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Reinaldo Santana, representante da velha guarda dos Mestres de Capoeira da Bahia. Falecido em 2011. Entrevista cedida para o trabalho de conclusão de curso.

Capoeiras, logo os meios de comunicação trataram de confortá-los dentro de uma conduta aceitável na sociedade, classificando-os agora como ―luta que parece dança‖, ―arte popular‖, um ―ballet‖, também como folclore para o espetáculo turístico e esporte.

A força dos divulgadores da cultura no período de Mestre Pastinha parece contemporaneamente ainda ter força para, quando ainda não foram esquecidas, manter na invisibilidade outras linhagens apenas como contraposição da autentica tradição. Isso se mostra, quando tentamos identificar fundamentos da Capoeira Angola e se percebe que a Capoeiragem avançou os anos sem um referencial específico até Mestre Pastinha assumir a direção do Centro Esportivo de Capoeira Angola em 1941. Isso não diz que ele foi o precursor, mas que certamente sua participação foi fundamental.

A partir desta fase, a história da Capoeira Angola conquistou um espaço e local com fundamentos específicos, conhecidos e divulgados, tendo tamanha dimensão que hoje, falar em tradição na Capoeira Angola, necessariamente atravessa os referenciais de Mestre Pastinha e do CECA.

E que mesmo a sua organização a partir de determinadas tradições, não foram feitas em um espaço harmônico de representação única, mas, como aponta Pires (2002), a história deste Centro foi repleta de conflitos e disputas, vencendo a persistência e os ideais propostos por Mestre Pastinha e o apoio que recebeu, tanto dos divulgadores quanto, dos intelectuais de esquerda. O CECA, pela sua dinâmica de reunir Mestres não poderia estar isolado disso, possuindo divergências no modo de conduzir e tratar os fundamentos da Capoeira.

Um exemplo das disputas pela organização do CECA pode ser lida quando se confrontam os Manuscritos de Mestre Pastinha, organizado pelo Mestre Decânio, com o ABC da Capoeira Angola de Mestre Noronha. No ABC da Capoeira Angola, Mestre Noronha chama para si e para seu irmão a organização do primeiro centro de Capoeira da Bahia: o primeiro centro de Capoeira do estado da Bahia foi dirigido pelo Mestre Noronha e Mestre Livino (COUTINHO, 1993). Como exemplo das dificuldades de se manter o funcionamento do CECA, Mestre Pastinha em seu Manuscritos mostra que houve momentos de inatividade por motivos diversos.

Em fevereiro de 1944, fiz nova tentativa para organizar o Centro, fui procurado por muitas pessoas, o que consegui em 23 de março com alunos, e amigos, camaradas no Centro Operário da Bahia, que também foi abandonado por falta de entendimento. (PASTINHA apud DECÂNIO, 2004).

A organização que Mestre Pastinha deu ao CECA precisa ser compreendida também como necessidade específica num dado momento histórico em que as práticas culturais eram

nesta época, Mestre Bimba realizou apresentação para o Chefe de Estado Brasileiro, Getúlio Vargas, o qual declarava que a Capoeira era o único esporte genuinamente nacional (VIEIRA, 1995).

A discussão da Capoeira enquanto esporte foi travada lado a lado com aqueles que a pensavam enquanto folclore e influenciaram não apenas o fim da primeira metade do século XX, como toda a segunda parte e início deste novo século, agindo na formação dos novos Mestres e o ensino da Capoeira.

Como mostra Vieira (1995) Mestre Bimba criou regras e uma metodologia de ensino da Capoeira Regional, buscando eficiência e a disciplina. Assim, a utilização do fumo e do álcool (Vieira, 1995), hábitos ou vícios característicos dos Capoeiras, foram proibidas. É interessante localizar o início deste processo na Capoeira e seus motivos, porque hoje em dia, esse discurso faz parte também de várias práticas de Capoeira Angola, aonde o treinamento, o condicionamento, disciplina e eficiência são considerados importantes para a prática de um bom jogador.

O acervo de Mestre Nô sobre o período da década de setenta e início de oitenta é riquíssimo sobre o tema. São manuais de campeonatos, folhas contendo regras, tabelas de competidores, Mestres avaliadores e as pontuações dadas por eles aos competidores. Há também, convites e placas que agradecem a participação de Mestre Nô como jurado na cidade de Salvador e fora do estado da Bahia, justamente com Mestre Canjiquinha.

Com isso, pretende-se mostrar também como o Mestre foi um sujeito do seu tempo, atento as necessidades impostas pela sociedade, mas também pelos próprios praticantes que, sem outras possibilidades concretas buscavam nela um meio de subsistência e, as transformações pelo qual a Capoeira sofria a partir deste contexto. Agindo como divulgador da proposta e seu transformador, Mestre Nô transitou neste período por mundos distintos: o mundo da Capoeira praticada no centro histórico das apresentações como espetáculo folclórico e esportivo, do início da sua mundialização através de suas viagens pelo Brasil e exterior e aquele outro, da Capoeira das festas de largo, das feiras e da periferia.

Como dissemos, Mestre Nô foi um homem do seu tempo, atento as transformações que se impunham a ela e agente de mudanças. Em seus materiais se encontra o Regulamento Técnico da Capoeira Angola, redigido pela Confederação de Pugilismo em 1973, dado a ele com dedicatória pelo Mestre Itapuã. Este material, mesmo sem ter sido utilizado pelo Mestre por motivo de discordância com o conteúdo do Regulamento e da ideia de uma regulamentação geral para a Capoeira Angola, mostra o contexto de prática da Capoeira Angola deste período e a atenção do Mestre sobre os temas da Capoeira de seu tempo.

Três anos antes, em 1969, foi realizado no Rio de Janeiro o II Simpósio Nacional de Capoeira que, como encontrou Dias (2015. p. 112) no Notícias Esportivas, BA, 09/11/1969, tinha finalidade de dar maior destaque ao esporte, com vista a torná-lo Esporte Nacional.

O processo de esportivização, nos termos propostos e aprovados pela CBP, causou conflitos entre os Capoeiras, se intensificando duas concepções distintas e que mais tarde vão favorecer a legitimação do discurso de uma Capoeira Angola ―tradicional‖ e da Capoeira Regional como esporte. Este ambiente em construção na época atingiu a prática de alguns Velhos Mestres de Capoeira no final dos anos 70 e inicio dos anos 80.

Como fala Mestre Nô em suas narrativas, neste período um número significativo de Mestres da velha guarda haviam formado uma espécie de Liga informal de Mestres. Entre eles: Mestre João Pequeno, Paulo dos Anjos, Nô, Bom Cabrito e Mala. Esta agremiação dava suporte e participava dos eventos realizados entre os colegas, rodas, batizados e troca de cordéis. Alguns documentos do acervo de Mestre Nô mostram a participação de alguns destes Mestres nos batizados realizados na década de 80 pelo Grupo de Capoeira Palmares coordenado por Mestre Nô.

Por outro lado, Mestres mais novos formados na militância do movimento negro e defensores da Capoeira Angola como prática cultural negra de descendência do N´golo, viam na forma como a Capoeira Angola estava organizada uma deturpação. Distantes da concepção de esporte30 para a Capoeira, neste período tiveram início as ―oficinas de capoeira‖ e diversas reuniões foram realizadas, inclusive com apoio do poder público, para definir os caminhos da Capoeira Angola. Com o fortalecimento do discurso de uma Capoeira Angola Tradicional, os