Dois fatos relevantes antecederam as viagens de Dom Pedro II ao Oriente Médio e Norte da África e mais do que as viagens do imperador propriamente ditas, eles podem ter sido determinantes para o sucesso de toda imigração árabe para o Brasil: o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação que foi firmado entre o Império Brasileiro e o Império Otomano em 1858 e o estabelecimento da uma representação diplomática brasileira no Egito alguns anos depois66. Sem a precedência desses dois fatos as duas viagens de Dom Pedro II provavelmente não teriam acontecido.
É importante ressaltar que nenhuma das duas viagens de Dom Pedro II à região teve caráter diplomático, mas “turístico e científico”, segundo afirmava o próprio imperador. Em sua primeira viagem, realizada em 1871, a visita de Dom Pedro II limitou-se ao Egito. A sua segunda viagem, porém, entre 1876 e 1877, seria mais demorada e abrangente: além de voltar ao Egito, o imperador visitou a Turquia e os antigos territórios árabes que na ocasião estavam sob o domínio do Império Otomano e hoje correspondem à Síria, Líbano e Palestina.
Apesar do caráter “turístico e científico” dessa visita, alguns autores defendem que ela pode ser considerada o marco inicial da grande imigração árabe para o Brasil. Claude Fahd Hajjar, por exemplo, argumenta que “a presença de Dom Pedro II no Oriente Próximo e seu conhecimento do idioma árabe estimularam a imigração espontânea daqueles povos ao
Brasil” (HAJJAR, 1985, p.28). Coincidência ou não, a mobilização maciça entre os dois ‘impérios’ só iniciaria depois de 1880, logo após a passagem de Pedro d’Alcântara67
. Depois dos primeiros palestinos na década de 1870, sírios e libaneses desembarcaram em grandes levas nos portos do Rio de Janeiro e São Paulo a partir de 1880. Pouco depois começaram a chegar os primeiros palestinos no Nordeste pelos portos de Recife, Fortaleza e São Luís.
Mas a razão de se atribuir tanta relevância a esta viagem não decorre apenas de sua anterioridade em relação ao início da imigração árabe no País, mas principalmente ao fato de que, nos Estados Unidos, a imigração de sírios e libaneses começara vinte anos antes, imediatamente após os massacres do Monte Líbano e em Damasco, este último, em 1860. Nesse caso, por que o Brasil também não recebeu imigrantes ‘levantinos’ nas duas décadas que se seguiram ao Massacre? Para esses autores, o Brasil era praticamente desconhecido entre os árabes e para eles, a América era os Estados Unidos. Segundo Truzzi, “os imigrantes não detinham conhecimento preciso sobre a extensão da América e muitas vezes acabavam por encurtar distâncias entre os espaços, pensando os Estados Unidos nos limites de Nova Iorque ou reduzindo a América do Sul ao território brasileiro” (FRANKLIN, 2009, p.2). A chegada de um navio de bandeira verde e amarela e uma comitiva real do Brasil ao porto de Beirute, além de despertar muita curiosidade, teria uma grande repercussão entre eles e seria o motivo de um grande número de artigos que foram publicados em jornais e revistas da época. Foi a partir dela que os sírios, libaneses e palestinos tomaram conhecimento do Brasil e para eles, o País era uma monarquia ao estilo europeu em terras americanas. Portanto, havia outra América ao sul dos Estados Unidos com um grande potencial de receber imigrantes árabes dispostos a participar da colonização do País. Para Roberto Khatlab (2015, p.134),
A simples menção da palavra América, Amrik para o povo árabe em geral, significava América do Norte, Estados Unidos, nada Mais. O conhecimento deles acerca do continente americano vinha das missões religiosas e educacionais no Oriente. Mas o Thamarat al-Funun [um jornal de Beirute] se empenharia na divulgação do novo País, belo e viçoso em todos os detalhes: população, riquezas, rios, e grandeza... O resto da propaganda, a própria figura do imperador, à paisana, falando línguas semíticas68 e com o sobrenome Alcântara69 se encarregou de fazer.
67 Nenhuma das duas viagens de Dom Pedro II ao Oriente Médio e Norte da África foi oficial. Onde chegava,
fazia questão de dizer “que o imperador ficara no Brasil e quem estava ali era Pedro d’Alcântara” (KHATLAB, 2015, p.133).
68
O Imperador sempre se interessou por egiptologia e pelo Oriente em geral e estudava sua cultura, história, geografia, religiões, literatura e línguas. Depois de sua primeira viagem ao Egito, começou a estudar a língua árabe e outras línguas semíticas, como o aramaico e o hebraico e chegou a traduzir do árabe alguns capítulos de As mil e uma noites e vários textos bíblicosa partir de originais em hebraico.
