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Refletir sobre conhecimentos aqui está relacionado à tentativa de discutir sobre as formas com que são reunidas e identificadas as noções sobre as condições das águas, no sentido de que para levar as pontuações sobre as relações presentes nos conteúdos por nós identificados sobre as águas, passamos a observar que, ao menos, deveríamos ponderar sobre a construção de conhecimentos.

Nesse aspecto, buscamos a obra de Tim Ingold “Estar Vivo, ensaios sobre movimento conhecimento e descrição” (2015), em que o autor recupera conceitos para apontar para as possibilidades de pensar as antropologias da vida. No prólogo, o autor nos apresenta as condições em que em foram pensados os conceitos e como foram construídos na interpretação dele. Mas salienta que a expectativa de trabalhar com os três termos que compõem o título foi minada durante a construção do mesmo, dada a percepção de que “Revendo meus esforços em restaurar a antropologia à vida, eles parecem recair em aproximadamente quatro fases, cada uma das quais gira em torno de um único termo- chave.” (INGOLD, 2015, p. 26).

As quatro fases apontadas pelo autor são: produção; história; habitar e linhas; verificadas enquanto conceitos trabalhados por outros autores. Assim, em produção, indica processos de produção da humanidade, e propõe uma simples inversão de leitura, em que a humanidade produz na agricultura e nos pastos, pensando que são as plantas e os animais que também produzem a humanidade. Sobre a história, por exemplo, identifica que a não separação de natureza e cultura levaria a outras considerações sobre a história e não somente à divisão entre história com H maiúsculo e h minúsculo. Ao falar sobre a habitação, busca compreender a habitação enquanto atividades e fenômenos ligados não somente a morar, mas existir em um lugar e, por último, aponta as inquietações sobre as linhas, em que trabalha a ideia, que nos fez acionar esse texto, sobre a organização das coisas, em que apresenta um exemplo sobre a composição de um rio. E nos diz:

Para recuperar o rio, precisamos mudar nossa perspectiva de relação transversal entre objetos e imagens para as trajetórias longitudinais de materiais e de conscientização. Lembre-se da ideia de Hagerstrand de que tudo o que existe, lançado a corrente do tempo, tem uma trajetória de devir. O entrelaçamento de trajetórias que sempre se estendem compreende a textura do mundo. Se a nossa preocupação é habitar este mundo ou estudá-lo – e, no fundo, as suas coisas são as mesmas, uma vez que todos os habitantes são estudantes e todos os estudantes habitantes – a nossa tarefa não é fazer um balanço do seu conteúdo, mas seguir o que está acontecendo, rastreando as múltiplas trilhas do devir, aonde quer que elas conduzam. Rastrear esses caminhos é trazer a antropologia de volta à vida. (INGOLD, 2015, p. 41). Ingold (2015), ao recuperar elementos que podem ser acionados para refletir, não só sobre a construção de conhecimentos, mas sobre os agenciamentos presentes durante o processo da vida, revela-nos as implicações sobre pensar e discutir o/s conhecimento/s enquanto uma formação de demanda e elementos presentes no existir, de modo de que a tentativa de levantar as práticas de conhecimento é reforçada no empreendimento de buscar compreender igualmente as formas que são acionadas sobre as águas. E o exemplo utilizado pelo autor, que fala sobre a recuperação de um rio, nos inspira a ter a mudança de “nossa perspectiva da relação transversal” (INGOLD, 2015, p. 41) em mente.

Desse modo, cabe identificar também as noções sobre a construção do conhecimento científico que são elaboradas por autores relacionados às discussões dos estudos da ciência em sociologia, antropologia e filosofia, enquanto recursos equivalentes para o levantamento das críticas sobre a construção do conhecimento especificamente vinculado a especificações tecnocientíficas.

A investigação sobre as noções sobre as condições das águas nas práticas de conhecimento permite retomar a discussão feita pela antropóloga britânica Marilyn Strathern (2014), no capítulo “Efeito Etnográfico”, na edição brasileira que leva o mesmo

nome, que discute sobre os processos de construção de conhecimento que serão analisados pelos antropólogos. Acionarei o conceito para apontar as diferentes posturas observadas em relação às diferentes experiências de campo, efetuadas de variadas formas e em diversas condições, e, a partir de uma proposta de desenvolver o que a autora trabalha em relação às formas de apreensão e exposição dos conhecimentos. Entenderei as controvérsias com uma perspectiva que dialoga com a investigação sobre as condições das águas no contexto do pós-rompimento da barragem de rejeitos.

Outra forma de evidenciar os processos de construção de conhecimento utilizada enquanto inspiração para o desenvolvimento da análise está relacionada às colocações de Stengers (2015), em “No tempo das catástrofes”, em que a autora fala de um futuro que não seja bárbaro, e sobre como observar as formas de criar no mundo,

[...] aqueles e aquelas que optaram por desertar, por fugir dessa “guerra suja” econômica, mas que, “fugindo, procuram uma arma”, como dizia Gilles Deleuze. E aqui, “procurar” quer dizer, antes de tudo, criar, criar uma vida “depois do crescimento econômico”, uma vida que explora conexões com novas potências de agir, sentir, imaginar e pensar. (STENGERS, 2015, pp. 14- 15).

Buscando as formas de agir, sentir, imaginar e pensar, passamos a evidenciar os processos de construção do conhecimento sobre as condições das águas, apontando ainda para a forma de analisar trabalhada por Almeida (2013), ao tratar dos conflitos sobre a caça, “A moral da história é que há também relatividade ontológica na interpretação de encontros pragmáticos com a caça. Ontologias – Caipora podem ser comparadas sob o ponto de vista pragmático como ontologias científicas e com seus modelos.” (ALMEIDA, 2013, p. 20). Logo, observar os conflitos ontológicos é importante para pensar os contextos em que são encampadas disputas, nesse caso, para refletir sobre as condições das águas fluviais e oceânicas.