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A. Commercial markets

PARTICIPANTS AND CONTRIBUTORS

IMPLEMENTATION OF THE RFCC CONCEPT AND POSSIBLE ROLES OF THE IAEA

IV- A. Commercial markets

Ainda sobre as vivências de violência, Marconi nos apresenta a sua estratégia de sobrevivência para sair o grupo de jovens em conflito com a lei: a valsa. Na sua narrativa ele nos diz que refletiu sobre a situação que estava vivendo e com apoio do gestor da escola passa a dançar, veja o que nos diz:

Aí depois eu pensei que nada disso que eu estava fazendo ia me favorecer em nada, não ia mudar nada minha vida. Aí eu comecei a... minha sorte foi meu dindo, o diretor da escola que eu estudava, ele tinha um grupo de valsa. Ele via a minha situação, que eu estava triste, eu ia quando queria, faltava à escola. Aí ele foi e me chamou para entrar no grupo, eu falei que era viadagem, sabe? Assim... machão. Mas aí eu comecei a ensaiar e tal e gostei. Aí quando eu fiz três anos nesse grupo ele me indicou um curso, lá

no Ateliê das Rosas, lá na Pituba, e uma bolsa de 75%. Por exemplo, o curso era 500 e eu só pagava 175. E tipo, minha mãe não tinha essas condições de pagar, tava muito apertada, só era a gente, mas era despesa, era água, era luz. Aí ele pagou esse curso pra mim durante oito meses, aí quando ele pagou esse curso durante oito meses e eu recebi meu certificado, aí ele foi e me colocou no colégio particular que eu dou aula hoje. Aí eu agradeço muito a ele, hoje em dia eu nem falo mais com ele, não porque eu sou ingrato, porque eu saí, minha mãe me tirou de lá por causa de má índole e das pessoas que eu andava, entendeu, eram de má índole. Aí eu morei perto da casa de minha tia, num condomínio fechado lá em Canabrava, Nova Cidade. Mas eu comecei a dar aula, comecei a gostar, e agora eu também estudo bastante, que eu quero ser alguém na vida, ajudar minha mãe, que eu sei que ela não vai ficar nisso por muito tempo, que chega uma hora que as pessoas cansam, que o nosso corpo desgasta, ainda mais na profissão que ela está. Aí eu penso muito em ajudar ela e também em agradecimento à minha tia e também a mim mesmo, porque se não fosse também por força de vontade minha, eu estaria onde eu estaria antes, e o resultado não seria nenhuma boa coisa. (MARCONI, 2016).

A dança foi o elemento fundamental da mudança de Marconi, bem como a atenção dada pelo diretor da escola em que ele estudava. Nesse sentido, Rochele Fachinetto, no seu artigo “Juventudes e violência: onde ficam os jovens numa sociedade „sem lugares‟”, comenta que para o enfrentamento às múltiplas violências que acometem os jovens é preciso dar e reconhecer a sua fala, não estigmatizando a sua voz e a sua ação. E essa citação é pertinente, pois ela reporta à ação do “dindo”, que possibilitou auscultar os sentimentos e as angústias de Marconi, bem como a estratégia utilizada para enfrentar a perda de uma pessoa querida, ao tempo em que fomentou nele um olhar diferenciado para novas formas de viver a dança.

É interessante também observar que Marconi rejeita inicialmente participar do grupo de dança de valsa, pois para ele era “viadagem”, conforme fala quando questionado o porquê da sua opinião:

Porque tipo, eu olhava assim e ficava sem sentido, porque os meninos dançavam assim com as meninas, aí era muito rebolado e não sei o quê, aí eu julgava mesmo, falava “rapaz, aí só os viados que devem entrar”, aí ele me explicou “não rapaz, não tem nada a ver, porque as pessoas dançam em 15 anos, 18, formatura, confraternizações. (MARCONI, 2016).

A valsa possibilita que o homem rebole segundo Marconi, e por isso ele considera uma dança específica para um homem que não tenha os padrões hegemônicos de masculinidades, logo ele subalterniza essa modalidade. Apresenta assim a sua concepção de masculinidade subalterna, que coaduna com a visão expressa na literatura sobre masculinidades, pois, para Connel (1995), a masculinidade subalterna é aquela que foge ao padrão estabelecido culturalmente

como “normal” que foi convencionado pela cultura patriarcal para as representações sociais dos homens. Logo, essa masculinidade refere-se àqueles homens que não representam a virilidade nas suas práticas sociais ou que se aproximam das performances femininas.

Ainda querendo compreender melhor o sentido atribuído pelo nosso interlocutor para a categorização da valsa como propícia para homens com perfis mais femininos, entabulo o seguinte diálogo:

Elisete: Você falou da questão da valsa, que tinha um rebolado. E os

pagodes que os homens rebolam também? Não é viadagem?

