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Ao se dizer que a carta pertence ao gênero epistolar, levanta-se sempre a “questão dos gêneros”, assunto bastante controverso até aos dias atuais, visto ser um dos mais discutidos em literatura, da República de Platão (cerca de 428 a.C. - cerca de 347 a.C.) à Poética de Aristóteles (384 a.C. - 322 a. C.), passando pela Arte Poética de Horácio (65 a.C. - 8 a.C.), entre outras obras. Obras das quais derivam muitos estudos que alcançam a modernidade, como os de Brunetière, Croce, Bakhtin, Frye, Guillén, e outros.

Vale lembrar que gênero literário, nesse caso, segue a distinção apreendida/proposta por Aguiar e Silva “para as espécies históricas determináveis dentro [das] formas naturais [a lírica, a narrativa e a dramática]” (1976, p. 227). Mesmo admitindo-se a classificação de uma obra entre os gêneros do discurso, como prefere Bakhtin, somente com finalidade “didática”, é inegável a constatação de que as obras escritas no formato epistolar ultrapassaram os limites

da simples comunicação para alcançar uma ampla conjunção de textos de temas variados4. Essa característica da carta é bem explicitada por Viala, na ideia de flexibilidade:

Il révèle, enfin, leur diversité, qui fait à la fois la force de ce type d'écriture à la plastique polymorphe, et la difficulté de son analyse. On est alors conduit à envisager l'existence d'un noyau commun aux différentes formes de cette production, au-delà de l'identité formelle extérieure – noyau suffisamment solide pour que des courants et esthétiques variés aient pu se développer, à partir d'une même structure fondamentale, en des genres ayant chacun sa propre histoire5.

Ao delinear um itinerário dos gêneros literários através dos tempos, Soares, seguindo a esteira de Aguiar e Silva, lembra que os traços das obras “estão em constante transformação; portanto, no ato da leitura, nos devemos conduzir abertamente pelas mudanças e não por características fixas” (2006, p. 21).

Segundo Bakhtin, todo gênero origina-se da palavra em ato, mediante: 1) o “uso da linguagem”; 2) essa se dá na forma de “enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana”; 3) esses “refletem as condições específicas e as finalidades de cada campo [...] por sua construção composicional” (2003, p. 261).

E esse alerta mostra-se válido também, e muito, para a carta que, na longa estrada percorrida, desde as tábulas de argila de Amarna às páginas virtuais da grande rede, não deixa de caracterizar um gênero literário ou do discurso, termos que Bakhtin ajuda a sinonimizar, ao interligar as três características acima:

Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo ao enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo de comunicação. Evidentemente, cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso (2003, pp. 261-262).

4 Cartas históricas, científicas, filosóficas, literárias, religiosas (São Paulo, preso em Roma (62 d.C.),

comunicava-se com “cristãos e gentios”, através de algumas de suas 14 epístolas); eruditas (Guido d’Arezzo, no período 992-1050, fazendo anotações para o aprendizado do canto religioso, marcou a sua Epistola al Monaco

Michele Sul Canto Ignoto como o documento da origem primeira dos nomes das notas musicais que, com algumas modificações, alcançaram os dias atuais (Dizionario Bompiani, v. III, pp. 2990-2991); filológicas (como as trocadas entre Petrarca e Boccaccio sobre a língua de Dante); familiares (modernamente, as cartas mantêm o seu valor histórico e literário, por exemplo com Gramsci, que, além do empenho político de Quaderni del

carcere (Einaudi, 1948-1951), escreve suas Lettere dal carcere (Einaudi, 1947), um pungente e complexo elo com os familiares, em que o racionalismo e o historicismo “íntimos” refletem o desejo da práxis, entendido como transformação e mudança.

