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O esporte há muito tempo é utilizado pelo Estado para a divulgação da sua ideologia. No entanto é preciso localizar o conceito de esporte neste período para seus praticantes. Já, desde o surgimento das primeiras academias, seja de Mestre Bimba, que recebeu o certificado de professor de educação física para ensinar sua Luta Regional Baiana, ou do Centro Esportivo de Capoeira Angola que passou a ser coordenado por Mestre Pastinha, a ideia de esporte já estava presente (VIEIRA E ASSUNÇÃO, 2008). Portanto, o esporte faz parte da Capoeira pelo menos desde que saiu das ruas e passou a ser ensinada em espaços fechados. Agora, qual o sentido dado por estes praticantes ao conceito de esporte? Arrisco dizer que não estavam preocupados com as discussões sobre as dimensões do esporte. Arrisco ainda, que mesmo antes deste período, seus praticantes já percebiam esta prática como uma forma de demonstração de habilidades corporais. Sabendo então que o esporte, seja o sentido que teve, acompanhou a prática dos Capoeiras até o início dos anos 80, o que chama a atenção foi a construção desta nova Capoeira Angola dos anos 80 ter desconsiderado a organização e vontade que os Velhos Mestres possuíam, além de demonstrar as dificuldade de diálogo que este novo projeto possuía. Certamente a apropriação dos modos normatizados do esporte, desde nomenclaturas, padrões e definições trariam limites à prática da Capoeira Angola que a teria tornado em algo que dificilmente a reconheceríamos hoje como a Capoeira Angola que conhecemos. No entanto, a negação completa dos diferentes modelos que os Velhos Mestres participavam e estavam construindo – as Rodas de Rua das festas de largo, a Capoeira de apresentação como as colocadas por Mestres como Canjiquinha e Caiçara, a Capoeira dos cordéis e dos campeonatos - se deu dentro de uma disputa

Velhos Mestres que participavam desta liga foram chamados a comporem o rol dos Angoleiros Tradicionais. Aqueles que não aderiram ao movimento tiveram sua legitimidade como angoleiros questionados e foram sendo deixados à margem.

Um pouco antes, entre as décadas de 60 e 70 se consolidavam as discussões da Capoeira como espetáculo folclórico e vários grupos de apresentações turísticas a partir dos anos 70 foram criados para se apresentar no Brasil e exterior. Se, os Capoeiras identificaram todo esse processo como possibilidade de melhores condições econômicas e visibilidade social, foram os jornais que cuidaram de fazer sua propaganda ao público, contendo os interesses da ideologia capitalista e controle social. Tal propaganda, como se sabe, não se limitou a construir uma nova Capoeira para a sociedade, mas também a construir uma nova Capoeira na mentalidade de seus praticantes.

Esta apropriação cultural da Capoeira como espetáculo segundo Dias (2015), buscava visivelmente, encobrir a miséria, as desigualdades sociais e a forte discriminação racial que perduram neste Estado desde o final do século XIX, dando início a um processo da espetacularização da cultura baiana (DIAS, 2016, p. 113).

Com estas duas concepções fortemente em disputa por seus praticantes, ambas apoiadas pelos meios de comunicação em acordo com seus propósitos de controle social, os Capoeiras se encontraram novamente divididos dificultando uma compreensão mais ampla sobre suas condições na sociedade. Discordo da ideia de que este processo dificultou a formação de novos Capoeiras, por que a própria ideia de treinamento de Capoeira ainda não existia nos modelos que hoje conhecemos. Importa lembrar que o aprendizado da Capoeira, em grande maioria, acontecia durante o jogo e nos acontecimentos do dia a dia. Mesmo o Centro de Capoeira Angola, tinham a função maior de ser local de Roda e encontro dos Capoeiras.

É só a partir da década de 60 que ganha força este modelo que atualmente compreendemos como aula sendo um local de treinamento para repetição de movimentos e aprendizado formal de saberes codificados na figura do Mestre responsável.

Mestre Nô lembra do período de atravessamento deste modelo antigo de ensino para o atual, quando cita uma aula que ocorreu em Santa Catarina com Mestre Mala e Bom Cabrito, onde narra a dificuldade que estes Mestre antigos tinham com a condição de ensinar para um público de 20 a 30 pessoas reunidas para terem ―aula‖ com estes Mestres.

No final da década de 70 e início dos anos 80, o Departamento de Assuntos Culturais da Prefeitura Municipal de Salvador propôs um projeto para se discutir os rumos da Capoeira a partir das reivindicações dos diferentes estilos que se criavam, reunindo praticantes, pesquisadores da cultura negra, membros de movimentos sociais, e claro, da mídia. E, em

1980, foi realizado o Primeiro Seminário Regional de Capoeira e Festival de Ritmo de Capoeira.

Diferente do que já havia acontecido em décadas anteriores, quando a intelectualidade e artistas baianos proclamavam a Capoeira como manifestação da cultura tradicional da Bahia – tanto negra, como mestiça ou mulata (Jorge Amado, Pierre Verge, Waldeloir Rego), o movimento que ganhava força agora fortalecia a compreensão da Capoeira como prática negra, mas não qualquer Capoeira, falava-se da Capoeira Angola. Outra diferença diz respeito a seus porta-vozes que, além dos intelectuais e artistas, Mestres e praticantes passaram a compreender e divulgar a Capoeira como espaço de reivindicações e disputas.

Este movimento foi tão forte entre os Capoeiras, que o próprio modo de organizar e fundamentar saberes e rituais passam a se fortalecer nas orientações. Mestre Pastinha já havia sido eleito como divulgador da Capoeira Angola pelos principais setores – intelectualidade, artistas, e poder público31. Seus ensinamentos e organização passaram a ser tratados como a verdadeira tradição angoleira, assumida como herança de resistência negra.

4.4 A invisibilidade e discriminação na periferia da Capoeira Angola

Sobre a invisibilização da Capoeira da periferia da cidade de Salvador, Mestre Nô diz que nem jornais, nem os próprios Capoeiras, davam importância a essa história. Consequentemente, o turista dificilmente visitaria as Rodas e faria algum tipo de registro. Isso pelo completo desconhecimento e também pelo perigo de sair da região segura e controlada do Centro Histórico, que envolvia principalmente Pelourinho, Praça da Sé e Mercado Modelo. E, ali, predominavam os trabalhos de Mestre Bimba e Mestre Pastinha, além dos grupos de show de Caiçara e Canjiquinha.

A importância e força do registro para manutenção da história é identificada pelo próprio Mestre. Se, antes, foram os registros oficiais que tornaram a tradição da periferia invisibilizada, agora a descoberta de registros do passado realizados nas ruas da cidade de Salvador sustentam novas compreensões sobre antigas tradições.

Em relação a invisibilidade da tradição de Mestre Nô na Capoeira Angola, três pontos são fundantes: o primeiro trata da história oficial da Capoeira Angola ser contada desde o centro da cidade; um segundo, trata da inclusão de pautas do Movimento Negro a partir dos anos 80 na Capoeira Angola e, o terceiro, reflexo dos primeiros, mas que não se limitam a