PARTICIPANTS AND CONTRIBUTORS
IMPLEMENTATION OF THE RFCC CONCEPT AND POSSIBLE ROLES OF THE IAEA
VI. INSTITUTIONAL ARRANGEMENTS
Pertencer a algum grupo social significa ser aceito e validado pelo outro, bem como comungar com suas crenças e valores. Nesse sentido, Dias e Marchi (2012), apoiados em Michel Maffesoli, comentam que é a busca de identidade e identificação que fomenta nos/nas jovens a necessidade de pertencerem a um grupo. Os autores acrescentam ainda que a “escola como grupo social é ambiente dinâmico e complexo em que grupos de estudantes se formam a partir de fatores
como idade, sexo, status, interesses”. (2012, p. 1). Sobre a aceitação e exclusão nos grupos presentes na escola, Lícia, uma estudante do terceiro ano, negra, 18 anos de idade, nos fala dos grupos e das relações sociais estabelecidas no contexto escolar:
Lícia: É uma relação meio que conturbada porque existem os grupinhos e
esses grupinhos eles meio que escolhem quem pode e quem não pode, aí fica meio que uma rixazinha. Então, é uma relação meio complicada porque, se você é diferente, você não é adequada pra aquele grupo, você é motivo de... você é motivo de ser escorraçado, vamos assim dizer... aqui é muito complicado a aceitação do que é diferente, não é uma coisa muito normal você ser aceito em qualquer grupo do jeito que você é. Então muitos jovens às vezes eles se fazem, tipo assim, pra eu me adequar a um grupo eu tenho que ser desse tal estilo, então eu não vou ser eu mesmo, eu vou ser daquela forma porque eles são o grupo que eu quero conviver aqui. Ou você está em um grupo ou você está sozinho, ninguém quer estar aí sozinho.
Elisete: São muitos grupos aqui na escola?
Natália: São. Tem aqueles maconheiros... eles meio que falam com todo
mundo porque sempre tem um que usa alguma coisa, então eles meio que falam com todo mundo, mas eles têm um grupo específico. Aí tem as patricinhas, os marombas que não são nem fortes, mas têm as camisas cortadas pra mostrar músculo, é tudo isso. Têm aquelas pessoas que tem a religião de matriz africana, sofrem sim preconceito tanto dos colegas quanto dos funcionários do colégio. E têm os outros, tem os nerds que é bem normal de qualquer colégio.
Elisete: E esses grupos todos convivem um separado do outro ou se falam? Lícia: Têm aquelas pessoas que migram de um grupo pro outro, que eles
estão aqui, mas daqui a pouco estão no outro, convivem bem entre todos, mas não é aquele convívio de todos se darem bem com todos.
Na narrativa acima, nossa interlocutora nos relata a existência de vários grupos na escola, aos quais são atribuídos poderes de aceitação e exclusão dos/das jovens que fazem parte da cultura escolar, visto que o ambiente escolar é um dos espaços onde está presente uma profusão cultural que irá influenciar a forma de constituição de diverso grupos, conforme as afinidades e os interesses.
Para Dias e Marchi (2012), o espaço escolar pode ser visto “como um agrupamento social dotado de estrutura própria que possui, internamente, estruturas geradas pela sociabilidade entre seus membros” (p. 03). Esse grupamento, conforme compreensão de Michel Maffesoli, é denominado de tribos urbanas, que são grupos sociais os quais se deslocam dentro do processo de massificação da sociedade moderna, estando em constante transformação.
Assim, os grupos desempenham uma função relevante no processo de construção das identidades desses/dessas jovens. A nossa interlocutora acrescenta
ainda na sua narrativa a mobilidade dos/as jovens nos grupos, fatores como a complexidade que envolve a convivência dos diversos grupos na escola; a relevância dos atos performativos que os jovens e as jovens reiteraram para serem aceitos nos grupos e a dificuldade desses/as jovens em aceitar o diferente.
As tribos e os grupos são formados por afinidades como forma de reconhecimento dos jovens que fazem parte das diversas tribos que fomentam as construções identitárias. Nessa perspectiva, Coutinho (2001, p.1) assevera que “o aparecimento das tribos no cenário social contemporâneo, reflete dois processos que, paradoxalmente, caminham juntos na complexa sociedade de consumo em que vivemos: a uniformização e a pluralização”.