5 VIALA, Alain. Littérature épistolaire. Disponível em: http://www.universalis.fr/encyclopedie/litterature-

Portanto, retornando ao percurso histórico da carta, as epístolas documentárias e diplomáticas remontam ao passado remoto da humanidade como provam as escavações arqueológicas desde o Egito Antigo com a descoberta das citadas cartas de Amarna, aproximadamente na metade do segundo milênio a.C.6.

Os primeiros registros do gênero epistolar se encontram também na própria história da tradução, pois, desde o início do período acima, na Ásia Menor, assírios, babilônios e hititas contavam com o trabalho de escribas responsáveis pela tradução da correspondência oficial dos estados com os quais mantinham relações diplomáticas (MOUNIN, 1965, p. 30).

Segundo Andria, a antiguidade greco-latina tratou de preservar o acervo documental epistolar em dois tipos de livros: o epistularum missarum (arquivo das minutas das epístolas expedidas) e o epistularum acceptarum (arquivo das cartas recebidas), prática que possibilitou a publicação hodierna de muitos epistolários7. Os próprios gregos já liam cartas, como atesta Homero, na Ilíada, no caso da carta cifrada enviada por Preto, rei dos aqueus, ao rei da Lícia para punir Belerofonte. Muito antes dos apóstolos, a Bíblia revela o peso de uma carta no episódio entre Davi e Bate-Seba, tema que, já trabalhado pela literatura e pelo cinema, continua a despertar outros interesses como o dos teopoéticos contemporâneos8.

No século I a.C., a carta passa pela canonização sob o plano retórico, com uma consequência bem precisa: a afirmação e a proliferação da “carta de arte”, com a sua “desconcretização”, pois perde sua função de comunicação para assumir o valor de modelo de

6 As cartas de Amarna representam o que resta do arquivo das relações diplomáticas do faraó Amenófis IV (ca.

1353-1336 a.C.) com vários reis independentes da Ásia Ocidental, como também das mensagens provenientes dos vassalos egípcios da Síria e da Palestina. Denominado “o faraó herético”, Amenófis IV (ou Akhenaton) instituíra na antiga Akhetaton (hoje Tell el-Amarna) uma nova corte para celebrar o culto monoteístico a Aton e fugir dos sacerdotes de Amon e de outras divindades tradicionais. Descobertas em 1887, restam 382 tábulas que se encontram em museus (Cairo, Berlim, Londres) e nas mãos de colecionadores particulares.

Ver: LIVERANI, Mario (a cura di). Le lettere di el-Amarna. 1. Le lettere dei ‘Piccoli Re’. Brescia: Paideia Editrice, 1998.

______. Le lettere di el-Amarna. 2. Le lettere dei ‘Grandi re’. Brescia: Paideia Editrice, 1999.

7 ANDRIA, Roberto. “L’epistolografia”. Disponível em:

<http://www.andriaroberto.com/nuova_pagina_204.htm>. Acesso em 31 jul. 2006. Sítio criado pelo Professor Roberto Andria, para os alunos do Liceo Classico Statale Giuseppe Garibaldi de Nápoles (Itália).

8 “[...] Arse di sdegno

Preto a questo parlar, ma non l’uccise, di sacro orror compreso. In quella vece Spedillo in Licia apportator di chiuse

funeste cifre al re suocero, ond’egli

perir lo fésse [negrito meu]

(L’Iliade, VI, vv. 206-221, 1961, p. 63).

Outra carta famosa a traçar uma sentença de morte é aquela enviada por Davi a Joabe (chefe de seu exército), no episódio do próprio adultério com Bate-Seba (pelo qual recebeu a punição divina): “Escreveu [Davi] na carta, dizendo: Ponde a Urias [marido de Bate-Seba] na frente da maior força da peleja; e deixai-o sozinho, para que seja ferido e morra” (2 Sm 11, 14.15, Bíblia Sagrada, Velho Testamento, 1968, p. 337, negrito meu).