Marconi: Verdade. Mas pagode vamos dizer que... por exemplo, se eu

dançar um pagode hoje em dia e eu tiver assim num ambiente que tenha muita gente, chama atenção. Porque as meninas gostam, na verdade as meninas gostam dos meninos que dançam pagode, falam assim “oh pra aquele menino, dança muito, poxa, eu quero pegar ele”, porque tipo, eu dancei pagode também, eu gostava muito de dançar pagode, mas nunca achei que pagode fosse negócio de viado não porque tipo, todo mundo na rua dançava pagode.

Elisete: Então assim, os meninos dançavam pagode, rebolavam, isso aí

não significa que ele seja gay?

Marconi: Isso. Elisete: Mas e valsa?

Marconi: Valsa pra mim era muito aviadado...

Interessada em compreender como os amigos de Marconi reagiram à sua entrada no mundo da valsa, questiono sobre a opinião dos colegas:

Elisete: E quando você foi dançar valsa, seus colegas acharam o quê? Marconi: Rapaz, ficou todos fazendo chacota de mim “rapaz você vai virar

viado”, eu “sai daí rapaz, você é maluco é?”, “rapaz, que viadagem, oh pra aí que bicha”, aí também me afastei deles, dentro da valsa me afastei de tudo, me afastei das pessoas que eu andava e tal. Minha mãe gostou, minha tia também apoiou demais mesmo, me dava muito incentivo pra eu ir. E aí eu comecei a ir frequentar mesmo e gostei mesmo, tem 5 anos hoje, hoje não, tem 5 anos que eu comecei a ir.

A dança como arte está relacionada à expressão corporal, ao cultural, ao som, ao ritmo, ao movimento e a sensualidade, a emoções e sentidos, e além disso leva o sujeito social a se perceber dentro de um contexto cultural e histórico. No caso específico do nosso interlocutor, o contexto cultural e histórico vivido por ele, um jovem morador de um bairro carenciado de Salvador, o conduz a participar da

música denominada pagodes baianos. O pesquisador Nascimento (2012) buscou investigar a relevância desse estilo musical que nasce nos redutos negros e dos bairros carenciados e populares de Salvador, bem como os significados para a construção identitárias para os/as jovens negros/pardos. Tal estilo é considerado pelo autor como uma das expressões da música baiana híbrida, em que a dança e a música estão imbricadas e são complementares, tendo como foco as mulheres e a sua sexualidade, conforme demonstrado na Figura 02. Lima (2002) chama atenção para o poder presente nesse estilo de música, comentando que “[...] as estruturas de poder do gênero e da raça legitima o corpo negro como mercadoria, torna-o um bem alternativo à ordem sexual para aqueles que podem pagar pela transgressão das proibições”. (LIMA, 2002, p. 92).

Figura 02: Garotos e garotas dançando pagode baiano54

Fonte: Disponível em: https://www.google.com.br55

Sabemos que o corpo é fundante para a construção identitária dos sujeitos sociais. Como afirma Le Breton (2009, p. 41), “[...] o indivíduo habita seu corpo em

54

Importante evidenciar que a imagem ilustrativa, retirada das do site da Google, tem o propósito de exemplificar o tipo de dança dialogada no corpo do texto, não retratando os /as participantes da pesquisa. 55 Fonte:https://www.google.com.br/search?q=imagens+de+garotos+negros+dan%C3%A7as+dos+pa godes+baiano&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwjouvX6naLUAhUHhpAKHawZAiAQ_AU IBygC&biw=1366&bih=613&dpr=1#tbm=isch&q=imagens+de+garotos+dan%C3%A7as+dos+pagodes +baiano&imgrc=fPwa01PXsjGGyM:

consonância com as orientações sociais e culturais que se impõem, mas ele as remaneja de acordo com seu temperamento e história pessoais”. Assim, o corpo habitado por Marconi tinha como uma das representações das masculinidades hegemônicas do seu grupo social/cultural as performances presentes na música/dança dos pagodes baianos, que vão de encontro às práticas corporais encenadas na valsa, que é apropriada para salões de festas, e que hoje é muito utilizada nos bailes de debutantes, formaturas e casamentos. Marconi transgride, portanto, a norma do seu grupo e compulsoriamente se afasta, visto que ele não mais representa o “ideal de homem hegemônico”, pois a sua opção o leva a uma posição de subalternidade e a um perfil homossexual, segundo o imaginário do grupo.

Diante das representações de masculinidades hegemônicas expressas pelos garotos observa-se que são resultantes de padrões de ações e práticas vivenciadas cotidianamente pelos sujeitos sociais, por isso é plural e dinâmico, porque é reiterado a partir das teias relacionais constituídas nas relações estabelecidas entres os diferentes homens e diferentes mulheres.

4.3 SOBRE A VIOLÊNCIA NA ESCOLA: VIVÊNCIAS DE BULLYING, AGRESSÕES