PARTICIPANTS AND CONTRIBUTORS
IMPLEMENTATION OF THE RFCC CONCEPT AND POSSIBLE ROLES OF THE IAEA
IV- B. Government intervention
Sobre o bullying sofrido devido à orientação sexual, César, estudante do terceiro ano, pardo, 18 anos de idade e práticas sexuais com homens, nos diz:
Elisete: Agora me diga uma coisa, esse namoro com a menina foi pra quê
mesmo?
César: Foi pra testar... assim, eu gostava dela só que não sabia como eu
gostava dela, acho que também mais pelo impulso dos amigos, que eu vejo muitos casos que se você não namora, se você não pega uma menina, você é o viadinho. E eu não tava pronto porque na verdade eu passei muito bullying na infância, os meninos brigavam muito comigo e eu não queria ter essa briga, sabe? Eu não queria ficar sendo tachado na frente de ninguém. Aí eu namorei com ela mas não foi legal (risos).
A heterossexualidade compulsória presente no nosso contexto social impõe aos/às jovens desenvolver atos performativos que coadunem com a cultura da masculinidade hegemônica, que atribuem um poder aos jovens do sexo masculino e uma subalternidade das jovens do sexo feminino, bem como a naturalização dos atos homofóbicos, lesbofóbicos, transfóbico entre outros fóbicos. Essa obrigatoriedade levou César a testar uma relação afetiva com uma menina, tentando encapsular o seu corpo e o seu desejo na “cápsula da normalidade”.
Dando continuidade ao nosso diálogo questiono a César se, na infância, ele sofreu muito bullying.
Sofri, eu era chamado de viado. E minha mãe sempre ia brigar no colégio por conta disso. É... teve um menino, uma época, que ele tirou a minha roupa na escola, isso já tem muito tempo, tipo, muito tempo mesmo, mas eu lembro de tudo. E ela sempre ia brigar comigo, às vezes tinha coisa que eu não queria dizer, aí meu irmão ia e falava e ela ia no colégio. (CÉSAR, 2016)
Essa situação vivida por César nos reporta ao filme “Moonlight - sob a Luz do
Luar”, que retrata a trajetória de um jovem negro com uma vida marcada pela
pobreza, pelo tráfego de drogas, sendo morador de um subúrbio norte-americano. O filme nos apresenta reflexões sobre o processo de construção das masculinidades,
bem como as estratégias criadas pelo protagonista Chiron para driblar as constantes situações de violências sofridas na escola.
Varias pesquisas realizadas sobre as questões gênero e sexualidades na escola revelam que existe um tabu e uma segregação das pessoas com práticas sexuais que fogem ao estabelecido pela heteronormatividade. Essa segregação gera o medo e silencia os jovens que sofrem bullying homofóbico57, pois na escola não é problematizado o cerne das manifestações violentas, bem como não são debatidas as questões que estão relacionadas às angústias, aos conflitos e às dúvidas vividas pelos/as jovens homossexuais e lésbicas. Sobre essas violências sofridas pelas pessoas homossexuais, lésbicas, transexuais, Louro (2010) argumenta que a escola consente e ensina a homofobia e que é o local mais difícil de o sujeito social “assumir” a sua condição de homossexual, lésbica ou bissexual.
Discutindo ainda sobre a orientação sexual e a performatividade de gênero permitidas na escola, Marconi, ao falar sobre a sua convivência com os colegas de sala/escola, nos revela como os demais estudantes se relacionam com os/as jovens homossexuais e lésbicas.
Rapaz, é meu primeiro ano aqui nessa escola, mas graças a Deus eu sempre tive uma facilidade pra fazer amizade, eu não tenho preconceito com nenhum tipo de gênero, pode ser sapatona, gay, pessoas assim... nerd, ladrão, com quem eu falo, eu tento me entrosar com todo mundo pra não ter aquela discórdia de eu passar e não falar.
[...] Eu ando com todo mundo, não posso nem dizer quais são as pessoas que eu ando porque um dia eu ando com uma turma, outro dia eu ando com outra turma, pra não deixar uma de lado, eu ando com todo mundo. (MARCONI, 2016).
Aqui Marconi comenta que não tem preconceito de gênero e que se relaciona bem com todos, evidencia ainda sobre a inserção nos diversos grupos presentes na unidade escolar. Ele nos revela na sua narrativa que se divide participando de turmas/grupos diferentes para “não ter discórdia”, cuja posição tem muito a ver com a sua trajetória de vida quando esteve envolvido com grupos em conflito com a Lei, bem como a necessidade de ser aceito em uma instituição que para ele é nova, logo precisa ser benquisto e não excluído pelos grupos. Querendo ampliar a compreensão à relevância dos grupos na aceitação ou não dos/das estudantes homossexuais, lésbicas e transexuais, questiono:
57
Utilizo essa expressão para descrever a violência psicológica e/ou física sofridas por pessoas com práticas sexuais com pessoas mesmo sexo.
