EPS Authentication and Key Agreement
7.1 Identification
A turma de inclusão digital da FAMIC é constituída de vinte e dois alunos e as aulas acontecem no laboratório citado acima, que é climatizado e contém vinte computadores para os alunos e um para uso do professor (fotos do laboratório e das aulas no Anexo A). Salienta- se que em nenhum dos encontros acompanhados houve a presença de todos os alunos, sendo possível, portanto, a proporção de um computador para cada aluno.
Foram observadas treze aulas durante o primeiro semestre de 2011 e, a partir delas, cinco sujeitos25 foram escolhidos para o aprofundamento de suas histórias com vistas à investigação de possíveis impactos provocados pela tecnologia em suas vidas.
Inicialmente, pretendia-se centralizar este trabalho apenas nos depoimentos dos cinco sujeitos eleitos. No entanto, a observação das aulas e a gravação de seus áudios trouxeram uma riqueza de experiências que levou à decisão de se estabelecerem dois focos de análise e reflexão. O primeiro foi chamado de “Uma trajetória de impactos”, que abrangeu o grupo focal realizado no início do semestre (o qual será explanado no próximo capítulo), e as treze aulas acompanhadas. Falas, dúvidas, dificuldades, entusiasmos, sucessos, o papel do professor, entre outros fatores, foram registrados e, a partir deles, algumas reflexões (que suscitam novas investigações) foram feitas sobre pontos importantes que permeiam o relacionamento dos idosos com o computador. Acredita-se que para se obterem resultados positivos é preciso analisar o caminho como um todo.
O segundo foco, denominado de “Os impactos da trajetória”, foi desenvolvido a partir da escolha de cinco sujeitos e a coleta de seus depoimentos sobre possíveis efeitos em suas vidas provocados pela aproximação (ou não) do computador. Para tanto, partiu-se do princípio de que as histórias contadas pelos indivíduos, referentes à sua própria vida, possibilitariam o alcance da coletividade da qual fazem parte, pois, como representantes dela, podem revelar muitos de seus traços. Ou seja, “não se trata de considerá-los isoladamente, nem de compreendê-los em sua unicidade; o que se quer é captar, através de seus comportamentos, o que se passa no interior das coletividades de que participam”, pois “em seu anonimato, contém o indivíduo num microcosmo as configurações que sua coletividade abarca” (QUEIROZ em SIMSON, 1988, p. 24).
Portanto, com a intenção de “não apenas colher, mas dar existência a essas memórias” (BOSI, 1994, p. 12), no final do primeiro semestre de 2011 foram marcados encontros individuais com os cinco sujeitos escolhidos para a obtenção de seus depoimentos. Salienta- se:
A diferença entre [as técnicas de pesquisa] história de vida e depoimento está na forma específica de agir do pesquisador ao utilizar cada uma destas técnicas, durante o diálogo com o informante. Ao colher um depoimento, o colóquio é dirigido diretamente pelo pesquisador; pode fazê-lo com maior ou menor sutileza, mas na verdade tem nas mãos o fio da meada e conduz a entrevista. Da „vida‟ de seu
25 Quanto ao número de casos estudados dentro do universo que se acompanhou, como não seria possível
analisar e conhecer com intensidade todos os vinte e dois alunos matriculados, seguiu-se a orientação de Gil (2006) que diz que apesar de não se poder determinar um número ideal de casos, costuma-se utilizar de 4 a 10, pois, com um número maior, fica muito difícil lidar com a quantidade e a complexidade das informações.
informante só lhe interessam os acontecimentos que venham se inserir diretamente no trabalho, e a escolha é unicamente efetuada com esse critério. Se o narrador se afasta em digressões, o pesquisador corta-as pra trazê-lo de novo ao seu assunto. Conhecendo o problema, busca obter do narrador o essencial, fugindo do que lhe parece supérfluo e desnecessário. [...] o pesquisador tem as rédeas nas mãos. A entrevista pode se esgotar num só encontro; os depoimentos podem ser muito curtos, residindo aqui uma de suas grandes diferenças para com as histórias de vida (QUEIROZ em SIMSON, 1988, p. 21).
A escolha dos casos, dentro da turma da FAMIC, foi feita na parte final do primeiro semestre de aulas, a partir do perfil, participação e assiduidade dos alunos, percebidos durante toda a trajetória. Considerou-se importante que os escolhidos tivessem participado efetivamente dos encontros, pois isso garantiria a vivência do processo de inclusão digital (sendo ele proveitoso ou não). Além disso, houve a busca por sujeitos com perfis bem diferentes, utilizando-se como critérios principais a renda e a escolaridade para que suas nuances trouxessem diferentes olhares.
