“participar” de uma concepção do mundo “imposta”
mecanicamente pelo ambiente exterior, ou seja, por vários
grupos sociais nos quais todos estão automaticamente
envolvidos desde sua entrada no mundo e consciente (...)
ou é preferível elaborar a própria concepção do mundo de
uma maneira crítica e consciente e escolher a própria
esfera de atividade, participar ativamente na produção
da história do mundo, ser o guia de si mesmo e não
aceitar do exterior, passiva e servilmente, a marca da
própria personalidade ?
(Gramsci, 2010).98
Imagem 1. Barraco no Jardim
Gonzaga em 1979 (ROSA, 2008)
Imagem 2. Córrego canalizado (à
esquerda) no Jardim Gonzaga, (2009)
Imagem 4. Jovem no território (2010)
Imagem 5. Rua do Jardim Gonzaga
(2010)
Imagem 3. Casa no Jardim Gonzaga
(2010)
Imagem 6. Pichação na rua no Monte
Carlo ―SC capital da tecnologia... Só pro Dr. Cusão e pra burguesia‖ (2011)
99
Imagem 7. Vias de acesso para
pedestres no Jardim Gonzaga (2011)
Imagem 8. Praça no Jardim Gonzaga,
após última reforma realizada (2011)
Imagem 9. Praça no Jardim Gonzaga,
após reforma realizada (2011)
Imagem 10. Escola do Futuro Janete
Maria Martinelli Lia (2008)
Imagem 11. Estação Comunitária –
ECO (2009)
Imagem 12. Estação Comunitária –
100
Imagem 13. Quadra na Escola Estadual
Dona Aracy Leite Pereira Lopes (2009)
Imagem 14. Igreja pentecostal no
Monte Carlo (2011)
Imagem 15. Centro Comunitário
Pacaembu (2008)
Imagem 16. Centro de Referência da
Assistência Social – CRAS Pacaembu (2010)
Imagem 17. Centro da Juventude
Monte Carlo (2010)
Imagem 18. Festa popular no Centro
101 O campo de pesquisa delimitado neste trabalho é produto da intersecção entre o estudo, a investigação e a intervenção técnica da pesquisadora num território localizado numa região periférica da cidade de São Carlos – SP, iniciado em 200569
, dos quais resultaram os acompanhamentos e a sistematização dos percursos de vida e das trajetórias escolares de quatro jovens que aqui serão trazidos.
Os trabalhos técnicos e acadêmicos realizados neste território demonstram o interesse da pesquisadora com a temática da juventude pobre e das políticas sociais, sobretudo da educação. Esta retrospectiva conduz à reflexão de que todas as experiências vivenciadas e elaboradas, embora não precisem ser reescritas ou reeditadas neste trabalho, oportunizaram o aprofundamento das questões apresentadas, assim como, de suas interpretações e suas análises.
Para estabelecer a correlação entre o trabalho técnico e o de pesquisa, foi necessário o embasamento teórico, que fosse capaz de fundamentar e sustentar a investigação a partir do que era coletado, experimentado e agenciado no campo da intervenção. Assim como, optou-se pela utilização de distintos procedimentos metodológicos e a articulação entre eles.
Nesta proposição, torna-se arbitrária a classificação que delimita a teoria e a metodologia, compreendendo esta última como a estrutura pela qual se fundamenta a pesquisa, em relação à sua forma e ao seu conteúdo, exclui, portanto, o seu significado ―apenas‖ como descrição de materiais, métodos e/ou dos procedimentos de pesquisa. Numa compreensão epistemológica, poderia se considerar, tal como Löwy (2006), ideologia, ou seja, a partir de suas perspectivas metodológicas se produz uma interpretação da realidade e, consequentemente, constrói-se o conhecimento científico.
Do mesmo modo, Bourdieu alerta sobre a contradição que pode existir intrinsecamente na separação entre a teoria e a metodologia, ele ressalta essa
102 classificação como fruto de uma divisão operacional de trabalho. ―A divisão entre ‗teoria/metodologia‘ constitui, em oposição epistemológica, uma oposição constitutiva de divisão social do trabalho científico num dado momento‖ (1989, p. 24).
Sendo assim, o autor recusa todo sectarismo metodológico e sugere que, a depender do caso e da definição do objeto de estudo, todas as técnicas sejam mobilizadas desde que pertinentes e passíveis de utilização. ―As opções técnicas mais empíricas são inseparáveis das opções mais ‗teóricas‘ de construção do objeto‖ (Bourdieu, 1989, p. 24).
