3G–WLAN Interworking
5.1 Principles of 3G–WLAN Interworking .1 The General Idea
5.1.2 The EAP Framework
A tendência a determinado olhar para a faixa etária idosa tem influência de vários meios, como as posturas dos cientistas citadas anteriormente. Há, no entanto, algo ainda mais poderoso que nos conduz a estereotipar os mais velhos: a influência midiática.
A literatura, a televisão, os jornais, as revistas e os demais meios simbólicos de expressão de opinião e informação são reconhecidos como poderoso instrumento na formação de atitudes e crenças em relação a objetos sociais, como a velhice e o idoso. Os conteúdos da comunicação “afetam e, ao mesmo tempo, são afetados pelos comportamentos de indivíduos, grupos e instituições” (NERI em SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006, p. 15).
Para ratificar a situação exposta, uma pesquisa13 feita no jornal “O Estado de São Paulo” sobre matérias publicadas com o tema velhice constatou que parte dos textos apresenta os idosos como um fardo econômico para as instituições, para as gerações mais jovens e para os próprios descendentes. Tais textos trazem estereótipos de forma direta ou o fazem em suas entrelinhas, de forma implícita. A situação dos velhos, explicitada em um determinado artigo, por exemplo, é comparada com a das crianças abandonadas, porém, a dos primeiros causa menos compaixão. Essa imagem de dependência e regressão é um dos fatores que nos condiciona a temer a velhice e a situação social do idoso.
O envelhecer, tomando-se como base a pesquisa feita, é corriqueiramente associado à morte, ao declínio irreversível e à doença. Neri (2006) traz alguns trechos de artigos que retratam essa realidade: “o velho sofre da grande doença que é a velhice”; “os da terceira idade de fato pertencem à geração pelanca, com seus neurônios escassos e rateantes e com vantagens impossíveis de se ver, a não ser pelas lentes da ilusão”; “são ridículas as suas tentativas de mimetizar a juventude”; “para que se deixar iludir pelo rótulo terceira idade, se em momentos cruciais em que o que conta é a novidade e a capacidade de sedução, o idoso se deixa trair pelo uso de termos arcaicos e por um indisfarçável cheiro de alfazema?”; “que perspectivas existem para os idosos senão a morte silenciosa, escondida, pacífica e sem angústias e tormentos?” (SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006).
13 “Atitudes e crenças sobre Velhice: Análise de Conteúdos de Textos do Jornal O Estado de São Paulo
Elias (2001, p. 08) traz uma dura reflexão sobre os que envelhecem e sua separação do mundo dos vivos: “essa ligação com a morte não é só questão do fim efetivo da vida, do atestado de óbito e do caixão. Muitas pessoas morrem gradualmente; adoecem, envelhecem, mas, para algumas, a partida começa muito antes”. Como coloca Beauvoir (1970, p. 468) “a sociedade de hoje o rechaça, ainda vivo, para um passado ultrapassado”. Acreditar-se impotente, diminuído, impossibilitado e inútil traz para os próprios idosos a crença de sua decadência e assim, em muitos casos, eles incorporam o que lhes é colocado como verdade.
4.3.1 Velhice – um problema social
No cenário de publicações sobre a velhice, há, ainda, a visão do envelhecimento populacional como um risco e um problema social. O envelhecer dos brasileiros é apontado como motivo para a reforma do sistema previdenciário, pois o aumento da população idosa conduz a uma redução no número de contribuintes e o aumento do uso da previdência por parte da população. Com isso, acredita-se que o sistema tenda a ter um colapso (GUIMARÃES, 2007).
A pesquisa traz, sobre isso, que
a análise dos custos sociais do aumento da proporção de idosos em relação à população apta a sustentá-los traz à baila uma questão raramente cogitada no Brasil. Em nome da solidariedade entre as gerações, o jornal sugere que já que os idosos podem ser mais saudáveis e mais longevos, que então deveriam manter-se produtivos por mais tempo, desonerando os mais jovens (SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006, p. 35).
Outra noção, que vai de encontro aos direitos dos mais velhos à proteção do Estado, diz respeito à necessidade de se privatizar parte dos sistemas de atenção à saúde e de aposentadoria “numa lógica em que a poupança da juventude, e não os impostos e as restrições impostas às gerações mais jovens, é que deve ser a principal fonte de custeio dos benefícios sociais oferecidos aos idosos” (SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006, p. 35).
