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Introduction du chapitre 5

5.2 Impulsions composites magiques

Após a conclusão do curso em Direito, António Lino Neto procurou uma situação profissional mais consistente. Duas hipóteses se lhe colocaram: a de se doutorar e de seguir uma carreira académica na Universidade de Coimbra e a de encontrar colocação como secretário-geral de um Governo Civil. Frederico Laranjo escreveu-lhe sobre ambas as hipóteses, incentivando-o e dando-lhe conta que o recomendara a personalidades influentes como José Luciano de Castro251, o líder do Partido Progressista. Não era a primeira vez que Luciano de Castro tomava conhecimento das expectativas e acções de António Lino Neto. Já em Maio de 1895 o recomendara a uma personalidade de Coimbra, Bernardo d’Albuquerque252.

O primeiro emprego de António Lino Neto após a conclusão da licenciatura foi na administração pública, ao ser nomeado, a 8 de Março de 1900, mediante a prestação de provas públicas, para secretário-geral do Governo Civil de Beja, donde foi transferido, a 5 de Outubro desse ano, a seu pedido, para o lugar de secretário-geral do Governo Civil de Portalegre. Em 1902 publicou Analyse e Crítica do novo código de

posturas do concelho de Abrantes253. Trabalhou como secretário-geral no governo civil de Beja e Portalegre, funções que desempenhava a par do exercício de advocacia e de uma colaboração regular no Distrito de Portalegre a partir do início de 1900. Frederico Laranjo adquiriu este periódico em 1889 e passou a dirigi-lo politicamente a 25 de Setembro desse ano254. A partir de 1898, data em que Frederico Laranjo passou da câmara dos deputados para a câmara dos pares, o notável progressista diminui a sua actividade político-partidária a nível distrital255. A análise da correspondência entre o par do Reino e António Lino Neto sugere-nos que este é um elo de ligação entre Frederico Laranjo e a vida política no distrito de Portalegre. António Lino Neto mantém-se fiel às relações da sua terra de origem, Mação, e era considerado neste concelho uma figura influente do Partido Progressista.

251 PT/UCP/CEHR/AALN/D/F/01/166/03, fl. 1.

252PT/UCP/CEHR/AALN/B/01/01, fl. 3. A documentação consultada não nos permite apurar o motivo

desta recomendação.

253 António Lino Neto, Analyse e Crítica do novo código de posturas do concelho de Abrantes, Abrantes,

Typ. de Hermano Dias Ferreira, 1902.

254 António Ventura, José Frederico Laranjo (1846-1910), Lisboa, Colibri, 1996, p. 40. 255 António Ventura, José Frederico…, p. 56.

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A 17 de Outubro de 1901, António Lino Neto casou com Matilde da Cruz Antunes de Mendonça, irmã de Francisco Antunes de Mendonça, condiscípulo do cunhado em Coimbra, filha de Antunes Mendonça, um industrial de Lisboa, e de Gertrudes Salvador Mendonça. Frederico Laranjo desempenhou a delicada missão de pedir a mão da noiva em casamento. O acontecimento foi anunciado em O Distrito de

Portalegre a 19 de Junho de 1901:

«Dr. Lino Neto – Este nosso querido amigo vai em breve ligar-se pelo matrimónio a uma senhora distinta e bondosa pertencente à família do abastado industrial de Lisboa sr. Antunes Mendonça. (…) A noiva é ex.mª sr.ª D. Matilde Antunes de Mendonça. Não a conhecemos pessoalmente. Mas pelas informações fidedignas que dela temos sabemos que é uma senhora ilustradíssima e extremamente bondosa e afável. Do noivo, por felicidade temos pleno e íntimo conhecimento. E não somos só nós que o temos. Todos sabem que se trata do autor dos brilhantes artigos de política internacional que há tempo se têm vindo a publicar no nosso semanário. Todos sabem que é de um licenciado em Direito que na sua curta carreira de funcionário público e de advogado distinto tem sobejamente afirmado o seu valor e gravado em documentos a envergadura das suas poderosas qualidades intelectuais. Todos sabem, enfim, que se trata de um orador fluente e empolgante, de um trabalhador infatigável, de um carácter cristalino de onde brota a jorros de lealdade e cavalheirismo que se vão tornando lendários à força de repetição dos seus actos meritórios. Não podemos, pois, antever neste auspiosíssimo enlace senão ventura. As qualidades diamantinas dos noivos são garantia mais que suficiente para que possamos ter a certeza de que hão de realizar sobremaneira as legítimas aspirações das suas almas puras. É o que sinceramente, ardentemente lhes anelamos»256.

