1.5 Interactions entre solitons
1.5.1 Interactions entre solitons : exemples
A disposição das várias colunas litostratigráficas espelha as similaridades existentes entre estas. A sequência litostratigráfica Meso-Cenozóica é idêntica nas duas margens conjugadas, mostrando unidades semelhantes. Em relação às principais rochas geradoras, existe uma relação directa entre o intervalo gerador do Jurássico Inferior nas duas bacias Ibéricas e a Formação Iroquois. A mesma semelhança pode ser encontrada entre o intervalo gerador do Jurássico Superior (Formação Cabo Mondego, na Bacia do Porto, e Formação de Cabaços, na Bacia Lusitânica) e as margas do Caloviano – Oxfordiano identificadas na região dos grandes Bancos da Terra Nova, e que aqui têm boas propriedades como rocha geradora.
Apesar destas similaridades, parece não haver equivalência dos principais níveis geradores entre as duas margens. Assim, na Bacia de Flemish Pass a principal rocha-mãe que gera hidrocarbonetos para os reservatórios sobrejacentes é a do Kimmeridgiano – Titoniano (Membro Egret da Formação Rankin), depositada em ambiente marinho, e que aqui se apresenta dentro da janela de maturação de hidrocarbonetos (Foster & Robinson, 1993). Este intervalo gerador, que segundo estes autores pode durar até ao Berriasiano inferior, é assim o principal gerador de hidrocarbonetos para os reservatórios siliciclásticos identificados sobretudo no Berriasiano e Titoniano Superior (Formação Baccalieu e Formação Fortune Bay). Para além destes reservatórios identificados no Jurássico Superior e Cretácico Inferior, há ainda que referir outras formações com boas características para albergar hidrocarbonetos, como os reservatórios arenosos do Cretácico Superior (Formação Fox Harbour e Formação Otter Bay) e do Terciário (Formação Avondale e Formação South Mara).
Pode se considerar que na Bacia de Flemish Pass, à semelhança da bacia vizinha Jeanne d’Arc, a principal rocha geradora considerada corresponde ao membro argiloso da Formação Egret, equivalente à Formação «Rankin» (Kimmeridgiano – Titoniano). As outras possíveis rochas-mãe serão as de idade Turoniano – Albiano, a pertencente ao Sinemuriano – Pliensbaquiano, e ainda alguns intervalos no Terciário que podem estar maturos em alguns locais de maior espessura (3 km). Em algumas zonas da bacia o soco
Capítulo 11 – Análise de Margens Conjugadas
Paleozóico poderá constituir uma potencial rocha geradora, embora mais propensa a estar matura para gás (Enachescu, 2014).
Apresenta-se de seguida um quadro-resumo litostratigráfico entre as bacias do Porto e Lusitânica (Norte), com as bacias canadianas de Flemish Pass e Jeanne d’Arc, de modo a comparar as megassequências e os potenciais sistemas petrolíferos desenvolvidos nas margens conjugadas Ibéria – Terra Nova.
A análise genérica deste quadro comparativo de colunas litostratigráficas sintéticas põe em evidência as semelhanças existentes entre estas quatro bacias periatlânticas. Estas Figura 11.4 – Comparação entre as sequências litostratigráficas sintéticas das bacias Flemish Pass e Jeanne d’Arc, na margem Canadiana, e as equivalentes conjugadas ibéricas do Porto e Lusitânica (Sector Norte). Coluna litostratigráfica da Bacia Lusitânica (Norte) baseada em Azerêdo et al. (2003), Rey et al. (2006), Cunha (2008), Pena dos Reis et al. (2010b), Pereira (2013); Coluna litostratigráfica da Bacia do Porto baseada em Witt (1977), Cunha (2008), Soares et al. (2012, 2014); Coluna litostratigráfica da Bacia de Flemish Pass baseada em Foster & Robinson (1993), Lowe et al. (2011) e num folheto informativo da TGS (n. publ.); Coluna litostratigráfica da Bacia Jeanne d’Arc adaptada de Pereira (2013). EQV – Equivalente
Capítulo 11 – Análise de Margens Conjugadas
revelam a evolução do rifting multifásico ao longo do Mesozóico, com uma cobertura terciária indiferenciada.
