Chapitre III : Electroréfraction et développement de composants passifs pour la plateforme
2.5 Insensibilité à la polarisation des guides sur buffer graduel
Conforme outrora destacado, nas últimas décadas o sofrimento no trabalho tem sido agravado e se tornado patogênico. Mudanças no mundo do trabalho conduziram a destruição dos coletivos de trabalho e à degradação de relações intersubjetivas (MORAES, 2013b). Nesse sentido, Dejours (2012b) elucida que o atual sistema econômico e os princípios organizacionais propagados pela acumulação flexível, proporcionam de um lado, um grande aumento das riquezas e da produtividade, mas do outro, efeitos deletérios à subjetividade e à vida no trabalho.
O resultado de tais fatos é um agravamento da patologias mental no trabalho, o surgimento de novas patologias, os suicídios perpetrados no ambiente de trabalho, bem como o agravamento de outras, o desenvolvimento de violência no trabalho (DEJOURS, 2012b). De acordo com Dejours (2008b), todas as novas patologias relacionadas ao trabalho, atualmente, são patologias da solidão. A expressão patologias da solidão surge na psicodinâmica do trabalho a partir dos estudos de Habermas sobre formas de adoecimentos sociais, sob as nomenclaturas patologias da modernidade e patologias da comunicação (FERREIRA, 2013a).
Em síntese, as patologias da solidão representam um relevante risco laboral e de desgaste psicossocial, que refletem de maneira direta as adversidades no trabalho associadas ao novo contexto histórico
(FERREIRA, 2013a). Para Dejours (1999, 2008a), essas patologias surgem com o uso contínuo e ilimitado das estratégias de defesa, e podem ser “entendidas como uma forma de adoecimento decorrente do contexto sócio histórico e da organização de trabalho na qual se manifesta e que afeta as relações sociais e de trabalho” (FERREIRA, 2013a, p.275). Fundamentada nas pesquisas desenvolvidas por Dejours, Mendes (2007b) propõe a existência de três patologias concernentes ao trabalho: da sobrecarga, da servidão voluntária e da violência.
As patologias da sobrecarga dizem respeito às lesões de hipersocialização, entre elas as LER/DORT e os problemas psicossomáticos. A sobrecarga, nesse caso, é de origem social, ou seja, é prescrita pela organização do trabalho, pois não é o trabalhador que determina a carga de trabalho (MENDES, 2007b). Não obstante, a necessidade de realização e reconhecimento, por parte dos trabalhadores, podem implicar em uma aceitação de demandas que vão ultrapassar suas condições físicas, psicológicas e sociais (FERREIRA, 2013a; MENDES, 2007b).
De acordo com Dejours et al. (2014), a carga de trabalho pode ser dividida em dois âmbitos: carga física (emprego de aptidões fisiológicas) e carga psíquica (elementos afetivos e relacionais). A patologia da sobrecarga, no que diz respeito à carga física, decorre de um volume de atividades que ultrapassam a capacidade das pessoas, e que são reforçadas pela ideologia do desempenho e da excelência existentes no atual cenário de precarização do trabalho (FERREIRA, 2013a).
No que concerne à carga psíquica no trabalho, Dejours et al. (2014) propõe um modelo de abordagem econômica do funcionamento psíquico. Em tal modelo, o risco de carga psíquica (negativa) no trabalho está na subutilização de aptidões psíquicas, psicomotoras ou fantasmáticas, ocasionando na retenção de energia pulsional. Nesse sentido, a criação para o artista, pode ser considerada tanto uma aptidão quanto uma necessidade.
O trabalho do artista quando livremente escolhido tende a permitir a diminuição da energia psíquica. No entanto, quando o artista acaba subutilizando suas aptidões psíquicas, psicomotoras ou fantasmáticas, seu trabalho tende a ser fatigante. O trabalho fatigante, resultante da diminuição de descarga pulsional, pode tornar-se fonte de tensão, sofrimento e de patologias (DEJOURS et al., 2014). Dejours (2012b) elucida que um sujeito em sobrecarga crônica em estado de esgotamento psíquico, experimentando da angústia na solidão radical, apresenta-se como vítima potencial a um impulso que pode levá-la a um gesto suicidário.
Já a servidão voluntária é um termo utilizado na psicodinâmica recentemente, tendo origem na filosofia de La Boétie (MENDES, 2007b). De acordo com Dejours (2005, p.42), ela é considerada uma condição, entendida como “uma nova forma de escravidão moderna”, face ao projeto neoliberal, sendo vinculada às necessidades de emprego e conforto na vida.
