III. AMENAGEMENTS DES LOCAUX DE TRAVAIL
1. Règles d’hygiène
1.6. Installations sanitaires et locaux sociaux
De maneira sistemática ou não, a questão da abordagem da personagem serve de mote para o desenvolvimento de diversos estudos e técnicas destinados ao ofício de ator. Historicamente, o ator quase sempre foi entendido como um artista que elabora e apresenta uma personagem, sendo ele o veículo entre o papel dramático e o espectador. As estratégias de composição tornam-se, portanto, uma das questões centrais no desempenho de seu ofício.
O complexo exercício de investigar, desenvolver, refletir e adaptar procedimentos de composição da personagem depende de uma série de escolhas referentes não somente ao projeto estético da obra, mas também ao discurso que o espetáculo pretende apresentar. Nesse movimento, tem grande importância o aspecto da intencionalidade da equipe criativa na abordagem do texto dramatúrgico (quando há um) e na construção do espetáculo.
A estrutura do jogo, como foi debatido, tende a apresentar e defender diferentes modos de socialização e resolução de conflitos, de modo que, a partir das iniciativas de caráter lúdico, é possível apresentar ou criticar a defesa de determinados valores ou visões de mundo. O jogo da representação não é diferente nesse prisma: as escolhas sobre como jogar (como representar) a partir de um tema ou um texto imprimem um conjunto de opiniões que valorizam determinadas atitudes ou convicções.
Dessa maneira, ganha evidência a relação entre ética e estética, no sentido de que determinadas visões de mundo contribuem nas escolhas artísticas e na estruturação de formatos estéticos. Tais escolhas reforçam o entendimento de que a arte constrói representações sensíveis atreladas a orientações valorativas, que por sua vez refletem/constroem perspectivas morais das relações humanas. Também a escolha de determinadas metodologias de abordagem da personagem muitas vezes está relacionada com o desejo de organizar esteticamente um discurso ou opinião.
Os exemplos a serem apresentados aqui irão reforçar esse argumento, contribuindo na reflexão sobre a partilha de personagens como um caminho para reforçar a ação coletiva como um valor no desenvolvimento do artista – isto em comparação com dinâmicas que privilegiam o individualismo. São diversas as experiências através das quais é possível observar a experimentação de novas relações sociais e políticas na criação em artes. Nesse contexto, recursos como a partilha de personagens contribuem para enfraquecer o entendimento da personagem com uma responsabilidade ou propriedade individual do ator, na medida em que divide com o coletivo o processo de investigação dos caminhos da composição.
Conforme se esfarelam noções como “minha personagem” ou separações a respeito de atores protagonistas e coadjuvantes, tais processos contribuem para reforçar um espírito de coletividade que abre caminho para a criação como um espaço de produção comum. Isto significa intensificar aspectos socializantes que demandam maior envolvimento entre os participantes e, por consequência, maior habilidade de resolução de conflitos.
É necessário, portanto, reconhecer os desafios de dinâmicas dessa natureza, que muitas vezes encontram dificuldades em gerir as individualidades que compõem o grupo e lograr na intencionalidade de gerar espaços igualitários de atuação no percurso criativo. Afinal de contas, todo e qualquer coletivo é composto por indivíduos singulares em seus processos de desenvolvimento artístico Diante da irregularidade no rendimento da cada participante, não é incomum que mesmo nas iniciativas mais coletivas seja possível observar o destaque no desempenho individual de alguns dos seus integrantes em relação aos demais. Outro risco eminente diz respeito à possibilidade de as necessidades do grupo abafarem os impulsos criativos individuais, levando alguns dos participantes a se sentirem repetidamente insatisfeitos dentro do processo artístico.
Esses são alguns dos efeitos mais comuns observados no curso da pesquisa, sobretudo na condução dos processos criativos dentro da universidade. Nesse sentido, as montagens acadêmicas sofrem ainda um agravante, visto que o coletivo se compõe mais por uma
casualidade que reúne os alunos que participam de uma determinada disciplina acadêmica do que uma real afinidade social e artística. Outro ponto refere-se à impossibilidade de o aluno abandonar, segundo seu desejo, o processo criativo, sem prejudicar seu rendimento na disciplina, portanto, sua nota. Este convívio por vezes compulsório entre os estudantes frequentemente é atravessado por tensões de naturezas diversas.