Elisete: E esses grupos que você anda, tem algum preconceito que você já
presencia?
Marconi: Alguns têm, vamos dizer que... na minha sala mesmo, tem um
menino lá que fica fazendo chacota de um cara da outra sala, que ele é gay, e eu também falo com ele, normal mesmo, como se fosse qualquer outro, sem preconceito nenhum. Aí sempre quando eu falo com ele, ele fica fazendo chacota com ele, aí eu chamo no canto “ô velho, pare com isso, tem que respeitar o gosto das pessoas e tal”, “não rapaz, e não sei o quê lá, é que eu fico bolado com isso”, “não velho, mas tem que respeitar, é só você não falar com ele, só respeite ele, você não precisa ter nenhum contato com ele, você não precisa ficar chamando ele de viadinho, largando piadinha, a pessoa às vezes fica constrangida”.
É válido observar o modo de intervenção do nosso interlocutor com os demais colegas, no sentido de minimizar a violência sofrida por um jovem que, segundo ele, é gay. Ele transgride ao normatizado pelo grupo da sua sala de aula, que é a prática do bullying homofóbico e da violência direcionada às pessoas que fogem do padrão da linearidade de sexo/gênero/prática sexual, que muitas vezes é exercida de forma implícita e sutil, com palavras jocosas que ferem tanto quanto as agressões físicas. Essas situações de violência muitas vezes fazem parte do cotidiano escolar e parecem não causar nenhum estranhamento da comunidade da escola. Sendo assim, ela vai se naturalizando e desconsiderando o respeito aos sujeitos sociais, o que é pontuado por Marconi na sua narrativa quando busca evidenciar o respeito à pessoa humana, independentemente da sua orientação sexual para seus colegas.
Marconi prossegue na sua fala explicitando sobre a “aceitabilidade” dos meninos gays.
Elisete: Como os meninos que são gays aqui, não são bem aceitos? Marconi: Rapaz, no meu ponto de vista, eu acho que 80% não. Que tipo, os
gays daqui andam mais com gays ou com meninas, eu não vejo assim tipo... eu acho que sou o único menino aqui que pode andar com ele assim, e dar risada e resenhar, eu acho que eu sou praticamente o único assim, o resto... deve ter alguns também que são amigos mesmo, não aqui da escola, mas pode ser de fora, mas eu percebo isso.
Elisete: Que os meninos aqui não andam com os meninos gays... Marconi: Não andam não.
Elisete: Não anda por quê?
Marconi: Pra eles eu acho que eles pensam que vão ser discriminados
Elisete: E com as meninas que são lésbicas, ou sapatão, como você
colocou...
Marconi: Com as meninas já é diferente, as meninas que são sapatonas
elas andam com homens e também com meninas, eu acho que elas são aceitas, eu acho que 90% de chance de ninguém ligar.
Elisete: E o grupo de meninos aceita elas?
Marconi: Aceitam, porque homem nem fala nada, fica só resenhando
mesmo “pô velho, queria tanto pegar aquela menina ali, ela beija mulher, imagine beijando homem?”, aí fica fazendo um bocado de resenha, chacota. Mas eu acho que eles não têm preconceito não [...]
Nessa narrativa observamos que o respeito pelo ser humano – independentemente da cor, raça, classe, religião e orientação sexual – não é uma prática vivenciada no espaço escolar, vez que existe uma naturalização da violência, em especial para as pessoas com práticas sexuais dissidentes. Nesse sentido, Caetano (2011) argumenta:
A discriminação afirma o “direito‟ dos que discriminam e a subalternidade dos que são discriminados. Nesse sentido, ela é observada em inúmeras relações nos espaços escolares. As identidades originadas nas expectativas de gênero e/ou sexo biológico estão no interior das hierarquizações e classificações sociais, tanto quanto nos currículos e, mais amplamente nas ações e relações do cotidiano escolar (CAETANO, 2011, p. 176).
A narrativa de Marconi referenda o exposto por Caetano (2011), pois a escola tem conhecimento das sexualidades existentes, no entanto visibiliza as práticas sexuais ditas como normais e invisibiliza as sexualidades dissidentes. Assim, ela busca por meio dos dispositivos pedagógicos e da pedagogia da heteronormatividade silenciar os debates sobre as questões de gênero e sexualidades.