A servidão voluntária encontra um local favorável em organizações baseadas: na instrumentalidade, flexibilização do capital, carreirismo, e no privilegiamento do cumprimento de metas e resultados; em conjunto com a deterioração dos laços de solidariedade, de confiança e do coletivo de trabalho (FERREIRA, 2013a; MENDES, 2007b). As relações, nesse caso, tendem a assumir um caráter conformista, e dissimulatório do sofrimento e do adoecimento, tendo em vista às exigências do contexto produtivista (FERREIRA, 2013a).
A patologia da violência relaciona-se às práticas agressivas contra si mesmo, contra os outros e contra o patrimônio, em atos de vandalismo, sabotagem, assédio moral e suicídios (FERREIRA, 2013a; MENDES, 2007b). Ela se manifesta quando as relações subjetivas com o trabalho estão degradadas. Essa patologia ocorre de situações de estresse e da perda de sensibilidade ao próprio sofrimento e das demais pessoas (FERREIRA, 2013a). Está relacionada à desestabilização da solidariedade, e possui em suas bases a solidão afetiva, abandono, e a desolação relacionados ao trabalho (MENDES, 2007b).
Ressalta-se que o sofrimento assume variados sentidos durante o processo de adoecimento. A dor que inicialmente pode ser sentida como banal, com o passar do tempo pode vir a limitar o movimento do corpo, forçando, dessa forma, o trabalhador a reconhecê-la (MARTINS, 2008). Apesar do trabalho ser constituinte da subjetividade do trabalhador, mediando a construção da identidade, por intermédio do reconhecimento; o trabalho pode também conferir ao trabalhador uma condição alienante, a qual necessita ser superada em nome da saúde mental do sujeito. Assim, a psicodinâmica do trabalho fornece aporte teórico para que se repense os modelos organizacionais atuais, buscando-se a supressão de casos em que as condições individuais dos trabalhadores sejam desrespeitadas.
3.4 RETRATOS DO TRABALHO ARTÍSTICO: Estudos Empíricos em Psicodinâmica do Trabalho
Como ponto de partida de revisão de literatura, este trabalho embasa-se em um estudo realizado por Merlo e Mendes (2009), em que são levantadas as publicações nacionais em Psicodinâmica do Trabalho
existentes entre os anos de 1996 a 2009. Em tal estudo, os autores encontraram 79 publicações: incluindo artigos, que em sua maioria estavam disponíveis à época da pesquisa nas bases de dados Scientific Electronic Library Online Brasil (SciELO Brasil) e Periódicos Eletrônicos em Psicologia (PePSIC); dissertações e teses disponíveis para consulta via internet; e textos em livros, nos quais a psicodinâmica do trabalho fora utilizada como referência.
As publicações encontradas por Merlo e Mendes (2009) concentram-se nas áreas de: psicologia, com trinta e seis estudos; saúde coletiva, com treze; engenharia de produção, com doze; enfermagem, com seis; administração, com cinco; e áreas variadas, com sete estudos. Entre as publicações da área da psicologia, encontraram-se os únicos estudos que utilizaram a psicodinâmica do trabalho enquanto abordagem teórico-metodológica. De maneira geral, os estudos encontrados baseavam-se na psicodinâmica do trabalho enquanto categoria teórica, visto que em apenas cinco deles se identificou o uso da psicodinâmica enquanto categoria teórico-metodológica.
Entre as principais categorias profissionais contempladas pelas publicações encontradas por Merlo e Mendes (2009) estão: bancários, coletores de lixo, operários extratores de mármore, operários de indústria de cimento, policiais e seguranças, professores, profissionais da saúde, profissionais de atendimento ao público, trabalhadores rurais e trabalhadores de tecnologia da informação. Na referida pesquisa levantou-se ainda, um estudo a respeito da dimensão física do fazer musical, não sendo constatada a presença de estudos em psicodinâmica voltados à análise das vivências de prazer-sofrimento no trabalho artístico.