Em geral, os litótipos são correlacionáveis, havendo porventura diferenças litológicas consoante a posição relativa de cada estrato em relação à fonte sedimentar. O início de rifte encontra-se bem assinalado com depósitos essencialmente de origem continental, seguidos de um espesso intervalo argilo-evaporítico. Seguidamente, ao longo do Jurássico Inferior e Médio, há um período de acalmia tectónica, no qual se depositaram espessas sequências carbonatadas na margem Ibérica, e argilo-carbonatadas na margem Canadiana. A primeira inconformidade identificada a nível regional está presente entre o Caloviano e o Oxfordiano nas duas margens, embora possivelmente com maior expressão e importância no lado Ibérico.
A segunda fase de rifte está assinalada pela presença de depósitos carbonatados e/ou margosos no Oxfordiano, seguidos por depósitos essencialmente siliciclásticos na Bacia Lusitânica Norte, carbonatados na Bacia do Porto, e argilo-arenosos nas bacias Canadianas. Ao longo do Cretácico Inferior, correspondente à última fase de rifting, há um aumento do acarreio continental que gera espessas sequências siliciclásticas, que duram até ao evento de breakup continental, indicado nas colunas litostratigráficas, e que constitui um importante marco na evolução geodinâmica regional. A partir deste evento pode-se notar uma ligeira diferença quanto à evolução das duas margens conjugadas, embora mantendo similaridades litológicas até ao final do Mesozóico, como provam as provavelmente correlacionáveis Formação Cacém e Membro Petrel, e o restante Cretácico terminal. Neste período, devido à proximidade da Bacia de Flemish Pass com o ponto triplo Norte Atlântico e ainda devido à rotação do Flemish Cap, houve uma variação do vector extensional que resultou em movimentos transtensivos, estruturas «em flôr» e inversão de blocos rodados. Nos altos estruturais perfurados por poços na bacia, a sucessão do Cretácico Superior é muito pouco espessa ou erodida devido a um levantamento tectónico e inversão de estruturas (Enachescu, 2014).
A cobertura terciária foi neste caso considerada como sendo indiferenciada. O tipo de depósitos e espessuras em ambas as margens são distintos, reflectindo as diferentes fases de inversão que ocorreram nas duas margens ao longo do Cenozóico. Analisando a evolução tectónica cenozóica nas duas margens, é de assinalar a existência de duas grandes fases compressivas na MOI, afectando as estruturas e criando depósitos pouco espessos. Contudo, na Bacia de Flemish Pass houve um último episódio de subsidência do Cretácico terminal ao Terciário, promovendo a deposição tabular e espessa (1 km a 2,5 km) de sedimentos argilosos marinhos (à excepção da unidade carbonatada Petrel) que assim preservaram os grandes pacotes tectono-sedimentares sin-rifte (Enachescu, 2014).
A disponibilização da informação contida nos poços recentemente furados na Bacia de Flemish Pass será essencial para a idealização de uma coluna litostratigráfica mais fidedigna, em especial desde os reservatórios que se prevê serem de idade titoniana e/ou berriasiana até ao topo da sequência terciária.
A comparação das interpretações litostratigráficas das bacias do Porto e de Flemish Pass, no âmbito do estudo das margens conjugadas atlânticas, ganha assim uma renovada importância dadas as descobertas comerciais na margem Canadiana, e as equivalências
Capítulo 11 – Análise de Margens Conjugadas
temporais registadas na conjugada Ibérica. Estas traduzem a semelhante evolução Mesozóica no contexto da abertura do rifte Atlântico Norte, apresentando sequências litostratigráficas idênticas, contendo possivelmente sistemas petrolíferos análogos.
Capítulo 12 – Discussão de Resultados
CAPÍTULO XII
Discussão de Resultados
Capítulo 12 – Discussão de Resultados
12.1 Introdução
Neste capítulo apresenta-se a apreciação dos principais resultados obtidos ao longo deste trabalho, referentes principalmente aos Capítulos 7 a 10, englobando as metodologias de estudo utilizadas. Estão patentes os principais pontos que se consideraram ser os mais pertinentes para serem discutidos, principalmente no que toca ao controlo das estruturas na sedimentação, resultados do potencial geoquímico de maturação, e ainda a definição dos sistemas petrolíferos, modelação de maturação térmica e a problemática dos timings de carga de hidrocarbonetos.