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Introduction aux Syst`emes Multicorps Discrets

No Brasil, a partir da segunda metade do século XIX, o espírito literário foi dominado pela preocupação nacionalista, pelo propósito de criar uma literatura nacional. Já na década de 1870, enquanto uma geração de intelectuais, com novas idéias (cientificismo, positivismo, darwinismo, evolucionismo) preparava terreno para o Realismo, o Romantismo estava dando sintomas de esvaziamento.

A busca por uma interpretação da cultura brasileira deu margem à consolidação da História e da Crítica Literária como disciplinas autônomas. Dois críticos deram importantes contribuições para essa investigação: Sílvio Romero (1851-1914) e José Veríssimo (1857-1916). Sílvio Romero, com História da Literatura Brasileira (1888), propõe um amplo conceito de Literatura como sinônimo de cultura, a partir de uma perspectiva sociológica. José Veríssimo, em História da Literatura Brasileira (1916), propõe uma concepção estética da Literatura, apoiando-se, sobretudo, na retórica clássica.

Outro crítico desta época foi Araripe Júnior (1848-1911). Ele não escreveu propriamente uma obra historiográfica da literatura brasileira, contudo podemos apontar um direcionamento metodológico, distinto dos dois outros pensadores mencionados, nos 47 anos de crítica literária exercida na imprensa nacional.

Os estudos do crítico cearense são importantes por apresentarem uma interpretação particular do naturalismo no Brasil. Apoiado numa idéia de nativismo,

calcado num determinismo geo-climático, ele interpreta a adaptação do romance naturalista ao Brasil como “estilo tropical”. Para chegar a este conceito, Araripe Júnior aliou a idéia de estilo à idéia de tropicalismo.

Esta idéia de estilo não é a mesma teorizada por Roland Barthes. Para o autor d’O grau zero da escritura, o estilo é formado por particularidades lingüísticas de cada escritor. A partir da radicalização do estilo é que o escritor adentra na esfera da escritura. Esta concepção de estilo, para Roland Barthes, tem pressupostos da lingüística estruturalista, que nasceu a partir das anotações dos trabalhos de Ferdinand de Saussure (1916).62

Tanto para Araripe Júnior, quanto para os intelectuais contemporâneos seus, a base da noção de estilo encontra-se no movimento iluminista europeu. O estilo era sinônimo de personalidade. Seria um principio individualizador. Quando tratávamos do estilo de um determinado autor, na verdade estávamos nos referindo aos seus traços psicológicos.

Contudo, a concepção de estilo que se tornou mais célebre foi a do naturalista e filosofo francês Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), na obra O discurso do estilo (1753):

Só as obras bem escritas hão de passar à posteridade. A abundância de conhecimentos, as novidades dos descobrimentos não são garantia de imortalidade. Se as obras que se condensam estão escritas sem gosto, sem nobreza, sem gênio perecerão; porque os conhecimentos, os acontecimentos, os descobrimentos se sublimaram quando passam por mãos hábeis (sic). Por outra parte são exteriores ao homem; por sua vez, o estilo é o próprio homem. (Apud Castagnino, 1969. p. 214)

Este conceito vê o estilo como inerente á natureza dos indivíduos. Está explícito que o estilo é o homem, mas está implícito à idéia de que a região que o individuo nasce e vive determina o seu gênio.

Como já mencionado no segundo capítulo deste trabalho, as concepções de Buffon, assim como as de Montesquieu, estavam calcadas num determinismo do meio físico. Esta forma de pensar foi bastante difundida nas últimas décadas do século XIX, na Europa, principalmente. Roberto Ventura afirma que a famosa frase de Buffon “o estilo é o próprio homem” é citada como sinônimo de individualidade. Contudo, o conceito de estilo deste pensador “ é formado em um nível antropológico geral, como

