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1 Introduction
Atentemo-nos para outra estreita afinidade conceitual entre Kollreutter e Freire, cada qual trabalhando em seu domínio específico como educadores, um no ensino musical, outro na educação de adultos. Trata-se de um conceito muito precioso para ambos – a conscientização da realidade pela educação, ao mesmo tempo meio e meta, i.e, meio enquanto ferramenta crucial do processo formativo de consciência pelo despertar do pensamento reflexivo, e meta a ser alcançada pela formação humana integral de cidadãos critícos.
Se Freire nos convida a refletir sobre o alcance do papel da alfabetização de um adulto que, a partir da leitura e da escrita, passa a ler e interpretar o mundo e a vida, Koellreutter nos convida a ir além da música como mera arte dos sons e dos silêncios. A arte musical, como linguagem, estrutura sentidos e significados da vida e do mundo, expressa sentimentos, comunica emoções, desvela uma visão de mundo. Para Koellreutter, sua
19 Tal procedimento nos remete, num registro de performance musical, a uma forma similar de preparação do repertório do multi-instrumentista Hermeto Pascoal, considerado um dos músicos mais inventivos na cena musical popular brasileira, pelo uso incomum de sons das mais diferentes naturezas e origens. Segundo relatos de músicos de sua banda que conviveram com ele vários anos, Hermeto Pascoal ensaiava durante meses determinadas músicas, algumas delas sendo substituídas no momento do show, sem aparente ensaio. Na realidade, as músicas exaustivamente ensaiadas previamente forneciam exercícios seguros para a improvisação em cena.
linguagem deve ampliar a percepção e consciência das pessoas, devendo contribuir para o alargamento da consciência e para modificar o homem e a sociedade.
Apesar da especificidade dos objetivos de seus projetos educacionais, ambos utilizam a mesma terminologia para designar o primeiro nível de consciência, ponto de partida para desencadear o processo pedagógico no aluno/educando: a consciência mágica.20 Esta é o primeiro nível da pedagogia musical de Koellreutter que constroi uma tipologia de quatro níveis de consciência intimamente vinculados à percepção do tempo musical: além do nível mágico, seguem o pré-racionalista, o racionalista e o arracionalista. Os quatro níveis podem coexistir em cada ser humano, “de maneira que convivemos com um ser mágico, um ser mítico”, mesmo em períodos posteriores de racionalidade e arracionalidade, o que caracteriza a dimensão holística (noção de totalidade) da consciência humana (cf. Brito, op. cit. p. 89).
O nível mágico pertence aos primórdios da pré-história da humanidade, uma forma de consciência na qual a razão não intervem. É o primeiro patamar da percepção do tempo musical, pré-requisito do processo pedagógico. Por ele, a percepção se dá de forma monodimensional, constituído por uma sucessão de sons, sem ritmo métrico, concepção que se refere a uma visão de mundo em que ainda não havia propriamente a noção de um tempo medido subdividido em frações. A monodia modal gregoriana é exemplar da forma monodimensional, cujo andamento sem pulso expressa o ritmo frásico da oração cantada típica do cristianismo medieval.
A produção musical representativa do nível mágico de consciência tem como características a organização sucessiva dos sons, ou seja, a monodimensão; a organização temporal não-métrica; a equivalência dos sons [sem hierarquia] que se atualizam em um campo sonoro circular no qual a música parece não ter nem princípio nem fim; música motor (que tem movimento contínuo) (Brito, 2004: 81).
20 A conscientização é um conceito central em Freire. O que ele visa pela ação alfabetizadora é uma “leitura crítica da realidade”. Para se chegar a tal criticidade, ele apresenta três níveis de consciência: mágica, ingênua e crítica. A primeira caracteriza-se pelo fascínio de explicações destituídas de racionalidade, ao atribuir, p. ex., a pobreza à vontade de Deus ou à ordem natural das coisas. Na ingênua, as pessoas já percebem, de certo modo ainda limitado, as causas dos eventos não como fruto do acaso, porém a visão das causas não são suficientes para impulsionar a superaração das verdadeiras causas dos eventos negativos. O objetivo do método, pela leitura e escrita, é o despertar da consciência crítica. Com isso, pelo uso das palavras geradoras extraídas do universo linguístico mínimo de sua realidade, denominado de universo vocabular, o adulto aprende a ler e interpretar o mundo, de forma autônoma e crítica, pelos sentidos das palavras, para, assim, perceber os sentidos da vida. As palavras geradoras, escolhidas a partir do universo vocabular do entorno do adulto, leva em conta um tríplice critério: o fonético, o semântico e o pragmático, conforme iremos ver mais adiante na análise da convergência deste último critério (o pragmático) nas propostas de Koellreutter e P.Freire. Para isso, ver Freire, 2011: 138-139 e Maciel,”A fundamentação teórica do Sistema Paulo Freire”, In Revista de Cultura da Universidade do Recife nº 4, 1963.