O casamento foi celebrado, pelo cónego Cruz Caldeira, na igreja da Madalena, em Lisboa. Os recém-casados foram viver para Portalegre, onde nasceram os quatro primeiros filhos, José Francisco Xavier257, em 1903, Maria Gertrudes258, em 1905, Joaquim Maria259, em 1906 e Maria Teresa260, em 1908. A participação de António Lino Neto na vida da cidade em actividades profissionais, políticas e cívicas foi múltipla: em 1902 tornou-se secretário-geral do Distrito de Portalegre; em 1905 tomou posse da cadeira de inglês do liceu da cidade; a 18 de Dezembro de 1906 foi nomeado presidente da Junta dos Repartidores no Concelho de Portalegre; em 1907 integrou o conselho central da Associação Protectora dos Pobres. Neste período foi ganhando reputação e reconhecimento como advogado: publicou, em 1903 e 1904, dois opúsculos

256 Distrito de Portalegre, 19 de Junho de 1901, p. 1.

257 Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa e foi director da Conservatória do Registo da

Propriedade Automóvel de Lisboa.

258 Casou com Vergílio Arruda, licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa e director do Correio

do Ribatejo.

259 Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa. Teve uma relação próxima com o pai, vindo a

desempenhar durante algum tempo funções de secretário pessoal.

260 Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Coimbra e foi freira da ordem religiosa de

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a propósito das questões jurídicas relacionadas com a herança de Maria Luiza Fernandes261. A 2 de Abril de 1907 comprometeu-se por carta a intervir como advogado na «questão de Barbacena», diferendo entre o povo de Barbacena apoiado pelo seu pároco e o proprietário Rui de Andrade acerca do direito de uso comunitário de terras. Foi uma causa célebre que agitou a opinião pública local e até nacional nos últimos anos da monarquia e primeiros da I República. Desde 1906 que António Lino Neto, através do pároco de Barbacena, Neves Correia, se encontrava envolvido com o caso que acompanhou regularmente de um ponto de vista jurídico, como advogado da junta paroquial, que, a partir de 1908262, foi ré no caso.

Estreou-se como agente do Ministério Público a 30 de Janeiro de 1906, em audiência na comarca de Abrantes, facto que foi noticiado não só na imprensa regional – O Echo do Tejo e O Distrito de Portalegre – mas também na imprensa de âmbito nacional – O Século e o Diário de Notícias.

O Distrito de Portalegre inseria pequenas notícias sobre o seu colaborador que nos permitem reconstituir os seus passos. António Lino Neto deslocava-se com uma certa frequência a Lisboa, onde viviam os sogros263. Aproveitava algumas dessas deslocações para ouvir ópera, tendo ficado especialmente impressionado com o Otelo de Verdi e o Loengrin de Wagner264. Outras notícias dão-nos conta da relação entre a mobilidade e a sua vida familiar e profissional: em 1904 foi a Gavião pedir a mão de Maria José Leitão para casar com o seu irmão, José Lino Neto; em 1906 deslocou-se a Abrantes por causa das suas funções como agente do Ministério Público; em 1907 o exercício da advocacia levou-o a Mação. Frequentava Castelo de Vide, a terra natal de Frederico Laranjo e onde ele mantinha uma intensa actividade associativa, e Coimbra, onde ambos se formaram. Passava as férias de verão na Ericeira, em Mação ou na praia da Âncora. Em Maio de 1908 visitou Badajoz com a família.

261 I – Inventário de D. Maria Luiza Fernandes, comarca de Portalegre. Peças de defeza do cabeça de

casal sr. dr. Joaquim de Araújo Juzarte e coherdeiros, Portalegre, Typographia Fragoso & Leonardo, 1903; I – Inventário de D. Maria Luiza Fernandes, comarca de Portalegre. Crítica do respectivo processo; valores extranhos ao casal encontrados na herança; deixas para pobres; legados a santos; capellas; etc., Portalegre, Typographia Fragoso & Leonardo, 1904.

262 Margarida Sérvulo Correia, O Caso de Barbacena. Um pároco de aldeia entre a Monarquia e a

República. Ver nesta tese o ponto 4.4.

263 Entre 1901 e 1908 são relatadas 13 deslocações em O Distrito de Portalegre.

264 O Distrito de Portalegre, 31 de Janeiro de 1901, p. 1-2. Sobre o Loengrin escreveu: «a nós, um leigo

em matéria de música, provocou a absorção panteísta do nosso espírito, atirando-nos, desvairado, para um doce aniquilamento…».