De modo a complementar os achados propostos no estudo anteriormente descrito, e de embasar a escolha do objeto a que esta pesquisa se propõe, realizou-se uma análise das publicações na base de dados Scientific Periodicals Electronic Library (SPELL). Salienta-se que a preferência pela SPELL se justifica pelo fato de a base de dados concentrar suas buscas nas áreas de administração, contábeis e turismo. Na análise da SPELL, a amostra foi composta pelos artigos nacionais indexados, cujas temáticas pudessem ser relacionadas à psicodinâmica do trabalho e trabalho artístico. A forma de busca utilizada foi por intermédio do sistema de pesquisa avançada fornecida pela própria base de dados, cujo critério utilizado foi a localização das seguintes palavras chaves no resumo: “psicodinâmica” e “cultural”; “psicodinâmica” e “artístico”; “psicodinâmica” e “artista”; “psicodinâmica” e “arte”. No entanto, a pesquisa não retornou resultado algum de busca.
Dessa maneira, foram realizadas pesquisas assistemáticas no Google Acadêmico, buscando-se estudos em psicodinâmica que investigassem o contexto de trabalho artístico. Foram encontrados seis estudos nas áreas de psicologia e fisioterapia. As categorias profissionais contempladas pelos estudos encontrados foram: dançarinos; musicistas; escritores literários, e atores de teatro.
Entre os trabalhos referidos anteriormente encontra-se uma pesquisa desenvolvida por Segnini (2006). A partir de referenciais teóricos da psicodinâmica do trabalho, a autora procurou analisar as mudanças nas formas de regulação e racionalização do trabalho em Artes e Espetáculos (músicos e bailarinos) e em Educação (professores). De modo a alcançar o objetivo proposto pelo estudo, Segnini (2006) realizou dez entrevistas individuais e observações de espetáculos e ensaios. Por intermédio da pesquisa realizada por Segnini (2006), foi possível observar que a escolha da profissão para os artistas entrevistados, fora na maior parte das vezes, uma escolha própria, baseada na paixão em tal profissão. Frequentemente, a arte escolhida era um hobby na vida do sujeito, mesmo antes da escolha da profissão. Todavia, os sujeitos participantes relataram, em sua maioria, que a trajetória profissional, não foi algo linear, sendo necessário, de maneira recorrente, buscar apoio financeiro de familiares ou procurar realizar atividades remuneradas não diretamente ligadas às artes.
Lima (2009) analisou o prazer no trabalho e as estratégias de enfrentamento do sofrimento no trabalho de artistas de uma companhia de comédia do Distrito Federal. Com o intuito de alcançar os objetivos propostos pela pesquisa, o autor realizou quatro entrevistas coletivas. Como técnica de análise de dados do conteúdo das entrevistas, optou-se por fazer uso da análise de núcleo de sentidos, desenvolvida por Mendes (2007) e inspirada na análise de conteúdo categorial desenvolvida por Bardin (2016). Neste estudo, salientou-se que diante de uma pressão por produção, o ritmo de trabalho dos artistas participantes, tornava-se intenso em determinados períodos. Ademais, Lima (2009) demonstrou que a necessidade de agradar ao público, como consumidor da criação artística, resultava no uso do humor como uma estratégia defensiva que lhes possibilitava lidar com a adversidade.
Bueno (2012) realizou um estudo com escritores literários, utilizando da psicodinâmica do trabalho, para analisar o sentido do trabalho em relação às vivencias de prazer, sofrimento e adoecimento, na produção de uma obra literária. Em tal estudo, o autor, realizou entrevistas individuais e utilizou a técnica de análise discursiva para analisar o conteúdo das entrevistas. Os resultados da pesquisa indicaram que há a
prevalência das vivências de prazer em detrimento das vivências de sofrimento no trabalho do escritor literário, o que pode ser justificado pela forte identificação, uso da sublimação e criatividade no trabalho. Identificou-se que escrever pode ser tanto fonte de prazer, quanto de sofrimento, fato que dependerá do sentido atribuído ao trabalho pelo escritor. Constatou-se também que os escritores utilizam de maneira prioritária estratégias de defesa individuais, tendo em vista que seu trabalho pode ser solitário. As vivências de sofrimento constatadas dizem respeito ao acúmulo de jornadas de trabalho, e instabilidade financeira decorrente da remuneração variável.
