Kagame In Ricoeur (1975) vai dizer que para tratar do termo Tempo nas cul- turas Bantu, ele consultou 231 obras que tratam das diferentes línguas Bantu e também enviou questionários para outras áreas da África em que se falam esta língua, mas que não constavam referências bibliográficas sobre o tema. Nestes estudos ele vai encontrar “Lá” como advérbio de lugar e “Lá” como ad- vérbio de tempo, daí ele dizer, que numa visão ontológica, a cultura Africana Bantu, coloca tudo o que se possa conceber ou formular no seu mundo, dentro de quatro categorias e são elas: 1) o Ser-de-inteligência (o homem); 2) o Ser- sem-inteligência (a coisa); 3) o Ser-localizador (lugar-tempo); 4) o Ser-modal (acidentalidade ou modificação do Ser).
A terceira categoria se traduz na língua Bantu por “Lá Onde” cuja signi- ficação real se traduz pela palavra localizador. Os Bantu distinguem as enti- dades Lugar e Tempo. A estrutura Linguística dos mesmos supõe que estas duas entidades se fundem numa só categoria, assim, para esta cultura a con- cepção de Tempo só se completa com a concepção de Lugar.
Kagame (1975) também afirma que surge nesta terceira categoria que se soma ao lugar e ao tempo o Existente, uma vez que, na filosofia bantu, o ser = Ntu exprime a essência ou a entidade cuja noção o espírito possui inde- pendentemente de seu existir.
Essa unificação lugar-tempo não visa localizar os seres (a essência) mas os existentes que dependem das outras três categorias (homem, coisa, aci- dentalidade ou modificação do ser).
O movimento existencial, atributo básico do existente não tem antes nem depois. O existente além do movimento existencial executa outros movimentos de translação e de rotação combinados, internos, invisíveis ao olho nu e outros.
Ainda segundo Kagame (1975), a cultura bantu concebe o Existir em que ser jamais pode traduzir a ideia de existir, logo, o axioma “penso logo existo” é ininteligível, o verbo ser é sempre seguido de um predicativo ou de um ad- junto adverbial de lugar. “Portanto existo” suscita a pergunta: o quê? Onde? Nesta cultura é atribuído o viver, aos existentes que nascem, são dotados de movimentos imanentes e da sensibilidade e terminam seu existir de vivos pelo morrer; assim Tempo é a entidade métrica do movimento presente, passado e futuro.
O passado se reveste de uma importância capital, isto porque, sem o passado, o presente, o tempo da geração atual, a língua, o território, os costumes sociais não existiriam. Isto faz com que exista estreita relação entre os antepassados e seus descendentes. Vale ressaltar que na base das culturas bantu está o entendimento de que: 1) os mortos são senhores que protegem e preservam os vivos de todos os perigos; 2) os vivos de- vem prestar cultos aos mortos para que estes não fiquem descontentes e
mandem calamidades para os vivos (doenças, perda dos bens, etc.); 3) o êxito dos vivos é atribuído ao espírito tutelar de seus antepassados, po- dendo inclusive ser atribuído a um espírito maléfico da parentela do vivo para lançar problemas de ordem dos fenômenos naturais tais como: raio, afogamento, queda de árvores, etc.
O tempo está ligado aos acontecimentos e todos os acontecimentos são sagrados, nenhum acontecimento é considerado como puramente profano. Para os africanos, seus mortos comandam suas vidas, daí podemos deduzir que o tempo passado intermédia às relações do tempo presente e futuro atra- vés de uma lógica ancestral. Esta lógica segue orientação de uma convicção prática que repercute na vida diária dos vivos; assim sendo, a tríade Tempo- Lugar-Existente estão articulados.
Nos mitos afro-brasileiros que falam de Tempo, Tempo é representado pelo culto a árvores sagradas, tais como: pé de gameleiras, pé de Ingá, pé de Iroko ou Loko; árvores estas que apontam para especificação do lugar. Nestas árvores o culto é para o seu existente (o espírito). O existente não é o Ser, aquele dotado de essência, mas sim, aquele que não tem antes nem depois, ele existe, e é dotado de movimentos dos existentes, repleto de ações e paixões.
Como nos diz Mircea Eliade (1991, p. 13) em mitos sonhos e mistérios, “[...] não há culto da árvore em si mesma; debaixo desta figuração esconde- -se sempre uma entidade espiritual”. Tanto no “simbolismo da árvore” como no de Tempo, estão os princípios de renovação periódica e infinita, regene- ração e imortalidade.
Estudos nos apontam que a imagem verbal enunciada através dos mitos coletados por pesquisadores/as acerca das árvores sagradas, local dos cultos a Tempo; falam sobre os medos que os humanos têm do tempo, suas dívidas e promessas, assombração, castigo, bondade, oferendas.
O culto à Tempo lembra que o presente e o futuro dependem do passado, do antepassado, do ancestral. Tempo é unificado nas categorias lugar e exis- tente; assim, a árvore sagrada não representa o Tempo, mas ocupa o lugar do mesmo. Poderíamos dizer que o exercício ritual da palavra se dá através do
mito, em que se invoca que o passado (o ancestral) se encontre com o pre- sente (lugar das gerações atuais) para prevenir o futuro.
Vale aqui ressaltar que em algumas culturas africanas existe uma lógica a qual o mundo ocidental chamou de animismo que se distancia de pensar sobre quais eram as imagens simbólicas, destas culturas africanas acerca de si e dos outros? Pensar sobre quais eram estas imagens formuladas pelos africanos, e como as mesmas se distanciam das formuladas pelos ocidentais cristãos, é que fornece bases para uma interpretação significativa acerca do entendimento de imagem que está imiscuída no processo étnico evocado nas palavras de um determinado sujeito.
Severi Carlo (2009) no texto As Palavras emprestadas ou como falam as
Imagens diz “Todo ato verbal supõe um compartilhamento de identidade”. Ele
chama atenção para pensarmos que todo Ser humano já dirigiu a palavra para algum objeto inanimado, vegetal ou animal, embora no dia a dia, se atribua apenas aos humanos o estado mental. O autor afirma que essa personalização humana a bonecos, carro, animais, vegetais fornece dados para estudos que falem sobre atribuição de subjetividade aos artefatos, daí ele afirmar que isto ocorre porque temos uma visão antropomórfica dos artefatos e os mesmos podem desempenhar um papel de vida social.
Nas culturas que ritualizam as palavras, como é o caso das africanas, podemos elencar animais, árvores, paramentos, ferramentas, elementos da natureza e a própria palavra sobre e a respeito das coisas simbolizando as representações de seres espirituais (espíritos, divindades, ancestrais) a imagem dos humanos. A palavra coloca o objeto no lugar do Ser represen- tado, restituindo a presença do mesmo. Sendo assim, Severi Carlo (2009, p. 461) diz que
[...] para compreender o que pode ser a palavra ritual atribuída a uma imagem, será necessário indagarmos quanto a possibilidade de pensar o estatuto da representação icônica não mais a partir de aspectos formais e sim por meio da análise de seu contexto de uso [...].
O referido autor sugere que para melhor entender o que é uma palavra ritual atribuída a uma imagem se tome à análise de seu contexto de uso, nes- te sentido é que fomos indagar sobre a imagem enunciada na palavra Tempo nas culturas Bantu e afro-brasileiras. Tanto em uma como na outra, o Tempo se enuncia pelo passado presente e futuro unificado pela presença da lógica ancestral, lógica esta, naturalmente permeada pelos mitos que concretizam a individualidade simbólica das imagens.