Os organizadores de Lettere e de I libri degli altri, respectivamente Luca Baranelli e Giovanni Tesio, passam a ser os narradores em primeiro nível, isto é, em nível extradiegético, pois não estão incluídos na diegese, e isto é um fato de nível narrativo. Porém, como um fato de relação (de pessoa) na narrativa, são narradores heterodiegéticos porque organizam (e têm
seus critérios) os fatos narrados – a vasta gama de assuntos e vivências – permanecendo fora daquele universo.
Baranelli explica que, “por razões de discrição”, não foram publicadas em Lettere cartas referentes a fatos e pessoas da vida privada de Calvino. O critério fundamental de escolha foi o de incluir, salvo raríssimas exceções, cartas em seu conteúdo integral, por um lado significativas pela singularidade de um parágrafo ou de uma frase e, por outro,
endereçadas, sobretudo, a críticos e resenhistas, com o objetivo de “iluminar momentos e aspectos do trabalho criativo”, pois não são poucas as vezes em que o escritor, especialmente nos anos de juventude, fala do próprio trabalho em modo direto, sem hesitações ou maiores cuidados.
Estão presentes, também, as cartas dos anos de plena maturidade de Calvino como escritor, quando reflete sobre os seus livros em modo “mais diplomático e atenuado”, parecendo aceitar “definições e hipóteses críticas não compartilhadas totalmente, desviando- se deliberadamente do interlocutor ou respondendo-lhe em modo lacônico ou reticente”. Um terceiro tipo são as cartas de autorreflexão e de autocrítica, “verdadeiros ensaios críticos”, segundo o ponto de vista de Baranelli (L, pp. LXXVI-LXXVII; XXV).
O volume de 1710 páginas de Lettere conta com uma introdução de Cláudio Milanini, especialista na obra de Calvino; a mais divulgada “cronologia” [biografia cronológica] do escritor, por Mario Barenghi e Bruno Falcetto; uma Avvertenza do próprio Baranelli, em que expõe os critérios de organização da obra; um índice de nomes (de destinatários e citados); um índice das obras de Italo Calvino citadas; uma tabela com as siglas e abreviaturas utilizadas e, finalmente, um índice geral. É importante ressaltar que as 995 cartas se estendem por 1544 páginas do livro.
Tesio explica os elos de Calvino com a Einaudi “un’intensa attività di lavoro e un rapporto durato per trentasei anni, dal 1947 al 1983 (il termine ad quem è qui tuttavia fermato al 1981)”, que resume em três fases distintas: funcionário a partir de 1950, dirigente de 1955 a 1961 e colaborador desde então, por motivo de suas “scelte di orientamento e di lavoro, che tengono lo scrittore lontano dall’abituale residenza torinese”(1991, p. IX).
Tesio também chama a atenção para o número de cartas constantes dos arquivos daquela editora (cera de 5000), das quais 308 constam de I libri degli altri, em ordem cronológica (de 1947 a 1981), sendo o critério de escolha sua importância como representação das demais. O volume de 668 páginas conta com uma breve introdução de Carlo Fruttero (que a denomina Nota); uma Nota al testo do próprio Tesio (em que expõe os critérios de organização da obra); um índice de nomes (de destinatários e citados) e um índice das cartas, sendo que chega a 634 o número de páginas epistolares.
Os organizadores também trazem esclarecimentos sobre pequenas correções de erros de grafia, fugidos da revisão ou da releitura, por lapsus calami, considera Tesio, que manteve os casos de “cifras estilísticas” calvinianas (Lda, p. X); Baranelli diz o mesmo com outras palavras: “conservou a peculiaridade do ditado calviniano” (Lda, p. LXXI). Ao disporem o
epistolário em ordem cronológica, os narradores extradiegéticos e heterodiegéticos possibilitam a interligação dos dois livros com as épocas da vida pessoal e literária de Calvino, permitindo traçar sua biografia intelectual. O autor, Italo Calvino, passa a ser o
narrador em segundo nível, isto é, em nível intradiegético, pois está colocado em um plano imediatamente seguinte àquele dos organizadores, junto às entidades (os destinatários das cartas, as ações, os espaços) que fazem parte da história narrada e constituem o universo diegético. É importante salientar que sua figura se confunde com a do autor (Calvino = autor real ou empírico = narrador intradiegético).
