ladeira de São Bento por volta de 1895. Marcando o início da ladeira estão:

à esquerda o Hotel Paris, à direita o luxuoso Hotel Sul Americano, recém inaugurado. No primeiro plano à direita o casarão com trapeira aonde viria a funcionar a Confeitaria Luso-Brasileiro. Bondes à tração animal, carroças e mulas povoam

o pacato cenário urbano.

Fonte: Arquivo Público Municipal, Salvador.

Em 1903, os dois parques construídos pela municipalidade em 1878 no local onde antes fora Sociedade Recreativa, foram arrendados pelo Sr. Carlos López, com a finalidade de exploração comercial. Aí foi construída uma pe- quena edificação em madeira, ao ar livre, em forma de teatrinho – o Cassino Castro Alves – que servia para exibições de “chanteuses de cafés-cantantes”. Segundo Boccanera Junior (1919, p. 20) no cassino se ”exibiram algumas vezes,

vistas animadas e fixas, por um aparelho cinematográfico, conforme lemos

Figura 8 – Imagem da Praça Castro entre 1903 e 1904. No edifício em frente ao teatro

funciona a Photographie Gaensly & Lindemann. À direita, os dois parques gradeados construídos em 1878 e a pequena construção em madeira do Cassino Castro Alves. Notar o bonde à tração animal, as mulas e carroças para o transporte de mercadorias e a

presença de “negros de ganho”.

Fonte: Arquivo Público Municipal, Salvador.

Figura 9 – Interessante imagem complementar à Figura 9 aqui apresentada

e que “conclui” a praça pelo lado do nascente, mostrando a Ladeira da Barroquinha – onde estão dois bondes estacionados – e sua Igreja. À direita o Hotel Paris.

Do lado sul, em frente ao Hotel Sul Americano, esquina com a Rua de São Bento de Baixo, em dezembro de 1897, no salão do 1° andar da Confeitaria Luso-Brasileiro18, o público baiano, após a não bem sucedida estreia da “fe-

nomenal criação da inteligência humana” ocorrida no Teatro Politeama em 4 de dezembro do mesmo ano, pode enfim assistir durante os próximos três meses, em três funções diárias – 19h, 20h e 21h – às maravilhas proporciona- das pelo cinematógrafo. (JORNAL DE NOTÍCIAS, 1897, p. 1) (Figura 10)

Figura 10 – Ao fundo o Hotel Sul Americano; à esquerda, com seus toldos, a Confeitaria

Luso-Brasileiro, onde funcionou no 1° andar o Cinema Edson. Em primeiro plano ocupando o antigo Palacete Passé, o Diário da Bahia

Fonte: Arquivo Público Municipal, Salvador.

“O aparelho de Lumière apanha e reproduz a vida, os movimentos em todas as suas fases”, informa o vizinho Diário da Bahia. (DIÁRIO DA BAHIA, 1897) Apesar da entusiástica repercussão por parte da imprensa e do público as sessões apresentadas na sala improvisada com 200 cadeiras e que recebeu o nome de Cinema Edson tiveram curta duração, encerrando as suas atividades três meses após a inauguração. (BOCCANERA JUNIOR, 1928, p. 81) (Figura 11)

Na verdade, na sua primeira fase o designativo “cinema” não se referia pro- priamente a uma casa de espetáculo estabelecida, mas a um aparelho, ficando,

portanto, o usufruto dos espetáculos que proporcionava ao público ao sabor da estadia do seu proprietário em determinada praça, à maneira dos circos. O que não invalidaria a adesão no ano seguinte do Teatro São João à nova forma de entretenimento, e de negócio, evidentemente. O Correio de Notícias de 20 de abril de 1898 informa que, “em caráter experimental”, foi instalado naquele teatro um cinematógrafo, “com vistas móveis em duas sessões, sendo uma de quadros notáveis, sacros e históricos, e outra de quadros curiosos e engraçados”. Segundo o jornal, tratava-se de um apa- relho dos mais interessantes que tem vindo a essa capital. (CORREIO DE

NOTÍCIAS, 1898)

Percebido enquanto negócio rentável o cinematógrafo veio para ficar. Nos primeiros anos da década de 1910, já sofrendo forte concorrência do vizinho Hotel Sul Americano, o Hotel Paris inicia uma curva decadente. No sentido de estancar essa tendência, seus proprietários investem no “novo negócio”. Assim, no dia 15 de março de 1910, com grande estardalhaço e ampla cober-

tura da imprensa, é inaugurado no térreo deste hotel o Cinema Central.19

Segundo o Diário de Notícias, a casa de espetáculos, que possuía “um vasto salão de exibições” e lotação de 200 cadeiras, era a única na Bahia a contar

com contra-regras.20 (LEAL; LEAL FILHO, 1997, p. 106)

É nesse período que, em função da intensa campanha policial refletida nos jornais da época, o carnaval, burguês, “controlado” e, portanto, “civili- zado” torna-se praticamente hegemônico em relação ao entrudo que então inicia um processo praticamente de banimento.

Nessa época, sempre prestigiados pelo comércio e pela grande imprensa21,

os bailes de máscaras, os corsos das associações carnavalescas recém-formadas,

19 O primeiro cinema de Salvador, o luxuoso Cinema Bahia, foi inaugurado em 1909 na Rua Chile, 1, em um casarão especialmente adaptado para esse fim.

