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“Prezado Mestre Nô, Espero que esta carta possa encontra-lo e a toda sua família com saúde, paz e tranquilidade material. Estou em Boa Vista, Estado de Roraima”... “aceitei o desafio de vir para o outro extremo do País;”... “Desde que cheguei logo tratei de me familiarizar com a comunidade capoeirística local. Existem três grupos e vários capoeiristas...” ... “Acho que o papel do “EDUCADOR” seja lá qual for a técnica que utilize como método educacional este (o papel)deve ser o de construir uma personalidade forte, positiva e dentro da realidade nos seus “alunos” ou “discípulos”. O mundo nos cobra uma postura de autoconhecimento,

de segurança no que se faz ou se propõe.” Acervo Pessoal de Norival Moreira de Oliveira – Mestre Nô

Além das correspondências, um modo que encontrou foi realizar viagens para ensinar e avaliar nos núcleos de trabalho anualmente. Além disso, uma vez ao ano Mestre Nô passou a realizar um Seminário para que os responsáveis pelos trabalhos pudessem se encontrar todos em Salvador a fim de realizar um espaço de formação e avaliação com o Mestre. Estes Seminários contavam também com a presença de Mestres convidados como João Pequeno,

Bobó, Ferreirinha, Bom Cabrito, Canjiquinha, Paulo dos Anjos, Mala, Curió que também participavam da avaliação dos alunos.

Em 1986, viajei para Florianópolis levado pelo Contramestre Alemão. Viajei pra Florianópolis, aonde lá também comecei a desenvolver um trabalho muito bonito e muito grande. Muito bom o trabalho lá. Fiquei nos dois, em Florianópolis e Rio Grande do Sul. Com esses dois trabalhos, coordenando e ensinando.

Do Rio Grande do Sul se estendeu para Florianópolis, e ai,… de lá para Sergipe, Estado de origem do Mestre Macaô.

Eu visitei a Paraíba, em 1986, onde eu fui convidado para conhecer o trabalho do Mestre Sábia, na época, capoeirista Marco Batista.

Na Paraíba, a Capoeira tava muito mal. Uma bagunça muito grande. Tava igual um monstrinho que a cabeça tá no lugar do pé, os braços tão no lugar da cabeça, tudo trocado, orelha no lugar dos dedos - risos-. Na ocasião a Capoeira tava assim na Paraíba. Eu organizei tudo. Toda a Capoeira da Paraíba. Dei uma roupagem muito boa. Uma direção muito boa. Lapidei os praticantes mais velhos que tinham lá. Classifiquei eles gradativamente pra a partir dali desenvolver um trabalho. E realmente isso aconteceu. Melhorou o nível deles com os contatos constantes comigo. Quase todos os Mestres da Paraíba participaram desses trabalhos aceitando os meus ensinamentos. Eles cresceram e amadurecera. Hoje em dia realmente veneram muito a minha pessoa. Justamente por esse respeito que eu sempre tive com eles, com meus ensinamentos e com essa organização minha.

Em seguida, fui até Maceió, onde lá implantei também o Grupo de Capoeira Angola Palmares, através do Mestre Tônico, um aluno que treinou comigo desde criança e que tinha mudado para lá. Então… deu continuidade, começou a ensinar ainda muito novo, mas com minha supervisão, minha orientação. E posteriormente, ele foi convidado para ser avaliado como professor em Salvador e pegou a graduação de professor.

Depois implantamos o trabalho em Campina Grande, na Paraíba. E, de lá, fomos até João Pessoa, aonde eu fiz também uma avaliação de todos os capoeiristas e implantei também o trabalho do Grupo Capoeira Angola Palmares para que eu ficasse mais a vontade, para que me sentisse em casa, sendo uma extensão do meu trabalho.

Não foi fácil desenvolver um trabalho em longa distância. Sem que tivesse a minha presença. Precisa que busque muito na cabeça para que a pessoa encontre uma fórmula de ensinar realmente os alunos. Ensinar sem enganar. Assumindo a responsabilidade. Então não é fácil. Mas eu descobri as fórmulas legal. Ótimo!

Eu fiquei sendo convidado anualmente por conta do meu trabalho como Grupo de Capoeira Angola Palmares. Eu ia uma vez por ano, mas os contatos permaneciam constantes, através de telefone e, depois, através dos principais virem aqui em Salvador onde eu ministrava um curso. Um curso pra todos eles, aqui na ilha inclusive. Eu ministrava um curso com todo o conteúdo. Eles levavam e tinha o material suficiente pra trabalharem com os alunos. Foi uma das fórmulas que eu encontrei de ajudar eles. E realmente surtiu efeito (MESTRE NÔ, 2017). Outro passo importante para a realização de seu projeto de estender seus ensinamentos com o Grupo Capoeira Angola Palmares foi sua participação no Festival Nacional de Artes Negras em Atlanta, nos Estados Unidos em 1990. Segundo o Mestre conta, foi o Prof. Dr. Kenneth Dossar, pesquisador do Grupo Estudos Afro-Americanos da Universidade da

Pensilvânia e ativista do Movimento das Artes Negras, quem produziu a lista dos participantes para integrar a comitiva de Mestres no festival. Foram convidados os Mestres Nô, João Grande, Lua de Bobó, Cobra Mansa e Moraes.

O professor Dossar ouviu falar de Mestre Nô a partir do contato que fez com os Mestres Loremil e Jelon em 1978, para um roteiro de um programa televisivo para jovens. Em 1983, em sua viagem à Salvador, conheceu Mestre Nô.

Em 1990, tivemos em Atlanta, no sul do nosso país, um festival chamado Festival Nacional de Artes Negras. Escrevi a proposta para trazer mestre João Grande, Lua de Bobó, Nô, Morais e Cobrinha de novo. Lá fizemos palestras e workshops outra vez. ... a capoeira pra o povo americano é uma coisa assim, uma visão da cultura negra, a força negra, do povo, coisas assim. Também ninguém sabia que os negros tinham uma arte marcial... Tudo começou como Movimen to das Artes Negras que teve início em 1980. O objetivo era descobrir nossa cultura no mundo, principalmente lá nos Estados Unidos. Mas alguns de nós tivemos uma visão de pesquisar em Cuba e alguns, no Brasil. Ao mesmo tempo, Mestre Jelon estava lá e sempre teve respeito à sua cultura negra. (KENNETH DOSSAR apud CORREIA LIMA, 2016, p. 117).

Parte da peça encaminhada ao Governo Americano solicitando entrada no país – 1990