O nível pré-racionalista perdura até por volta do século XIV (fim da Idade Média). Nesse estádio, o conceito de tempo “psíquico-intuitivo” apresenta, em seu aspecto sonoro, uma visão bidimensional expressa, p. ex., na simultaneidade das notas do contraponto. Ainda perdura a noção de não metricidade de um tempo não quantificado. Transparece na intenção da música um sentido de infinitude mística. A produção do período, indo até o estilo gótico (século XIV), ainda não usando o “tempo do compasso”, incorpora à monodimensionalidade do gregoriano, “a dimensão bidimensional (simultaneidade) do órganum, do contraponto, da polifonia; o tempo ainda é não-métrico, com um caráter que tende ao infinito” (Koellreutter, cursos de Estética musical, análise fenomenológica e harmonia funcional).21
O nível racionalista é típico da modernidade renascentista perdurando até o começo do século XX. Ele se caracteriza fortemente com a criação do tempus mensurabilis do compasso. É interessante observar que existe certa sincronicidade entre a criação do compasso e a invenção do relógio mecânico (virada do século XIV), que começa a substituir, no mundo ocidental, os relógios anteriormente vinculados aos eventos da natureza, como o relógio de água (clepsidra) e o relógio de sol (v. Miranda, 2001:48ss). Nesse estágio, difunde-se o conceito cronométrico do tempo (uso do metrônomo) para medir e quantificar racionalmente a música.
A tridimensionalidade dos sons (“convergência dos signos musicais” como melodia, harmonia e ritmo) ganha realce na modernidade a partir do sistema tonal. Assim como a perspectiva (ponto de fuga) renascentista das artes visuais nos remete à ideia de profundidade, assim também a ideia de tempo racionalmente medido nos traz à concepção das criações, cujo discurso musical nos indica um desenvolvimento temporal com início, meio e fim, nos passando a ideia análoga de linearidade temporal, a exemplo da forma-sonata do período do classicismo vienense (século XVIII), caracterizado pela composição temática tripartite: exposição, desenvolvimento e reexposição. As cadências tonais são sinais claros dessa trajetória, ao acentuar as tensões dissonantes, com a incorporação do trítono (diabolus in musica), que se resolvem com o repouso consonante final da narrativa musical linear.22
O nível arracional (alfa privativo) transcende o tempo racional quantificado. Reside nesse patamar de consciência a incorporação das conquistas das ciências do século
21 As notas citadas, sem revisão do autor, serão simplesmente referidas como anotações de curso/Koellreutter. 22 “A resolução do trítono no acorde [tonal] equivale igualmente à formulação da perspectiva na pintura (construção da profundidade) onde havia superfície, projeção de espaço evolutivo onde havia estaticidade infinitamente recorrente” (Wisnik, 1989: 101).
XX, como a física e a cosmologia modernas expressas na lei da relatividade e da mecânica quântica, desconstruindo conceitos tradicionais como matéria, tempo único e objetivo, contribuindo fortemente para modificar a visão de mundo dos cientistas, artistas e educadores.
A ciência do século XX torna-se instrumento de seres humanos que se reconhecem como parte da natureza e de um contexto cultural determinante. A ciência do complexo, tal como é chamada a ciência do nosso momento atual, lida com concepções como simultaneidade e diversidade de tempos (tempo trajetória; tempo interno; tempo termodinâmico) ao invés de tempo invariante e repetitivo proposto pela ciência clássica” (Brito, 2004: 87-88).23
Nesse estádio, a noção de tempo é acronométrico ou acrônico, “de ácronon (livre de um tempo medido, do tempo do relógio, do metrônomo; transpondo para a música: livre da métrica racional, da duração definida e determinada, e do compasso)” (Gandelman, 1984:11). Caracteriza-se por seu aspecto sonoro multidimensional e amétrico, transparecendo imprecisão, nos fazendo imergir na ideia do infindável. A noção de um tempo acronométrico expressa a ideia de superação da noção exclusiva de um conceito objetivo e único de tempo, resultado da concepção monocrônica do tempo do relógio e do trabalho da sociedade moderna.24 Para ilustrar a música contemporânea característica deste nível, Koellreutter costumava se servir da peça musical Lux Aeterna (Luz Eterna) do compositor húngaro György Ligeti, de 1966, como trilha sonora no filme 2001, uma odisseia no espaço (1968) do diretor norte-americano Stanley Kubrick, devido à sensação de ausência de um metro rigoroso, daí o conceito de tempo amétrico (anotações do curso/Koellreutter).
23 O texto “A imagem do mundo na estética de nosso século” de Koellreutter expõe sumariamente seu pensamento sobre o novo quadro das ciências contemporâneas com seus principais fundamentos responsáveis pela revolução científica com intensas ressonâncias no mundo da cultura e das artes. Disponível em: http://www.atravez.org.br/ceem_6/imagem_mundo.htm, Acesso em 15/11/2013.
24 Voltaremos ao tema na seção dedicada aos processos criativos (capítulo II), a partir do texto Tempo e trabalho
intelectual de José C. Bruni. Nele, o professor da USP confronta e analisa o tempo do trabalho (tempo medido