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No Curso de lingüística Geral (1916), Saussure realiza a distinção entre língua (langue) e fala (parole). Então, o estilo corresponderia à “fala”, que seria o emprego individual dos recursos de uma língua. Mas é evidente que no âmbito da ciência lingüística, existem diversas teorias que tecem inúmeras abordagens em torno do conceito de estilo.

atributo da humanidade, inserido em uma teoria da civilização em que „estilo‟ é tido como atributo das “nações civilizadas.” (Ventura, 1991. p. 22)

Estilo também é visto como sinônimo de produto do aperfeiçoamento da cultura européia. Então, o estilo europeu era o homem da civilização européia. Nessa perspectiva, só se poderia ter estilo por meio do pensamento, da linguagem e da razão, faculdades próprias dos homens das regiões temperadas.

Além destas concepções, o autor que influenciou consideravelmente os intelectuais brasileiros foi Hipólite Taine (1828-1893). Para ele, todos os produtos do espírito e todos os fatos históricos obedeciam a uma lei comum, originada da ação mecânica de três fatores essenciais: duas constantes, a „raça‟ e o „meio‟ e um principio diacrônico, o „momento‟. Essa famosa lei dos três fatores, já assinalada por Montesquieu e Madame de Staël, foi descrito por Taine no prefácio da História da Literatura Inglesa (1864), tornando-se a base determinismos geográfico, biológico, sociológico e histórico.

No Brasil, a influência de Taine se deu na adoção de um ou mais de seus fatores deterministas. Para Sílvio Romero, a raça era a perspectiva fundamental para o estudo cultural, ao investigar o processo pelo qual surgiu o povo brasileiro como “produto sociológico distinto do português. Já Araripe Júnior priorizava o meio em suas pesquisas.

No final da década de 1880, Araripe Júnior, a partir de novas leituras (Comte, Taine, Darwin) começou a esquadrinhar os aspectos singulares da Literatura Brasileira. Em 1893/94, ele escreveu uma série de artigos na imprensa carioca a respeito do poeta Gregório de Matos. Ele afirma que o poeta foi a primeira voz nacionalista do país. Após uma temporada em Lisboa, o poeta retorna ao Brasil. Este retorno foi significativo por que:

Em outra parte eu já expliquei que a chave para a compreensão da originalidade da literatura brasileira, pelo menos nos dois primeiros séculos, estava na análise do fenômeno aqui operado e a que conferi o nome de obnubilação. Consiste este fenômeno na transformação por que passava os colonos atravessando o oceano atlântico, e na sua posterior adaptação ao meio físico e ao ambiente primitivo (Araripe Júnior, 1978. p. 299-300).

Neste trecho, percebemos que Araripe faz a distinção entre metrópole e colônia. Contudo, o caráter civilizatório é demonstrado pelo ambiente e pelo clima. No clima temperado da Europa, o homem é civilizado e, no clima tropical da colônia, ele é “selvagem”, “atrasado”. O europeu ao chegar ao Brasil, teria, segundo o crítico, o seu

espírito modificado. O fenômeno de adaptação ao clima é a obnubilação. A terra é a força diferenciadora que mais influi na construção de nossa nacionalidade.

Apesar do determinismo, essa teoria enxerga com otimismo a formação da cultura brasileira. Mesmo sendo uma espécie de “regressão psíquica”, a obnubilação traria vantagens ao brasileiro, “ao tornar possível a transplantação da civilização européia, aclimatada aos trópicos.” (Ventura, 1991. p. 89)

Percebemos que o conceito de estilo tropical que Araripe Júnior vai construindo, além do determinismo do meio, também possui uma feição psicologizante. Pois a obnubilação é a ação do meio no humor do indivíduo. Ao iniciar uma série de artigos sobre Raul Pompéia, Araripe Júnior delimita as suas abordagens metodológicas, conceituando, inclusive, estilo: “é resultante, em parte imprevista, do conflito entre o temperamento de cada indivíduo e o mecanismo das formas literárias já criadas por um povo, por um grupo ou por uma escola” (Araripe Júnior, 1978. p.145).

