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Ibid., c 17 , lOBaG-iy.

Dans le document L'hypothèse (Page 55-59)

Uma das características principais das sociedades contemporâneas é a constatação da presença de diversas etnias e culturas dentro de espaços comuns em todos os continentes. Diversos conceitos foram criados para descrever e analisar a relação dos indivíduos nas configurações culturais coletivas e para designar as políticas relativas — desde a socialização e a aculturação20 aos conceitos com traço mais ideológico, como a assimilação cultural, a integração, a adaptação cultural, ou ainda os conceitos de exclusão ou de discriminação cultural que atingem os indivíduos que não desejam assimilar ou se integrar (ou alguns que não conseguem, por alguma dificuldade de ordem psicológica, social, econômica e cultural).

Seguindo a classificação de De Carlo (1998), as estratégias utilizadas pelos diferentes países para tentar dar conta da heterogeneidade do espaço sociocultural sem se deter nas especificidades locais de cada um podem ser encontradas nos três grandes modelos a seguir: assimilacionista, integracionista e multicultural ou pluricultural21.

No primeiro modelo apontado por De Carlo, a assimilação ocorre quando o grupo minoritário é 'engolido' pela sociedade que o recebe, tendo que aceitar os modos de vida e valores do grupo dominante. Ele não deve parecer que é diferente, daí sua característica

20 Aculturação: termo introduzido por Powell (1880) que indicava a transformação dos modos de vida e de

pensamento dos imigrantes em contato com a sociedade americana. Com o passar dos anos, passou a indicar o processo de adaptação e de nivelamento a outra cultura diferente da que se aprendeu no processo primário de socialização.

21 De Carlo inclui também o modelo intercultural nesta terceira categoria, o que torna sua classificação confusa,

pois ela poderia tê-lo classificado como uma quarta categoria, principalmente porque, mais adiante, nas páginas 39-40 diz que o termo ‘intercultural’ é geralmente utilizado em oposição a ‘multicultural’, não só pelas origens distintas (francês e anglo-saxão respectivamente) mas também pelas distintas perspectivas (uma mais centrada na

monocultural. Este modelo levaria supostamente ao fim as razões para crises étnico- sociais e centra a responsabilidade essencialmente no indivíduo — imigrante ou membro de uma minoria étnica e cultural — que deve fazer esse esforço para integrar-se. Um dos exemplos históricos mais evidentes encontra-se na França22, onde a assimilação surgiu como um processo esperado e inevitável no quadro de sucesso de integração, interpretando o princípio da igualdade como a uniformidade e a homogeneidade.

No modelo integracionista, defende-se a postura de amalgamento, que tenta criar uma cultura comum recolhendo-se as contribuições de todos os grupos étnicos e culturais. Esta idéia de aglutinação gerou nos EUA — Estados Unidos da América — o modelo de melting pot, no qual se concebe uma nação em que todas as diferenças étnicas se fundem em uma só entidade nacional superior a todos eles, separadamente. Assim, pretende-se manter a coexistência e o equilíbrio entre as culturas minoritárias e oferecer a todos o melhor da cultura dominante. O mito do melting pot acaba se tornando uma falácia que camufla a ideologia assimilacionista, já que grupos culturais minoritários vêem-se obrigados a abrir mão de suas características étnicas (e algumas vezes religiosas e nacionais também) para poder participar plenamente das instituições sociais, econômicas e políticas da nação receptora.

O multiculturalismo é um conceito utilizado principalmente para designar uma posição ideológica e política (relativamente controversa, aliás) que reconhece os direitos e deveres não apenas dos cidadãos como indivíduos e, por definição, todos iguais (dentro de uma visão liberal clássica), mas também das comunidades, definidas geralmente por critérios culturais, lingüísticos (como é o caso dos francófonos canadenses), religiosos, ou ainda éticos (Taylor, 1992; Semprini, 1997). Entretanto, os termos “multicultural” e “multiculturalidade” designam, em geral, a simples presença, em um mesmo território geográfico, de pessoas ou coletividades que se referem a configurações culturais diferentes.

Assim sendo, no modelo multicultural (ou pluricultural), a maior dificuldade reside nas diferentes acepções que esta denominação suscita em diferentes países, algumas

22 Entre 1945 e 1974 (época conhecida como “os 30 gloriosos”) a França acolheu grande fluxo de imigração

espanhola, portuguesa e magrebina e como absorvia essa mão de obra mais barata, dava condições para que pudessem permanecer no país sem ser importunados, promovendo de vez em quando algumas levas de regularização. A partir de 1974, o governo francês estabelece uma política de controle bem mais rígida dos fluxos migratórios.

vezes, até contraditórias. De Carlo (1998:37) diz que o multiculturalismo “é uma tentativa de superação das duas posições mencionadas anteriormente” 23.

