Partie I. Etat de l’art et travaux connexes
V. Contribution 2: Architecture du système
VI.5. Présentation du prototype
VI.5.3. Implémentation d’agents
Nos últimos anos, surgiram várias investigações que utilizam os cadernos escolares como fonte primária de pesquisa. Esses estudos se valem do caderno escolar em áreas tais como: currículo, transmissão de ideologias e valores, estudos comparativos, desde a perspectiva histórica e presente.
A utilização dos cadernos escolares como fonte-objeto de pesquisa se dá na medida em que esses documentos refletem o dia a dia escolar, possibilitando analisar o que acontece no âmbito microescolar como um nível chave para analisar o ato educativo e para encurtar distâncias entre o que se diz e o que se faz, uma vez que os cadernos permitem uma aproximação efetiva do que se ensina na sala de aula (GVIRTZ, 1999).
Mesmo sabendo que a aprendizagem pode se efetivar por meio de outros suportes, Hébrard (2001, p. 115-130) ressalta, ao tratar das potencialidades dos cadernos escolares como instrumento de pesquisa, que eles apresentam um “testemunho precioso do que pode ter sido e ainda é o trabalho escolar”. Essas fontes, embora não representem a totalidade do ensino em uma sala de aula, permitem fazer aparecer entre os registros, “todo um memorandum da vida escolar, informações sobre as lições do dia que não foram acompanhadas de exercícios ou, simplesmente, um título” (2001, p. 134).
Os cadernos escolares que os alunos usam diariamente reúnem, de acordo com Gvirtz (1999), duas condições interessantes: a primeira, sua capacidade de conservar o que foi registrado, que os distingue, assim, de outros espaços de escrita. A segunda condição se refere ao fato de os cadernos escolares representarem um espaço de interação entre professores e alunos. Nesse sentido, os cadernos escolares constituem um campo significativo para observar os processos históricos, culturais e pedagógicos, podendo representar as relações de poder, relações interpessoais e, sobretudo, a produção de saberes vivenciados no cotidiano da escola.
Gvirtz & Larrondo (2008) apresentam algumas pesquisas sobre cadernos escolares desenvolvidas no campo educativo. Entre elas, ressaltam os trabalhos de Anne-Maria Chartier7
(2003), na França, cujos estudos enfocam dois temas principais: o currículo ensinado, buscando responder como as escolas introduzem os alunos na cultura escrita por meio dos cadernos escolares, e o estudo comparativo sobre diferentes sistemas educativos e estratégias de ensino visando mostrar similaridades e diferenças nas práticas de ensino.
As autoras trazem à cena, também, as produções realizadas na Espanha, entre elas os estudos de Maria del Mar del Pozzo Andrés e Sara Ramos Zamora8 (2003), cujo enfoque
principal centra-se na compreensão da história do currículo ensinado no século XX, buscando, assim, uma aproximação com a cultura escolar da época. Essas autoras realizam, ainda, estudos sobre a transmissão de ideologias e valores na cultura escolar.
7 CHARTIER, A. -M. “Traveaux d’éléves et cahiers scolaires: l´histoire de l’educátion du côté des pratiques”. In
EGUIZÁBAL, A. J. (org.). Etnohistoria de la Escuela. XII Coloquio Nacional de la Historia de la Educación. Burgos: Universidade de Burgos e Sociedade Espanhola de História da Educação, pp. 21-40, 2003.
8 DEL POZZO ANDRÉS, M. Del M.; RAMOS ZAMORA, S. “Los Cuadernos de clase como representaciones
simbólicas de la cultura escrita escolar”. In: Etnohistoria de la Escuela. XII Coloquio Nacional de la Historia de
la Educación. Burgos: Universidade de Burgos e Sociedade Espanhola de História da Educação, pp. 653-664,
2003.
148
Na Argentina, Gvirtz & Larrondo (2008) destacam os estudos realizados pela própria Silvina Gvirtz9 (1999), cujo objetivo foi o de analisar, pela via das práticas escolares, o discurso
formatado nos cadernos de classe, além de pesquisas mais recentes, como as de Gabriela Augustowski e Lea Vezub10 (1998) e Raúl de Titto11 (2002) com o foco na distância entre o
currículo prescrito e o currículo ensinado.
Na Itália, as autoras chamam a atenção para os estudos histórico-pedagógicos de Davide Montino12 (2001), em que os cadernos escolares são utilizados como fonte de investigação da
transmissão de ideologias e valores, em particular, na relação entre o período em guerra e os conteúdos escolares. Assim, buscam relacionar nacionalismo, escola e autoritarismo, a concepção de pátria e o modo como essas ideias construíram um consenso em torno do regime de Mussolini.
Por fim, Gvirtz & Larrondo (2008) citam as pesquisas realizadas no Brasil. Entre elas, comentam o trabalho produzido por Anabela Almeida Costa e Santos13
(2002), cuja dissertação dedicou-se ao estudo de funções e significados atribuídos aos cadernos escolares na primeira série do ensino fundamental de uma escola pública, e a pesquisa de Isa Cristina da Rocha Lopes14
(2006), que teve como objetivo investigar as “marcas de correção” inscritas em cadernos de classe da 1ª fase do Ensino Fundamental, entre 1951 e 2003, numa coleção com 45 exemplares recolhidos em arquivos pessoais.
Em nossa investigação, encontramos no APAL alguns cadernos que são diferentes do que é usualmente chamado caderno escolar. Os cadernos desse arquivo, considerados por nós como formas simbólicas, como será explicado adiante, pertenceram a professoras em formação continuada na Escola de Aperfeiçoamento ou no curso de Administração Escolar, que era um curso superior. Alguns desses documentos exibem apenas registros de caráter teórico-
9 GVIRTZ, S. El discurso escolar a través de los cuadernos de clase. Argentina (1930 -1970). Buenos Aires:
Eudeba, 1999.
10 AUGUSTOWSKI, G. & VEZUB, L. Estado de situación de la transformación curricular en el marco de la
reforma educativa (1997-1998). Buenos Aires: Ministerio de Cultura y Educación de la Nación, 1998.
11 DE TITTO, R. Las politicas curriculares y la práctica docente. La ciudad de Buenos Aires entre 1960 y 1990
(dissertação). Buenos Aires: Escuela de Educación/Universidade de San Andrés, 2002.
12 MONTINO, D. Letture scolastiche e regime fascista (1925-1943). Um primo approccio temático. Gênova: I
Libri dele Stelle, 2001.
13 SANTOS, A. A. C. e. Cadernos escolares na primeira série do ensino fundamental: funções e significados.
Dissertação (Mestrado em Psicologia), Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo: USP, 2002.
14 LOPES, I. C. da R. Memória e discurso em marcas de correção: um estudo de cadernos escolares. Dissertação
(Mestrado em Memória Social), Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: UNIRIO, 2006.
149
metodológico sobre as disciplinas estudadas e, muitas vezes, não apresentam atividades e nem correções.
A seguir, discorreremos sobre alguns elementos para subsidiar e justificar a realização de uma análise formal ou discursiva direcionada aos cadernos encontrados no APAL.