Como um fato de relação (de pessoa) na narrativa, Calvino aparece tanto como
narrador autodiegético quanto homodiegético. É narrador autodiegético quando aparece narrando suas próprias experiências, como personagem central dos fatos vividos: as vivências
pessoais (o relacionamento com os pais, com a mulher, com a filha, com os amigos);
literárias (a recepção a uma resenha, a um artigo crítico sobre uma obra sua ou de outro literato; os pareceres sobre as obras dos outros, em seu trabalho de editoria; sua reação ao trabalho de seus tradutores, suas hipóteses teórico-críticas sobre literatura); ou político-
ideológicas (o seu relacionamento e demissão do PCI; os acontecimentos de maio de 1968; a revolução cubana; o caso Prestes no Brasil).
Calvino é narrador homodiegético quando não é o protagonista dos fatos que narra, quando se refere às experiências de outros, mais importantes naquele momento do discurso que as suas próprias (o interesse pelo parecer da mãe, notável botânica, sobre as espécies vegetais que aparecem em seus livros; a defesa de uma tradutora por causa de uma crítica que ele considera injusta; o perfil de um literato ou de uma obra alheia).
Genette recorre às funções da linguagem de Jakobson para chamar três aspectos da narrativa, que considera importantes nas “funções do narrador”. O primeiro aspecto refere-se à história narrada, intrínseca à função narrativa “da qual nenhum narrador pode desviar-se sem perder portanto a sua qualidade de narrador” (s.d., p. 254), sendo que, nesse caso, o papel pertence a Calvino.
O segundo aspecto refere-se ao texto narrativo, e aqui a observação de Genette parece bastante apropriada sob o ponto de vista do epistolário, pela presença dos narradores extradiegéticos: Baranelli e Tesio exercem “um discurso de alguma maneira metalinguístico (na ocorrência metanarrativo), para marcar as suas articulações, as conexões, as inter-relações, em suma, a organização interna [...]” de Lettere e I libri degli altri, o que caracteriza uma segunda função dos narradores, ou seja, uma “função de regência” (s.d., pp. 253-254).
O terceiro aspecto, que Genette associa à “‘função fática’ (verificar o contato) e à função conotativa (agir sobre o destinatário)”, “é a própria situação narrativa, cujos dois protagonistas são o narratário, presente, ausente ou virtual, e o próprio narrador. Há orientação para o narratário, a preocupação de estabelecer ou de manter com ele um contato, ou até um diálogo [...]” (s.d., p. 254).
No caso do epistolário, sabe-se que o diálogo estabelecido é “real”, que se pode observar Calvino como um narrador “conversador” (termo cunhado por Genette (s.d., p. 254)), atento a privilegiar a função de comunicação na relação que estabelece com seus interlocutores, e não somente com esses, mas também com os leitores. Calvino sempre pensa na palavra concreta como substância da literatura enquanto comunicação, como explica, por exemplo, aos intelectuais envolvidos com um projeto sobre a revista Il Menabò (1) e a um assistente social norte-americano que utiliza um livro seu no trabalho de recuperação de jovens toxicodependentes (2):
[...] ho sempre l’impressione che pensate sulla parola in astratto, e non sulla parola che fa parte di una istituzione di comunicazione che è la letteratura, ed è dentro
questa istituzione, in rapporto a questa tradizione, cioè in una società concreta, insieme data e in movimento, che sempre si lavora [negrito meu] (L, p. 1272)25.
[...] I am deeply touched by the thought that in your so precious work you may be helped by a work of mine. Tell the young readers that a literary work may be said
really successful when is able to put in communication not only the author and the reader, but also a reader to another reader [negrito meu]: when it becomes
an experience for those who read it (L, p. 1395)26.