Vemos neste conceito uma idéia de tensão. O estilo nasce de um estranhamento do temperamento do individuo nos embates com a tradição literária. Percebemos também uma idéia de sistema literário, mas ela é embasada pelo psicologismo. Um aspecto do temperamento do autor (uma espécie de força) é transmitido por meio de um objeto dinâmico, que é a obra literária. O receptor deste texto, ao lê-lo, entraria em contato com esta energia que foi determinada pelo meio em que o autor a escreveu.

Araripe Júnior teceu estas análises, fascinado pelo livro de Raúl Pompéia – O ateneu (1888). O crítico interpretou o estilo d‟O Ateneu como uma síndrome, um subjetivismo exagerado, uma inquietude nervosa que saturou as impressões mais sutis do cotidiano. O estilo tropical nasce de um determinismo psicológico e geo-climático. No ensaio “Estilo tropical: a fórmula do naturalismo brasileiro”, Araripe Júnior enumera diversas características da tropicalidade brasileira;

O tropical não pode ser correto. A correção é o fruto da paciência e dos países frios; nos países quentes, a tensão é intermitente. Aqui, aonde os frutos amadurecem em horas, aonde a mulher rebenta em prantos histéricos aos 10 anos, aonde a vegetação cresce e salta à vista, aonde a vida é uma orgia de viço, aonde tudo é extremoso... (Araripe Júnior, 1978, p. 126)

Mais uma vez, Araripe recorre ao dualismo climático quente/frio para caracterizar os povos civilizados e os atrasados. Nas zonas temperadas, berço do homem europeu, a razão, a paciência são cultivados. Estes traços são a base da correção, pois os homens ao se debruçarem sobre o papel, a fim de exercer ofícios intelectuais, meditam longamente. Este processo de reflexão permite ao homem realizar a “correção”, isto é,

a burilar as suas idéias. Para Araripe Júnior, assim como para diversos intelectuais, as zonas frias seriam propícias à correção.

Como vimos no segundo capítulo desta pesquisa, essa visão nasceu de uma perspectiva eurocêntrica, porque os estudiosos associaram o ambiente e o clima em que viviam a uma idéia de superioridade e de civilização. Araripe Júnior constrói uma imagem (herança, sobretudo, das leituras européias) do Brasil como uma imensa selva, onde a “vida é uma orgia de viço”. O clima quente excita o homem, tornando-o hiperativo e lascivo.

Um dos primeiros traços que caracterizam o estilo brasileiro é a incorreção. O crítico cearense explica que, ao emigrar para o Brasil, o naturalismo passou por uma modificação profunda. O Naturalismo, ao entrar pelo trópico de capricórnio, partilhou das alucinações provocadas pela lascívia quente da terra brasílica e se tornou uma planta exótica. Para Araripe Júnior “A fórmula que melhor nos cabe para exprimir a nova fase literária não pode ser senão esta – o naturalismo brasileiro é a luta entre o cientificismo desalentado do europeu e o lirismo nativo do americano pujante de vida, de amor, de sensualidade.” (Araripe Junior, 1978. p.127)

Neste conflito por uma singularidade nativista, o estilo tropical é o fator que define a literatura daquele período. O nosso naturalismo é um naturalismo quente, em oposição à escola naturalista européia, fria, decadente. Segundo Araripe Júnior, Aluísio de Azevedo seria o corifeu do naturalismo brasileiro, não somente um mero copiador servil da doutrina de Zola. Aluísio de Azevedo, a partir da força de sua índole, escreveu romances que realizaram a tropicalização do naturalismo francês.

Ao construir o conceito de estilo tropical, o pensador cearense nos oferece as bases teóricas de seu pensamento: estilo, com uma conotação (pautado nos iluministas franceses, como Buffon) de temperamento, humor, traços particulares dos indivíduos e tropical, uma noção que caracteriza a cultura brasileira, calcada num determinismo geo- climático.

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