69
Houve uma divulgação muito intensa em jornais e revistas por todos os locais por onde o imperador passou, como atestam as várias passagens e os anexos traduzidos e apresentados por Roberto Khatlab em As Viagens de Dom Pedro II (fotografia 40). Na Palestina, por exemplo, escreveu Khatlab:
No período de passagem pela Palestina e particularmente em Jerusalém, vários jornais e revistas em árabe e hebraico escreveram sobre o monarca dos trópicos. Antes de sua chegada à Palestina, o Jornal Há-Tzefirah (A Aurora) publicou uma matéria extensa sobre Dom Pedro II em que apresentava o imperador como conhecedor de vários idiomas, entre eles o hebraico. Escreveu também sobre sua chegada e estadia em Jerusalém, sua simplicidade e recusa de recepção, por confirmar que a visita não era oficial [...]. Outro jornal [...] o Há-Maguid (O Narrador), publicou a biografia resumida de Dom Pedro II. [...] “O valor do monarca está no fato de que ele conhecia a língua sagrada, esquecida e abandonada pelos seus próprios filhos espalhados pelo mundo” (ibidem, p. 236).
A importância dessa divulgação pôde ser atestada pelo próprio imperador Pedro II, que relata em seu diário de viagem a repercussão de sua passagem pela cidade de Nazaré, na Palestina (fotografia 41):
A estrada em Nazaré foi uma das mais notáveis desta viagem. A população acudiu em grande parte fora das portas formando alas e muitos meninos cantando, outros numerosos ocupavam os terraços das casas e as alturas. Os sinos repicavam e as palmeiras balançavam-se por cima da porta da cidade (KHATLAB, p. 188).
Fotografia 40: Dom Pedro II Cavalgando Fotografia 41: Caderneta de viagem de Dom Pedro II, 1876 Fonte: KHATLAB, 2015, s/p Fonte: KHATLAB, 2015, s/p
Com toda a divulgação que recebeu a visita à Terra Santa, “a passagem de Dom Pedro II acabou sendo uma divulgação do Brasil na Palestina”. E apesar da controvérsia no meio acadêmico acerca de sua importância para o processo migratório, a visita de Pedro d’Alcântara teve um valor simbólico importante para a avaliação dos árabes acerca do Brasil.
Acredito mesmo que ela tenha atraído a atenção de muitos imigrantes e é provável que muitos árabes, diante da incerteza em relação à escolha do destino, tenham optado emigrar para o Brasil após a visita do Imperador. “A notícia circulou por todos os cantos e transformou-se em história contada ao longo dos anos de pai para filho – e neto [...]. Algumas pessoas, ao ouvir dos pais o relato sobre o imperador brasileiro que visitou o Oriente, decidiram emigrar para o Brasil e hoje têm seus netos e bisnetos no Brasil que ainda falam da passagem do imperador” (ibidem, p.134-135).
Em relação à imigração Palestina no Nordeste, não parece haver uma relação direta entre a visita do Imperador Dom Pedro II ao Oriente Médio e o início do processo migratório, uma vez que os primeiros imigrantes só chegaram à região na década de 1890, cerca de 15 anos após a viagem do Imperador. Mesmo assim, para João Sales Asfora a vinda de palestinos para o Recife foi resultado daquela visita. Segundo suas palavras, “poucos anos depois da visita do Imperador brasileiro aos lugares sagrados da Terra Santa, quando então ele teria se encontrado com líderes religiosos da região”:
[...] nasceu a ideia da ida de emissários palestinos à França com peças de artesanato a fim de levantar recursos que possibilitassem a viagem dos primeiros imigrantes para o nordeste do Brasil. A partida para a nova terra, tentando uma vida com maiores e melhores possibilidades encantou a muitos, porém somente alguns poucos conseguiram os meios necessários para a aventura, contando com o apoio das lideranças das famílias, sob a promessa de que, tão logo fosse possível, ajudariam a viagem de outros (ASFORA, 2002, p.23).
Portanto, segundo ele, a imigração dos primeiros palestinos no Nordeste no Brasil só teria acontecido após a visita do Imperador brasileiro à Palestina e teria sido precedida alguns anos antes da imigração de palestinos para a França com o intuito de obter recursos que viabilizassem a emigração de conterrâneos para a América do Sul. Embora nos pareça plausível, essa hipótese não pôde ser comprovada através de outros relatos fornecidos em minha pesquisa de campo.