“página bela”, para fruição estética “in aeternum”. É neste momento histórico, segundo Andria, que ocorre “la creazione della ‘teoria’ epistolare (si curano edizioni ‘scientifiche’ delle lettere di Aristotele e di Tolomeo I)” e que nascem também muitos epistolários falsos atribuídos a grandes nomes.

Andria ressalta a importância da “teoria epistolar” que, desenvolvendo-se na Grécia, expande-se em Roma, após o final da república. Mas é veemente ao afirmar que somente os epistolários “retóricos” daquele tempo podem ser classificados como gênero literário, os de épocas anteriores pertenceriam à chamada paraliteratura9.

Também entre os séculos I a.C. e I d.C., a carta foi lembrada como gênero literário: no tratado De elocutione de Demétrio – “a primeira obra a expor regras teóricas sobre epistolografia, embora não autonomamente, e sim na forma de um excurso”: entre outras características, estilo simples, diálogo mais elaborado para a carta, porque “enviada a alguém, como se fosse um presente [...], sendo ela a forma de composição literária em que mais se pode ver o caráter do escritor” (TIN, 2005, pp. 18-19).

Também Cícero (106 a.C.- 43 a.C.), cuja intensa atividade literária se manifesta em vários campos, inclusive nos estudos de tradução, já espelhava seu pensamento em uma vasta correspondência, que trata de filosofia, política e retórica – mais de 900 cartas –, parcialmente redescobertas por Petrarca nos meados do século XIV10, através das inúmeras viagens de pesquisa que realizou, visitando bibliotecas e mosteiros, em busca dos textos necessários à revalorização da cultura do antigo mundo greco-latino, demandada pelo Classicismo renascentista.

É o próprio Petrarca a testemunhar sua descoberta por meio de uma carta a Cícero:

Franciscus Ciceroni suo salutem. Epystolas tuas diu multumque perquisitas atque ubi minime rebar inventas, avidissime perlegi. Audivi multa te dicentem, multa deplorantem, multa variantem, Marce Tulli, et qui iampridem qualis preceptor aliis fuisses noveram, nunc tandem quis tu tibi esses agnovi.

[Francesco saluta il suo Cicerone. Cercate e ricercate lunghi anni, mi riuscí infine ove meno pensavo trovar le tue lettere, che avidissimamemte lessi tutte. E te intesi di te medesimo molte cose narrare, lamentarne molte, e mutar sovente consiglio, di

9 Idem nota nº 7.

10 Para mais informações, ver:

EPISTOLOGRAFIA. Disponível em:

<http://w3.cnice.mec.es/eos/MaterialesEducativos/mem2001/scripta/gen/generos/epistolografia.htm>. Acesso em 31 jul. 2006.

PETRARCA, Francesco. Opere. A cura di Emilio Bigi. Commento di Giovanni Ponte. Milano: Mursia, 1979. BIGNONE, Ettore. Marco Tullio Cicerone. Cicerone intimo: le lettere di cicerone. In: _____. Storia della

letteratura latina: I Poetae novi, Cesare, Sallustio, Varrore Reatino, I minori prosatori dell’età di Cesare, M. Tullio Cicerone. Firenze: G. C. Sansoni, 1950.

modo che come prima, o Marco Tullio, avevo conosciuto quali porgessi altrui maestro, così poi qual per te stesso tu fossi giunsi a conoscere ] (1979, pp. 880-881).

Segundo Emilio Bigi, o curador de Opere de Petrarca, a vasta correspondência epistolar do “Poeta Laureato” nasce também no mesmo lugar-solidão, onde nascem suas grandes obras culturais, mas, é preciso dizer, em companhia dos clássicos (como ocorre com Leopardi e Calvino), entre os quais Cícero. Correspondência que encontra sua originalidade e unicidade no fato de ser testemunho de

una capacità unica di trasformare tutta una serie di impressioni, di ricordi, di meditazioni personali, attraverso l’aiuto dei latini, da Cicerone a Seneca, da S. Ambrogio a S. Agostino, da Virgilio ad Orazio a Giovenale, in vive e pur serene “collocutiones” con i suoi corrispondenti e lettori, vicini e lontani, nello spazio e nel tempo, e prima di tutto con se stesso (PETRARCA, 1979, p. XVI).

