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Champs de plans

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4 Champs de vecteurs et feuilletages

4.7 Champs de plans

Após a decisão de emigrar e a obtenção dos meios necessários à empreitada, a viagem em si era um momento de grandes expectativas, quase sempre marcada por muitos obstáculos e aborrecimentos, antecipando por certo o que ainda estava por vir. As dificuldades já começavam no embarque em seu país de origem. Sair de sua aldeia, alcançar um porto no Oriente Médio e conseguir um barco que os levasse à França nem sempre era tarefa fácil e rápida. Havia muitos pontos de embarque onde os navios paravam ao largo e os passageiros precisavam se deslocar até eles em pequenos botes a remo. Em Marselha na França, a obtenção dos vistos e autorizações necessárias também dispendia tempo e dinheiro assim como a compra da passagem para a América ou para o Brasil. Muitas vezes não havia embarcações naquele porto para o destino desejado e o imigrante precisava se deslocar de trem até outro porto em outro País para conseguir embarcar. A longa travessia do Atlântico, que nos anos iniciais da imigração eram feitas em lentos navios cargueiros movidos a vapor, podia durar 40 dias ou mais. Segundo Magalhães,

A dificuldade dos imigrantes em se comunicar com a tripulação do navio e com o pessoal de terra nos portos europeus e nas cidades brasileiras [...] não era o único problema dos viajantes. Passagens caras, travessia longa e demorada, condições pouco confortáveis, doenças, muitas paradas e trocas de navio eram outros percalços enfrentados por aqueles que decidiam emigrar. (MAGALHÃES, 2010, p.12).

A longa trajetória percorrida por Abrahão Mussa Asfora e por meu avô Hissa Mussa Hazin que voltara a Palestina em 1920 (14 anos após Imigrar para o Brasil) para se casar com a minha avó Hilue Sarah Hazin, é relatado por João Sales Asfora, sobrinho de Abrahão, em Palestinos: a saga de seus descendentes. Este depoimento é exemplar e mostra o grau de dificuldade e obstinação do imigrante numa época em que a precariedade e as incertezas já não eram tão grandes como as que devem ter sido enfrentadas pelos primeiros imigrantes palestinos algumas décadas antes.

Logo após o término da Guerra, o irmão de Abrahão, Sales Asfora, que morava no Brasil há alguns anos, certificando-se que todos estavam bem, com exceção de João, que havia morrido, enviou através do Banco do Brasil as libras necessárias para pagar a viagem de todos para o Brasil. Em companhia da família de Abrahão Mussa Asfora, viajavam o Sr. Hissa Mussa Hazin e sua esposa Sra. Hilue Sarah Hazin e a mãe do Sr. Hissa, dona Miriam Andônian. Saíram todos de Belém na manhã do dia 16 de julho numa carruagem puxada por cavalos até Jerusalém e lá tomaram um trem com destino a Jaffa, uma cidade portuária, ainda na Palestina. Ficaram hospedados em um convento católico ortodoxo onde passaram oito dias aguardando o navio francês Brivance que os levaria até Marseille, na França. Compraram então maçãs, peras, uvas e tâmaras para comer na viagem. Como o porto de Jaffa não tinha ancoradouro, foram de lancha para o navio, mas não puderam embarcar porque as duas senhoras idosas eram portadoras de uma doença contagiosa nos olhos. Então regressaram para o convento em Jaffa onde esperaram mais alguns dias até que passasse um navio egípcio que aceitou leva-los até Alexandria, no Egito. Nesta cidade passaram mais oito dias aguardando outro navio que os levaria, em fim, para a Europa, mas antes de desembarcar em Marseille, precisaram passar alguns dias de quarentena em um porto italiano, sem direito a irem em terra. Após desembarcarem e se hospedarem em Marseille, começaram a procurar um navio que tivesse por destino o porto de Recife ou Salvador. Sem previsão, seguiram de trem para Paris e depois para Bordeaux, ainda na França, para tentar embarcar em um navio que seguiria para Salvador. Novamente se prepararam para a longa viagem e mais uma vez, por motivo de saúde, também não conseguiram embarcar em Bordeaux. De volta ao hotel, foram informados por uma companhia de navegação francesa que haveria um navio inglês com destino ao Recife saindo de Lisboa. Então seguiram de trem para Madri e depois para Lisboa, onde chegaram alguns dias depois e conseguiram finalmente embarcar no navio Ivan para o Brasil, chegando ao Recife em 20 de setembro, mais de dois meses após saírem de Belém (ASFORA, 2002).

Todos os relatos indicam que o percurso marítimo seguido pela grande maioria dos imigrantes provenientes do Oriente Médio tinha como ponto de partida as cidades de Beirute no Líbano, Haifa ou Jaffa na Palestina ou Alexandria no Egito e seguia, necessariamente para a Europa, na maioria dos casos para Gênova ou Marselha (fotografias 51 e 52). Os relatos históricos também indicam que os passageiros de origem árabe que chegavam ao Rio de Janeiro no início do século XIX em geral apontavam as cidades de Marseille na França, Nápoles ou Gênova, na Itália, como os últimos portos de embarque. Em todas essas cidades existia uma rede de hotéis e restaurantes, lojas e agências de viagens, muitas delas pertencentes a outros árabes imigrados e já estabelecidos que orientavam e

apoiavam os “patrícios” que estavam a caminho da América, inclusive do Brasil. Além de hospedá-los e de alimentá-los, orientavam na escolha do destino, na emissão da passagem e na obtenção do visto no passaporte, já que o Brasil não tinha representação diplomática na região até 1930 (KHATLAB, 2015; ROCHA PINTO, 2010), e que, para os árabes que seguiam para o Brasil, a obtenção do visto precisava ser feito necessariamente em Marseille, na França, por causa dos acordos diplomáticos com a Turquia.

Fotografia 51: Cidade e porto de Jaffa. Início do século XX Fotografia 52: Porto de Marseille, à mesma época. Fonte: RAJAB, 1989, p.76 des Musées Fonte: Joconde- Portail des Collections

Acesso em 12.07.2016. Disponível em:

http://www.culture.gouv.fr/Wave/image/joconde/

Em todo caso, ao desembarcar num porto brasileiro, o deslocamento por mar até o porto de destino final era em geral em navios brasileiros quase sempre em péssimas condições de conservação e higiene. “As longas viagens em condições precárias, a má alimentação, a parada em vários portos e o contato direto com passageiros e pessoal de terra, possivelmente os deixavam mais vulneráveis. Nessas condições, os viajantes se tornavam ‘vítimas preferenciais de doenças, tanto em terra quanto no mar. Não são poucos os relatos de morte de emigrantes durante a travessia. “Para muitos, o lugar do sepulcro foi no mar, como aconteceu com o pequeno Manoel, de apenas oito meses. Seu corpo, depois de amortalhado, e estando em estado de decomposição, foi lançado ao mar depois das formalidades do estilo”. (Magalhães, 2010).

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