A aposentadoria se encontra neste cenário como uma faca de dois gumes. Por um lado, é encarada como um direito ou uma recompensa merecida, por outro, é vista como um passo definitivo para a exclusão social. Independentemente de como é entendida, os aposentados tendem a ser excluídos da vida social e, com isso, muitos tendem à depressão por sentirem falta do trabalho de outrora e por não lhes ser oferecido nada em substituição às antigas atividades. O desafio de ser aceito dentro da própria família também surge, pois muitos passam a ser considerados como incapazes de produzir qualquer ação, não sendo solicitados para a resolução de problemas (GUIMARÃES, 2007).
Nesse contexto de supervalorização da juventude, encaramos a velhice como uma etapa da vida constituída de sujeitos passivos e/ou incapazes de intervenções e atitudes favoráveis para si e para a coletividade. Tendemos a reconhecer a sabedoria dos velhos e a sua capacidade de recordar o passado de forma repleta de nostalgia, serenidade e poesia, mas sem acreditar em alguma possibilidade de intervenção direta na solução de problemas atuais. É recorrente associá-los a tempo social e recordações, mas sempre explorando os significados passivos do ato de reter na memória e pouco evidenciando a capacidade de transmissão intencional e ativa de valores e conhecimentos. Peças de teatro, livros e outros meios de educação informal reforçam nos vovôs aposentados uma imagem da passividade e da improdutividade associada à velhice.
A situação exposta representa o não poder fazer e o não poder atuar em diversas ocasiões. A falta de atividade profissional e a impossibilidade de render e competir com a juventude atribui aos que envelhecem a dimensão do vazio e a dificuldade de encontrar atividades que dêem sentido para a vida e que tragam o sentimento de valorização e respeito.
É por isso que todos os remédios que se propõem para aliviar a depressão dos velhos são tão irrisórios: nenhum deles poderia reparar a sistemática destruição de que os homens foram vítimas durante toda a sua existência [...] mesmo que se construa para eles residências decentes, não se poderá inventar-lhes a cultura, os interesses, as responsabilidades que dariam sentido à sua vida. Não digo que seja inteiramente inútil melhorar, no presente, sua condição; mas isso não traz nenhuma solução ao verdadeiro problema da última idade: como deveria ser uma sociedade, para que, em sua velhice, um homem permanecesse um homem? (BEAUVOIR, 1970, p. 663).
4.3.2 Condição social e fatores biológicos e sociais
São muitas as questões veiculadas nos meios de comunicação que desfavorecem ou desmerecem os longevos. Ou por serem muitos, ou por viverem mais, ou pela situação social em que se encontram. Este tratamento provavelmente relaciona-se com a condição social de grande parcela dos idosos brasileiros, para os quais o envelhecer impõe um fator adicional para discriminação social. Por todo o seu ciclo de vida, essas pessoas foram vítimas do difícil acesso a boas oportunidades educacionais, à atenção adequada à saúde, a corretas condições de nutrição, moradia e transporte, à segurança e ao emprego – fatores que garantem a dignidade. Esse conjunto de condições desemboca em cidadãos velhos em meio a doenças, dependências e dificuldades de toda a sorte que todos, evidentemente, preferem negar ou evitar (NERI em SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006, p. 28-29).
Há, também, outros fatores biológicos e sociais que permeiam a velhice e que muito influenciam a forma como ela é vista. Elias (2001) afirma que a sociedade tem um grande
estoque de conhecimentos que podem contribuir para um envelhecimento mais saudável. A capacidade de controle do ser humano sobre tais fatores também aumentou nos últimos dois séculos, apesar da aproximação de uma barreira que parece intransponível. Segundo o autor, isso faz com que se entenda que “aqui e ali a capacidade dos seres humanos em relação ao universo natural tem seus limites” (ELIAS, 2001, p. 90).
A recomendação derivada das pesquisas aponta para a necessidade de cada indivíduo cuidar-se para ter vida saudável. Ou seja, para se viver uma boa longevidade não basta ter propensão genética. É preciso conquistar esse resultado mediante investimentos constantes num estilo de vida saudável, física e mentalmente ativo, produtivo e socialmente envolvido (NERI em SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006, p. 33).