Desconsiderando os exageros do contexto acadêmico, é possível observar os mesmos desafios na gestão de projetos que prezam pela criação coletiva. As distinções entre grupos, companhias, coletivos, núcleos e redes apontam para as múltiplas possibilidades na estruturação de conjuntos criadores e na busca por diferentes caminhos de como criar juntos. Caminhos que por vezes permitem uma maior liberdade de ir e vir do integrante, que ora se integra ao coletivo de criação e ora se afasta em busca de procedimentos que reafirmem sua individualidade criadora.
O entendimento de coletividade como um valor de criação, portanto, permanece num lugar de instabilidade mesmo diante do incentivo ao desenvolvimento de um sentimento de grupo e do reforço a valores como coesão, solidariedade e amizade. Afinal de contas, também é necessário reconhecer e valorizar os potenciais individuais e abrir espaços para a realização pessoal.
O convívio solicita do sujeito não apenas o seu desenvolvimento artístico, como o amadurecimento emocional e de suas habilidades sociais. Para criar em coletivo é preciso estabelecer dinâmicas de convivência que reconheçam que o aspecto relacional pode significar tanto um impulso como um obstáculo no percurso artístico. Em outras palavras, o “criar junto” solicita do indivíduo competência para administrar as suas próprias expectativas, vaidades e frustrações em prol do desenvolvimento de uma meta comum. O exercício poético, dessa forma, gera espaços para o desenvolvimento humano do sujeito como ser integrado e socialmente interdependente.
A valorização da coletividade compreende a aprendizagem como um processo de dar e receber conteúdos, dentro do qual compartilhar se faz mais importante que acumular e a transformação do indivíduo se dá a partir do intercâmbio de afetos, conhecimentos e ideias. A aprendizagem, desta maneira, se converte em processo colaborativo de construção de saber, seja ele de ordem intelectual, artística ou sensível.
As proposições cooperativas, portanto, tendem a elaborar caminhos de criação através dos quais ocorre uma experimentação de novas dinâmicas sociais no planejamento do processo
artístico. A respeito da personagem, muitas vezes a partilha de papeis torna-se uma opção na medida em que permite que diversos atores se experimentem na representação das personagens de maior destaque, possibilitando a tentativa de construir espaços de criação mais ou menos igualitários. Para tanto, é necessário incentivar uma atitude de desprendimento em relação à personagem, na medida em que ela não é mais “minha” e sim “nossa”, ou seja, do grupo. Por vezes, o desejo de desprendimento é respondido esteticamente por um tratamento mais distanciado na relação ator/personagem e pela recusa na construção de simbiose nas técnicas de representação, como será mostrado em alguns exemplos mais adiante.
Os recursos que possibilitam a partilha e o rodízio de personagens ferem sua suposta integridade como estrutura autônoma. A personagem deixa de remeter a uma personalidade unificada e passa a ser apresentada como uma construção, um campo de possíveis leituras elaboradas pela criatividade do coletivo que a representa. Trata-se de uma perspectiva em afinidade com as mudanças na relação ator/personagem ocorridas a partir do que se considera a instauração do Teatro Moderno e que se agudizam nas experimentações do teatro contemporâneo. Neste processo, o conceito de personagem cada vez menos remete a uma personalidade unificada. Pelo contrário, entender seu significado torna-se cada vez mais uma iniciativa complexa, visto que a diversidade de proposições teatrais parece reformular constantemente os limites do termo. Nessa vertigem, o vocabulário teatral se depara com a necessidade de operar com diversas nomenclaturas: actante, figura cênica, ser ficcional, dentre outras. A respeito das variações em torno do conceito de personagem, comenta Patrice Pavis (2008, p. 285):
No teatro, a personagem está em condições de assumir os traços e a voz do ator, de modo que, inicialmente, isso não parece problemático. No entanto, apesar da evidência dessa identidade entre um homem vivo e uma personagem, esta última, no início, era apenas uma máscara, uma persona – que correspondia ao papel dramático – no teatro grego. É através do uso de pessoa em gramática, que a persona adquire pouco a pouco o significado de ser animado e de pessoa, que a personagem passa a ser uma ilusão de pessoa humana.
[...] No teatro grego, a persona é a máscara, o papel assumido pelo ator, ela não se refere à personagem esboçada pelo autor dramático. O ator está nitidamente separado de sua personagem, é apenas seu executante e não sua encarnação, a ponto de se dissociar em sua atuação, gesto e voz. Toda a sequência da evolução do teatro ocidental será marcada pela completa inversão dessa perspectiva: a personagem vai se identificar cada vez mais com o ator que a encarna e transmudar-se em entidade psicológica e moral semelhante aos outros homens, entidade essa encarregada de produzir no espectador um efeito de identificação.