Ao lembrar a descoberta de Petrarca, Tin observa que a carta de Cícero foi defendida por seus adeptos como “modelo absoluto para a escrita de cartas”, embora ele não tivesse registrado estudos sobre epistolografia, nem mesmo em seus tratados de retórica. As cartas ciceronianas são de dois tipos, litterae publicae e litterae privatae, que se distinguem pelo estilo, sendo que “para Cícero, a carta se configura um substituto da comunicação oral e da presença física” (2005 pp. 22-23).

Também Sêneca (4 a.C. - 65), lembra Campos, organizador, prefaciador e responsável pelas notas de Cartas a Lucílio, vale-se da narrativa epistolar como o “veículo por excelência” para a sua finalidade de direção espiritual ao pupilo, porque “parte sempre para a exposição de um pormenor de natureza muito concreta que utiliza como pretexto para o desenvolvimento de um argumento teórico” (2004, p. XIII).

Assim como Cícero, Sêneca considera a carta um meio para tornar presente o destinatário (“[...] é o único meio de que dispões para vires à minha presença”), que “não deve encher a mão esquerda do leitor” e deve ser escrita “num estilo nem grandiloquente nem vulgar” (TIN, 2005, pp. 21-22)11.

A questão da originalidade passa também pela autenticidade. Talvez daí a busca de Petrarca por arquivos “confiáveis”, pois, estudos recentes sobre (in)autenticidade nas literaturas clássicas, como os efetuados por Galiano (que comprovam os de Andria, quando cotejados), mostram que um forte motivo para a proliferação de apócrifos é a ânsia de

11 Tin cita, respectivamente, as epístolas 40, 1; 45,13; e 75, 1-3, que podem ser lidas na íntegra em:

SÉNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Tradução, prefácio e notas de J.A. Segurado e Campos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004, pp. 136; 154; 305.

circundar novelesca ou ideologicamente uma figura sobre a qual se desejaria saber mais. E isso acontece em um grande número de epistolários falsos:

Me he entretenido en clasificar una importante parte de ellos atendiendo a lo escrito en griego, que es aquello en que mejor creo moverme, y anotaré aquí que el porcentaje de cartas presuntamente genuinas respecto al de posibles o evidentes falsificaciones es muy bajo (1985, p. 29).

É importante observar que, na pesquisa de Galiano, contam-se poucos exemplares de cartas “auténticas que se han juzgado dignas de inmortalidad”, pois, diz ele, “y aquí no me estoy refiriendo para nada al apasionante y numerosos apartado de las reales, no literarias, de que tan abundante mies hay en los papiros egipcios” (1985, p. 29)12.

Dentre os clássicos autênticos, outro importante para a epistolografia é Horácio que, além de reafirmar o conceito ciceroniano sobre tradução na Epistola ad Pisones (embora, segundo Mounin, mais para definir a adaptação literária que a tradução (1965, pp. 31-32)13, fez surgir em Roma, da adesão de uma modalidade temática a um molde formal, um modelo prestigioso de gênero literário: a epístola moral, uma carta em verso que desenvolve como um contragênero da poesia satírica.

Na epístola moral, Horácio faz perdurar aquela prática social do antigo mundo mediterrâneo, de enviar e receber cartas, nessa ocasião em versos, assim como fizeram Propércio e Ovídio, respectivamente na tradição elegíaca e na poesia amorosa14. Porém com Horácio, observa Andria, atinge-se o máximo em efeito literário.

