Partie I. Etat de l’art et travaux connexes
V. Contribution 2: Architecture du système
V.6. Comportements des agents
V.6.2. Comportements d’Agent d'infrastructure
A partir de uma gota d`água, [...] um pensador lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou de um Niágara, sem ter visto ou ouvido qualquer um deles. Assim é a vida, uma grande corrente cuja natureza podemos conhecer analisando um único elo. Como todas as outras artes, a Ciência da Dedução e Análise só pode ser adquirida mediante estudos longos e pacientes. Contudo, a vida não é extensa o suficiente para permitir que qualquer mortal chegue à perfeição nesta ciência.16
As contribuições relacionadas ao paradigma indiciário, proposto pelo historiador italiano Carlo Ginzburg (2012, 1998), são de fundamental importância para a identificação e interpretação dos conteúdos encontrados nos documentos do APAL, na interlocução com o contexto do ensino da Matemática e, especialmente, da Aritmética para o ensino primário no período de prevalência do ideário da Escola Nova. Tendo em vista a proposta de Ginzburg, é possível encontrar na análise dos documentos, vestígios, indícios, em que a seleção do objeto é mediada pelo que chama a atenção, “causa espanto”, seja por sua peculiaridade, seja por sua inter-relação com outros materiais considerados na interpretação dos dados, como o programa oficial, utilizado pelas instituições relacionadas com o nosso trabalho, a saber: Escola de
15 KOSELLECK, 2006, p. 42.
16 DOYLE, 2009, p. 21.
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Aperfeiçoamento e Curso de Administração Escolar. A intenção de se mobilizar esse paradigma também nos ocorreu pela valorização que ele confere à aproximação emocional do observador com o seu objeto, os traços e o conhecimento individual, em detrimento da generalização.
A partir do paradigma indiciário, Ginzburg (2012) propõe um modo de investigação histórica que privilegia os fenômenos aparentemente marginais, intemporais ou negligenciáveis, ressaltando que a fonte deve ser transformada num enigma. No processo de construção do conhecimento histórico, pode-se duvidar daquilo que aparentemente é óbvio, integrando a prova e a retórica aos documentos. Para Ginzburg (2012), a investigação baseada em pistas, indícios, já fazia parte do cotidiano dos primeiros humanos, uma vez que durante muito tempo
o homem foi caçador. Durante inúmeras perseguições, ele aprendeu a reconstruir as formas e movimentos das presas invisíveis pelas pegadas na lama, ramos quebrados, bolotas de esterco, tufos de pêlos, plumas emaranhadas, odores estagnados. Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barbas. Aprendeu a fazer operações com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas. [...] O caçador teria sido o primeiro a ‘narrar uma história’ porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas, uma série coerente de eventos. ‘Decifrar’ ou ler’ as pistas dos animais são metáforas (GINZBURG, 2012, p. 151-152).
Nesta perspectiva, Ginzburg (2012) descreve o paradigma indiciário, a partir da análise comparativa das práticas indiciárias do chamado “método morelliano”. Giovani Morelli publicou, sob o pseudônimo de Ivan Lermolieff, uma série de artigos, em alemão, destacando a importância de se ater aos detalhes, aos “pormenores mais negligenciáveis, e menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia: o lóbulos das orelhas, as unhas, as formas dos dedos das mãos e dos pés” (2012, p. 144), e não apenas à visão geral da obra, para atribuir autenticidade a obras nas artes plásticas. Seu método provocou uma revolução no mundo das artes, entre 1874 e 1876, sendo considerado inovador e revolucionário por alguns e mecânico e positivista por outros.
Mesmo diante de tais críticas, Ginzburg não abandona o método de Morelli e, com o intuito de evidenciar a presença do paradigma indiciário, ele também o associa ao método da psicanálise descrito por Sigmund Freud e ao método do detetive Sherlock Homes, evidenciado nas histórias de Arthur Conan Doyle. A junção desses três métodos se baseia na busca e utilização de pormenores reveladores à elaboração do conhecimento. Essa tripla conexão advinda dos signos pictóricos de Morelli, das pistas/sintomas de Freud e dos indícios de
Sherlock Holmes/Doyle se apresenta como um referencial que permite desvendar “uma realidade mais profunda, de outra forma inatingível” (Ibidem, 2012, p. 150).
A fundamentação proposta por Ginzburg, resultante da reunião de um crítico de arte, de um psicanalista e de um escritor, foi possível, em grande parte, principalmente pelo fato de todos eles terem tido formação em Medicina. Para Ginzburg, “nos três casos entrevê-se o modelo da semiótica médica: a disciplina que permite diagnosticar as doenças inacessíveis à observação direta na base dos sintomas superficiais, às vezes irrelevantes aos olhos do leigo” (Ibidem, 2012, p. 151). A aproximação entre medicina e historiografia, de acordo com Ginzburg, torna-se viável pelo fato de ambas descartarem o paradigma galileano (que limita as ciências a área exata ou humana) e assumirem que “quando as causas não são reproduzíveis, só resta inferi-las a partir dos efeitos” (Ibidem, 2012, p. 169).
Desse modo, o paradigma indiciário emerge como uma importante contribuição, ao possibilitar que se descortine o escondido e se revele o que não está claro, por meio das contradições, pausas, silêncios, lapsos, negações e repetições e com o relato da história de vida, ou, no nosso caso, por meio de documentos, fragmentos, escritos, guardados de uma vida, buscando explicações no passado para compreendermos o presente e, quem sabe, levantar subsídios para projetar o futuro. Por meio dos indícios, é possível tentar entender modelos, atitudes, mudanças e mecanismos criados pelos sujeitos como forma de mediação com a realidade. “Se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios que permitem decifrá-la. [...] Essa ideia constitui o ponto essencial do paradigma indiciário” (Ibidem, 2012, p. 177).