Essa simbiose entre personagem e ator (que culmina na estética do grande ator romântico) é que causa as maiores dificuldades na análise da personagem.
O comentário de Pavis (2008) explana sobre a flexibilidade em torno do conceito de personagem, que se reestrutura de acordo com a relação que se estabelece entre esta e o ator. No teatro grego, a personagem remete à máscara, sendo, portanto, um elemento claramente dissociado do ator que a carrega/representa: Édipo está em cena, pois há uma presença que age como se fosse ele. Apesar dessa presença ser o ator, é principalmente a máscara que remete ao herói mítico. Em outras palavras, pode-se afirmar que a personagem grega residia menos no trabalho do ator e mais na força simbólica da máscara.
O avanço temporal da história do teatro ocidental, no entanto, trouxe novas perspectivas para relação ator/personagem. Conforme aumentou o interesse em representar o ser humano particularizado, cresceu também a necessidade de desenvolver estratégias de identificação do ator com a personagem. Tal processo se acentuou sobretudo a partir do Renascimento e do fortalecimento da perspectiva antropocentrista. Cresceu o interesse pela vida particular, apontado pelo surgimento das primeiras biografias e das vedetes (CARVALHO, 1989). O culto à individualidade interferiu diretamente na maneira de representar, a citar a progressiva disposição para tornar cada caracterização particular a cada personagem. O ator passou a conceber a personagem de acordo com aspectos específicos, como idade, gênero, caráter, situação social. Da mesma maneira, cresceu também o minimalismo nas técnicas de atuação, aumentando a importância dada à expressão facial e aos estados de humor.
O fortalecimento do desejo de simbiose entre ator e personagem estava relacionado ao crescente desejo do sujeito se ver representado em cena. Tal demanda significou a elaboração de seres ficcionais cada vez mais complexos do ponto de vista moral e psicológico. Aumentou a necessidade de apresentar a personagem como uma espécie de “espelho da vida”. Ao ocultar a presença do ator em cena, destacou-se os conflitos da personagem como indivíduo e os aspectos subjetivos do sujeito, convidando o espectador a analisar através da personagem questões relativas ao comportamento humano, seus desejos e controvérsias.
Numa outra via, não deixaram de existir poéticas que reafirmavam o lugar do ator como um criador nitidamente separado de sua criação. Trata-se de um caminho artístico facilmente observável na atitude do ator rapsodo: “[...] o qual não se confunde com as suas imagens, mas que, semelhante ao pintor, as vê fora de si, com olhar escrutante” (NIETZSCHE, 1992, p. 60). É um movimento que se fortalece sobretudo a partir do modernismo, quando a própria noção de sujeito como estrutura unificada passa a ser questionada. A perspectiva integradora acerca do indivíduo abre espaço para um entendimento mais complexo, no qual “[...] o sujeito assume identidades diferentes, em diferentes momentos, identidades que não estão unificadas ao redor
de um eu coerente" (HALL, 2002, p. 13). Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-
modernidade, salienta o aumento da percepção em torno da identidade como uma circunstância
dinâmica, aspecto que faz do indivíduo um ser multifacetado.
Outro aspecto de grande relevância é o aumento do experimentalismo em torno dos procedimentos teatrais, observado na crescente valorização do ineditismo como valor de criação, o que implicou na procura de outras maneiras de organizar o acontecimento teatral, no desenvolvimento de novas poéticas e diferentes modos de representar as relações sociais. Nesse movimento, a personagem se converteu em instrumento de experimentações estéticas que cada vez menos se preocuparam em apresentá-la como simulacro de um indivíduo de carne e osso, deflagrando a artificialidade do jogo representativo.
Discutir a relação ator e personagem, dessa maneira, requer o reconhecimento da multiplicidade de possibilidades de formas de abordar a composição, caminhos que dependem da intencionalidade da equipe criadora. Este trabalho pretende abordar a questão compreendendo que as variáveis formas de conduzir a construção da personagem estão relacionadas ao desejo de construir uma maior aproximação ou afastamento com o objeto a ser representado. Nesta perspectiva, os próximos escritos irão apresentar algumas considerações e tendências da construção da personagem dentro de uma ou outra vertente. São observações de certa forma generalizantes – visto que cada processo criativo apresenta diferentes modos de se relacionar com as personagens –, mas que permitem uma visão esquemática sobre múltiplas possibilidades de criação e seus desdobramentos.