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3.1.1. Encontro em Portalegre com António Sardinha

Foi em Portalegre que António Lino Neto conheceu um adolescente atormentado que marcou o panorama intelectual do século XX ao transitar do republicanismo para o tradicionalismo: António Sardinha (1887-1925). O ideólogo do integralismo lusitano recordou mais tarde o encontro, por volta de 1901, com António Lino Neto que, com exagero, considerou um dos seus mestres: «Eu não escrevo o nome de António Lino Neto sem uma certa emoção. Lembra-me ele os meus começos literários num apagado liceu de província, quando com o aflorar da adolescência despertavam em mim as primeiras tentações da publicidade. Foi António Lino Neto quem então me acolheu com palavras de incitamento e de conselho, não me tendo ainda esquecido dessa hora em que importunamente o roubei aos seus hábitos de monge laborioso para lhe confiar o plano de um livro, - do livro com que nós sonhamos aos quatorze anos e que é a miragem eterna atrás da qual corremos depois pela vida fóra. Mais tarde, já de posse uma tendência mental, o meu pensamento viria a estabilisar-se no sentido em que a obra de António Lino Neto se ilumina toda»265. O artigo tenta apropriar-se da obra da figura elogiada ao considerar António Lino Neto um renovador, conceito que contrapõe ao de conservador, e o autor de uma obra «animada da mais pura filosofia contra revolucionária». A distinção entre categorias não era adoptada pelo próprio António Lino Neto, que por diversas vezes se auto-designou como conservador. É uma classificação vaga, mas coerente com uma atitude propensa a compromissos com as instituições vigentes e reformas e não a rupturas institucionais, quer no sentido revolucionário, quer no sentido contra-revolucionário. As diferenças de atitude entre Sardinha e Lino Neto reflectem-se no estilo de cada um: iconoclasta o primeiro; formal, quando não solene, o segundo. O registo destas diferenças não exclui a influência do secretário geral do governo civil de Portalegre sobre o estudante adolescente. No citado artigo, António Sardinha identifica dois elementos que são basilares na obra de António Lino Neto – o catolicismo e o municipalismo – e que os integralistas da primeira fase aceitaram como pilares da sua ideologia contra-revolucionária. É muito provável que as conversas entre o homem em início da vida activa e o adolescente numa pacata cidade de província versassem sobre temas religiosos e tradições municipais e que levassem Sardinha a formar ideias sobre estes assuntos. O afecto público do intelectual integralista pelo católico centrista é coerente com a atitude de António Sardinha de, no

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campo do integralismo lusitano, não só defender António Lino Neto face a ataques pessoais de católicos monárquicos, mas também de propor uma estratégia de valorização dos interesses comuns e das afinidades ideológicas entre o integralismo lusitano e o Centro Católico Português, enfrentando as antipatias e críticas de outros integralistas, como José Pequito Rebelo, ao CCP e ao seu presidente.

A relação entre António Sardinha e António Lino Neto deve ser compreendida à luz do meio social de que ambos provêm e de afinidades biográficas. A seguinte descrição da família Sardinha pode aplicar-se à de Lino Neto: «Há muito implantada no Alentejo e, concretamente, no eixo Monforte-Portalegre-Elvas-Assumar-Arronches, não difere esta família da dos modelos da burguesia provinciana de finais do século XIX. Ligada à terra desde sempre, ilustra-se esta, ao longo de várias gerações, no exercício da vereação e no de cargos médios e superiores do funcionalismo»266. Tal como no caso do nosso biografado, a situação financeira da família de António Sardinha ficou fragilizada com a morte do pai deste, José Maria da Silva Sardinha (1851-1904). Foi uma perda que agravou um processo de empobrecimento familiar desde a década de 1890 devido a maus anos agrícolas e a erros de gestão patrimonial. O jovem Sardinha passou por uma crise radical que lhe deixou traços de ressentimento face ao meio social mesquinho de Monforte e que o conduziram a uma tentativa de suicídio aos 14 anos267, precisamente a idade de que recorda as conversas reconfortantes e encorajadoras com António Lino Neto. Ultrapassada a crise, entrou na Universidade de Coimbra e, mais uma vez, o perfil social do caloiro possuía afinidades com o de António Lino Neto: «um jovem provinciano oriundo de um meio desprovido de real capital económico, mas munido não obstante de algum capital sociocultural, de alguma visibilidade local»268.