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Não podemos esquecer que quem passou a responsabilidade da Roda da Gingibirra para Mestre Pastinha, fo i o guarda civil Amorzinho. Se, a relação entre os Capoeiras e a polícia era conflituosa até metade do século

eles, trata da própria disposição daqueles que hoje são parte desta tradição periférica mas, que terminaram por incorporar o discurso oficial em sua prática, mantendo na invisibilidade aspectos de sua própria tradição. Para estes, os obstáculos são imensos, mas, não intransponíveis.

Em primeiro lugar, toda a história conhecida da Capoeira soteropolitana da metade do século passado pouco fala de personagens e de suas histórias fora do centro histórico. Isso porque as fontes de pesquisa na maioria se resumem a arquivos policiais e jornais de época. Além disso, também nesse período crescia e se fortalecia uma compreensão de Capoeira como folclore. Isso influenciou e restringiu ainda mais o olhar para a Capoeira e os praticantes do centro, local onde estavam os turistas.

Não por acaso, diversos Mestres a procura de melhores condições e visibilidade, saíram dos bairros da periferia e vieram desenvolver trabalhos montando grupos de Capoeira ou grupos folclóricos nas proximidades ou no próprio centro histórico. Caminho que Mestre Nô percorreu a fim de conhecer as estratégias destes Capoeiras, e o levou a se aproximar de Mestre Sena e sua academia Senavox.

Com os documentos oficiais que tratam da Capoeira da metade do século passado se referindo apenas as experiências do centro, um caminho possível é ir às memórias dos Velhos Mestres. Porém, isso apenas agora começa a ganhar visibilidade quando novos pesquisadores e praticantes passam a questionar a história da Capoeira e criticar antigos mitos, como por exemplo, o mito do N‖golo para origem da Capoeira (ASSUNÇÃO, 2015, p. 183-202) e a hegemonia da tradição pastiniana.

Obter contrapontos à estas histórias nas memórias dos Velhos Mestres também não é tarefa fácil, porque na maioria dos casos os Mestres que se mantiveram na Capoeira de algum modo absorveram este processo ainda que distantes. Assim, suas primeiras falas, por diversos motivos, pouco acrescentam sobre as Capoeiras realizadas fora do centro e, quando o fazem, são carregadas do local de onde falam atualmente, o que não poderia ser diferente. Assim, é preciso buscar nas narrativas os detalhes, diferenças e contraposições que escapam à história oficial. Para isso é preciso também ir aos Mestres menos conhecidos. Uma tarefa urgente e necessária.

A construção ideológica da Capoeira do centro da cidade e da escolha de seus principais divulgadores foi tão forte que ainda hoje é difícil romper com a noção de uma determinada estética da Capoeira Angola. Mestre Nô define 1980 e 81 como o ano em que a Capoeira Angola sofreu um ―golpe‖, tendo seus idealizadores promovido uma ―caça‖ aos Mestres com o objetivo de ―promover e resgatar‖ a Capoeira Angola. Esse projeto executou uma

padronização sobre os elementos tradicionais embasados em uma única perspectiva, uma leitura específica e particular dos princípios organizativos do Centro Esportivo de Capoeira Angola, da época de Mestre Pastinha e de seu pensamento. Uma leitura específica e particular porque, enquanto alguns fundamentos foram escolhidos, outros foram abandonados, apresentando novos rumos para Capoeira Angola. Esses saberes passaram a ser divulgados durante a década de 80, 90 e ainda na virada do milênio, principalmente fora de Salvador, no Brasil e no mundo, como a Capoeira Angola tradicional.

O ofuscamento da tradição Angoleira da Periferia teve consequências na prática dos Capoeiras desta região, que em grande medida tiveram suas práticas modificadas por esta tradição. Como desdobramento, outras experiências de Capoeira Angola tão significativas do ponto de vista cultural quanto do CECA quase foram sentenciadas ao esquecimento, não fossem alguns Mestres que se preocuparam em manter e ensinar o que aprenderam com seus Mestres. Algumas práticas incorporaram certos fundamentos próprios do centro para manterem-se como Angoleiros, como a inclusão ou exclusão de movimentos, rituais da Roda, indumentária e nomenclaturas. Outros optaram em manter suas práticas Angoleiras sem o uso do nome Capoeira Angola por não se compreenderem praticantes do ―estilo tradicional‖ de Mestre Pastinha. Entre eles, Mestre Nô, que no final da década de 70, cria a Academia Palmares da Bahia e retoma o termo apenas no início dos anos 90 com o Grupo Capoeira Angola Palmares.