Sobre os aspectos sociais para um bom envelhecimento, Beauvoir (1970, p. 17) aborda a relevante diferença que há entre aquele que tem condições de chegar a uma boa velhice e os que não têm tais oportunidades:
Tanto ao longo da história como hoje, a luta de classes determina a maneira pela qual um homem é surpreendido pela velhice; um abismo separa o velho escravo e o velho eupátrida, um antigo operário e um Onássis. A diferenciação das velhices individuais tem ainda outras causas: saúde, família etc. Mas são duas categorias de velhos (uma extremamente vasta, e outra reduzida a uma pequena minoria) que a oposição entre exploradores e explorados cria. Qualquer afirmação que pretenda referir-se à velhice em geral deve ser rejeitada porque tende a mascarar este hiato.
Acredita-se, com o exposto, na evidente necessidade de atentar para as condições físicas, sociais e psicológicas que envolvem não só os mais velhos, mas todas as faixas etárias, para que cada fase da vida seja vivida de forma plena, saudável e com o desfrute dos direitos e o desempenhar dos deveres que concernem a cada uma delas. Somente assim, os conceitos e as nomenclaturas que envolvem os idosos não terão o peso de estigma que hoje possuem.
4.3.3 O surgimento de outros olhares
Não só pontos negativos inundam a mídia sobre a velhice. A movimentação de pessoas mais velhas, com energia e disposição para se cuidar e se divertir, está levando à organização de grupos para atividades de educação, cuidados com a saúde, informação e lazer. Possibilidades para fugir de suas duras realidades, ou da roupagem que tentam lhe impor, têm sido noticiadas como soluções para que os indivíduos se mantenham ativos e produtivos ao envelhecer. Tais iniciativas estão sendo publicadas na mídia, porém, articulistas apontam para o fato de que os membros da faixa etária idosa que podem usufruir dessas providências, geralmente, são os que tiveram mais acesso à educação e à informação.
Além das iniciativas citadas, outros pontos positivos têm sido evidenciados nos meios de comunicação. Alguns exemplos são: idosos saudáveis colaboram social e economicamente em trabalhos voluntários ou remunerados; podem ajudar à família na educação de seus netos; têm possibilidade de trabalhar em organizações não-governamentais (nos EUA, três milhões de idosos apoiam tais instituições); são eficientes em atividades remuneradas (uma rede de supermercados da França verificou que eles faltam menos, são mais motivados, tolerantes e experientes); são fundamentais à conservação e à transmissão dos legados culturais; etc. Porém, vale reforçar que é preciso que se dêem condições para que eles desenvolvam todos esses papeis, pois “aproveitar esse legado tem um preço: o governo precisa estimular a velhice saudável, pois, senão, no futuro, teremos longas filas [ainda maiores] nos hospitais públicos” (NERI em SIMSON; NERI; CACHIONI, 2006, p. 42).
Além de jornais, revistas e peças de teatro é possível citar o cinema14 como transmissor de informações sobre a velhice e formador de maneiras mais positivas de enxergá-la. Debert (2005, p. 01) coloca que idosos frequentemente são personagens da sétima arte e que, apesar de sua presença como figuras centrais nos filmes ser mais rara, eles têm ganhado um espaço cada vez maior, tal como acontece nos jornais e na mídia eletrônica, “que parecem estar quebrando a longa conspiração do silêncio em relação à velhice”. A autora coloca que, sob o ponto de vista das ciências sociais, discutir a presença dos idosos nas mídias é uma forma de refletir sobre atitudes e valores sociais com os quais os filmes dialogam e que, supõe-se, estruturam suas narrativas.
Debert (2005, p. 16) salienta, ainda, que a tendência contemporânea é ir de encontro a representações do envelhecer como um processo de perdas, “promovendo a sua dissolução em vários estágios que passam a ser tratados como novos começos, como oportunidades a serem aproveitadas na exploração das identidades”.
Apesar de não ter força para solucionar os problemas de estereotipação negativa da velhice, o cinema (e demais meios de comunicação) quando coloca ênfase na crítica às discriminações, “complexifica nossos sentimentos e nossa percepção das outras formas de exclusão além daquelas dadas pela desigualdade econômica” (DEBERT, 2005), sendo, assim, um meio de sensibilização e conscientização relacionado a formas diferentes de se enxergar o velho e a velhice.
14 Alguns filmes que abordam o tema velhice, citados por Debert (2005), são: “Parente é Serpente”, de Mario
Monicelli (Itália,1993); “Cocoon”, de Ron Howard (EUA, 1985) e “A cruz dos Anos”, de Leo McCarey (EUA, 1937). Acrescenta-se “Hanami: Cerejeiras em Flor” (Alemanda, 2008), de Doris Dörrie.