A intervenção realizada esteve ancorada pelo pressuposto teórico e metodológico proposto pela Terapia Ocupacional Social, protagonizado pelo METUIA. Sendo assim, utilizamos o seguinte arcabouço: acompanhamentos individuais e territoriais, articulação de recursos no campo social, dinamização da rede de atenção e as oficinas de atividades, dinâmicas e projetos.
Os acompanhamentos individuais e territoriais são utilizados na Terapia Ocupacional Social como uma estratégia de intervenção que possibilitam uma percepção e interação mais real do cotidiano e contexto de vida dos indivíduos, interconectando suas trajetórias de vida, sua situação atual e sua rede de relações. Os acompanhamentos individuais e territoriais partem da escuta atenta das demandas de pessoas, grupos ou coletivos na direção do seu equacionamento, na maioria das vezes determinadas pela situação de vulnerabilidade, desigualdade social e falta de acesso a serviços sociais e bens essenciais (Lopes, Borba e Cappellaro, 2011).
A articulação de recursos no campo social compreende uma gama de ações realizadas desde o plano individual, passando pelos grupos, coletivos, até os níveis da política e da gestão; a estratégia está em manejar as práticas em diferentes níveis de atenção em torno de objetivos comuns e utilizar os recursos possíveis, compreendidos como dispositivos financeiros, materiais, relacionais, afetivos ou outras aptidões, sejam
103 eles micro ou macrossociais para compor as intervenções. Sendo assim, é necessário dispor de estratégias de intervenção que também estejam inseridas nesses diferentes níveis, para que sejam possíveis a identificação, a negociação e a efetiva contribuição dos recursos disponíveis.
A dinamização da rede de atenção visa mapear, divulgar e consolidar todos os programas, projetos e ações voltados para determinados grupos populacionais e/ou comunidades, com o intuito de fomentar a interação e a integração entre eles, articulando os diferentes setores e níveis de intervenção, facilitando a efetividade e o direcionamento das estratégias.
A Terapia Ocupacional Social utiliza as atividades como um recurso mediador do trabalho de aproximação, acompanhamento, apreensão das demandas e fortalecimento dos sujeitos, individuais e coletivos, para os quais direciona sua ação. A utilização da atividade permite assim o aprendizado e o reconhecimento de necessidades do sujeito e o desenvolvimento da capacidade deste para buscar soluções próprias e criativas para suas questões, torna a técnica dependente da interpretação e da apreensão da realidade e não o inverso (Barros, Ghirardi e Lopes, 2002).
As atividades permitem uma gama potente de ações, elas podem ser classificadas, compreendidas e aplicadas com distintos propósitos, tais como: a) a partir de técnicas intrínsecas (marchetaria, mosaico, dança, culinária, entre outros); b) uso e produção do material, recurso ou equipamento utilizado (cerâmica, fotografia, origami, papel reciclado, blog, entre tantas outras); c) pelos campos de saber em que são classificadas (artística, cultural, literária, esportiva, lúdica, de lazer, entre outras); d) pelas propostas antecipadamente elaboradas com temáticas e objetivos preestabelecidos (debates sobre perspectiva de vida, informação a respeito do mundo do trabalho, processos educativos acerca da rede de proteção da infância e
104 adolescência no município, entre outras); e) por serem ações cotidianas (usar o transporte público, estudar, alimentar-se, jogar futebol, entre outras); f) pelos diferentes sentidos e significados que os sujeitos em ação podem designar ou imprimir a partir de suas vivências pessoais, nesse caso, ainda que as propostas tenham indicações ou direcionamentos prévios, o interesse está na percepção individual que aquela determinada experiência proporcionou ao participante da ação.
Por intermédio desse instrumento de trabalho, sobre o qual o terapeuta ocupacional deve ter amplo domínio, pode-se conhecer o universo imediato dos sujeitos, ampliando significativamente a possibilidade de criação de vínculos e, a partir disso, gerar oportunidades para uma atuação profissional que contribua para a construção conjunta de planos e projetos de vida (Lopes et al, 2011b). A utilização dessas estratégias em grupos e coletivos denomina-se Oficina de Atividades, Dinâmicas e Projetos.