Para Abdallah-Pretceille (2005), por outro lado, existem apenas dois modelos de gestão da diversidade cultural:

O modelo multicultural anglo-saxão, que dá a possibilidade a qualquer indivíduo de pertencer a qualquer outra comunidade distinta do Estado-nação; a orientação intercultural, de inspiração francófona, que ainda não deu espaço para tomadas de posição oficiais e estáveis, nem na política, nem na educação, mas que, nem por isso, deixa de representar uma alternativa forte diante da corrente multicultural.24(Abdallah-Pretceille, 2005:26)

Portanto, para essa pesquisadora, a opção anglo-saxônica do multiculturalismo (adotada pelos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Suécia e Holanda) inscreve-se em uma tradição histórica, política e educativa diferente da tradição francesa. No capítulo intitulado O multiculturalismo em questão, Abdallah-Pretceille (2005:25) esclarece que “a emergência do multiculturalismo nos Estados Unidos é concomitante à luta pelos direitos civis dos anos 60 e sucede a política migratória caracterizada pela ideologia do melting pot”25. Só nos Estados Unidos, surgiram quatro modelos multiculturais (Semprini, 1997): • O modelo da cidadania multicultural que reconhece a importância das dimensões

étnica e cultural (também praticado no Canadá);

• O modelo maximalista que reivindica formas de autonomia completa;

• O modelo do culturalismo corporativo de ordem econômica que defende a internacionalização dos mercados;

• O multiculturalismo cultural que se apóia em uma negociação contínua entre os diferentes grupos visando à construção de um espaço comum.

Para Alain Touraine (2006:169), o multiculturalismo manifesta-se, sobretudo, na “formação ou no desenvolvimento das ‘comunidades’ ou das minorias formadas em conseqüência de migrações, expulsões e exílios”. Na sua percepção, estamos vivendo o

23 No original: « ...tentative de dépassement des deux positions mentionnées précédemment... »

24 No original: « ...le modèle multiculturel anglo-saxon qui donne la possibilité à tout individu d'appartenir à une

communauté autre que celle de l'État-nation; l'orientation interculturelle, d'inspiration francophone qui n'a pas encore donné lieu à des prises de position, officielles et stabilisées, ni en politique, ni en éducation, mais qui n'en représente pas moins une alternative forte face au courant multiculturel ».

enfraquecimento das comunidades nacionais e o reforço das comunidades étnicas. Na verdade, “grupos definidos em termos de nação, etnia ou religião, que só tinham existência na esfera privada, adquirem agora uma existência pública às vezes suficientemente forte para questionar sua pertença a determinada sociedade nacional”. No caso da França, por exemplo, grupos que antes viviam ostracizados dentro de um modelo assimilacionista da república francesa, que sempre propôs a seus imigrantes se fundir na comunidade nacional, “considerada portadora de valores universais”, levantam-se em protestos e atitudes de confronto com o modelo vigente, para que sua existência seja reconhecida e a voz da diversidade seja ouvida. Aliás, Touraine (2006) defende, acima de qualquer conceito imbricado nos modelos apresentados, os “direitos culturais” para as minorias; assim, as democracias vêem-se obrigadas a refletir sobre si próprias e a transformar-se para reconhecer estes direitos que, na verdade, não o são de ser como os outros, mas de ser outro. Ele esclarece que:

[os direitos culturais] obrigam a reconhecer, contra o universalismo abstrato das Luzes e da democracia política, que cada um, individual ou coletivamente, pode construir condições de vida e transformar a vida social em função de sua maneira de harmonizar os princípios gerais da modernização com as ‘identidades’ particulares.(Touraine, 2006:170)

O que fica evidente é que o confronto com a diversidade ganha muitos nomes, muitas idéias, mas poucas soluções concretas. Uma cultura não se transforma se não for através do contato com outras culturas. Entretanto, os contatos entre as culturas podem ter características muito distintas que eventualmente levam a conflitos e mal-entendidos. É o modelo intercultural que, atualmente, procura trazer respostas a esta questão, pois supõe uma relação de respeito entre as culturas; enquanto o conceito multi ou pluricultural serve para caracterizar uma situação, é mais descritivo, a interculturalidade focaliza a ação, descreve uma relação entre as culturas, uma tentativa de diálogo solidário, daí seu caráter interacional.

Nas palavras de De Carlo (1998:40), o intercultural se definiria então como “a escolha pragmática face ao multiculturalismo que caracteriza as sociedades

25 No original: « l'émergence du multiculturalisme aux États-Unis est concomitante à la lutte pour les droits

contemporâneas”26. As sociedades modernas marcadas pela diversidade não são uma simples somatória de grupos culturais, uma simples adição das diferenças. Todo indivíduo pode se expressar a partir de várias culturas. Poderíamos dizer que o movimento mais positivo e solidário de uma sociedade seria passar de uma situação de multiculturalidade, caracterizada pela simples co-presença de culturas diferentes para uma situação intercultural, através do co-relacionamento e de uma interação positiva.

Na análise de Abdallah-Pretceille (1992:36-37), o modelo intercultural é “uma construção sensível que favorece a compreensão dos problemas sociais e educacionais em ligação com a diversidade cultural”,27 enquanto o modelo multicultural, mesmo reconhecendo “a pluralidade dos grupos” e preocupando-se em evitar “o esfacelamento da unidade coletiva”, não vislumbra a problemática educacional.

Assim sendo, por contemplar o viés educacional e pelos pressupostos reunidos em sua base teórica e que propiciam sua aplicabilidade na didática das línguas estrangeiras, justifica-se, nesta pesquisa, a escolha do modelo francês de interculturalidade, pelo tipo de proposta enunciado na Introdução deste trabalho e que se centraliza no tópico teórico apresentado a seguir.

1.2 A INTERCULTURALIDADE

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