Nenhuma sociedade é um todo monolítico; em seu interior coexistem grupos e camadas sociais de diversos tipos, divisões por sexo e idade, coletividades variadas. Histórias de vida de indivíduos com posições diferentes dentro de um grupo [...] servem para dirimir dúvidas e aprofundar conhecimentos (QUEIROZ em SIMSON, 1988, p. 34).
Os sujeitos serão melhor conhecidos no capítulo que contém seus depoimentos, mas segue uma breve descrição de cada um:
Jenifer: 73 anos, viúva, mas novamente casada, e pensionista. Ganha cerca de um salário mínimo, tendo trabalhado a vida inteira como doméstica, sem obter uma aposentadoria. Apenas sabe ler e escrever – fator que chamou a atenção, pois sua baixa escolaridade trouxe muitos desafios em sua trajetória de inclusão digital.
Eva: 70 anos, casada, fez o “Curso Normal”. Lecionou para crianças por dezenove anos, mas parou de trabalhar por decisão do marido. É aposentada e ganha entre dois e cinco salários mínimos. Hoje é dona de casa e esconde, por trás de uma alegria contagiante, dificuldades que são obstáculos para sua aprendizagem. Sua escolha foi feita por sua intensa participação nas aulas.
Carminha: 62 anos, viúva, professora aposentada (parou de lecionar há sete anos). Tem curso superior e pós-graduação. Foi escolhida por seu grau de instrução e poder aquisitivo (ganha entre seis e dez salários mínimos).
Bené: 76 anos, casado pela segunda vez, é aposentado na indústria farmacêutica e ganha entre seis e dez salários mínimos. Tem Ensino Médio completo. Foi escolhido por ser o único homem da turma e se mostrar bem consciente da importância das tecnologias nos dias atuais.
Penha: 61 anos, minha mãe – com ela iniciei este trabalho e com ela o finalizo.
Os depoimentos não foram colhidos de forma engessada, mas, conversando-se com os sujeitos e deixando-os bem à vontade para tecer suas considerações. O objetivo foi perceber “aquilo que eles experimentam, o modo como eles interpretam as suas experiências e o modo como eles próprios estruturam o mundo social em que vivem” (PSTHAS, 1973 em BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 51, grifos do autor). A intenção foi dar voz a eles com especial atenção ao que Pinel (2005) fala sobre os “modos de ser sendo si mesmo [com o outro] no cotidiano do mundo”, ou seja, o sujeito incompleto, que se constitui enquanto vivo, mas não o faz sozinho, e sim entrelaçado aos que o cercam, sendo influenciado por eles e pelo contexto que os envolve.
Como é “específico das ciências sociais necessitar sempre o pesquisador de dados colhidos de fontes [...] variadas, quando quer abarcar de forma ampla a realidade que estuda” (QUEIROZ em SIMSON, 1988, p. 26-27), o perfil da turma de Inclusão Digital da FAMIC foi levantado a partir da distribuição de um questionário (Anexo B), que foi respondido pelos alunos. A partir dos dados coletados foram feitas algumas análises quantitativas. O levantamento do perfil da turma colaborou para a seleção dos cinco sujeitos.
Os dois conjuntos de técnicas [quantitativa e qualitativa] não são opostos ou mutuamente exclusivos; são procedimentos a serem empregados em determinados tipos de pesquisa, ou em determinados momentos da mesma. Não tem sentido, nas ciências sociais, se tomar partido por este ou aquele procedimento, tanto mais que a obtenção de dados de fontes variadas, que enriquece uma pesquisa, determina a necessidade de se utilizarem técnicas também variadas. A querela é vã; o importante é saber escolher a técnica adequada ao tipo de problema, à especificidade do dado e ao momento preciso da investigação (QUEIROZ em SIMSON, 1988, p. 35).
O processo de pesquisa foi desafiador, mas muito prazeroso. A trajetória foi vivida e as experiências ouvidas, compartilhadas e sentidas e, como confessou Bosi (1994, p.13), “a autora da tese, tendo incorporado o teor narrativo das memórias colhidas, transforma-se ela própria em mais uma personagem narradora”. A distância entre sujeito e objeto, tantas vezes evocada pelas pesquisas de outrora, foi impossível, tendo em vista o envolvimento com o processo, a proximidade com os sujeitos e, sobretudo, a crença na potência do que se estava investigando.
8 UMA TRAJETÓRIA DE IMPACTOS
Tendo em vista a procura por impactos causados pela inclusão digital na vida de idosos, buscou-se não só ouvir os sujeitos ao final de uma de suas etapas de estudos, mas valorizar a trajetória, o caminho percorrido e o que o permeou, uma vez que, como nos traz Paulo Freire (1997): A alegria não está apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. Ensinar e aprender não podem se dar fora da procura, fora da boniteza e da alegria.