As oficinas são espaços constituídos por um agrupamento social nos quais são estabelecidas propostas relacionadas ao fazer, à ação humana, que promovem a aprendizagem compartilhada. Ressalta-se o caráter ativo do sujeito nesse processo assim como o caráter dinâmico dessas experiências relacionais: entre participantes, espaço, materiais, memória, sensações, enfim, entre tudo aquilo que esteja sendo efetuado no momento dessa vivência (Silva, 2007, p. 213).
Esse recurso usufrui do potencial formador e transformador da atividade, permite um contato aproximado com o público-alvo, a partir do qual se torna possível aprofundar a leitura das necessidades individuais, grupais e coletivas; também promove uma maior conexão e convivência, a experimentação de um espaço producente de sociabilidade e trocas, que pode transcender para um contexto mais amplo.
A Terapia Ocupacional Social empreende, pois, meios e tecnologias oriundas de seu corpo de conhecimento, a saber: a habilidade técnica de manejo de grupos, o conhecimento das dinâmicas de interações grupais, da relação do homem com o seu fazer e os diferentes papéis sociais que o fazer humano origina em cada grupo social ou comunidade (Reis, 2008, p. 8).
105 Para fundamentar e respaldar a utilização desse arcabouço teórico e metodológico utilizado não apenas como intervenção, mas como eixo estruturante para pesquisa, que resultou em maior aproximação com o jovem e seu entorno, será apresentado o conceito da objetivação participante70
(l‘objectivation participante) desenvolvido por Bourdieu (2003).
A objetivação participante seria a ―objetivação do sujeito da objetivação, do sujeito em análise, em suma, do pesquisador por ele mesmo‖ (Bourdieu, 2003, p. 43)71
. Trata-se de um procedimento metodológico, na contramão do pretendido pela ciência positivista, cujo pesquisador, sua pesquisa e suas análises não assumem um papel neutro. Aliás, visa integrar as atividades de pesquisa à realidade de um determinado local para uma intervenção interessada:
consiste em observar-se o observante, observar o observador em seu trabalho de observação ou de transcrição de suas observações, no e pelo retorno de suas experiências de campo, sobre o relato aos informantes e, por último mas não menos importante, sobre o relato de todas suas experiências (Bourdieu, 2003, p. 43-44).72 Essa proposição foi construída ao longo de sua trajetória como pesquisador, na qual há duas experiências muito significativas, tanto na Cabília da Argélia colonial de 1959-1961, quanto em Béarn, sua cidade natal, rural, no sudoeste da França. Segundo Wacquant (2006), essas experiências e o paralelismo entre elas definiram seu projeto científico, por duas razões: a primeira refere-se a utilizar o ―laboratório vivo‖ rompendo também com o paradigma estruturalista, direcionando o foco analítico da estrutura para a estratégia; a segunda, pois este olhar estrangeiro para seu próprio contexto e
70
Objetivação, segundo o dicionário Houaiss (2009), significa o ―ato ou efeito de objetivar‖, ou ainda, no
marxismo ―o processo por meio do qual o trabalho humano, transformando a natureza circundante, é materializado em objetos, o que pode ser empreendido conscientemente (...) ou de forma alienada‖. Já o verbo objetivar significa ―dar expressão a (uma noção abstrata, um sentimento, um ideal) numa forma que pode ser experienciada por outros‖, ou ―dar existência material‖.
71―l‘objectivation, du sujet analysant, bref, du chercheur lui-même.
72 ―celle qui consiste à s‘observer observant, à observer l‘observateur dans son travail d‘observation ou de
transcription de ses observations, dans et par un retour sur léxperiénce du terrain, sur le rapport aux informateurs et, last but not least, sur le récit de toutes ces experiénces‖.
106 história estimulou Bourdieu a traduzir sua inquietação existencial em relação à ―postura escolástica‖ 73
:
inquietação enraizada em suas disposições anti-intelectualistas herdadas de sua criação numa classe e numa posição etno-regional subordinadas, numa reflexão metódica sobre o próprio ato de objetivação, sobre suas técnicas e suas condições sociais, que preparou o caminho para elaborar e concretizar a atitude de reflexividade epistêmica
que é a marca de seu trabalho e de seu ensino (Wacquant, 2006, p. 14-15, grifo do autor).
Portanto, a relação dicotômica entre a objetividade e subjetividade se rompe, a vivência é transformada em maior acumulação de capital para produzir conhecimento científico. Para Bourdieu (2003), esta estratégia resulta em dupla aproximação, também em relação ao seu eu social e individual, com suas possibilidades e seus limites circunscritos na realidade.