Entretanto, Simões e Faria Filho (2012) ressaltam, no texto “História e historiografia no pensamento de Carlo Ginzburg: tecendo diálogos com a pesquisa histórica em educação”, que o pensamento de Ginzburg “não se mostra facilmente classificável, ainda que as suas escolhas temáticas e teórico-metodológicas tenham resultado em tentativas de situá-lo no campo da micro-história e/ou no círculo da pós-modernidade” (SIMÕES; FARIA FILHO, p. 25). Assim, para as pesquisas históricas em educação, esses autores observam que as ideias de Ginzburg, muito sedutoras, tendem “a aparecer de forma rarefeita e pontual” (Ibidem, p. 28). Os autores chamam a atenção para a dificuldade de operacionalização desse modo de trabalhar, “uma vez que para operar a partir de rastros, sinais e pistas é preciso ter, sempre e ao mesmo tempo, um amplo conhecimento do assunto pesquisado e de suas relações com obras clássicas e contemporâneas” (Ibidem, p. 30). Portanto, continuam Simões e Faria Filho, “definitivamente
não bastam criatividade e boa vontade!” (Ibidem, p. 31), pois existem obstáculos, no contexto brasileiro da atualidade, a uma apropriação mais densa da produção de Ginzburg nas investigações em história da educação. Segundo os autores, o tempo destinado à elaboração dos trabalhos acadêmicos tem sido insuficiente para que se possa estabelecer “uma maior intimidade com as fontes em busca de traços, pistas e sinais” (idem), necessários para responder às questões elaboradas continuamente.
Mesmo considerando as dificuldades assinaladas por Simões e Faria Filho (2012), e admitindo que nosso trabalho possa ter esse tipo de limitação, pensamos que o caráter mais flexível do paradigma indiciário é relevante para nossa proposta metodológica, dentro de uma pesquisa qualitativa. Acreditamos que a proposta de Ginzburg nos proporciona, apesar da opacidade da realidade, buscar sinais e indícios que nos auxiliem a enxergá-la mais nitidamente, nos aproximando da revelação de fenômenos mais gerais, não importando a quantidade de dados obtidos, e sim a sua relevância para o problema investigado. Por isso, ao mergulharmos nos documentos encontrados no APAL, nosso olhar buscou ultrapassar o paradigma galileano sobre as fontes, uma vez que nosso foco se deu na experiência cotidiana, na análise de situações, casos e/ou documentos individuais em que a unicidade e o caráter insubstituível dos dados foram de extrema importância para nossa pesquisa. Assim, entendemos que o rigor que a pesquisa qualitativa exige é diferente do rigor presente nas ciências galileanas, e de acordo com Quartarolla (1994, apud Duarte, 1998, p. 41)
[...] torna-se necessário [...] o estabelecimento de um rigor metodológico diferenciado daquele instaurado pelas metodologias experimentais, uma vez que o olhar do pesquisador está voltado, neste paradigma, para a singularidade dos dados. No interior desse ‘rigor flexível’ (tal como o denomina Ginzburg) entram em jogo outros elementos, como a intuição do investigador na observação do singular, do idiossincrático, bem como sua capacidade de, com base no caráter iluminador desses dados singulares – tal como propõe o paradigma indiciário – formular hipóteses explicativas interessantes para aspectos da realidade que não são captados diretamente, mas, sobretudo, são recuperados através de sintomas, de indícios.
Nessa direção, examinamos os sintomas nos documentos produzidos por Alda Lodi e por suas alunas como “prática do auscultar detalhes do ensinar e aprender Matemática” (GARNICA, 1999, p. 60), buscando a compreensão de como foi ensinar e aprender Matemática sob a perspectiva da Escola Nova, dentro do nosso recorte temporal e espacial.
Foi exatamente pensando nesses sinais/indícios que direcionamos nosso olhar ao depararmos com diversos cadernos de ex-alunas de Alda Lodi, com a agenda da professora,
com sua biblioteca e demais documentos. Afinal, esses documentos nos possibilitariam entender como foi o ensino de Matemática naquele período? Esses documentos seriam capazes de refletir, mesmo que de forma parcial, sinais da forma de pensar e agir impregnadas na sociedade daquela época? Acreditamos que sim. Como os materiais que acabamos de mencionar nos permitiram estabelecer conexões entre as ideias veiculadas em livros, revistas e outras referências bibliográficas sobre o ensino de Matemática na Escola Nova e a prática desse ensino em dois ambientes de formação de professores reconhecidos como importantes na História da Educação em Minas Gerais, eles se constituíram como instâncias muito reveladoras para nosso trabalho.
Desse modo, assim como Suassuna (2008), acreditamos que “o paradigma indiciário recupera a possibilidade de examinar pormenores e marcas individuais presentes nas várias atividades humanas” (p. 368) e, além disso, “permite lidar com diferenças, mais do que com semelhanças, com anormalidades, mais do que com normalidades; por fim, permite ao analista ir em busca de explicações, mais do que tentar encontrar evidências para explicações e teorias já existentes” (Idem, ibidem).
No entanto, consideramos que a associação do paradigma indiciário a outro referencial teórico-metodológico, a Hermenêutica de Profundidade, poderia oferecer uma contribuição relevante em nossa investigação. A esse segundo referencial teórico-metodológico dedicamos a próxima seção.