No que se refere à aceitação do diferente é pertinente citar França e Messeder (2014), que, apoiadas nas discussões sobre identidade e diferença, de Silva (2008), argumentam que o processo de constituição da diferença passa pela constituição identitária do sujeito social. Identidade e diferença não se relacionam de forma horizontalizada, mas hierarquizada, porque está assentada na relação de poder presente no âmbito sociocultural.
Dando prosseguimento ao diálogo com Lícia trago a seguinte indagação:
Elisete: E qual é o seu grupo?
Lícia: No momento no momento eu fico mais com o povo que comunga com
a minha religião. Eu sou umbandista, tipo, não precisa ser, mas que respeite. Eu não procuro aquelas pessoas que vão... que eu preciso esconder o que eu sou pra gostarem de mim. Então eu fico com aquelas pessoas ou eu fico sem ninguém. Eu sou aquela pessoa que eu fico assim, antes um som, uma boa música do que pessoas que não vão agregar valor à minha vida.
A relação de poder presente no grupo é forte, e assim como os grupos subalternizam as sexualidades dissidentes, eles também marginalizam as pessoas que não professam a religião hegemônica, em especial as pessoas de religião de matriz africana. Esse é outro ponto claramente invisibilizado no contexto escolar. Vale salientar que não iremos aprofundar essa discussão, mas não poderemos ocultá-la, pois ela também está associada ao preconceito racial.
Sabemos que a Lei nº 10639/2003 tem 14 anos e dispõe sobre a inserção das discussões da História e Cultural Afro-Brasileira e Africana, entretanto ainda encontramos resistência em muitas escolas de introduzir as temáticas voltadas para a valorização da história e da cultura afro-brasileira e africana nos currículos. Nesse
sentido, alguns/umas pesquisadores/as sobre a temática acreditam que o não cumprimento da Lei acontece pela visão equivocada do mito da democracia racial, que é veiculada e reiterada no Brasil, objetivando a homogeneização curricular, bem como a desinformação da verdadeira história da constituição social e cultural brasileira, sendo esses os maiores obstáculos para a efetivação de uma educação democrática, pluriétnica e multicultural.
No que se refere às escolas da rede estadual de ensino, o que se observa são ações pedagógicas desenvolvidas isoladamente por alguns professores, visto que esta rede de ensino não dispõe de Diretrizes Pedagógicas para orientar o processo de implementação da Lei, bem como de uma política formativa para os/as professores/as.
A intolerância religiosa, em especial contra as religiões de matrizes africanas, cresce sensivelmente no nosso estado. Somente nos cinco primeiros meses de 2017 já foram registrados 56 casos, contra 13 casos para o ano de 2016, o que representa um acréscimos de 330% em 1 ano, conforme noticia o jornal Correio da
Bahia58. Esse fato, entre outros, mobilizou o Ministério Público representada pela Promotora de Justiça, Lívia Vaz, a instituir o comitê interinstitucional de monitoramento permanente da implementação da Lei nº 10639/03, com o intuito de fiscalizar o cumprimento da norma na Bahia. Esse comitê foi um dos resultados da audiência pública realizada em 22 de setembro de 2016, com a participação da sociedade civil organizada, das instituições públicas e privadas de ensino básico e superior e Conselhos Estadual e Municipal de Educação.
Diante das observações realizadas no âmbito escolar e das narrativas dos/as jovens sobre os grupos presentes na/da escola é possível perceber que as identidades construídas por cada grupo definem diferenças que excluem e marginalizam o outro social, constituindo hierarquias a partir da orientação sexual, da raça e da prática religiosa.
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Disponível em : http://www.correio24horas.com.br/detalhe/salvador/noticia/denuncias-de-intolerancia-religiosa- crescem-430-em-1-ano-mp-orienta-sobre-limite-sonoro-e cultos/?cHash=d861b2b2ff01fd4ef51f142160db9cad Acesso em: 11 jun. 2017.