A objetivação participante encarrega-se de explorar, não a ―experiência vivida‖ do sujeito do conhecimento, mas as condições sociais de possibilidade (seus efeitos e seus limites) dessa experiência e, mais precisamente, do próprio ato de objetivação. Ele visa objetivar a relação subjetiva com o próprio objeto, o que, longe de levar a um subjetivismo relativista e mais ou menos anticientífico, é uma das condições da objetividade científica (Bourdieu, 2003, p. 44) 74
.
Essa estratégia também está presente em seu trabalho Esboço de autoanálise75
; ao objetivar a sua história de vida, Bourdieu (2005) busca compreender tanto sua trajetória quanto os elementos da sociedade, ao reconhecer-se como um produto social da dinâmica sociocultural, enfim, a sua trajetória de vida como uma construção social. Uma singularidade que, ao ser gradativamente objetivada pelo
73
O sentido aqui empregado refere-se à postura de seguir uma doutrina de forma acrítica ou ortodoxa.
74
―L‘objectivation participante se donne pour objet d‘explorer, non ―l‘expérience vécue‖ du sujet connaissant, mais les conditions sociales de possibilité (donc les effets et les limites) de cette expérience et, plus précisément, de l‘acte d‘objectivation. Elle vise à une objectivation du rapport subjectif à l‘objet qui, loin d‘aboutir à un subjectivisme relativiste et plus ou moins antiscientifique, est une des conditions de l‘objectivité scientifique‖.
75
107 próprio autor, tornou-se uma ferramenta para a construção da objetividade científica no interior das ciências sociais.
A objetivação participante [...] é sem dúvida o exercício mais difícil de existe, porque requer a ruptura das aderências e das adesões mais profundas e mais inconscientes, justamente aquelas que, muitas vezes, constituem o ―interesse‖ do próprio objeto estudado para aquele que o estuda, tudo aquilo que ele menos pretende conhecer na sua relação com o objeto que ele procura conhecer. Exercício mais difícil, mas também o mais necessário (Bourdieu, 1989, p. 51).
A objetivação participante requer do pesquisador um distanciamento suficiente para que se possa exercer toda análise necessária da investigação, ao mesmo tempo em que a vinculação do pesquisador ao objeto de pesquisa seja intrínseca. Esse foi o caminho percorrido pela pesquisadora deste trabalho, que transitou entre interpretações e estudos capazes de revelar e sistematizar uma série de saberes a partir de sua própria prática e intervenção, estando estas imersas na realidade dos próprios jovens, da mesma forma em que apreendia todo contorno no qual se teceram seus percursos e suas trajetórias.
Figura 1 – Composição e articulação dos procedimentos metodológicos da pesquisa
Inserção como técnica e pesquisadora no campo Dinamização da rede de atenção Acompanhamen tos individuais e territoriais Articulação de recursos no campo social Oficinas de atividades, dinâmicas e projetos Trabalho coletivo Objetivação participante
108 Sendo assim, cada estratégia buscou aprimorar a intervenção que, por sua vez, foi fundamental para que todo material fosse apreendido e analisado, resultando nos procedimentos metodológicos da pesquisa (Figura 1). Cada componente possui determinada dinâmica, mas ao mesmo tempo interage e se articula com as demais estratégias.
Essa dinâmica buscou promover maior entendimento da composição de elementos importantes constitutivos do território, da história, dos atores, da rede social e de apoio, dos equipamentos, dos serviços e do cotidiano nele circunscrito. A proposta presumiu a imersão e o aprofundamento, sem os quais não seria possível apreender certas dimensões presentes nos percursos de vida dos jovens e ainda correlacioná-los a dimensões macrossociais contemporâneas.
Ressalta-se que, embora a busca e a necessidade de maior compreensão dos percursos e das trajetórias juvenis estivessem na direção do maior aprofundamento possível, esse intuito foi atravessado por necessidades e limites dos recortes – de tempo, de processos, de temáticas, de abstrações, de vinculações, de condições materiais concretas – sobretudo pela realidade e pelas intempéries da vida dos jovens.
As ausências, negações e dificuldades enfrentadas pelos jovens foram dados que novamente se traduziram e se retroalimentaram em material de pesquisa para possíveis interpretação e intervenção da realidade.