Qualquer pessoa que se desloca de qualquer lugar do mundo e vem aqui para Salvador, vai para onde? Vai para periferia? Vai lá pra Beirut? Pro bairro da Paz? Sussuarana?! Hum... Deus é mais! Não! Vai para o centro! Já vem de lá: “- Vai pro Pelourinho.” Já vem a seta indicando Pelourinho, que é o centro. Centro é o centro. E lá, de um lado estava Mestre Bimba e, de outro, estava Mestre Pastinha. Pt saudações para o resto, acabou. Então, nós sofremos muito. Mas também agradecemos a Deus porque nós temos sido divulgados ao mundo por alguns. Agora nós temos nossas vozes e elas jamais se calarão.

Graças a Deus que alguém teve condições de tirar foto. Porque na época ninguém tinha máquina. Quem tinha máquina, pelo amor de Deus?! Não tinha! E lá na periferia eles diziam assim: “- Se você for pra lá, para a invasão, eles vão roubar tudo seu.” Por isso a coisa foi dessa forma e só apareceu somente, quem estava melhorzinho.

O pessoal da Angola sempre me discriminou. Sempre me discriminaram. É como tá até hoje. Quando chega um ignorante daqueles pra falar que Capoeira Angola só tem cinco golpes – risos indignados -. Descarado! Quando a Capoeira Angola é infinita. Ela é infinita. Criativa. Quem tem uma quantidade limitada de movimentos e golpes é a Capoeira Regional. Ela foi feita. Eu conheço todos os golpes da Capoeira Regional. Eu conheço. Tem golpes que você nunca ouviu falar. Já ouviu falar de bochecho?! - risos -. Os caras tinham a mão desse tamanho, pegavam na cabeça do outro e faziam assim...Tem muitos golpes de Capoeira Regional que eu conheço, que aprendi com esses homens na convivência com eles. E, eu mostrava de Capoeira Angola a eles e eles ficavam impressionados.

O chapéu de coro, inclusive você não vê ninguém fazer em Capoeira Angola. E quando vai fazer eles vão dizer: “- Isso ai é de Regional.” Então é um ignorante. Porque o que é deles, eles desconhecem e ignoram. O chapéu de coro, uma folha seca, o vôo do morcego. Qual é deles que faz isso? E se você vai fazer isso na academia de um cara desses, ele vai dizer: “- Ah!... Vai botar coisa de Regional aqui dentro.” Então, se eu aprendi foi pra usar.

Eu vou falar a verdade eu sou desbloqueado capoeiristicamente. Aqui na Bahia, principalmente em Salvador, não se pode falar de Capoeira Angola sem falar de Capoeira Regional e vice e versa. Os dois andam juntos de braços cruzados. Não adianta. Por que existe realmente um compadre/comadre, que não tem como tirar. Se tentar se isolar vai ver que lá na frente vai falar. “- Não... É porque o Bimba... - Não... É por que Pastinha...” É porque pela disputa pelo espaço do centro histórico dali do Pelourinho competia Bimba e Pastinha academicamente. E folcloricamente Caiçara e Canjiquinha. A madeira descia nos dois. E o Waldemar com os berimbaus. E o Bimba queimava também o Waldemar com os berimbaus. Então acontecia tudo isso. O único que teve sucesso na criatividade, na construção de alguma coisa pra Capoeira, foi Mestre Bimba que criou a Regional. Foi o único.

Capoeira Angola já vem desde seus princípios morais, muito antes dos Mestres da segunda ou terceira geração anterior a minha, muito antes. A Capoeira Angola foi uma formação. O nome Angola foi dado assim, mas a Capoeira sempre foi uma só.

O Bimba foi Angoleiro também. Então foi uma polêmica muito grande que eu não entro, nunca entrei. O Bimba foi o único que teve o privilégio de criar a Capoeira Regional. Suassuna inventou o miudinho, e se alguém inventou o contemporâneo, não é nada mais nada menos do que um segmento do que já foi feito. Ninguém inventa o que já foi feito. Apenas isso. É o meu conhecimento. Eu não poderia falar somente da Capoeira Angola sem falar da Capoeira Regional, porque é nossa realidade aqui. É a construção da Capoeira em geral, aqui em Salvador, no Recôncavo Baiano e no mundo. É daqui pro mundo. É a realidade. Justamente por conta do golpe, aproximadamente 1980 e 81, que eu passei a ser incomodado por conta disso. Porque na arrumação do meu escudo eu achei melhor colocar Capoeira Palmares. Mesmo porque, porquê colocar Angola? Eu sou Angoleiro. Eu sou Angoleiro e vou ensinar a Capoeira Angola. Não é preciso colocar Angola, Angola, Angola... para ser angolado? Eu protestei veemente contra isso! Não tem sentido. Antigamente ninguém colocava Angola na academia. Só o Pastinha colocou com o CECA. Waldemar não tinha nome nenhum. Não tinha nome, nem por isso deixou de ser Angoleiro.