A epístola em verso não é poesia lírica, por não ser cantada, porém e muitas vezes, segundo observa Guillén, passa pelo lirismo, como aquela do poeta espanhol Francisco de Aldana, no século XVI (1985, p. 169):

12 Dentre as cartas que Galiano nomeia “literárias”, ele destaca a de Pausânias a Xerxes recolhida por Tucídides,

uns fragmentos de Lísias, algumas cartas de Isócrates e de Platão (importantes para o seu currículo), epístolas de Demóstenes, “três estupendas” de Epicuro, colhidas por Diógenes Laércio e os epistolários de Libânio e Juliano. Falsas seriam as do tirano Fálaris de Acragante, as de Heráclito, Temístocles, Eurípedes, Hipócrates. Quase a metade das de Isócrates e a maioria das platônicas. As de Xenofonte, Diógenes, Ésquines, [...] e as “tan célebres, como inauténticas, cruzadas entre San Pablo y Séneca. Una impresionante retahíla” (1985, p. 30).

13 Ver também:

TOVAR, Rosario Cortés; CORTE, José Carlos Fernández (Orgs.). Bimilenario de Horacio: ponencias del Congreso celebrado em Salamanca em 1992. Salamanca: Universidad, 1994.

14 Camón e Saura preferem não classificar Propércio como epistológrafo, “los hechos sobre los que [...] escribe

[Carta de Aretusa a Licota, Elegias IV, 3] le son contemporáneos, non son históricamente alejados [...] Ovidio es, en realidad, el difusor de la epístola amorosa en verso, a la que dio identidad [...]”; porém, a carta de Propércio é “una autentica carta, apasionada y desesperanzada, una heroida”.

CAMÓN, E.; Saura, J. Propercio, epistológrafo. In: Los géneros literarios (Actes del VII e Simposi d'Estudis Clássics, 21-24 de març de 1983), Bellaterra (Barcelona): Secció Catalana de la Societat Espanyola d'Estudis Clàssics - Servei de Publicacions de la Universitat Autònoma de Barcelona, 1985, pp. 213-217.

Nuestro Señor en ti su gracia siembre Para coger la gloria que promete. De Madrid a los siete de setiembre Mil y quinientos y setenta y siete.

Muito antes de Aldana, o uso da data, tão característico da carta, fora usado por Petrarca em um soneto de seu Canzoniere:

Vertute, onor, bellezza, atto gentile, dolci parole ai be’ rami m’àn giunto ove soavemente il cor s’invesca. Mille trecento ventisette, a punto su l’ora prima, il dí sesto d’aprile,

nel laberinto intrai, né veggio ond’esca (1979, p. 159)15.

Bakhtin diz que “não é a atividade mental que organiza a expressão, mas, ao contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação”, (2004, p. 112). Portanto, é natural a ocorrência de gêneros literários híbridos (como as cartas- ensaio de Calvino, analisadas mo capítulo III desta tese).

Assim, a questão dos gêneros é vista de várias maneiras. O estudioso italiano Benedetto Croce, em estudo de 1902, desconsidera a divisão da literatura em gêneros, movimentos ou escolas literárias, devido à “indivisibilidade da expressão em modos ou graus”, o que também negaria a possibilidade da tradução:

Uma classificação das intuições-expressões é sem dúvida permitida, mas não é filosófica; os fatos expressivos singulares são outros tantos indivíduos, e um não se equipara ao outro a não ser por compartilharem a qualidade de serem expressão. Para usar o linguajar das escolas, a expressão é uma espécie que não pode, por sua vez, ter função de gênero. [...] cada conteúdo é distinto de qualquer outro porque nada se repete na vida (2005a, p. 197).

Ademais, é o próprio Croce a admitir a existência de “laço[s] de semelhança das expressões ou das obras de arte entre si [...] e é por força dessas semelhanças que as obras de arte podem ser incluídas neste ou naquele grupo” (2005a, p. 205).

Para Guillén, a “questão dos gêneros” deve ser vista sob alguns aspectos que resume através de seis advérbios:

15 Soneto número CCXI, citado por Guillén como o antecedente “más ilustre del uso de la fecha” (1985, p.

169).

