6. Usage
6.3. Intermediate System Processing
Se por um lado podemos nos sensibilizar com a poética do mito. Por outro lado, também podemos nos amparar em autores que nos permitem transitar sobre a semântica da narrativa, guiados por uma abordagem estruturalista. Braggio (1992) cita alguns teóricos estruturalistas e construtivistas, que defen- dem a existência de uma estrutura subjacente ao texto, certas regularidades
que garantiriam a compreensão da narrativa. Existem certos aspectos estrutu- rais na narrativa facilitadores da aquisição ou compreensão da língua escrita, princípios constitutivos do texto fundamentais para garantir a construção do significado pelo leitor.
Iremos junto com Greimas (2009), Levi-Strauss (2004), Propp (2001) iden- tificar os três elementos básicos no mito: a armadura, o código e a mensagem. A armadura é o aspecto invariante no mito, elemento de previsibilidade da interpretação. Há três procedimentos de descrição:
A narrativa, unidade discursiva, deve ser considerada como [...[ uma su- cessão de enunciados cujas funções-predicados simulam [...] um conjunto de comportamentos orientados para um objetivo. Na qualidade de uma sucessão, a narrativa possui uma dimensão temporal: os comportamentos ali apresentados mantêm entre eles relação de anterioridade e posteridade. A narrativa [...] deve ser um todo de significação; ela apresenta-se, por isso, como uma estrutura semântica simples. Disso resulta que os desenvolvimentos secundários da narração, [...] constituem uma camada estrutural subordi- nada: a narração [...] terá [...] uma estrutura hierárquica de conteúdos. [...] A este antes e depois discursivo corresponde ao que se chama uma ‘re- viravolta da situação’ que, sobre o plano da estrutura implícita [...] é [...] uma inversão dos signos do conteúdo. [...]
[...] narrativas [...] possuem uma outra propriedade que consiste em comportar uma sequência inicial e uma sequência final situadas sobre planos de ‘reali- dade’ mítica diferentes do corpo da narrativa [...] (GREIMAS, 2009, p. 65-66) Assim temos que a narrativa é um conjunto de enunciados transfrásico, marcados por uma sucessão temporal antes/depois, que estabelece relações hierárquicas de conteúdos e algumas inversões, negações ou deslocamentos. Para se ter acesso à mensagem do mito é preciso identificar isotopias simul- tâneas, que de acordo com Greimas (2009, p.67) seria “[...] um conjunto de categorias semânticas que torna possível a leitura uniforme da narrativa”. Podemos identificar dois tipos: isotopia narrativa e do conteúdo.
1) A isotopia narrativa [...] faz com que a narrativa seja concebida como uma sucessão de acontecimentos cujos atores são seres animados, agen-
tes ou pacientes. [...] um herói [...] aparece como agente graças ao qual se produz uma reviravolta da situação, [...] situação-antes e a situação-depois. 2) A segunda isotopia se situa [...] no nível da estrutura do conteúdo [...]. O problema [...] é [...] estabelecer [...] as sequências narrativas e as articu- lações estruturais dos conteúdos que lhes correspondem [...]. (GREIMAS, 2009, p. 67-68)
Para se compreender o código do mito iremos recorrer a uma descrição com- parativa. Podemos comparar um mito com outro ou porções sintagmáticas da narrativa (sequências correspondentes às articulações de conteúdo previsível). O estabelecimento da correlação de dois elementos narrativos não idênticos pertencentes a duas narrativas diferentes leva a reconhecer a existência de uma disjunção paradigmática que, operando no interior de uma categoria semântica dada, faz com que se considere o segundo elemento narrativo como à transformação do primeiro. [...] constata-se que [...] tem por conseqüência provocar transformações em cadeia ao longo de toda a sequência. (GREIMAS, 2009, p. 69)
Três tipos de sintagmas narrativos podem ser encontrados: performan- ciais (provas), contratuais (estabelecimento e ruptura de contrato) e disjun- cionais (partidas e regressos).
Para Propp (2001) o número das funções que o conto compreende é li- mitado, sua sucessão é sempre idêntica e que todos os contos maravilhosos pertencem ao mesmo tipo quanto à sua estrutura. As principais funções apresentam-se aos pares: interdição/transgressão, interrogação/informação, combate/vitória, perseguição/socorro, prova/recompensa.
Propp (2001) reconhece uma estrutura constante nos contos ou mitos, para além das variações dos cenários, dos nomes e atributos dos persona- gens; as ações desencadeadas indicam funções invariantes, que podem ser entendidas como leis das estruturas que regem toda a narrativa. Tomemos a análise morfológica como um guia para a compreensão do mito de Iroco. Iremos descrever suas partes constitutivas, as relações entre elas e com o todo, no intuito de depreender seu sentido.
As funções dos contos e mitos são repetitivas, segundo Gillis (1999, p. 45): [...] a colocação à prova do herói ou a dádiva de um objeto mágico podem ser realizadas por vários personagens, todos diferentes, sem que o curso da intriga mude. Daí a idéia de que uma determinada função sempre permanece como um valor constante de um conto ao outro e de que mudam apenas as modalidades através das quais essa função se cumpre. A estrutura básica de uma narrativa pode ser dividida em três momentos: antes, durante e depois. Antes temos um estado inicial da história, em que se revela um equilíbrio precário, uma condição que será alterada. Durante é o período em que os fatos de desenrolam, ocorrem o desencadeamento das provocações ou infortúnios e algumas ações se sucedem em cadeia. Até que ocorra uma sanção e as consequências das ações sejam reparadas. O depois é o estado final o reequilíbrio alcançado.
Como podemos observar o desenrolar da narrativa é todo estruturado no tempo. Para reconhecermos cada parte constitutiva da narrativa tomamos como critério de identificação a presença dos conectores.
Gillis (1999, p. 144) nos apresenta alguns deles:
Inventário dos organizadores textuais e dos conectores.
Fórmula introdutiva inicial: ”Era uma vez... Há muito tempo... Em tempos remotos... Na época em que...’, etc.
Desencadeamento da situação 2: ’Um dia... Repentinamente... Brusca- mente... De repente...’, etc.
Dentro da situação 2: ‘Então... Depois que... Um ano mais tarde... Novamen- te... Logo que... Depois de algum tempo... Mas...depois... em seguida...’, etc. Na situação final: ‘Desde esse dia... foi assim que... doravante... Por isso...’, etc. Pode se notar que todos os conectores expressão condições temporais, indicando sua condição de invariante funcional na determinação da narrativa.