Quer dizer, eu aí tive que colocar Angola justamente por conta disso. Quer dizer que tava me incomodando. Eu desenvolvendo um trabalho sério e com respeito, para eles dizerem assim: “- Mestre Nô, sim senhor é angoleiro, mas os alunos dele! Hummm...” Sempre agiram assim. Por quê?! Então, se você conhece... Se você planta batata, você vai colher cenoura? O comportamento do ser humano é livre, não é verdade?! Eu não dou ponto para as pessoas que escravizam as outras não! “- Você tem que ser assim! Assim não!” Não! Você é livre! A Capoeira foi criada em ânsia de liberdade. Que liberdade é essa que você é obrigado a agir dessa forma e as pessoas julgarem você? Você ser julgado?! Isso torna-se uma perseguição. Isso incomoda, e incomoda muito! Essa situação tem que mudar. Mudar a mentalidade do ser humano para se sentir livre e ser livre.

Duas coisas: a responsabilidade e a liberdade. Você tem liberdade de criar, de fazer, de ter. Chega na frente do Mestre Lázaro, qualquer um desses aí para dizer: “- Você não é angoleiro! Vai tomar uma aula comigo!” Ele é quem vai tomar uma aula na Roda. E qualquer um Angoleiro desse bota ali para ver. Vai tomar uma aula na roda! Bota sentado de

junto do Mestre Nô e vem discutir aqui fundamento de Capoeira Angola, vai aprender (MESTRE NÔ, 2017).

Mestre Nô marca a realização do I Seminário e Festival de Ritmos de Capoeira como a transição para outra forma de organizar a Capoeira e que contribuiu para manter a divisão entre os Mestres Angoleiros. A partir da valorização de determinado referencial se instalou uma disputa pela tradição de seus estilos (MAGALHÃES, 2016), onde desencadeou uma reinvenção dos fundamentos e comportamentos a partir de especificidades sobre o Centro Esportivo de Capoeira Angola de Mestre Pastinha.

Segundo Magalhães (2016), instalada no interior das transformações do cenário político cultural brasileiro a partir da valorização da cultura e estética negra,

[...] a busca de valores africanos propiciou um fluxo de reascenção da Capoeira Angola, agora com uma feição mais politizada. Apesar de iniciada pe los mais velhos (como os mestres João Pequeno, Curió e Paulo dos Anjos), esse movimento de reascenção angoleira contou com um nítido protagonismo da nova geração [...] (MAGALHÃES, 2016, p. 305).

Isso é interessante, porque a partir disso é possível falar em escola pastiniana, um estilo de Capoeira Angola que busca identificar sua tradição com o comportamento e fundamentos de herança de Mestre Pastinha. Ao que tudo indica, falar em termos de escola pastiniana é uma apropriação de um conceito de Capoeira Angola que se liga às questões do nascente movimentos negro na Capoeira na década de 80.

Na mesma época, em julho de 1981, tivemos o Primeiro Seminário de Capoeira Angola em Salvador32. Participei ativamente no Festival de Ritmos que eram as rodas. Era eu, Mestre Canjiquinha e outros colegas. Primeiro foi o Seminário que foi na Biblioteca Central, depois então, esse Festival de Ritmo, na Biblioteca Central. Foi divido em Grupos 1, 2, 3 e 4. O Grupo 1 formado pelos Mestres, onde eu tive a felicidade de participar. Os Mestres era eu, Caiçara, Canjiquinha, Bom Cabrito, dentre outros colegas que já se foram. Todos já se foram embora. Tivemos esse seminário pra discutir os problemas da Capoeira Angola. E tudo não gerou muita coisa não. Isso no Grupo 1. Nos outros Grupos foi discutido também o avanço na Capoeira; também a participação da mulher na Capoeira que tava começando a se massificar nas academias, a se fazer presente em número até grande (MESTRE NÔ, 2017).

4.5 Capoeira, sobrenome Angola

O entendimento da prática Capoeira Angola de Mestre Nô passa necessariamente pela referência à nomeação do que é Capoeira. O Mestre desde suas narrativas até seus materiais de acervo estão, como ele diz, na contramão do que foi convencionado no campo como