Para ter acesso virtual ao Canzoniere, consulte-se:

PETRARCA, Francesco. Il Canzoniere (Rerum Vulgarium Fragmenta). Disponível em:

a) historicamente, os gêneros ocupam um espaço cujos componentes evoluem ao largo dos séculos;

b) sociologicamente, a literatura é uma instituição, da qual também os gêneros fazem parte; c) pragmaticamente, do ponto de vista dos leitores, o gênero implica não só comunicação, mas também contrato, isto é, aquilo que Jauss chama de “horizonte de expectativas” (as esperanças “ultraindividuais” do receptor diante do livro ou de outra obra);

d) estruturalmente, o gênero é considerado, não como um elemento isolado, mas como parte do conjunto; e a diferença que vincula um gênero a outro pode ser definida como o exercício de determinada função, como é o caso da protonovela de Cervantes ou das grandes novelas latino-americanas que desempenham, respectivamente, as funções da narração picaresca e do conto tradicional;

e) logicamente, tanto do ponto de vista do escritor quanto do crítico, o gênero atua como modelo mental, porém os mesmos devem ter em mente os gêneros mistos ou as grandes obras híbridas, que deixam suas marcas fronteiriças, na constante mudança histórica;

f) comparativamente, devido à questão da universalidade ou da limitação relativa de cada gênero ou sistema de gêneros, no espaço e no tempo (1985, pp. 141-150).

Através desse conjunto de ideias, Guillén inclui as possibilidades de estudo que, em maior ou menor grau, norteiam o trabalho dos pesquisadores ao longo dos tempos, através de disciplinas tradicionais como a História e a Lógica, ou de mais recentes como a Sociologia, a Pragmática, o Estruturalismo e a Comparatística, tudo para o aperfeiçoamento do gênero, pois, como Leopardi já escrevera, em 1823, em uma das páginas de seu vasto Zibaldone de reflexões “multidisciplinares”,

Sogliono le opere umane servire di modello successivamente l’une all’altre, e così appoco [appoco] perfezionandosi il genere, e ciascuna opera, o le più [...] d’esse riuscendo migliori de’ loro modelli fino all’intero perfezionamento, il primo modello apparire ed essere nel suo genere la più imperfetta opera di tutte l’altre, per infino alla decadenza e corruzione d’esso genere, che suole altresì ordinariamente succedere all’ultima sua perfezione16.

“Hay que reconocer que el autor antiguo es más esclavo de la preceptiva que el contemporáneo”, afirma Sobrino (1985, p. 180). A mesma constatação é feita por Moraes, ao comentar a estrutura em tópicos para a composição epistolar que, obrigatoriamente, os religiosos da Idade Média europeia deviam obedecer: salutatio (breve saudação), capitatio

benevolentiae (expressão de modéstia para cativar a estima do destinatário), narratio

16 LEOPARDI, Giacomo. Zibaldone di pensieri. Disponível em: <http://www.leopardi.it/zibaldone.php>. Acesso

(narração), petitio (pedido) e conclusio (conclusão)” (2005, p. 21). Tal estrutura, com várias subdivisões, segundo vários estudos, inclusive o de Tin, foi definida por Anônimo de Bolonha em suas Rationes dictand, datadas de 1135 (2005, p. 37).

Porém isso não impede a ocorrência de descumprimentos voluntários de regras de determinado gênero, com tal “veemência iconoclasta” que passam para a história como testemunhos de revolta e de rompimento. Mas, adverte Sobrino, acontecem também os descumprimentos tão sutis que, parecendo observar formalmente o detalhe mínimo de um gênero, renovam-no, infundindo-lhe vida nova (1985, p. 180).

Não por acaso, ensina Bigi, por Petrarca estar à frente do tempo, tanto em relação à cultura medieval, como também à clássica (que tanto valorizava, haja vista sua grande