20 Em 17 de março de 1911, a direção do Cinema Central, avisava ao público, através da imprensa, que o mesmo havia passado por uma “radical reforma”, trazendo as “necessárias condições de conforto e higiene”. Seria reaberto no dia seguinte com preço estipulado em 500 réis. O Cinema foi extinto em 1912.

os desfiles de carros alegóricos em que foliões fantasiados se apresentavam em préstitos à maneira dos carnavais de Paris e Nice, se tornam a tônica.

Já em 1° de março de 1883 fora fundado na Barroquinha, onde vem a ter sua primeira sede, o Clube Carnavalesco Cruz Vermelha; no ano seguinte foi a vez dos Fantoches da Euterpe, que reunia a fina flor da sociedade lo- cal; em 28 de fevereiro de 1900 nasce o irreverente Inocentes em Progresso. Essas associações carnavalescas desfilavam os seus suntuosos carros alegó- ricos arrastando verdadeiras multidões pelas ruas da cidade – da Avenida 7 à Rua Chile – disputando não só a simpatia dos foliões, como a premiação auferida àquela que apresentasse o desfile mais original e suntuoso. Além do mais, promoviam em suas sedes grandes bailes carnavalescos: é a época dos confetes, serpentinas e brilhantinas, anunciadas pelo comércio em reclames nos jornais como as grandes novidades do momento, como informa didati- camente na sua primeira página o Jornal de Notícias de 1895:

Serpentines – são rodas de papeis de diversas cores e chegam ao destino

que se quer – sem muito esforço e com muita surpresa.

Confetti parisiense – São pequeninos discos de papel de todas as cores e

que substituem com graça e sem prejuízo o uso das bisnagas e laranjinhas. (JORNAL DE NOTÍCIAS, 1895)

Enquanto isso, negros e mulatos, para gáudio da polícia e da sociedade em geral passaram a “aderir” à nova ordem. Não mais os “incompreensíveis”

cucumbis ou mesmo os “mela-melas” anárquicos dos entrudos com suas la-

ranjinhas e bisnagas, sobretudo tal como eram praticados por essa imensa parcela da população que com suas “arruaças” comprometiam a segurança e pervertiam o gosto da população em geral. Agora, reunidos em animados blocos, os negros percorriam a cidade com suas charangas, compostas “de

Diário da Bahia, fundado em 1856 e cuja sede se encontrava na Praça Castro Alves desde 1872; o Estado da Bahia fundado em 1883; Jornal de Notícias, fundado em 1878, com circulação em todo o

Estado, com sede à Rua das Princesas no Comércio; o Diário de Notícias, fundado em 1875 e o Correio

todos os instrumentos usados pelo feiticismo”, concorrendo entre si na dis- puta pelas palmas da festa.22

Assim, no carnaval de 1897 sai vencedora a Embaixada Africana que com seu préstito em homenagem ao líder negro Manelikus, disputou os aplausos mais calorosos do público presente nas ruas da cidade:

Muito se deve ao distinto e simpático club Embaixada Africana o grande êxito do Carnaval e pela maneira característica por que se exibiu, poderia, sem desdouro, estar nas famosas festas de Nice. [...]

Pouco depois do Cruz Vermelha, a Embaixada Africana fez a sua entrada triunfal no largo Castro Alves, sendo freneticamente vitoriado pela mas-

sa popular, que não cansava de aclamá-lo. (A BAHIA, 1897, grifo nosso) A Praça Castro Alves, local obrigatório de passagem do corso carnavalesco se tornaria então, centro de grande efervescência e animação na cidade du- rante o período monesco. Animados bailes eram então promovidos no Teatro Castro Alves e nos hotéis Sul Americano e Paris, até porque os empresários já haviam percebido ser o carnaval uma boa fonte de lucros.

Mas, depois do carnaval, vem naturalmente a quaresma com suas pro- cissões religiosas.

Amparada por uma constituição laica e por amplas ofertas de diversão mundana, o interesse da população se desloca e as procissões vão pouco a pou- co perdendo o interesse e o esplendor da época do Império. Pouco a pouco, a magnífica Procissão de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha perde o fausto de outrora, até ser extinta em 1930 (CAMPOS, 2001, p. 359),23

22 No período foram criados vários desses “clubs” de negros dos quais se tem notícias os seguintes: a Embaixada Africana, criada entre 1892 e 1895, a Chegança Africana, criada 1895 e 1897, o Pândegas de África, criada em 1897 e os Sobrinhos da África. Sobre o assunto ver QUERINO, 1938, p. 102-104. Naturalmente que os jogos dos cucumbis e do entrudo, persistiram ainda por longos anos, sobretudo nas áreas mais afastadas e apesar da forte oposição policial e da imprensa.

23 Desde 1865 a Irmandade do Senhor dos Martírios vinha sofrendo enérgicas e seguidas admoestações por parte do vigário da paróquia de S. Pedro da qual a Igreja da Barroquinha era filial, em função “dos excessos por demais deploráveis” a que se entregavam as mulheres da citada devoção, após a procissão, conforme comentamos acima. (CAMPOS, 2001, p. 359)

enquanto que o Iyá Omi Airá Ontile é obrigado a transferir-se para a Estrada Velha do Rio Vermelho. 1910: a chamada modernização da cidade já está em curso. Têm início os “tempos modernos” e a Praça Castro Alves ocupará nesse processo lugar de protagonista. Que venham os anos 1910.

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