Como podemos compreender o tempo? Um dia tem 24 horas. Um avião em duas horas faz o percurso de Salvador ao Rio de Janeiro. Um picolé na beira da praia é consumido mais rapidamente do que no restaurante climatizado.
Segundo o físico Sílvio Romero Dahmen [2006] o tempo pode ser definir
como o parâmetro que descreve a mudança de um sistema a partir de um estado. Um sistema que faz um movimento repetitivo, fechando um ciclo, nos permite marcar a passagem do tempo. Vejamos:
[...] qualquer cronômetro toma o movimento repetido de algum sistema (algo que vai e volta ao mesmo lugar) para calcular uma fração de tempo. Primeiro, os seres humanos utilizaram o movimento dos astros, que passado um período retornavam à mesma posição inicial (o calendário solar ou lunar). Depois, para tempos mais curtos, vieram as ampulhetas até chegarmos ao movimento de um pêndulo. Hoje, a maioria dos relógios usados no dia-a-dia utiliza as vibrações muito precisas de um quartzo. Se quisermos algo muito mais preciso, temos que recorrer aos relógios atômicos (utilizados, por exemplo, nos satélites GPS, que necessitam de uma precisão muito além daquela de nossos simples relógios). (DAHMEN, [2006], p. 49-50)
A partir do ciclo do dia e noite construímos os calendários, marcamos o tempo. Contudo não podemos percebê-lo isoladamente, a não ser recorren- do a outra dimensão: o espaço.
Aprendemos com Albert Einstein que há uma íntima conexão entre tempo e espaço. Porém, em se tratando de espaço, podemos ir para frente e para trás, para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, em cada uma das três possíveis direções (nós, físicos, falamos em dimensões). O tempo também é mais uma dimensão e, por isso, fala-se hoje não de ‘espaço’, mas de ‘espaço-tempo’. (DAHMEN, [2006], p. 48)
Vejamos como o poeta Arnaldo Antunes espacializa o tempo através da areia que cai na ampulheta.
Areia (Arnaldo Antunes, 2004)
Areia pra deixar cair No centro da ampulheta Eu vejo enquanto espero Aquilo que mais quero
O meu amor virá Madrugada lenta As luzes piscam letras
Na janela venta Enquanto o carro vai
Areia pra passar Areia pra passar Areia como tempo
Através do vidro Cai pelo orifício Revirando o ar Atravessando a praia
Maior que um Saara Até chegar no mar. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Tempo>
O tempo, cíclica e precisamente marcado pela areia que se desloca de um lado a outro da ampulheta, é sentido pelo enamorado como uma madruga- da lenta, em que fatos corriqueiros acontecem enquanto espera seu amor. A sensação de que o tempo demora a passar é poeticamente expressa pela metáfora do grão de areia que passa pelo orifício da ampulheta e a travessia da vastidão do deserto do Saara.
Aqui também vemos o tempo como uma dimensão espaço-temporal. Contudo vamos percebendo que a objetividade do tempo marcado pelos ins- trumentos de medida não defini a totalidade deste fenômeno. Quando espero alguém parece que os minutos são uma eternidade. A partir de observações como esta, os físicos e filósofos passaram a se perguntar se o tempo existe independente do observador. Ele flui porque nossa consciência se modifica? Seria, assim, o fluxo do tempo algo subjetivo?
A forma clássica de conceber o tempo como elaboração do sujeito inicia- -se com Santo Agostinho e tem seu ápice no pensamento moderno, sobre- tudo em Hume e Kant. A concepção subjetiva do tempo contrapõe-se tanto à ideia de tempo como criação mágico/fenomênica, como à ideia de tempo objetivo, derivada das relações espaciais e cinemáticas.
Santo Agostinho diz que o passado não existe mais, o futuro ainda não chegou e o presente torna-se pretérito a cada instante. O que seria próprio do tempo é o não ser. O passado existe, por força de minha memória, no presente. Da mesma forma, o futuro existe, por força da expectativa de que as coisas ocorrerão, no presente. E o presente seria a percepção imediata do que ocorre. (CARNEIRO, 2004, p. 224)
O tempo é então concebido como resultante da ação cognitiva do ser humano, está a mercê da razão e suas limitações. Hume aprofunda esta ideia: O que conhecemos então? Não a essência do objeto, mas certa regularidade constatada empiricamente. [...] a mente humana só é capaz de pensar os objetos com o auxílio da memória e porque esses são internalizados por meio das imagens mentais. [...]
O tempo é, em Hume (1984), a constatação de certa sucessão habitual, isto é, ligamos um evento ao outro quando experimentamos certas vezes esta ligação. (CARNEIRO, 2004, p.224)
Para Hume (CARNEIRO, 2004) o conhecimento resulta de duas fontes: as impressões, resultantes diretamente das percepções e as ideias que se formam em nossas mentes. Estas se desdobram através de três princípios de conexões:
[...] a semelhança (uma pintura conduz nossos pensamentos para o original), a contigüidade ou proximidade de tempo ou lugar (um comentário sobre um aposento desperta uma pergunta ou comentário a respeito dos outros) e a causa ou efeito (se pensarmos num ferimento, logo lembraremos da dor que o acompanha). (CARNEIRO, 2004, p. 225)
Kant corrobora com esta ideia. Ele concorda que o conhecimento resul- ta da experiência, mas destaca que é a mente humana quem as organiza e submete a uma forma a priori: “O espaço e o tempo não seriam realidades materiais, nem conteúdos possíveis de nossas representações e de nossa ex- periência, mas formas subjetivas de nossas representações.” (CARNEIRO, 2004, p. 229) Sendo assim, espaço e tempo não são determinações ou estru- turas dos objetos, mas formas próprias do sujeito.
É a vivência humana que dá sentido as coisas, fatos, lugares e pessoas. O físico Dahmen nos lembra que:
Sem dúvida, somos aquilo que somos porque temos memória. Sem ela não seríamos nada: não nos lembraríamos das nossas ligações afetivas, de nossa história, de nossos costumes e de nossa língua. A comunicação com nossos semelhantes não seria possível se não tivéssemos registrado em nossos cérebros não apenas nosso idioma como uma série de condutas éticas de convívio em sociedade. (DAHMEN, [2006], p. 48)