Os protagonistas do trabalho são quatro jovens, cujos percursos de vida e suas trajetórias escolares são apresentadas e compostas com sua rede de relações, seu contexto e outros elementos articuladores de suas histórias. Como define Bourdieu (1986), os estados sucessivos no campo, a partir das categorias de capital em que se constitui e opera, além de assumir uma história que, embora possa ser contada a partir de uma sequência histórica, não pode ser compreendida como um encadeamento linear de fatos e acontecimentos.
109
Os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos no espaço social, isto é, mais precisamente nos diferentes estados sucessivos da estrutura da distribuição das diferentes espécies de capital que estão em jogo no campo considerado. O sentido dos movimentos que conduzem de uma posição a outra (...) evidentemente se define na relação objetiva entre o sentido e o valor, no momento considerado, dessas posições num espaço orientado. O que equivale a dizer que não podemos compreender uma trajetória (...) sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente considerado – pelo menos em certo número de estados pertinentes – ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis (Bourdieu, 1986, p. 71-72, grifos do autor) 76
.
Pais (2005) propõe a técnica de pesquisa – trajetórias biográficas – associada ao conceito de juventude em consonância com sua diversidade, divergindo da história biográfica, que retrataria a história de vida num processo linear encadeada por uma sequência lógica de acontecimentos. A trajetória biográfica compreende essa fase da vida como um processo, como um conjunto de percursos ao nível de diferentes quadros institucionais, de diferentes espaços sociais, eles mesmos em constante mudança. Para o autor, é importante analisar as particularidades e singularidades das trajetórias, pois ―a vida não é apenas duração, mas também descontinuidade de actos, é necessário não desprezar a singularidade, o pormenor, o acidental‖ (Pais, 2005, p. 16).
As técnicas de pesquisa que retratam as histórias de vida, as biografias e trajetórias individuais e de grupos são muito difundidas e utilizadas há décadas nas ciências humanas. No Brasil, Gilberto Freyre, já na década de 1930, apresentava a vida do outro como um dado a ser vivido pelo próprio investigador; entretanto, foi na
76―Les événements biographiques se définissent comme autant de
placements et de déplacements dans l'espace social, c'est-à-dire, plus précisément, dans les différents états successifs de la structure de la distribution des différentes espèces de capital qui sont en jeu dans le champ considéré. Le sens des mouvements conduisant d'une position à une autre (d'un poste professionnel à un autre, d'un éditeur à un autre, d'um évêché à un autre, etc.) se définit, de toute évidence, dans la relation objective entre le sens et la valeur au moment considéré de ces positions au sein d'un espace orienté. C'est dire qu'on ne peut comprendre une trajectoire (c'est-à-dire le vieillissement social qui, bien qu'il l'accompagne inévitablement, est indépendant du vieillissement biologique) qu'à condition d'avoir préalablement construit les états successifs du champ dans lequel elle s'est déroulée, donc l'ensemble des relations objectives qui ont uni l'agent considéré — au moins, dans un certain nombre d'états pertinents — à l'ensemble des autres agents engagés dans le même champ et affrontés au même espace des possibles‖ (Bourdieu, 1986, p. 71- 72).
110 década de 1970 que os temas adquiriram maior relevância no cenário da pesquisa nacional.
Na educação brasileira, o tema recebe influência dos estudos sociológicos, antropológicos e psicológicos e, a partir da década de 1980, surgiram inúmeros trabalhos com essa temática. Para Josso (1999), os procedimentos de histórias de vida, nas pesquisas educacionais, parecem articular dois tipos de objetivos teóricos; de um lado, o deslocamento do posicionamento do pesquisador mediante um refinamento de metodologias de pesquisa; de outro lado, buscam as contribuições do conhecimento dessas metodologias ao projeto de delimitação de um novo território de reflexão que abarca a formação, a autoformação e suas características, assim como os processos de formação específicos com públicos particulares77
.
Segundo Sposito (2009), 40% das teses e dissertações na área de educação se voltaram para as trajetórias escolares dos jovens, dentre a produção acadêmica sobre a juventude, na pós-graduação brasileira durante o período de 1999 a 2006. As descrições dos trabalhos acadêmicos a seguir retratam parte dessa produção.
Sant‘anna (1999) examina a trajetória e a construção de projetos de vida de um grupo de cinco jovens negras em suas redes de relação, sociabilidade e campos de possibilidade. Aponta que as condições socioeconômicas desfavoráveis marcam a