Segnini (2010) analisou a relação existente entre o trabalhador bailarino e a organização do trabalho, fundamentada na psicodinâmica do trabalho, por intermédio de um estudo de caso do Balé da Cidade de São Paulo. Desse modo, foram realizadas nove entrevistas individuais, junto a nove profissionais envolvidos na construção de um determinado espetáculo. Em conjunto com as entrevistas individuais, Segnini (2010) realizou observações do trabalho dos artistas, análise documental e bibliográfica. Através da pesquisa, observou-se que a dança como trabalho acaba por demandar um processo de submissão à disciplina, à exigência da busca pela perfeição, às relações hierárquicas e competitivas construídas pela organização do trabalho. Processos que podem ser vivenciados pelos bailarinos como fontes de sofrimento psíquico e bloqueadores da criatividade.As estratégias coletivas observadas em tal estudo, podem ser resumidas em três dimensões: a cisão entre o artista criador e o artista executor, a onipotência e a valorização da dor. Observou-se também, que a aposentadoria na dança era vislumbrada pelos bailarinos analisados como um futuro amedrontador, no qual será necessário reconstruir a identidade profissional, bem como uma ameaça à sobrevivência, uma vez que são trabalhadores desprovidos de vínculos de seguridade social, conforme preconiza a legislação trabalhista vigente no país.
Já Ferreira (2011b), realizou um estudo com objetivo de analisar o trabalho vivo de produção literária. Para tal feito, o autor analisou 33 entrevistas e depoimentos de escritores publicadas no Brasil, nos 25 anos anteriores a pesquisa. O conteúdo das entrevistas e depoimentos foi analisado a partir da análise núcleo de sentidos, desenvolvida por Mendes (2007) e inspirada na análise de conteúdo categorial desenvolvida por Bardin (2016). Em seu estudo, o autor apontou três aspectos relacionados ao prazer: prazer da invenção e da significação; prazer do encontro com o outro; prazer da dissonância. O sofrimento foi percebido como proveniente do encontro com o real. A partir da psicodinâmica do
trabalho, Ferreira (2011b) refere que o fazer literário, enquanto experiência frente ao real, tende a revelar a potência do trabalho vivo no processo de subjetivação.
Destaca-se também, o estudo desenvolvido por Alvarenga (2013). O autor analisou as vivências de prazer e de sofrimento no trabalho de músicos da Orquestra Sinfônica da Amazônia, baseando-se em pressupostos da psicodinâmica do trabalho. Com o intuito de alcançar os objetivos propostos pela pesquisa, o autor realizou entrevistas individuais e coletivas com um total de nove músicos integrantes da Orquestra Sinfônica da Amazônia. Como técnica de análise de dados do conteúdo das entrevistas, optou-se por fazer uso da análise de núcleo de sentidos, desenvolvida por Mendes (2007) e inspirada na análise de conteúdo categorial desenvolvida por Bardin (2016). Com a pesquisa, identificou-se que a pouca possibilidade de o músico adequar as normas da organização do trabalho a seus desejos e necessidades, acaba ocasionando em uma redução do poder sublimatório da atividade, o que produz acúmulo de tensão, sofrimento. Constatou-se que as vivências de prazer associadas ao trabalho do músico da Orquestra Sinfônica da Amazônia, podem ser decorrentes do reconhecimento do público e da possibilidade de exercer a profissão de livre escolha.
Ressalta-se que não foram encontrados estudos envolvendo psicodinâmica do trabalho e arte nos estudos organizacionais, e que não foram encontrados estudos que se utilizassem da psicodinâmica do trabalho para investigação da influência do processo de mercantilização da cultura nas vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores do setor cultural, nas diversas áreas de conhecimento. Consoante ao que aqui foi apresentado, percebe-se a carência de estudos que investiguem a influência do processo de mercantilização da cultura nas vivências de prazer-sofrimento dos trabalhadores do setor cultural.
4. MÉTODO
A palavra faz nascer o que não existia antes de ser pronunciada.
Christophe Dejours (2004b) Neste capítulo serão apresentados os posicionamentos epistemológicos, bem como os procedimentos metodológicos a que esta pesquisa se propõe. Assim, para o desenvolvimento do percurso teórico do presente capítulo, apresentar-se-á, primeiramente, o delineamento da pesquisa, o qual será abordado a partir de duas perspectivas, uma técnica e uma epistemológica. Posteriormente, discutir-se-á a respeito do universo de pesquisa proposto. Levantar-se-á ainda, aspectos relativos aos instrumentos e procedimentos de coletas de dados. Por fim, argumentar- se-á a respeito análise de dados de acordo com a Análise Clínica do Trabalho de Mendes e Araújo (2012) e com a Análise de Conteúdo Categorial de Bardin (2016).